sexta-feira, março 24, 2017

A ilusão do conhecimento



E de repente o próprio conceito de vaidade intelectual ou mesmo o ideal do "gênio" soam ridículos:

"Apreciar a natureza comunitária do conhecimento pode revelar os vieses em como nós vemos o mundo. As pessoas amam os heróis. Nós glorificamos a força, o talento, a beleza. Nossos filmes e livros idolatram personagens que, como o Superman, podem salvar o planeta sozinhos. Os dramas televisivos apresentam detetives brilhantes e sutis que desvendam o crime e fazem a climática prisão final após um lampejo de percepção. Os indivíduos levam o crédito pelas grandes descobertas. Marie Curie é tratada como se tivesse trabalhado sozinha para descobrir a radioatividade, Newton como se tivesse descoberto as leis do movimento dentro de uma bolha. Todos os sucessos dos mongóis nos séculos XII e XIII são atribuídos a Genghis Khan, e todos os males de Roma na época de Jesus são frequentemente identificados com uma única pessoa, Pôncio Pilatos.

A verdade é que, no mundo real, ninguém opera em um vácuo. Os detetives têm equipes que fazem reuniões e pensam e agem como um grupo. Cientistas não apenas possuem laboratórios com estudantes que contribuem com ideias cruciais, mas também têm colegas, amigos e rivais que fazem trabalhos similares e pensam de forma similar, e sem os quais o cientistas não chegaria a lugar algum. E ainda existem outros cientistas que trabalham em questões diferentes, às vezes em campos diferentes, mas que mesmo assim abrem o caminho com seus achados e ideias. Uma vez que comecemos a considerar que o conhecimento não está todo na cabeça, [mas] que é compartilhado dentro de uma comunidade, nossos heróis mudam. Em vez de focar no indivíduo, começamos a focar em uma grupo mais amplo.”

Steven Sloman. The Knowledge Illusion (Kindle Locations 255-266). Penguin Publishing Group. Kindle Edition.

https://www.amazon.com/Knowledge-Illusion-Never-Think-Alone/dp/039918435X/ref=tmm_hrd_swatch_0?_encoding=UTF8&qid=1490409591&sr=1-1

segunda-feira, janeiro 30, 2017

O aborto e a linguagem dos direitos




Há algum tempo, comprei Defenders of the Unborn: The Pro-Life Movement Before Roe v. Wade, de Daniel K. Williams.  Como o nome diz, é a história do movimento de oposição ao aborto antes da legalização da prática nos EUA pela Suprema Corte, em 1973. Das teses que o autor apresenta na introdução, uma me chamou muito a atenção: o movimento "pró-vida" não nasceu entre os conservadores americanos, como se poderia imaginar pelo seu perfil atual. Pelo contrário, era um movimento de raízes no liberalismo progressista católico, afinizado com os ideais do New Deal e da defesa de um Estado de bem-estar social. E mais do que isso: o discurso que ele empregava não era o da fé, simplesmente, mas o do ideário dos direitos humanos, dos quais o mais fundamental é o da vida. A mesma visão que propunha que era do interesse da sociedade (e, portanto, do Estado) zelar pela proteção dos direitos básicos dos indivíduos numa sociedade livre, estendia essas garantias ao feto. Para tanto, falava-se até mesmo -- coisa muito cobrada em debates no Brasil -- sobre a obrigação do Estado interferir para que as mulheres que precisassem recebessem algum tipo de ajuda financeira para não se verem obrigadas a escolher entre um aborto e a miséria. As duas questões apareciam ligadas: o direito do feto à vida e o direito das mulheres como cidadãs (e, por conseguinte, o dever do Estado) de serem também acolhidas e cuidadas quando não pudessem contar com seus próprios recursos.

Apesar da influência católica original, que vinculava a questão do aborto à luta contra os métodos anticoncepcionais, foi essa formulação liberal que permitiu alianças com outros grupos, como judeus e protestantes, dando ao movimento  um diversidade considerável tanto no espectro religioso quanto social e político. E foi isso que lhe permitiu derrubar inúmeras iniciativas de legalização do aborto em vários estados americanos até 1972, quando então a interferência da Suprema Corte virou o jogo e, mais adiante, jogaria o movimento nos braços da direita política.


Mas não é só isso. Segundo Williams, o movimento pró-aborto (que ainda não se chamava "pro-choice", pró-escolha) até certa altura dos anos 60, também tinha uma argumentação diferente. Ou melhor, diferente da que deve ser dominante nos EUA, pois é muito familiar a quem acompanha esse assunto no Brasil: a saúde pública. Por essa ótica, a legalização do aborto tinha um caráter utilitário; só depois, em fins da década, é que a defesa da prática seria formulada e difundida como uma questão de autonomia individual e igualdade entre os sexos. A partir daí, a linguagem dos direitos deixa de ser exclusiva dos "pró-vida" e é adotada também pelos seus oponentes.

Essa questão me fez pensar na importância fundamental da linguagem nas disputas políticas. Em uma democracia liberal, existem palavras-chave muito poderosas, difíceis de contestar no âmbito conciso e emocionalmente carregado das grandes discussões. Não por acaso, mesmo o mais linha-dura dos conservadores fala tanto em "liberdade", ou o mais autoritário dos radicais adora falar em "direitos" e "justiça". Quem é contra essas coisas? E até provar que a "liberdade" do linha-dura e a "justiça" do radical não são o que parecem, muita retórica já foi gasta. Como naquela anedota acusatória, "O senhor já parou de bater na sua mulher?", quem define os termos do debate praticamente já o venceu. É sugestiva, por exemplo, a terminologia dos partidários da legalização: "direitos reprodutivos", "direito ao aborto", "direito ao corpo", "interrupção da gravidez". Não é preciso ser um ás da semiótica para ver que, nessa terminologia aparentemente técnica, há um grande ausente: o feto, que não é considerado. O lado "pro-choice" apresenta a questão em termos apenas da mulher individualmente, o que qualifica a oposição como alguém que se opõe não ao aborto apenas, mas aos "direitos da mulher". Esse é um dos clichês dos defensores da legalização hoje em dia: o lado "pró-vida" é frequentemente acusado de querer apenas controlar os corpos das mulheres, negar-lhes a autonomia dada aos homens. Noutras palavras, o debate sobre o aborto "na verdade" seria outra coisa, uma disputa de poder entre homens e mulheres. O que deveria ser a questão principal, se o feto tem ou não um "direito à vida" que deva ser protegido, fica ofuscado pela guerra dos sexos. E assim o debate degenera, pois a atenção é constantemente desviada para outras coisas.

(E sim, pode-se aplicar o mesmo exame ao outro lado, embora não me ocorram terminologias equivalentes. O lado "pró-vida" de hoje, pelo menos o que vejo dele, aparentemente está mais preocupado em chocar com imagens de fetos dilacerados do que em traduzir seus princípios de forma mais intelectualizada.) 

Claro está que esses desvios não se dão por pura malícia. Hoje, tanto no Brasil quanto nos EUA, muitos opositores à legalização são líderes religiosos que também defendem opiniões um tanto tacanhas de mundo -- nossa bancada evangélica no Congresso não me deixa mentir.  Então, não necessariamente é incorreto dizer que a disputa entre os dois lados acaba envolvendo assuntos além do aborto em si, mesmo descontando a conveniência retórica. Porém, o livro de Williams sugere que isso é contingente: nos EUA, o movimento "pró-vida" não estava predestinado a cair nas mãos de conservadores e reacionários -- aliás, mesmo hoje  ele de maneira alguma se reduz a esse pessoal --, assim como, e aqui eu falo por mim, tampouco o "pró-escolha" necessariamente representa um avanço da liberdade e do esclarecimento da humanidade. Uma maior consciência do caráter histórico desses movimentos e do debate que promovem, de como chegaram às suas formas atuais e das escolhas feitas em suas trajetórias, pode ajudar a entender a disputa em torno do aborto de uma maneira nova, menos sectária. Não que isso vá "resolver" o dilema ético representado pelo aborto, mas certamente contribui para que tenhamos um debate público mais civilizado e honesto, onde a perspectiva do outro não é descartada aprioristicamente ou reduzida a más intenções.  

sábado, janeiro 28, 2017

O falso "Decálogo de Lênin" e a câmara de eco ideológica da Internet

Como jornalista de primeira formação e historiador, fui treinado para lidar com fontes. Por "lidar", entenda-se analisá-las e verificar sua credibilidade, além de, quando possível, compará-la com outras, independentes, que a corroborem ou não. Parece uma coisa básica, quase de senso comum -- claro, não me refiro a quem trabalha em área superespecializadas --, mas cuja importância é imensa. Por isso mesmo, dói ver o quanto esse cuidado básico com as informações que nos chegam fazem falta, especialmente na Internet das redes sociais. Boatos e mentiras deliberadas surgem num ponto e começam a ser repetidas indefinidamente numa câmara de eco onde o mais importante não é a verdade, mas a confirmação das próprias opiniões.

Assim, é muito preocupante que um número cada vez maior de pessoas use a Internet para se informar sem qualquer preparo para saber o que é ou não digno de confiança. Já postei sobre isso outras vezes, e o assunto virou um dos clichês no meu Facebook. Pessoas excelentes, bem intencionadas, acabam acreditando nas maiores barbaridades e, pior ainda, passando-as adiante sem noção do mal que podem estar fazendo. Difamação, calúnia, boatos alarmistas, campanhas políticas disfarçadas, tudo vale na era da "pós-verdade".  



Um desses boatos que se eternizam é o tal "Decálogo de Lênin", uma espécie de "dez mandamentos da maldade política" que, na última busca que diz, rendeu 68.400 resultados no Google. Não os examinei todos, obviamente, mas notei que o assunto é especialmente em blogs da direita ideológica, da ala marcada pelo anticomunismo exacerbado e, infelizmente, por uma tendência ao conspiracionismo. É o pessoal que fala de "marxismo cultural" como motor da história recente, em que tudo que não lhes agrada -- movimentos identitários, direitos humanos, instituições internacionais -- é efeito de uma terrível conspiração da esquerda. Enfim, um estilo de ver as coisas que tem uma longa trajetória, pelo menos desde a Revolução Francesa, passando, claro, pelos Estados Unidos, hoje talvez a maior fonte de teorias da conspiração em todo o mundo.

Pois bem, o tal decálogo se trai pela própria linguagem. Mesmo que o leitor não saiba nada sobre sua história, o próprio texto mostra uma contradição patente: o autor parece muito cônscio está fazendo o mal. Logo no primeiro item, lê-se:

1. Corrompa a juventude e dê-lhe liberdade sexual.

Ora, o decálogo é supostamente escrito por um revolucionário, alguém que dedica a vida a uma causa. Isso, obviamente, porque ele a considera justa, isto é, conducente a um mundo melhor. Aos seus próprios olhos, a corrupção é aquilo contra o que ele luta, não o que ele almeja. Portanto, que tipo de líder revolucionário iria se dirigir aos seus colegas de luta, que acreditam no que ele acredita,  nesses termos, de corromper a juventude? Que tipo de idealista considera que sua tarefa é uma corrupção? 

Nem vou entrar no mérito da liberdade sexual, que, até onde sei, nunca foi preconizada pelos bolcheviques, muito menos igualada a uma corrupção que tivesse serventia revolucionária. Se Lênin a pregava, seria interessante ver em que momento o seu partido a aplicou quando chegou ao poder, porque é de poder que se trata, e como o sexo livre iria derrubar o Czar em empoderar os trabalhadores é uma questão no mínimo controversa. Mas isso significaria exigir do defensor do decálogo que estudasse para demonstrar sua realidade, o que provavelmente é exigir muito.

Não vou examinar item a item, o que seria exaustivo. Mas deixo aqui dois links, um em português e o outros em inglês, que mostram as verdadeiras origens do texto (e suas variações). Pelo que parece, até pastores evangélicos participaram da criação do "decálogo" ao longo do tempo:

Finalizando, é preciso constantemente reafirmar o perigo que esse tipo de tolice representa. Ao criar inimigos fantasiosos e onipresentes, quase sobre-humanos em sua perversidade, como os extremos do espectro político sempre fazem, cria-se uma sensação de insegurança que facilmente leva ao ódio e ao desejo por um líder "forte" que nos salve. Ditaduras se alimentam desse tipo de disposição, pouco importando se o "inimigo" é o judeu, o capitalismo internacional ou o comunismo. Existe no Brasil uma verdadeira indústria, hoje mais notável à direita do espectro, de conspiracionismo e mentiras sistemáticas, que disseminam as maiores barbaridades para melhor difundir certas ideias e crenças. Isso era coisa de nicho, mas agora espraia-se por todo lado: vejo alunos meus, de 15 anos, falando nos perigos da "nova ordem mundial" e coisas do gênero. Com o acirramento da disputa política no Brasil, esse tipo de coisa está ganhando espaço e rumando para a "normalização", o que é pésismo. Se nos Estados Unidos, onde os recursos são maiores, esse tipo de coisa -- em grande parte lá produzida e difundida em programas de rádio, vídeos de Internet, websites etc. -- isso já pode ter pesado numa eleição presidencial, que se dirá aqui, onde os níveis educacionais são terríveis mesmo entre aqueles que tiveram estudo formal. Onde os ignorantes pululam, o mal só precisa de uma faísca.