Domingo, Junho 28, 2009

Preocupações ociosas de fim de semana

31%

Eu sabia que devia ter feito bom um curso de tiro...

Sábado, Junho 27, 2009

As mais estranhas homenagens a Michael Jackson

Primeiro, a do megastar indiano Chirajeevi, "Goli Mar":


Depois, a mais tocante, dos prisioneiros filipinos de Cebu, que toda semana fazem várias coreografias como parte do programa de reabilitação. Impressionante.


Realmente, o mundo é cheio de surpresas.

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Michael Jackson (1958-2009)



Depois de uma vida muito atribulada, que possivelmente lhe arrancou um pouco da sanidade, eis que o "rei do pop" se foi hoje, devido a uma parada cardíaca, aos 50 anos de idade. Uma prova viva do frequente divórcio entre riqueza e felicidade, Michael deixa como legado uma grande influência na cultura popular, que vai de seu clássico moonwalk até a revolução na qualidade dos videoclips, iniciada com o inigualável Thriller.

Eu nunca fui um grande fã seu, mas me lembro muito bem do fascínio e do medo que senti ao ver Thriller na antiga Rede Manchete, pela primeira vez. Devia ter uns 4 ou 5 anos, e minha mãe tinha comprado o LP, de modo que eu podia não apenas me impressionar com as cenas na TV, mas também ler a letra no encarte do disco. Agora me ocorre que provavelmente foi um dos primeiros textos em inglês que vi na vida. Mais uma, então, que devo a Michael, além da excelência de muitas das suas canções nos anos 1980.

Que ele possa ter na próxima vida um pouco da paz e do equilíbrio que não alcançou nesta. Fica aqui uma modesta homenagem: http://www.youtube.com/watch?v=AtyJbIOZjS8&feature=fvst.

Domingo, Junho 21, 2009

Prece pela Paz

Almighty and merciful God, Father of all men, Creator and ruler of the universe,

Lord of all history, whose designs are without blemish, whose compassion for
the errors of men is inexhaustible, in your will is our peace.

Mercifully hear this prayer which rises to you from the tumult and desperation
of a world in which you are forgotten, in which your name is not invoked,
your laws are derided and your presence is ignored. Because we do not
know you, we have no peace.

From the heart of an eternal silence, you have watched the rise of empires
and have seen the smoke of their downfall. You have witnessed the impious
fury of ten thousand fratricidal wars, in which great powers have torn whole
continents to shreds in the name of peace and justice.

A day of ominous decision has now dawned on this free nation. Save us then
from our obsessions! Open our eyes, dissipate our confusions, teach us
to understand ourselves and our adversary. Let us never forget that sins
against the law of love are punishable by loss of faith, and those
without faith stop at no crime to achieve their ends!

Help us to be masters of the weapons that threaten to master us.
Help us to use our science for peace and plenty, not for war and
destruction. Save us from the compulsion to follow our adversaries
in all that we most hate, confirming them in their hatred and
suspicion of us. Resolve our inner contradictions, which now
grow beyond belief and beyond bearing. They are at once a torment
and a blessing: for if you had not left us the light of conscience,
we would not have to endure them. Teach us to wait and trust.

Grant light, grant strength and patience to all who work for peace.
But grant us above all to see that our ways are not necessarily
your ways, that we cannot fully penetrate the mystery of your
designs and that the very storm of power now raging on this earth
reveals your hidden will and your inscrutable decision.

Grant us to see your face in the lightning of this cosmic storm,
O God of holiness, merciful to men. Grant us to seek peace where
it is truly found. In your will, O God, is our peace.

Amen.


Thomas Merton (1915-1968), Prayer for Peace

Sábado, Junho 20, 2009

Irã: entre o verde e o vermelho-sangue

Estou espantado e ao mesmo tempo emocionado. Espantado com a pouca cobertura que a guerra política, religiosa e cultural que começou no Irã tem recebido da nossa imprensa, sobretudo das redes de TV; e emocionado por estar ciente de que, seja qual for o desfecho imediato do que se passa nessa terra tão habitualmente vista como obscurantista e retrógrada, estou assistindo a algo que pode marcar um ponto de virada na posição do Oriente Médio no mundo -- e sob a égide principalmente da não-violência.


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Não sei se o que está se passando é o começo de uma revolução dentro da revolução iraniana, ou um arroubo efêmero que será sileciado a balas, bombas e terror. Tenho plena consciência de que, por trás de todo enfrentamento, os dois lados veneram e recorrem ao legado -- a meu ver, detestável -- do aiatolá Khomeini, um homem que não recuou ante a possibilidade de esmagar vários dos seus aliados na derrubada do também autoritário xá Reza Pahlevi, em 1979. Um homem que, com toda a admiração que lhe era dedicada por uma esquerda ocidental estúpida nos anos 1970, que o tomou por líder espiritual sábio, renegou todos os valores que seus admiradores ingênuos projetavam nele e mostrou qual era a sua concepção de liberdade. Um homem, enfim, que destruiu dissidências, condenou Salman Rushdie à morte e consolidou seu poder com base no medo, na paranóia e na repressão à discordância. São a sua foto e suas palavras que são tomadas como inspiração por parte das multidões de verde que lutam por democracia e, a partir de hoje, também por suas vidas nas ruas de Teerã, Shiraz e outras cidades de que nunca tínhamos ouvido falar até esta semana. Gente que procura uma vida melhor, que não quer baixar a cabeça ante uma mentira clara e, aparentemente, não aceita mais a desculpa de que a hostilidade ocidental serve de pretexto para calar suas insatisfações -- e que provavelmente não teria como fazer o que faz hoje enquanto seu herói teocrático estava vivo. E, ainda assim, hoje, essa gente toda, por mais ingênua que possa nos parecer à distância para confiar a tal patrono seu amor e sua lealdade, hoje concentra as mais concretas esperanças do que pode vir a ser um Oriente Médio capaz de romper o beco-sem-saída que tem dominado a maior parte dos países muçulmanos: a dualidade entre o atraso fundamentalista ou uma relativa modernidade ditatorial, entre a desconfiança acirrada do fanático e a corrupção e a brutalidade dos "líderes" cuja legitimidade vem da força e do comodismo de populações que não sabem ou podem ainda se organizar.

Há 30 anos, o Irã assombrou o mundo com uma revolução teocrática nunca antes vista. Nos anos seguintes, associou-se ao medo da expansão desse movimento nos outros países -- o Hezbollah, por exemplo, é fruto desse desejo -- e ao fomento da violência. Foi também uma ameaça simbólica, quando não de fato, aos regimes seculares e ditatoriais de seus vizinhos. Mas hoje, quando os ocidentais se arrepiam ou balançam a cabeça com uma superioridade condescendente ao olharem a pobreza reinante no Oriente Médio, o Irã representa outra coisa: é o levante popular, é a população marchando unida, é a cantoria cada vez mais alta das ruas a repetir "Alá é grande!". O Irã é hoje um grande "NÃO" ao fechamento da sociedade, ao uso da religião para negar às pessoas a escolha de seus rumos, à corrupção dos que confiam demais no próprio poder, à retórica dos que pretendem "proteger o povo de si mesmo". Independentemente do que o homem em torno do qual esse movimento se criou venha a fazer -- ele que foi braço-direito de Khomeini nos anos mais negros da Revolução --, ou de alguns de seus apoiadores mais poderosos venham a conquistar (como o milionário mulá Rafsanjani, cuja idoneidade, até onde sei, não é exatamente consensual), é o movimento em si que importa. É o clamor das manifestações que prova o que deveria ser óbvio a toda gente: que nenhuma repressão dura para sempre, e que o ímpeto pela liberdade, que não pode ser imposto pelas armas (vide Iraque), uma vez desperto, só tende a crescer. Enganaram-se os que outrora julgaram que revolucionário é aquele que precisa de um bando armado pronto a tudo para abrir um sanguinolento caminho até o poder; esse, mesmo que bem intencionado quanto aos fins, só perpetua erros milenares quanto aos meios. O verdadeiro revolucionário é aquele que catalisa os anseios dos seus semelhantes e age, não pelo terror, não se tornando igual ao inimigo que combate, mas que quebra o círculo vicioso da violência e demonstra, de uma vez por todas, que nenhuma arma, nenhuma tropa, é mais poderosa que uma multidão unida pronta a se fazer ouvir. E hoje, como tem provado a guerrilha virtual que os partidários do "mar verde" iraniano tem demonstrado, isso é mais demonstrável do que nunca.

Mesmo que o pior aconteça, o Irã não será mais o mesmo. Khamenei, Ahmadinejad e sua cáfila nunca mais terão a mesma tranquilidade, a mesma segurança, a mesma legitimidade. Seu poder, derivado de uma justificativa teocrática, foi deslegitimado aos olhos de milhões, e no fim das contas vêm se comportando como qualquer regime autoritário secular. Eles não são o Islã, mas somente pecadores como outros quaisquer, falíveis e por vezes renitentes no erro, como está evidente a quem testemunhe o que se passa. Mesmo que Moussavi seja preso ou morto, e o seu movimento se disperse, seu exemplo ficará -- até o próximo estopim, a próxima onda. E assim, quem sabe, a despeito de si mesmo, a Revolução Iraniana acabe finalmente sofrendo uma reforma por dentro.

Abaixo, algumas imagens coletadas na melhor fonte até o momento sobre os eventos no Irã, o blog de Andrew Sullivan.




Greenmask

Bloodgirl

Green-stream

0618MASKS:Getty

Crowd-wall

Uma estatística assustadora


20/06/2009 - 08h55

Mais de 27% dos homens sul-africanos já estupraram

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da Folha de S.Paulo

Uma sondagem realizada pelo Conselho de Pesquisa Médica (CPM) da África do Sul revelou que 27,6% dos homens do país admitem já ter cometido estupro. A prática é considerada um dos principais motivos para o alto índice de infecção pelo vírus HIV entre os sul-africanos --12% de 47 milhões.

Foram entrevistados na pesquisa do CPM 1.738 homens em áreas rurais e urbanas das Províncias (Estados) do Cabo Ocidental e de KwaZulu-Natal.

A pesquisa aponta que 74% dos sul-africanos que admitem ter cometido estupro o fizeram pela primeira vez antes dos 20 anos de idade --e 10% antes dos dez anos de idade. Cerca de 5% dos entrevistados admitiram já ter violentado outros homens.

O estupro chamado "íntimo", de atuais ou ex-parceiras, foi cometido por 14%. É nesse grupo que, segundo os pesquisadores, foi verificada a maior relação entre a prática do estupro e a infecção por HIV. Já entre o total de homens que dizem ter cometido o crime e o total dos que dizem não tê-lo cometido a diferença não é significativa.

Quase a metade dos homens que já estupraram o fizeram duas ou mais vezes -7,7% estupraram mais de dez mulheres. E 1 em cada 10 deles afirmou tê-lo feito na companhia de "gangues" de estupradores.

"O estupro é um problema que vem das ideias de masculinidade na África do Sul. A posição do homem é superior à da mulher na sociedade e legitima esse tipo de comportamento", disse a diretora do setor de gênero do CPM, Rachel Jewkes.

Para os pesquisadores, a alta incidência entre os mais jovens aponta para o risco de reversão de avanços obtidos nos últimos anos em relação à desigualdade de gênero e para a necessidade de uma abordagem não apenas repressiva em relação ao tema.

"Uma mudança precisa estar ligada à existência de modelos alternativos sobre como ser homem, o que exige melhorias no sistema educacional e maiores oportunidades de emprego para os mais jovens", diz Jewkes.

O perfil dos homens que disseram ter estuprado não aponta, no entanto, relação direta com a pobreza. Segundo o relatório, eles se encontram geralmente em camadas intermediárias de renda e escolaridade.

Estupro e Aids são temas sensíveis na África do Sul. Além da alta incidência de ambos, posições públicas de autoridades como o atual presidente, Jacob Zuma, e o seu antecessor, Thabo Mbeki, têm gerado revolta nos últimos anos entre ativistas de combate à Aids.

Em 2006, Zuma enfrentou uma acusação de estupro e foi inocentado. No processo, o político, que preserva a tradição de poligamia, justificou o sexo sem proteção pelo fato de tomar uma ducha após o ato.

Com agências internacionais

Domingo, Junho 07, 2009

O homem no mundo

Uma questão que me intriga é da espiritualidade na vida prática. Naturalmente, todos temos uma ideia disso, especialmente no quesito moral. Mas não é disso do que falo, do certo ou do errado, do bem e do mal. Sempre me fascinou a tensão entre a visão de mundo religiosa, portanto voltada para o Transcendente, e a ação humana no mundo e suas demandas não raro urgentes e pouco espirituais -- em seus extremos, entre o asceta e o pragmatista. Tendo já encontrado radicais de um lado e de outro, os que procuram viver só para o espírito e os que negam a validade deste, a busca de um caminho do meio sempre foi uma questão das mais envolventes para mim. Como viver ambos os mundos sem violentá-los? Como usufruir da singularidade de seus ensinos e de suas vivências, sem cair no proverbial sujeição a dois senhores e que corrói, tantas vezes, as religiões organizadas, tanto para o bem quanto para o mal?

Por isso mesmo, este se tornou um dos meus textos favoritos. À parte a linguagem fortemente cristã, sua essência é aplicável, penso eu, a qualquer um que procure vivenciar sua fé sem abrir mão do mundo à sua volta. E embora eu saiba que sua abordagem não seja plenamente compatível com todo e qualquer credo -- e como isso poderia ser possível? --, ainda assim é dele que me lembro nos dilemas do dia-a-dia.

Divido-o com vocês.
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UM ESPÍRITO PROTETOR

Bordeaux, 1863

            10 – Um sentimento de piedade deve sempre animar o coração daqueles que se reúnem sob o olhar do Senhor, implorando a assistência dos Bons Espíritos. Purificai, portanto, os vossos corações.Não deixeis que pensamentos fúteis ou mundanos os perturbem. Elevai o  vosso espírito para aqueles a quem chamais, a fim de que eles possam, encontrando em vós as disposições favoráveis, lançar em profusão as sementes que devem germinar os vossos corações, para neles produzir os frutos da caridade e da justiça.

            Não penseis, porém, que aos vos exortar incessantemente à prece e à evocação mental, queiramos levar-vos a viver uma vida mística, que vos mantenha fora das leis da sociedade em que estais condenados a viver. Não. Vivei com os homens do vosso tempo, como devem viver os homens; sacrificai-vos às necessidades, e até mesmo às frivolidades de cada dia, mas fazei-o com um sentimento de pureza que as possa santificar.

            Fostes chamados ao contato de espíritos de naturezas diversas, de caracteres antagônicos: não melindreis a nenhum daqueles com quem vos encontrardes. Estai sempre alegres e contentes, mas com a alegria de uma boa consciência e a ventura do herdeiro do céu, que conta os dias que o aproximam de sua herança.

            A virtude não consiste numa aparência severa e lúgubre, ou em repelir os prazeres que a condição humana permite. Basta referir todos os vossos atos ao Criador, que vos deu a vida. Basta, ao começar ou acabar uma tarefa, que eleveis o pensamento ao Criador, pedindo-lhe, num impulso da alma, a sua proteção para executá-la ou a sua benção para a obra acabada. Ao fazer qualquer coisa, voltai vosso pensamento à fonte suprema; nada façais sem que a lembrança de Deus venta purificar e santificar os vossos atos.

            A perfeição, como disse o Cristo, encontra-se inteiramente na prática da caridade sem limites, pois os deveres da caridade abrangem todas as posições sociais, desde a mais íntima até a mais elevada. O homem que vivesse isolado não teria como exercer a caridade. Somente no contato com os semelhantes, nas lutas mais penosas, ele encontra a ocasião de praticá-la. Aquele que se isola, portanto, priva-se voluntariamente do mais poderoso meio de perfeição: só tendo de pensar em si, sua vida é a de um egoísta. (Ver cap. V. nº 26)

            Não imagineis, portanto, que para viver em constante comunicação conosco, para viver sob o olhar do Senhor, seja preciso entregar-se ao cilício e cobrir-se de cinzas. Não, não, ainda uma vez: não! Sede felizes no quadro das necessidades humanas, mas que na vossa felicidade não entre jamais um pensamento ou um ato que possa ofender a Deus, ou fazer que se vele a face dos que vos amam e vos dirigem.





Quinta-feira, Junho 04, 2009

História da Não-Violência - parte 1

Se este mundo quiser deixar de ser tão rico de miséria e incompreensão, vai ter de recorrer a exemplos como estes abaixo. Sempre achei o assunto fascinante, e tenho uma pequena mas bem selecionada bibliografia sobre o assunto. Infelizmente, compromissos acadêmicos e profissionais têm me forçado a dirigir minha atenção a outros assuntos, de modo que a não-violência -- que não é a mera passividade do pacifista radical -- ficou em segundo ou terceiro plano. No entanto, o assunto me apaixona, pela oportunidade que representa de combinar uma espiritualidade genuína (mesmo que em forma laica) com a ação política e social. 

Este é só o primeiro trecho; os demais, que são quatro, podem ser encontrados no YouTube. Vale a pena conhecer. E quem quiser saber mais sobre o assunto, pode começar por aqui e por aqui


Domingo, Maio 31, 2009

O primeiro encontro ideal

Por anos, esse item do perfil do Orkut me deixou cismado. Como seria o primeiro encontro "ideal"? (Fora a questão de por que o segundo não poderia sê-lo. Temos sempre essa fixação com o primeiro isso, o primeiro aquilo...) Pois bem, creio ter descoberto o cenário, a circunstância e o desfecho perfeitos, graças a ninguém menos que o bom e velho Woody. Finalmente meu maltratado romantismo pode repousar com um dilema a menos. 




Sexta-feira, Maio 29, 2009

Animais podem ter "moralidade"

Quanto mais o tempo passa, mas me convenço de que acabaremos tendo de nos tornar vegetarianos, ou ao menos abrir mão da alimentação de carne de mamíferos -- entre outras coisas que teremos de deixar de fazer em relação a eles. Afinal, mais e mais surgem cientistas apresentando bons argumentos desconstruindo nosso "especiecentrismo", ou seja, a ideia de que somos tão especiais na ordem natural das coisas que podemos fazer o quisermos com nossos companheiros de biosfera. Veja-se o caso seguinte, por exemplo:

Elephants are intensely sociable and emotional animals. Research by Iain Douglas Hamilton, from the department of zoology at Oxford University, suggests elephants experience compassion and has found evidence of elephants helping injured or ill members of their herd.

In one case, a Matriarch known as Eleanor fell ill and a female in the herd gently tried to help Eleanor back to her feet, staying with her before she died.

In 2003, a herd of 11 elephants rescued antelope who were being held inside an enclosure in KwaZula-Natal, South Africa.

The matriarch unfastened all of the metal latches holding the gates closed and swung the entrance open allowing the antelope to escape.

This is thought to be a rare example of animals showing empathy for members of another species – a trait previously thought to be the exclusive preserve of mankind.


Depois de saber de uma coisa dessas, dá para ver tais elefantes como um mero "animal" destituído de direitos quaisquer? 

O resto pode ser lido aqui.

Domingo, Maio 24, 2009

Os europeus que ajudaram Hitler no Holocausto

24/05/2009

Os europeus que ajudaram Hitler no Holocausto

Der Spiegel
Georg Bönisch, Jan Friedmann, Cordula Meyer, Michael Sontheimer, Klaus Wiegrefe
Os alemães são responsáveis pelo assassinato em escala industrial de 6 milhões de judeus. Mas, surpreendentemente, o conluio de outros países europeus no Holocausto recebeu pouca atenção até há pouco tempo. O julgamento de John Demjanjuk deverá projetar luz sobre os estrangeiros que ajudaram Hitler. 

Ele já esteve na Alemanha antes, neste país de criminosos. Tinha 25 anos na época e seu nome de batismo era Ivan, e não John — ainda não. 

Ivan Demjanjuk serviu como guarda no campo de concentração de Flossenburg até pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Ele foi transferido para lá do campo da morte das SS em Sobibor, na atual Polônia. Era ucraniano, e um "travniki", um dos 5.000 homens que ajudaram o regime nazista da Alemanha a cometer o crime do milênio - o assassinato de todos os judeus da Europa, a "solução final". 

"Onda de ultraje"

Matéria de "Der Spiegel" sobre europeus que colaboraram com o extermínio judeu de Hitler provocou reações na imprensa polonesa.



Ele fez parte do esquema, embora fosse uma peça muito pequena no vasto maquinário do crime. Ivan Demjanjuk ficou na Alemanha do pós-guerra durante sete anos antes de emigrar para os EUA em 1952 com sua mulher e filha a bordo do General Haan. Quando chegou lá, trocou o nome para John. Estava terminado seu tempo como suposto DP, ou "displaced person" (pessoa deslocada), como os vencedores anglo-americanos chamavam as pessoas que ficaram sem teto na guerra.

O DP Demjanjuk tinha vivido nas cidades de Landshut e Regensburg, no sul da Alemanha, onde trabalhou para o exército americano. Mudou-se para Ulm, Ellwangen, Bad Reichenhall e finalmente para Feldafing, junto ao lago Starnberg. Feldafing pertence à área coberta pelo tribunal distrital de Munique, e por isso Demjanjuk está detido na prisão de Stadelheim, em Munique, desde que foi deportado dos EUA, na semana passada. Sua cela mede 24 metros quadrados - extraordinariamente espaçosa para os padrões habituais de prisões.

Último grande julgamento nazista na Alemanha 
Ele enfrenta acusações de ajudar e apoiar o assassinato de pelo menos 29 mil judeus em Sobibor. O julgamento poderá começar no final do verão, desde que Demjanjuk, hoje com 90 anos, seja considerado capaz de suportá-lo. Testemunhas serão chamadas a depor, mas nenhuma delas poderá identificá-lo. A única evidência está nos arquivos, mas é forte. Por duas vezes, em 1949 e 1979, o ex-travniki Ignat Danilchenko, hoje morto, afirmou que Demjanjuk foi um "guarda experiente e eficiente" que levou judeus para as câmaras de gás — "que era um trabalho cotidiano".

Demjanjuk negou a acusação totalmente. Ele diz que nunca esteve em Flossenburg ou em Sobibor, e nunca empurrou pessoas para as câmaras de gás. O ex-americano adotou a mesma tática de negação de muitos outros réus julgados por crimes de guerra desde 1945.

Mas já está claro que este último grande julgamento nazista na Alemanha será profundamente extraordinário, porque pela primeira vez colocará réus estrangeiros sob os refletores da mídia mundial. 

São homens que até agora receberam, surpreendentemente, muito pouca atenção - policiais ucranianos e a polícia auxiliar da Letônia, soldados romenos ou trabalhadores ferroviários húngaros, agricultores poloneses, tabeliães holandeses, prefeitos franceses, ministros noruegueses, soldados italianos - todos participaram do Holocausto na Alemanha. 
Especialistas como Dieter Pohl, do Instituto Alemão de História Contemporânea, estimam que mais de 200 mil não-alemães - quase o mesmo número de alemães e austríacos - "prepararam, praticaram e ajudaram em atos de assassinato". E com frequência eles foram tão impiedosos quanto os carrascos de Hitler. 

Só para dar um exemplo, em 27 de junho de 1941, um coronel da equipe do Grupo do Exército Norte da Alemanha na cidade lituana de Kaunas passou por um posto de gasolina cercado por uma multidão. Ouviu gritos de bravo e aplausos, mães erguiam seus filhos para que enxergassem melhor. O oficial se aproximou e mais tarde descreveu o que havia visto. "No pátio de concreto havia um homem louro de cerca de 25 anos, de altura mediana, que estava descansando apoiado em um bastão de madeira grosso como seu braço e que chegava até seu peito. A seus pés havia 15 ou 20 pessoas mortas ou agonizantes. Uma mangueira jorrava água, levando o sangue para um ralo". 

O soldado continuou: "Alguns passos atrás desse homem estavam cerca de 20 homens que - guardados por vários civis armados - esperavam sua terrível execução em silenciosa submissão. Chamado com um gesto rude, o próximo se adiantou em silêncio e foi (...) espancado até a morte com o bastão de madeira, e cada golpe era acompanhado de gritos entusiasmados da plateia".

Orgia de assassinatos como cerimônia nacional
Quando todos estavam mortos no chão, o assassino louro subiu no monte de cadáveres e tocou acordeão. Sua plateia cantou o hino lituano como se a orgia de assassinatos fosse uma cerimônia nacional.

Como semelhante coisa pôde acontecer? Há muito tempo essa pergunta não é dirigida somente aos alemães - cuja responsabilidade principal pelo horror é indiscutível -, mas também aos perpetradores de todos os países.
O que levou o ditador romeno Ion Antonescu e seus generais, soldados, funcionários públicos e agricultores a assassinar 200 mil judeus (e talvez até o dobro disso) "por sua própria decisão", como diz o historiador Armin Heinen? Por que os esquadrões da morte no Báltico cometeram assassinatos sob ordens de alemães na Letônia, Lituânia, Belarus e Ucrânia? E por que os Einsatzgruppen alemães - "grupos de intervenção" paramilitares operados pelas SS - tiveram tal facilidade para incentivar a população não-judia a cometer massacres entre Varsóvia e Minsk?

É totalmente indiscutível que o Holocausto nunca teria acontecido sem Hitler, o chefe das SS, Heinrich Himmler, e muitos, muitos outros alemães. Mas também é verdade "que os alemães por si sós não teriam conseguido efetuar o assassinato de milhões de judeus europeus", diz o historiador Michael Wild, estabelecido em Hamburgo.

É uma ideia da qual muitos sobreviventes nunca duvidaram. Quando a Associação de Sobreviventes Judeus Lituanos se reuniu em Munique em 1947, aprovou uma resolução com um título inconfundível: "Sobre a culpa de grande parte da população lituana pelo assassinato dos judeus lituanos".

No Terceiro Reich, com sua burocracia azeitada, havia registros abrangentes da população judia. Mas nos territórios conquistados pelo exército alemão os asseclas de Hitler precisavam de informação, como a que foi fornecida na Holanda pelos tabeliães, cujos funcionários tiveram muito trabalho para compilar um "Registro de Judeus" preciso.
E como as SS e a polícia poderiam rastrear judeus nas cidades do Leste Europeu, com sua ampla mistura de grupos étnicos, sem o apoio da população local? Poucos alemães seriam capazes de "reconhecer um judeu em uma multidão", lembra Thomas Blatt, um sobrevivente de Sobibor que pretende depor no julgamento de Demjanjuk. 

Na época, Blatt era um menino louro e tentou se passar por cristão em sua casa na cidade de Izbica, na Polônia. Ele não usava a estrela amarela e tentava parecer confiante quando encontrava a polícia uniformizada. Mas foi traído várias vezes - os alemães pagavam por informações sobre a localização de judeus - e sempre escapou, com muita sorte.

Denúncias eram comuns
As denúncias eram tão comuns na Polônia que havia um termo especial para os informantes pagos - "Szmalcowniki", que antes designava uma cerca. Em muitos casos os delatores conheciam suas vítimas. E enquanto os franceses, holandeses ou belgas podiam se entregar à ilusão de que tudo acabaria bem para os judeus deportados de Paris, Roterdã ou Bruxelas para o leste, as populações do Leste Europeu sabiam o que aguardava os judeus em Auschwitz ou Treblinka.

É claro que se podem encontrar muitos exemplos inversos. Um alto oficial do Einsatzgruppe C, responsável pelo assassinato de mais de 100 mil pessoas, queixou-se de que os ucranianos não tinham "um antissemitismo acentuado, com base em motivos raciais ou ideológicos". O oficial escreveu que "há uma falta de liderança e de ímpeto espiritual para a perseguição dos judeus".

O historiador Feliks Tych estima que cerca de 125 mil poloneses salvaram judeus sem receber dinheiro por seus serviços. É claro que os criminosos sempre constituíram uma pequena porcentagem de suas respectivas populações. Mas os alemães contavam com essa minoria. As SS, a polícia e o exército não tinham efetivos suficientes para vasculhar as amplas áreas onde a liderança nazista pretendia matar todas as pessoas de origem judaica. 

Nos 4.000 quilômetros que vão da Bretanha, no oeste da França, ao Cáucaso, os nazistas estavam ocupados em caçar suas vítimas, deportá-las para campos de extermínio ou locais de assassinato próximos, evitar fugas, cavar valas comuns e realizar seu sangrento trabalho. 
É claro que somente Hitler e seu círculo ou o exército poderiam ter detido o Holocausto. Mas isto não invalida o argumento de que sem a ajuda de estrangeiros, milhares ou mesmo milhões dos cerca de 6 milhões de judeus assassinados poderiam ter sobrevivido.

Nos campos da morte do Leste Europeu havia até dez ajudantes locais para cada policial alemão. A proporção é semelhante nos campos de extermínio. Não em Auschwitz, que era conduzido quase inteiramente por alemães, mas em Belzec (600 mil mortos), Treblinka (900 mil mortos) ou no Sobibor de Demjanjuk. Lá, um punhado de membros das SS era auxiliado por cerca de 120 "travniki".

Sem eles, os alemães nunca teriam conseguido matar 250 mil judeus em Sobibor, diz o ex-prisioneiro Blatt. Eram os travniki que guardavam o campo, conduziam todos os judeus dos vagões de trem e caminhões quando chegavam ao campo e os agrediam para que entrassem nas câmaras de gás. 

O Holocausto foi um projeto europeu?
Um número tão absurdo de vítimas levanta perguntas perturbadoras, e o historiador de Berlim Götz Aly já começou a fazer algumas anos atrás: a chamada "solução final" seria na verdade um "projeto europeu que não pode ser explicado somente pelas circunstâncias específicas da história alemã"?

Ainda não há um veredicto final sobre as dimensões europeias do Holocausto. Os franceses e italianos começaram tarde - quando a maioria dos criminosos já estava morta - a tratar de forma abrangente essa parte de sua história. Outros, como os ucranianos e lituanos, ainda se arrastam; ou, em alguns casos, apenas começaram, como na Romênia, na Hungria e na Polônia.

Desde 1945 os países invadidos e arrasados pelos exércitos de Hitler se consideraram vítimas - o que sem dúvida foram, com seu enorme número de mortos. Isso torna ainda mais doloroso admitir que muitos compatriotas ajudaram os criminosos alemães.

Na Letônia, a ajuda local foi maior que em qualquer outro lugar. Segundo o historiador americano Raul Hilberg, os letões tiveram a maior proporção de ajudantes nazistas. Os dinamarqueses estão na outra ponta da escala. Quando a deportação dos judeus da Dinamarca estava prestes a começar, em 1943, grande parte da população ajudou os judeus a escapar para a Suécia ou os escondeu. Cerca de 98% dos 7.500 judeus da Dinamarca sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Em comparação, apenas 9% dos judeus holandeses sobreviveram.

O Holocausto representa o ponto baixo não apenas da história alemã, mas também da europeia, como afirma o historiador Aly?

Há evidências que contestam a noção amplamente aceita de que os criminosos estrangeiros foram obrigados a ajudar os alemães a cometer os assassinatos. É verdade que os ajudantes locais arriscavam a vida quando se recusavam a ajudar os ocupantes alemães. Isso se aplicava às unidades policiais e aos funcionários públicos na Europa Ocidental ocupada, assim como à polícia auxiliar recém-formada no Leste. Mas também é verdade que em muitos lugares as pessoas se ofereciam para servir aos alemães ou participaram de crimes sem ser obrigadas a isso.

Também há a alegação muitas vezes repetida de que os governos de países aliados a Hitler não tinham opção senão entregar os cidadãos judeus aos alemães. Isso também não é verdade. Os países dos Bálcãs, em particular, rapidamente entenderam como a "solução da questão judia" era importante para Hitler e seus diplomatas - e tentaram obter o maior preço possível por sua cumplicidade.

Também há motivos para duvidar da suposição de que os auxiliares eram sádicos patológicos. Se isso fosse verdade, deveria ser fácil identificá-los, por exemplo, no grupo de 50 lituanos que serviram sob o comando do SS Obersturmbannführer (tenente-coronel) Joachim Hamann. Os homens percorriam aldeias até cinco vezes por semana para assassinar judeus, e acabaram matando 60 mil pessoas. Bastava algumas caixas de vodca para animá-los. À noite, a tropa voltava para Kaunas e se gabava de seus crimes no refeitório.

Nenhum dos lituanos havia sido criminoso antes. Eles eram "total e absolutamente normais", acredita o historiador Knut Stang. Em quase toda parte depois da guerra os assassinos retornaram a suas vidas habituais, como se nada tivesse acontecido. Demjanjuk também era um cidadão correto. Em Cleveland, Ohio, onde vivia, era considerado um bom colega e vizinho simpático.

É a mesma coisa com os criminosos alemães. Não há um tipo de assassino identificável - é uma conclusão perturbadora a que chegaram os historiadores. Os assassinos incluíam católicos e protestantes, europeus meridionais de sangue quente e frios bálticos, extremistas de direita obcecados ou burocratas insensíveis, acadêmicos refinados ou caipiras violentos.

Entre eles estava Viktor Arajs (1910-1988), um advogado culto de uma família de agricultores letões que comandou uma unidade de mais de mil homens que percorreu a Europa Oriental assassinando em nome dos nazistas. Ou o romeno Generaru, filho de um general e comandante do gueto de Bersad, na Ucrânia, que mandou amarrar uma de suas vítimas a uma motocicleta e a arrastou até a morte.

Antissemitismo assolava a Europa 
E o antissemitismo? Na década de 1930 o antissemitismo cresceu em toda a Europa porque a comoção após a Primeira Guerra Mundial e a crise econômica global haviam abalado as pessoas. No Leste Europeu, a tendência a considerar os judeus como bodes expiatórios e tentar excluí-los do mercado de trabalho era especialmente forte. Na Hungria, os judeus foram banidos de cargos públicos no final dos anos 1930, e proibidos de trabalhar em muitas profissões. A Romênia adotou voluntariamente as Leis de Nuremberg, racistas e antissemitas, da Alemanha nazista. Na Polônia, muitas universidades restringiram o acesso de estudantes judeus. 

A extensão do ódio aos judeus também se reflete no fato de que após o fim da guerra, em 1945, turbas na Polônia mataram pelo menos 600, e talvez milhares, de sobreviventes do Holocausto. No entanto, o excesso de nacionalismo parece ter sido o fator mais importante, pelo menos no Leste Europeu. Lá, muitos sonhavam com uma nação-estado livre de minorias. Nesse sentido, os judeus eram simplesmente um dos vários grupos de que as pessoas queriam se livrar. Com o avanço da Segunda Guerra, os croatas não apenas mataram judeus, mas também um número muito maior de sérvios. Os poloneses e lituanos se matavam entre si. A Romênia liquidou ciganos e ucranianos.

É difícil determinar o que motivou as pessoas a matar. Muitas vezes o nacionalismo ou o antissemitismo eram simples desculpas. Durante a guerra, ninguém passava fome na Alemanha, mas as condições de vida no Leste Europeu eram miseráveis. "Para os alemães, 300 judeus significavam 300 inimigos da humanidade. Para os lituanos significavam 300 pares de calças e 300 pares de botas", diz uma testemunha. Era cobiça em nível pessoal. Mas também aparecia em nível coletivo. Na França, 96% das empresas "arianizadas" permaneceram nas mãos de franceses. O governo húngaro usou os bens expropriados dos judeus para ampliar seu sistema de aposentadorias e reduzir a inflação.

Bodes expiatórios para crimes de soviéticos
A vingança imaginária também teve uma participação. Os massacres da população da Polônia contra os judeus em 1941 se basearam na suposição de que os judeus formavam uma espécie de base para o regime soviético, porque os comunistas de origem judia foram por algum tempo muito representativos na burocracia soviética. Em consequência, muitas pessoas culpavam os judeus pelos crimes cometidos durante a ocupação soviética do leste da Polônia entre 1939 e 1941. 

A polícia secreta de Stálin, a NKWD, mandou fuzilar ou deportar para os "gulags" os adversários reais e supostos do regime nos países bálticos, no leste da Polônia e na Ucrânia. Com o avanço das tropas alemãs, os soviéticos deixaram para trás uma sociedade profundamente traumatizada entre o Báltico e os Cárpatos - e muitas covas coletivas.

Hitler não tinha decidido todos os detalhes do Holocausto desde o início, supondo que conseguiria expulsar todos os judeus de sua esfera de influência depois de uma rápida vitória contra a União Soviética. Mas o avanço alemão contra a URSS começou a vacilar no outono de 1941, o que levantou o problema do que fazer com as pessoas amontoadas nos guetos, especialmente na Polônia. Muitos Gauleiter, oficiais das SS e altos administradores pediam que seus territórios fosse "judenfrei" ("livre de judeus"), o que significava liquidá-los. A construção dos campos de extermínio começou por Belzec, depois Sobibor, depois Treblinka.

Curso de treinamento rápido em Holocausto 
Foi um programa de matança gigantesco, em que a maioria dos judeus da Polônia, 1,75 milhão de pessoas, foram assassinados. Os SS preferiam recrutar seus ajudantes entre os ucranianos ou alemães étnicos nos campos de prisioneiros de guerra, onde soldados do Exército Vermelho como Demjanjuk enfrentavam a opção de matar para os alemães ou morrer de fome. 

Mais tarde, números cada vez maiores de voluntários da Ucrânia ocidental e da Galícia [sudeste da Polônia] aderiram à unidade. Os homens tinham de assinar uma declaração de que nunca haviam pertencido a um grupo comunista e não tinham ancestrais judeus. 

Depois eram levados para Travniki, no distrito de Lublin no sudeste da Polônia, onde eram treinados na profissão mortífera no local de uma antiga fábrica de açúcar. Em meados de 1943 cerca de 3.700 homens estavam estacionados em Travniki. O treinamento para o Holocausto levava várias semanas. Os homens das SS mostravam aos recrutas como realizar batidas e guardar os prisioneiros, muitas vezes usando sujeitos vivos. Então a unidade ia até uma cidade próxima e espancava moradores judeus e os arrancava de suas casas. Execuções eram realizadas em uma floresta próxima, provavelmente para garantir que os recrutas eram leais.

No início, os travniki foram usados para guardar propriedades e evitar o saque de depósitos de suprimentos. Depois seus amos alemães os enviaram para esvaziar os guetos em Lviv e Lublin, onde foram impiedosos na captura de suas vítimas judias. Finalmente eles foram postos para trabalhar em turnos de oito horas no campo de extermínio. "Todo mundo se colocava onde era necessário", lembrou um oficial das SS. Tudo funcionava "como um relógio". 

Historiadores estimam que um terço dos travniki escapou, apesar da punição que sofreriam se fossem apanhados. Alguns foram executados por desobediência. E os outros? Por que não tentaram escapar da máquina mortífera? Por que Demjanjuk não tentou? Ele teria sido corrompido pela sensação de ter "obtido um poder total sobre os outros", como afirma o historiador Pohl? Seria a perspectiva do saque? Em Belzec e Sobibor os travniki se envolveram em um comércio animado com os habitantes das aldeias vizinhas, e lhes pagavam com objetos que haviam subtraído dos prisioneiros. 

Talvez houvesse outra coisa, algo ainda mais perturbador que muitas pessoas têm no fundo de sua psique: acatar ordens das autoridades, mesmo contrariando sua consciência. A obediência total e irrestrita.

Ajuda de fora no monstruoso projeto assassino 
As tropas alemãs não tiveram toda a Europa continental sob suas armas na mesma medida. Fora do Terceiro Reich e dos territórios ocupados, os alemães precisaram da ajuda de governos estrangeiros em seu projeto assassino monstruoso - no oeste assim como no sul e sudeste da Europa. 

Seu apoio foi mais forte entre os eslovacos e os croatas, a quem Hitler deu estados próprios. Os croatas fascistas do regime Ustasha montaram seus próprios campos de concentração onde os judeus foram mortos "de febre tifóide, fome, tiros, tortura, afogamento, punhaladas e golpes de martelo na cabeça", segundo o historiador Hilberg. A maioria dos judeus da Croácia foi morta por croatas.

O antissemitismo não estava tão enraizado na Itália e foi ordenado pelo estado em consideração aos alemães. Um comandante militar italiano em Mostar (atual Bósnia) se recusou a expulsar os judeus de suas casas porque essas operações "não estavam de acordo com a honra do exército italiano". Esse não foi o único caso. Mas está claro que o governo fantoche de Benito Mussolini de 1943 participou avidamente da perseguição aos judeus. Mais de 9 mil judeus italianos foram deportados para a morte.

Cerca de 29 mil judeus da Bélgica foram assassinados, muitos deles denunciados em troca de dinheiro. Denúncias também aconteceram na Holanda e na França. As autoridades locais obedientemente abriram caminho para a deportação dos judeus e mais tarde disseram que não suspeitavam do destino que os aguardava. Essa desculpa foi usada por asseclas, oportunistas e burocratas - uma categoria de criminosos que foi negada por muito tempo após a guerra na França, enquanto o país tentava construir o mito de que toda a população francesa se envolvera na heroica Resistência. 

A França ficou dividida em duas. As tropas de Hitler tinham ocupado três quintos do país, mas o sul continuou desocupado até novembro de 1942 e foi governado por um regime de direita baseado em Vichy que colaborou com os alemães.

Quantos foram traídos?
A primeira grande captura de judeus ocorreu em meados de julho de 1942 na Paris ocupada, quando quase 13 mil judeus que não tinham passaporte francês foram tirados de suas casas pela polícia local. Pelo menos dois terços dos judeus deportados da França eram estrangeiros. Os restantes consistiam em cidadãos franceses naturalizados e crianças nascidas na França filhas de judeus apátridas. A polícia "expressou repetidamente o desejo" de que as crianças também fossem deportadas, anotou um oficial das SS em julho de 1942. Quase todos os deportados acabaram em Auschwitz.

Ao todo, quase 76 mil judeus foram deportados da França e somente 3% deles sobreviveram ao Holocausto. Não se sabe quantos foram delatados pela população local. Na Holanda há um número que dá um indício da extensão das denúncias. O país tinha uma autoridade que caçava judeus em nome dos nazistas e que listava as propriedades de judeus que estavam escondidos ou já tinham sido deportados. 

O "departamento de registro de bens domésticos" pagava 7,50 florins por judeu que fosse localizado - cerca de 40 euros em valores atuais. O jornalista holandês Ad van Liempt analisou registros históricos e estimou que somente entre março e junho de 1943 mais de 6.800 judeus foram identificados dessa forma, e que pelo menos 54 pessoas participaram dessa caçada uma ou várias vezes. "A maioria delas fez dessa sua ocupação principal durante meses", ele diz.

O chefe da unidade era um mecânico de carros chamado Wim Henneicke, que evidentemente tinha boas conexões no submundo de Amsterdã. Ele montou uma extensa rede de informantes que lhe diziam onde havia judeus escondidos. Cerca de 100 mil judeus da Holanda foram assassinados em campos de concentração, uma proporção muito maior que na Bélgica ou na França. 

No entanto, em comparação com a França, os colaboradores holandeses foram rapidamente punidos depois da guerra. Cerca de 16 mil foram julgados até 1951, e quase todos, condenados. 

Demjanjuk é uma categoria diferente de criminoso. Ele não é um colaborador ou um caçador de cabeças, nem um policial ou o tipo que contribuiu para o Holocausto longe da matança real. Ele estava em cena, dizem os promotores em seu mandado de prisão minucioso.

O mundo terrível dos auxiliares do Holocausto 
Nos próximos dias médicos vão decidir se e por quanto tempo o último capanga de Hitler em Sobibor pode ser julgado. O governo alemão quer que ele enfrente o tribunal. "Devemos isso às vítimas do Holocausto", disse o vice-chanceler Frank-Walter Steinmeier.

Os que sofreram nos campos sob travniki como Demjanjuk não têm qualquer desejo de vingança quando falam sobre isso hoje. O psicanalista americano Jack Terry, que esteve preso no campo de concentração de Flossenburg quando Demjanjuk era guarda lá, diz que bastaria que Demjanjuk "tivesse de passar apenas um dia trancado em sua cela".
O sobrevivente de Sobibor Thomas Blatt diz que "não se importa que ele vá para a prisão; o julgamento é importante para mim. Eu quero a verdade". 

Demjanjuk poderá dar informações sobre Sobibor - e sobre o terrível mundo dos ajudantes do Holocausto.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Segunda-feira, Maio 18, 2009

Ah, se fosse hoje...

O tipo de canção profética que possivelmente nunca poderia ser divulgada amplamente nos dias de hoje... 

First we take Manhattan



(Radio announcer's voice)
Was die Attentäter betrifft, die in Berlin den Anschlag auf die Deutsch-Arabische Gesellschaft verübt haben, ist die Polizei einen Schritt weiter gekommen. Die jetzt nach dem Anschlag...

They sentenced me to twenty years of boredom
For trying to change the system from within
I'm coming now, I'm coming to reward them
First we take Manhattan, then we take Berlin

I'm guided by a signal in the heavens
I'm guided by this birthmark on my skin
I'm guided by the beauty of our weapons
First we take Manhattan, then we take Berlin

I'd really like to live beside you, baby
I love your body and your spirit and your clothes
But you see that line there moving through the station?
I told you, I told you, told you, I was one of those

Ah you loved me as a loser, but now you're worried that I just might win
You know the way to stop me, but you don't have the discipline
How many nights I prayed for this, to let my work begin
First we take Manhattan, then we take Berlin

I don't like your fashion business mister
And I don't like these drugs that keep you thin
I don't like what happened to my sister
First we take Manhattan, then we take Berlin

I'd really like to live beside you, baby ...

And I thank you for those items that you sent me
The monkey and the plywood violin
I practiced every night, now I'm ready
First we take Manhattan, then we take Berlin

I am guided

Ah remember me, I used to live for music
Remember me, I brought your groceries in
Well it's Father's Day and everybody's wounded
First we take Manhattan, then we take Berlin

Sábado, Maio 16, 2009

Enfim!

Vale a pena conhecer essas minipalestras sobre quase qualquer coisa. É realmente uma excelente notícia saber que estão sendo traduzidas. No dia em que for possível uma tradução rápida e confiável de um Arts & Letters Daily, por outro lado, eu saberei que este planeta estará abrigando uma civilização realmente avançada. 

TED’s Rosetta Stone Effect

In an effort to go global, conference organizers are crowd-sourcing translations of their renowned 18-minute lectures.

Nick Summers
Newsweek Web Exclusive
May 15, 2009 | Updated: 7:00  p.m. ET May 15, 2009

Go to TED.com, the popular home of 18-minute lectures on mind-bending topics, and you'll see this slogan: "Riveting talks by remarkable people, free to the world." Riveting, sure. Remarkable, definitely. But is that last part really true when the lectures are available only in English, a language not spoken by 75 percent of the globe?

To address the problem and expand its reach, the organization has initiated the TED Open Translation Project, an ambitious and experimental effort to translate as many of its videos into as many languages as possible, using a crowd-sourced army of untrained linguists.

How it works: TED has prepared official English transcripts for each of the 400-plus videos in its library. From there, amateurs around the world are invited to bring the text into their own tongues. Quality controls—two fluent speakers must agree on each new text, and TED has final publishing authority—aim to keep each speaker's ideas intact across language and cultural barriers. Some work has already begun, so the project is launching with 300 translations in 40 languages, from French to Finnish, Korean to Kannada.

The end result is triply cool: viewers at TED.com can hear, say, Hans Rosling present poverty statistics in English, while viewing subtitles in Farsi and scrolling through a clickable transcript in Italian. June Cohen, executive producer of TED Media, calls it a "Rosetta Stone effect." She spoke to NEWSWEEK's Nick Summers about the complexities of global collaboration and ensuring elaborate ideas aren't lost in translation. Excerpts:

SUMMERS: When did you first realize a need for translation at TED, and how did you arrive at the crowd-sourcing approach? 
COHEN: Ever since we first launched the series, we've been getting requests from people who not just wanted to share the talks, but who wanted to translate for us. "I just translated Ken Robinson's talk into Polish; do you want it? I want to be able to share this." We didn't really know what to do with them. What we needed was an infrastructure for bringing subtitles and translation to the site.

So volunteers were always part of it. But initially, we focused on professionals, because of course we take what we do seriously, and we think it's really important that our speakers' words be faithfully translated. And over the course of the project, we flip-flopped on that, and went from emphasizing professionals … to a project that emphasizes volunteer translation, and is seeded with a few professionally translated talks.

What kinds of things have you discovered so far?
All of the reasons that we emphasized volunteer translation have been panning out. They're collaborating with each other, spotting errors, even finding flaws in our professional translations—which was a real turnaround from where we thought we'd be at the beginning.

Tens of millions of people speak Tamil [an Indian language], but we're just never exposed to it in the U.S. Even Hausa, or Pashto, have 20 or 30 million speakers, but it's very, very hard to find professional translators. So there's a kind of magical aspect of the site, the magic of language.

What do you hope will happen, broadly speaking, once the translations begin to accumulate? 
So far, we've begun to open up a global conversation on what we think are some of the most interesting ideas of our day, but that conversation is happening only in English. And you can't have a global conversation if you're not speaking to 75 percent of the world's population. So our hope, on several levels, is that the inspired ideas within the TED Talks can spread throughout the world and inspire people. But the ultimate effect this has on people is unpredictable.

Are there similar efforts out there that you were able to draw from? 
There were only a couple of leading projects from which we could draw best practices. This project is still fairly rare. One is Wikipedia, which deals with text content. Another is Mozilla, which does crowd-sourced translations for the Firefox browser.

We're completely different in terms of the mechanics of translation. We have video subtitles, and they have words in a command box or menu. But they have lots of interesting ideas about how to coordinate among communities, how to motivate, how much control to exert, how much freedom to give.

How are your translators going to approach idioms?
We have style guidelines that we wrote up ahead of time, to help them navigate the difficult decisions they'll face. For strange idioms, we ask them not to translate word for word—that'd be meaningless. Is there a similar idiom in the language they're translating to? If not, try to translate in the clearest way possible.

The most important thing is to capture their meaning, but also their tone and style and humor. TED Talks are many things, but they're informational at their core. They're also inspired, they're also humorous, they're also poetic, but they are at their essence conveying information.

What are some of the challenges that you foresee? 
It's tricky; TED Talks are very personality-driven. They're not simple, even for professional translators. They cover so many topics, everything from physics to philanthropy. And each of the speakers is at the edge of their field, and at the edge of their language, very modern. It's sometimes based on jargon, but always focused on forward-looking concepts.

The good news is that volunteers tend to translate the talks that they loved, that moved them, that they get passionate about, so they're willing to research them and get it right.

URL: http://www.newsweek.com/id/197845

Quarta-feira, Maio 13, 2009

Governo cria site com documentos e dados sobre a ditadura

Lula diz que abertura de arquivos da ditadura não é questão de revanchismo

Publicada em O GLOBO online, 13/05/2009 às 15h43m

Chico de Gois e Bernardo Mello Franco; Agência Brasil

 BRASÍLIA - Ao discursar na cerimônia de anúncio de iniciativas do governo federal para facilitar o acesso a informações públicas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a ação não deve ser vista como revanchismo por parte dos militares, que frequentemente se opõem à abertura de arquivos do tempo da ditadura (1964-85). Lula observou que a democracia ganhará quando se conseguir "desvendar alguns mistérios" que continuam sem solução, numa referência indireta ao paradeiro de 140 desaparecidos políticos durante o regime militar.

Vamos prestar um serviço à democracia brasileira na hora que a gente conseguir desvendar alguns mistérios que ainda persistem na nossa história

- Estou convencido que nós vamos prestar um serviço à democracia brasileira na hora que a gente conseguir desvendar alguns mistérios que ainda persistem na nossa história - afirmou o presidente, durante o lançamento do site "Memórias Reveladas" , que colocará à disposição da população, na internet, documentos sobre a ditadura militar. ( Áudio: Lula diz que lançar o site foi uma mudança de página na história do Brasil )

Lula também declarou que o acesso à informação é essencial e que, quando deixar o governo, em 2010, se tiver feito algo de errado, a informação deve se tornar pública. A nova lei, encaminhada ao Congresso Nacional, tem um princípio básico: informações sobre direitos humanos não poderão nunca ser ocultadas.

- E que ninguém veja isso como se fosse revanchismo porque daqui a um ano e meio deixarei o governo, e tudo o que eu fizer de errado, quem vier depois de mim, tem mais é que dizer as coisas que eu fiz de errado e que eu não posso achar que a pessoa está me perseguindo - disse.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), ambos perseguidos na época da ditadura e pré-candidatos à sucessão presidencial no ano que vem, participaram da solenidade.

( Leia mais: Ao lado de Dilma e Serra, Vanucchi diz que alternância de poder é saudável )

Para Lula, o direito à informação pública é um dos mais eficazes instrumentos de combate ao arbítrio e à corrupção.

- O anteprojeto contém dispositivos que possam garantir que as instituições do Estado não possam ocultar violações de direitos humanos cometidas pelos seus agentes ou a mando dos mesmos - informou.

Dilma: Criação de portal acaba com 'cultura de segredo de Estado'

Para Dilma, a criação de um portal para colocar à disposição da população, na internet, documentos sobre a ditadura militar acaba com a "cultura do segredo de Estado".

- Ela (a cultura do segredo de Estado) está sendo superada pelos esforços do governo e da sociedade - disse a ministra.

O portal Memórias Reveladas vai tornar disponíveis informações do período de 1º de abril de 1964 a 15 de março de 1985. Os documentos foram recolhidos dos extintos Serviço Nacional de Informações (SNI), Conselho de Segurança Nacional (CSN) e Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

Também foi assinado nesta quarta, durante evento no Palácio Itamaraty, uma portaria para que os arquivos sobre a ditadura militar em mãos de particulares sejam entregues ao governo.

 

Domingo, Maio 10, 2009

Para jovens e não tão jovens

Uma série encantadora que achei por acaso na TV Cultura: http://www.tvcultura.com.br/tudooqueesolido.