sábado, novembro 06, 2004

Sexta-feira, depois das 22h.

Enquanto minhas irmãs se preparam para uma noitada com as amigas e “Godzilla 2000” leva os limites da credibilidade televisiva a um novo patamar, ocorre-me o já recorrente: “Que fazer?” A pergunta tem certo ar clássico, remontando a uma célebre obra de Lênin. Mas a solução que encontro pouco tem a ver com o velho Vladimir: passar o resto da noite lendo sobre Bettino Craxi, uma espécie de mega-Paulo Maluf da Itália dos anos 80. A ambição de um mestrado faz muita coisa com uma pessoa, inclusive passar uma noite de sexta com um corrupto italiano, mas chega um ponto em que nem um doutorado em Harvard se torna convincente o bastante. Resta então vir para o computador clamar por santuário.

A questão é que a criatividade não veio junto. Nesta noite abafada, com a mente repleta das intrigas da política italiana dos últimos 60 anos, compor algo original e interessante parece um feito sobre-humano. Portanto, caro leitor, se quer se instruir ou enlevar, sugiro que procure outro blog por hoje. Ao contrário de algumas pessoas que conheço, não domino a arte de seinfeldianamente escrever bem sobre o nada. Preciso de um estímulo, um incômodo... É bem verdade que o tédio incomoda, mas não é lá muito excitante intelectualmente. Escrever sob sua influência é me arriscar a espantar os meus poucos leitores e desvirtuar os objetivos deste blog. Todavia, já que estou aqui diante do monitor em vez de me refazer para acordar cedo no sábado — que será badaladíssimo com aula durante o dia e política européia à noite —, dar-me-ei o direito de divagar sobre coisas sem importância. Nada de literatura, história, avanços da ciência ou política. Apenas um monólogo sem pretensões.

O último mês foi interessante. Diplomei-me carioca em meu primeiro tiroteio; vi-me às voltas com as dores e prazeres do parto de um projeto acadêmico apressado que quase me afogou com livros e textos variados; fui reduzido à semi-indigência por conta de um computador que precisou ser inteiramente trocado de uma hora para outra, e mais alguns eventos de ordem mais pessoal, ocasionalmente aflitivos, que não preciso detalhar aqui. Um mês de crises, portanto, mas no sentido positivo. Pode ser que ver um caráter positivo em eventos criminais, correria acadêmica e falta de dinheiro seja um sinal de extravagância. Eu poderia citar alguns textos religiosos a favor dessa opinião, mas prefiro dizer que tenho por norma tentar extrair lições de tudo que me acontece. Reconheço ser mais fácil quando não se é atingido no tiroteio, o projeto consegue ser concluído e se tem a certeza de que o débito no banco será saldado no mês seguinte. Não garanto a mesma serenidade filosófica nessas situações. De qualquer maneira, se me foi dado passar incólume por essas crises diminutas, contento-me em procurar ver nelas algo de útil. É o mínimo que se pode fazer com a lucidez que elas preservaram, pois nem todos têm a mesma sorte.

Conheço pelo menos três pessoas que estão verdadeiramente atravessando crises, de graus diferentes, mas graves para todas. Pelo menos uma não possui a sanidade necessária para sair sozinha do abismo em que se encontra, e a cada vez que fico sabendo dos novos lances de seu drama, a palavra “desgraça” como que adquire um novo significado. Pode-se sempre pensar que a grande maioria das pessoas passa por tragédias relativas, incomparavelmente mais suaves do que as suportadas por uma
parcela nada desprezível da humanidade em rincões de dor. Mas não poder contar com a própria razão, não ter pleno controle sobre si mesmo e ainda se ver cercado de pessoas igualmente desequilibradas, mental e espiritualmente, é praticamente uma morte em vida. Dela só se pode tirar lições estando de fora. Não por acaso os deuses gregos, quando queriam punir alguém, tinham um gosto especial por lhe infundir a loucura. Nada se compara a ser prisioneiro de si mesmo.

As outras duas pessoas... Deixo-as em paz neste blog. Não vou profanar sua dor expondo-a aqui — sei que podem estar entre meus leitores. Registro apenas que torço por ambas, confio em que terão forças quando suas respectivas crises chegarem a um desfecho e, de alguma forma, crescerão com elas. Vendo a forma como lidam com os problemas que as afligem, parece relativamente fácil apontar como poderiam melhorar, que características precisariam ser reavaliadas e mudadas. Porém, certas lições não são passíveis de transmissão, só a experiência pode ensiná-las. Só me resta esperar que, tendo me aproximado de ambas por motivos muitíssimos diversos, possa ajudar no que for possível e, quem sabe, testemunhar o amadurecimento que poderão colher.

Duas da manhã, faltam quatro horas e meia para levantar “super bem-disposto”. Basta de divagar por ora.

2 comentários:

Anônimo disse...

Rodrigo,
Acredito que uma dessas pessoas aflitas que você conhece que atravessam um período de crise seja eu.
Hoje você me deu ateñção e um pouco de paz, mas hoje eu também aprendi como me descrever:
Claudia pessoa de extremos; quando muito alegre beira a loucura e, quendo muito triste beira o suicídio.
Hilário....mas é claro que o suicídio é só para dramatizar
Mas, tenho a espiritualidade para me ajudar e,alguns bons amigos como você.
Beijos
Claudinha

Palasatena disse...

"Não por acaso os deuses gregos, quando queriam punir alguém, tinham um gosto especial por lhe infundir a loucura. Nada se compara a ser prisioneiro de si mesmo." Muito interessante este trecho...