domingo, maio 30, 2010

Efeitos colaterais

Não se desenterram fotos velhas sem efeitos colaterais. Pedaços de vida, sombras de sentimentos, não raro gratidão por tê-los vivido (mas nem sempre...). Por acaso esbarrei em uma, nem tão velha (até recente demais na memória afetiva), no álbum de conhecidos e seu impacto ainda não passou. Por que aquela imagem e não outra? Por que essa e não as muitas que guardo nos meus arquivos? Não sei, tampouco importa. Mas vagando rede afora, eis que cruzei com esta imagem, que bem traduz... um desejo, talvez? Uma constatação resignada? Um vaticínio? Um mau presságio? Não sei também. Mas ela bem traduz esse estado peculiar de espírito e sua perspicácia direta merece que eu a apresente aqui.



E assim finda mais um lindo dia de outono. A beleza da vida está mesmo nas pequenas coisas.

sexta-feira, maio 28, 2010

O Colégio de Todas as Almas




Há pouco tempo comecei a dar aula em uma universidade federal. Na verdade, sou professor há três anos no nível superior, mas é a primeira vez que trabalho em uma universidade pública, e ainda estou "reconhecendo o terreno". Até agora o que mais me tem excitado a curiosidade, já que lido diretamente com a graduação, é ver que tipo de mente se tem formado ali.

A curiosidade pode ser ingênua, especialmente considerando que já passei por uma universidade pública antes, com aluno. Mas não é tanto quanto parece. Quando me referi ao tipo de mente, estou na verdade pensando no tipo de aspiração intelectual que ali se desenvolve. Que ideais se alimentam, que níveis esperam alcançar? Têm uma identificação real com o que aprendem, usam isso para sua formação espiritual também, ou tudo é mais uma questão de gosto, como um passatempo, ou oportunidade profissional? Teriam eles gosto e talento para responder perguntas como esta:

"O governo era melhor informado por volta de 1700 do que tnha sido por volta de 1500?"

ou

"Os dados de Deus estão sempre viciados. [Emerson] Discuta."

ou ainda

"A legitimidade política requer justiça?"

e até

"Já houve alguma época que não tenha sido uma era da informação?"


Estas são apenas algumas das questões do exame do All Souls College, uma das várias subunidades de Oxford. Segundo esta matéria, para se tornar um fellow nessa venerável instituição, pessoas dotadas de um currículo do mais alto calibre intelectual devem passar no que seria o "exame mais difícil do mundo". Parte dele consistia em escrever um ensaio coerente sobre um tema que se resumia a um único substantivo: "água", "inocência", "harmonia" etc. Muita gente admirável não conseguiu, e agora a administração do ASC desistiu dessa forma de avaliação. Nenhum absurdo, dado que o resto da avaliação já é um desafio considerável. Naturalmente, cá fico eu pensando em como me sairia numa seleção dessas, e o quão divertido poderia ser. Olhando as perguntas acima -- metade das questões são da área de especialidade do candidato, e a outra metade de "conhecimentos gerais" --, tenho lá minhas dúvidas se o tipo de candidato que o ASC espera é o mesmo que frequenta nossos corredores universitários. Afinal, diante de questões assim, é impossível não pensar no aspecto lúdico do conhecimento -- não vejo um acadêmico convencional respondendo-as, e sim aqueles para quem o conhecimento que acumulam é acima de tudo uma forma de prazer, um deleite mental que por acaso costuma ser (às vezes?) remunerado. Se é assim, é o tipo de pessoa a que aspiro ser; e mais do que isso, o tipo de pessoa que espero um dia inspirar outros a ser.

Para mim, intelectualidade é isso. Não, não é ter opinião sobre tudo, nem querer bancar o guia iluminado da humanidade (embora essa seja uma tentação quase irresistível para o erudito suficientemente autoconfiante). Quantas pessoas assim eu conheci nos 14 anos em que tenho frequentado universidades? Poucas, e estou incluindo os professores. E isso me dá o que pensar.

Transcrevo a matéria que me apresentou o ASC. A lista das perguntas já feitas podem ser encontradas aqui.

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Oxford Essay Tradition Comes to This: ‘Death’ (Please Expound)

OXFORD, England — The exam was simple yet devilish, consisting of a single noun (“water,” for instance, or “bias”) that applicants had three hours somehow to spin into a coherent essay. An admissions requirement for All Souls College here, it was meant to test intellectual agility, but sometimes seemed to test only the ability to sound brilliant while saying not much of anything.

“An exercise in showmanship to avoid answering the question,” is the way the historian Robin Briggs describes his essay on “innocence” in 1964, a tour de force effort that began with the opening chords of Wagner’s “Das Rheingold” and then brought in, among other things, the flawed heroes of Stendhal and the horrors of the prisoner-of-war camp in the William Golding novel “Free Fall.”

No longer will other allusion-deploying Oxford youths have the chance to demonstrate the acrobatic flexibility of their intellect in quite the same way. All Souls, part of Oxford University, recently decided, with some regret, to scrap the one-word exam.

It has been offered annually since 1932 (and sporadically before that) as part of a grueling, multiday affair that, in one form or another, has been administered since 1878 and has been called the hardest exam in the world. The unveiling of the word was once an event of such excitement that even non-applicants reportedly gathered outside the college each year, waiting for news to waft out. Applicants themselves discovered the word by flipping over a single sheet of paper and seeing it printed there, all alone, like a tiny incendiary device.

But that was then. “For a number of years, the one-word essay question had not proved to be a very valuable way of providing insight into the merits of the candidates,” said Sir John Vickers, the warden, or head, of the college.

In a university full of quirky individual colleges with their own singular traditions, All Souls still stands out for the intellectual riches it offers and the awe it inspires. Founded in 1438 and not open to undergraduates, it currently has 76 fellows drawn from the upper echelons of academia and public life, most admitted on the strength of their achievements and scholarly credentials.

Previous fellows include Sir Isaiah Berlin, Sir Christopher Wren, William Gladstone and T. E. Lawrence (of Arabia). Hilaire Belloc and John Buchan are said to have failed to get in. In recent years, fellows have included a Nobel Prize winner, several cabinet members, a retired senior law lord and a lord chancellor.

In addition, two young scholars are chosen each year from among Oxford students who graduated recently with the highest possible academic results. Called examination fellows, they get perks including room and board, 14,783 pounds (about $21,000) a year for a seven-year term and the chance to engage in erudite discussions over languorous meals with the other fellows.

But first they have to take the exam. It consists of 12 hours of essays over two days. Half are on the applicants’ academic specialties, the other half on general subjects, with questions like: “Do the innocent have nothing to fear?” “Isn’t global warming preferable to global cooling?” “How many people should there be?” and the surprisingly relevant, because this is Britain: “Does the moral character of an orgy change when the participants wear Nazi uniforms?”

Those are daunting enough. But it is the one-word-question essay (known simply as “Essay”) that candidates still remember decades later. Past words, chosen by the fellows, included “style,” “censorship,” “charity,” “reproduction,” “novelty,” “chaos” and “mercy.”

It was not a test for everyone.

“Many candidates, including some of the best, seemed at a loss when confronted with this exercise,” said Mr. Briggs, a longtime teacher of modern history at Oxford.

Others found it exhilarating. “Brilliant fun,” a past applicant named Matthew Edward Harris wrote in The Daily Telegraph recently, recalling his 2007 essay, on “harmony.”

He had resolved, he said, that “No matter what word I was given, I would structure my answer using Hegel’s dialectic.” And then, like a chef rummaging through the recesses of his refrigerator for unlikely soup ingredients, he added a discussion of Kant’s categorical imperative and an analysis of the creative tensions among the vocalists in Crosby, Stills, Nash and Young (he didn’t get in).

The writer Harry Mount, an Oxford graduate and the author of “Carpe Diem: Put a Little Latin in Your Life,” didn’t get in, either. His essay, in 1994, was on “miracles.”

What was in it?

“Crying Madonnas in Ireland, that sort of thing,” Mr. Mount said. “And the battle between faith and cynicism. I was a cynic and didn’t believe in miracles, and perhaps that was bad. I had just read about Karl Popper and his theory of falsification, so I threw in a bit about that.”

Justin Walters, the founder and chief executive of Investis, an online corporate communication service company, said that writing his essay, on “corruption,” was not half as bad as the oral exam several weeks later, conducted by a long row of fellows peering across a table.

“ ‘Mr. Walters, you made some very interesting distinctions in your essay. Are you prepared to defend it?’ ” he remembered one of the fellows asking. Unfortunately, he had only a vague recollection of what he had written. “You’re the teacher — you figure it out,” he recalled thinking. (He must have done something right: he got in.)

Sir John, the current college warden, has worked as the Bank of England’s chief economist and been president of the Royal Economic Society, among other jobs. He draws a self-protective veil over the memory of his own essay, in 1979, on “conversion.”

“I do shudder at the thought of what I must have written,” he said.

domingo, maio 23, 2010

Eterno retorno

É curioso. Dias divertidos, trabalho agradável, rotina... E, como que do nada, uma pequena sombra recai sobre o humor, um toque de cinza colore um horizonte radioso, e um ritmo particular dita a sucessão dos pensamentos. Um ritmo familiar, na verdade, que trai algo de muito profundo, uma canção ao mesmo tempo abissal e bela... E aí, como de outras vezes, estes versos ressurgem, vigorosos e fascinantes.

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      O CORVO
      (de Edgar Allan Poe)

    Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
    Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
    E já quase adormecia, ouvi o que parecia
    O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
    "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

    É só isto, e nada mais."

    Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
    E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
    Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
    P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

    Mas sem nome aqui jamais!

    Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
    Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
    Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
    "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
    Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

    É só isto, e nada mais".

    E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
    "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
    Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
    Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
    Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

    Noite, noite e nada mais.

    A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
    Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
    Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
    E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
    Eu o disse, o nome
    dela, e o eco disse aos meus ais.

    Isso só e nada mais.

    Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
    Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
    "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
    Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
    Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

    "É o vento, e nada mais."

    Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
    Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
    Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
    Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
    Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

    Foi, pousou, e nada mais.

    E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
    Com o solene decoro de seus ares rituais.
    "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
    Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
    Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
    Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
    Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
    Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
    Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

    Com o nome "Nunca mais".

    Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
    Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
    Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
    Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
    Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
    "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
    Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
    Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
    E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais

    Era este "Nunca mais".

    Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
    Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
    E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
    Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
    Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

    Com aquele "Nunca mais".

    Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
    À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
    Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
    No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
    Naquele veludo onde
    ela, entre as sobras desiguais,

    Reclinar-se-á nunca mais!

    Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
    Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
    "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
    O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
    O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
    A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
    A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
    Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
    Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
    Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
    Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
    Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
    Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
    Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
    No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
    Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
    E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

    Libertar-se-á... nunca mais!

    (Tradução de Fernando Pessoa, no ritmo do original)

quinta-feira, maio 20, 2010

Chico Xavier, detetive do Além

A tão falada matéria sobe Chico Xavier na antiga O Cruzeiro. Foi durante a pesquisa para ela que os dois jornalistas, que tinham se feito passar por estrangeiros, receberam os exemplares de uma das obras psicografadas por Chico, na qual havia uma dedicatória assinada pelo seu guia do médium, Emmanuel, saudando-os pelo nome. Décadas depois, em depoimento televisivo recentemente reproduzido num especial do Arquivo N da Globonews, Nassar contaria o episódio com visível embaraço e até um certo temor.

A página original está no portal Memória Viva, que tem várias matérias da revista.

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O Cruzeiro - 12 de agosto de 1944

Chico Xavier, detetive do Além

Texto de David Nasser e Fotos de Jean Manzon

Era uma vez um moço ingênuo e feliz, vivendo numa cidadezinha ingênua e feliz, perto de Belo Horizonte. O moço se chamava Francisco Cândido Xavier e não desmentia o nome. A cidadezinha, Pedro Leopoldo, arrastava suas horas de doce paz, entre as missas de domingo e a chegada do trem da capital. Não se sabe como, numa noite ou num dia, Chico se mostrou inquieto e desandou a escrever. Terminando, disse, apenas, à família assustada: - "Não fui eu. Alguém me empurrava a mão". Desce êsse dia ou essa noite, Chico Xavier perdeu o sossêgo e também o de sua cidade. Turistas chegavam, atraídos pela fama do moço-profeta. Pedro Leopoldo ia crescendo e Chico Xavier ia ficando importante. Nunca mais teve paz. Nunca mais pôde sair pela rua, sem ouvir um pedido de saúde ou uma prece de gratidão. Se ao menos fôsse só isto. Era mais, muito mais. Eram os curiosos do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte, pedindo consultas ou detalhes pelo telefone interurbano. Era a legião de repórteres em busca de novas mensagens. O representante da editôra insistindo por outros livros. Os centros espíritas de todo o país solicitando pormenores. Uma vida infernal, agitada, barulhenta sacudia o pobre rapaz.

As luzes dos lampiões da cidadezinha nunca mais dormiram sem a presença de um estrangeiro, rondando pelas ruas dantes tão sossegadas.

Fixaremos, precisamente, a violenta mudança de vida de Chico Xavier e da cidade de Pedro Leopoldo. Não nos interessa, embora pareça estranho, o medium Chico Xavier, mas a sua vida. Os seus trabalhos psicografados - ou não psicografados - já foram assunto de milhares de histórias, divulgadas desde 1935. Se são reais ou forjadas, decidam os cientistas. Se êle é inocente ou culpado dirão os juízes. Se êle é casto, instruído, bondoso, calmo, diremos nós. Porque não somos detetives do além.

Se os espíritos nos ouvem, êles sabem que não acreditamos em suas mensagens, nem desacreditamos de suas virtudes literárias. A verdade é que não temos a bravura indispensável para avançar sôbre o terreno pantanoso do outro mundo e analisar suas reais ou irreais comunicações utilizando aparelhos de escuta com êste pálido e sensitivo Chico Cândido Xavier. Desde que saímos daqui, levávamos a inabalável determinação de fazer uma reportagem sem complicações, apesar do assunto em sua natureza extra-terrena mostrar-se absolutamente complicado. Assim é que o senhor, amigo, chegará ao fim destas linhas sem obter a certeza que há tanto tempo procura: "É Chico Xavier um impostor ou não é?" E dirá: - "Não conseguiram desvendar o mistério!" Sim, o mistério continuará por muito tempo. Eternamente. E Chico Xavier morrerá, sem revelar o segrêdo de sua extraordinária habilidade ao escrever de olhos fechados, se é mágico, ou de seu fantástico virtuosismo, ao chamar, além das fronteiras da vida, as almas dos imortais, fazendo-os recordar os velhos tempos da Academia. Nossa intenção é mostrar o homem. Sem o espírito dentro de si, nos momentos vulgares, Chico Xavier é adorável, cândido, maneiroso, humilde, um anjo de criatura. A frase de uma vizinha define melhor: - "Sabe, moço? O Chico é um amor". Justamente dêsse tipo desconhecido, da parte anônima de sua devassada vida, é que tratamos, na hora e meia que permanecemos em Pedro Leopoldo. Para começar, diremos que Chico nunca teve uma namorada.

O tempo de viagem de Belo Horizonte a Pedro Leopoldo não vai além de hora e meia. A meio caminho, encontramos a fazenda federal onde Chico Xavier é dactilógrafo. O motorista não quer entrar. - "Aí, não. Até os zebus são atuados". O diretor, Rômulo, está na horta, sòzinho. Êle nos dará, talvez, esclarecimentos sôbre a vida de Chico e, quem sabe, facilitará o encontro com o sensitivo. Ouve o pedido. Depois, lentamente, abana a cabeça e o seu "não" é inflexível, desde o primeiro minuto. Alega um milhão de coisas. Que Chico anda cansado e precisa repousar. Um de nós lembra a possibilidade dêle, diretor, dar umas férias a Chico. - "O Chico funcionário nada tem a ver com o outro Chico". Apresentadas as despedidas, êle adverte: - "Não creio que será possível aos senhores um encontro com êle. Creio que vão esperar até sexta-feira".

Voltamos a deslizar pela estrada, neste sábado negro. A cidade aparece depois de uma curva. - "Onde fica a casa do Chico Xavier?" O menino aponta a igreja. - "Ali, na rua da matriz. Ele mora com a família". Encontraríamos, em várias oportunidades, a mesma designação do pessoal do município: êle. Todos apontavam Chico, sem recorrer ao nome. Êle só podia ser êle. - "Minha irmã foi curada por êle".

Ei-lo aqui, diante de nós. Veio a pé da fazenda e em sua companhia um senhor do Rio, que algumas vêzes vem passar semanas com o medium. - "Gosto de falar com êle. É um rapaz de cultura. Discute vários assuntos, lê um pouco de inglês e de francês. Devora os livros com fúria. Trouxe-lhe, há dias, "O homem, êsse desconhecido" e êle não gastou mais de quatro horas e meia para ler o volume gordo. É um prazer para êle. Seu único amor é o espiritismo".

Chico, perto de nós, não está ouvindo a palestra. Conversa com Jean Manzon. Devemos esclarecer que não dissemos qual a organização jornalística em que trabalhávamos. Queríamos ver se o espírito adivinhava. Não houve oportunidade.

Chico parecer ser um bom sujeito. Suas ações, mesmo fora do terreno religioso pròpriamente dito, são ações que o recomendam como alma pura e de nobres sentimentos. Vão dizer, os espíritas, que é natural: todo o espírita dever ser assim. Sei de um que não teve dúvida em abandonar a espôsa, o lar, sete filhos, um dos quais doente do pulmão.
- "Na rua, entre seus irmãos de seita, - disse-me um dos filhos - êle se mostrava esplêndido, generoso, cordial. Em casa, por pouco não botava fogo nas camas, à noite. Parecia um verdadeiro demônio. Guardava até alface no cofre-forte”.

Já o Chico não é assim. Sua nobreza de caráter principia em casa. Todos os seus irmãos e irmãs louvam a sua generosa e invariável linha de conduta, protegendo-os, hora a hora, dia a dia, através dos anos, trabalhando como um mouro. Um de seus sobrinhos sofre de paralisia infantil. Atirado a um berço, chora eternamente. Sòmente o Chico vai lá, fazer companhia ao garôto, às vêzes uma noite inteira.
- Chico!
- Que é, meu senhor?
- Você lê muito?
- Não. Só revistas e jornais.
- O outro disse...
-Disse o quê.
- Nada.


Êle nos olha, surprêso, quando a pergunta, como um busca-pé, sai correndo pela sala:
- Você, não pensa em se casar, Chico?
- Eu, casar? (Dá uma gargalhada) - Claro que não.
- Não namora?
- Nunca.
- Por que?
- Não há razões. Não gosto. Tenho outras preocupações. Ora, eu namorando... Tinha graça...
- Chico...
- Que é?
- É verdade que o padre desafiou você para um duelo verbal?
- Êle disse pra eu ir à igreja discutir. Não é lugar próprio.
- Você gosta do padre, Chico?
E êle, o ingênuo e feliz Chico, respondeu:
- Ué, eu gosto do padre, mas êle não gosta de mim.
- Chico...
- Que é?
- Onde estão suas mensagens?
- Um irmão levou tudo, em vista de tantas complicações.
- Você vai ao Rio?
- Até agora, nada resolvemos. Possìvelmente, mandarei uma procuração.

Numa estante, os livros de Chico. Versos de Guerra Junqueiro, Tolstoi e uma porção de autores mortos. Na sala do lado está a mesa onde êle recebe as mensagens. Uma papelada branca, pronta para ser coberta pelas mensagens do outro mundo. Sexta-feira houve mais uma sessão, desta vez presidida pelo chefe do executivo municipal. Humberto de Campos não compareceu mas o Emanuel, guia de Chico, lá estava. Quem é Emanuel? Um romano que existiu na mesma época de Jesus e conta um mundo de coisas interessantes sôbre a terra, naqueles tampos de há dois mil anos.
- Êle dita?
- Vou psicografando as mensagens. Há outros mediuns, como um norte-americano, que ouve as vozes dos espíritos tão alto que os presentes também escutam. Eu ouço. Os outros, que estão perto, não.
- Chico...
- Que é?
- Já teve oportunidade de falar com espírito de homens célebres?
- Homens célebres?
- Napoleão, para um exemplo, já falou consigo?
- Que eu saiba, não. Os assuntos bélicos não são freqüentes, nas mensagens que recebo do além. Há seis anos, entretanto, meu guia Emanuel previu os principais acontecimentos que hoje revolucionam a terra. Êle disse: - "A vitória da fôrça é fictícia".
O cavalheiro do Rio acode:
- E o próprio Chico, meses antes, previu a queda da Itália. Êle disse, categòricamente, que a Itália seria a primeira a cair. E a Itália foi a primeira a cair.

Pedro Leopoldo é a cidadezinha de uma rua grande e uma porção de ruas pequenas, convergindo para ela como servos humildes do rio principal. A casa de Chico é uma das melhores do lugar. Três quartos, sala e cozinha. O banheiro é lá fora, no fundo do quintal, ao lado do galinheiro. Chico se levanta de madrugada e vai dar milho às galinhas. Depois, sua irmã solteira faz o café, que êle toma com pão dormido, porque o padeiro ainda não chegou. Apanha a pasta de documentos da fazenda federal, e vai andando pela estrada, ainda coberta pela neblina. Volta para almoçar às onze horas. O expediente se encerra às dezoito horas, mas Chico, nestes dias de maior trabalho, faz serão. Sua vida é frugal. - "Quero que compreendam o seguinte: não vivo das mensagens de além-túmulo. Tenho necessidade de trabalhar para sustentar minha família. Se quase me dedico inteiramente a receber as comunicações, ainda se entende. O pior, entretanto, é a onda de gente que vem do Rio, de São Paulo e de todos os Estados".
- Peregrinos?
- Mais ou menos. Não posso deixar de recebê-los, pois fico pensando que vieram de longe e necessitam de consôlo. Isto leva tempo, toma tempo. Como se não bastassem essas preocupações, o telefone interurbano não pára dia e noite. - "Chico, Rio está chamando... Chico, Belo Horizonte está chamando... Chico, São Paulo está chamando... Chico, Cachoeira está chamando..." Evito atender, mesmo constrangido. Meu Deus! Eu não quero nada, senão a paz dos tempos antigos, o silêncio de outrora. Quero ser de novo aquêle Chico sossegado e tranqüilo que apenas se preocupava com as coisas simples...
- Impossível a viagem de volta...
- Impossível? Não, não é impossível. Eu voltarei a ser aquêle sossegado Chico. Não tenha dúvida.
O repórter imagina, a essa altura, que êle acredita na possibilidade de suas comunicações, com o além serem repentinamente suspensas. Vai perguntar ao Chico, mas uma senhora de côr negra entra na sala, carregando um benjamim de olhos assustados.
- "Trago para o senhor, Seu Chico..."
Êle segura com trinta mãos, cheio de cuidados, o bebê e o bebê faz um berreiro dos diabos, agita as pernas, sacode as pernas dentro da prisão dos braços de Chico. Êle sorri e devolve o menino à mãe.
- Meu sobrinho - explica o profeta Chico - é nervoso e fica dêste jeito. Sabe por que? Êle sofre de paralisia infantil.
- Não tratam dêle?
- Não temos recursos. Já deixei claro que não recebo um centavo pelas edições dos livros que me chegam do além. Assino um documento autorizando a livraria da Federação Espírita Brasileira a editá-los e, sòmente após ficarem impressos, recebo uns cinco ou dez exemplares, para dar aos amigos.
Vamos atravessando a sala e entramos num dos quartos. Na parede, prateleiras repletas de livros. Remédios à base de homeopatia, que Chico recomenda. Não sei porque os espíritos manifestam estranha aversão pela alopatia e suas drogas, receitando sempre combinações homeopáticas. Perto dos vidros, um armário cheio de livros. As obras de guerra conta a Santa Sé, assinadas por Guerra Junqueiro, ainda em vida. Os livros de Flammarion e de Alan Kardec, mas não os psicografados, misturados com volumes de propaganda anticlerical. Na parede, dependurado, um velho pandeiro.
- Quem toca pandeiro nesta casa?
Chico sorri o sorriso beatífico e diz que não é êle.
- Alguns espíritos?
O sorriso beatífico desaparece.
- Os espíritos não tocam pandeiro.

Saímos para a rua, hoje, sábado movimentado. O povo de Pedro Leopoldo passeia diante da Igreja que domina de forma esquisita a casa do humilde psicógrafo que Clementino de Alencar, certo dia, foi roubar de sua vida serena há dez anos. Hoje, Pedro Leopoldo é a Jerusalém do credo de Kardec. Já tem hotel e telefone. O povo de lá, por estranho que possa parecer a quem não conhece pessoalmente o nosso amigo Chico, revela invariável amizade. Será orgulho pela celebridade que êle deu ao município? Sim, porque antes de Chico, Pedro Leopoldo nem existia nos mapas de Minas Gerais. Gostam dêle, de seus modos, de sua cara asiática, onde um dos olhos empalideceu sùbitamente, como um farol apagado em pleno caminho da luz. A cidade tem uns treze mil habitantes, contadas as aldeias próximas, mas, espíritas, uns quatro ou cinco. Todos apreciam Chico, gregos e troianos. Gostam, mas preferem não rezar o seu catecismo. Êle não se importa. Não procura convencer ninguém à fôrça de seu estranho e discutido poder. Quando a carta precatória, intimando-o a depor, chegou a Pedro Leopoldo, Chico leu devagarinho e abanou a cabeça. - "Eu não posso mandar uma intimação judicial às almas!" E não deu mais importância ao caso.

Até à volta, sereno Chico. De tôdas as pavorosas complicações, você é o menos culpado. Parece uma caixa de fósforo num mar bravio. Uma velha beata de Pedro Leopoldo me disse que isto é castigo: - "Castigo, sim, nhô moço... Antão, êle telefona pro inferno e manda chamar os espíritos e depois num quer se aborrecer?"

Já o trombonista de Pedro Leopoldo deve pensar diferente: - "Por que será que o Chico só sabe receber mensagens escritas? Por que não recebe músicas de Beethoven, de Chopin, de Carlos Gomes?"

Êle, o moço amável de Pedro Leopoldo, não dá maior atenção aos comentários e vai levando como pode a sua vida. É pena, entretanto, que êle não tenha as qualidades artísticas que vão além do terreno literário. Se fôsse assim, Pedro Leopoldo teria, senhores, não apenas o psicógrafo Chico, mas também o músico Chico, o pintor Chico, o profeta Chico. Isto mesmo: o profeta Chico.

quarta-feira, maio 19, 2010

domingo, maio 16, 2010

O outro lado

Você sabe quem é este bebê?



Eu olho para ele e me acomete certa melancolia. Aparentemente aturdido com o que deve ser a primeira vez que vê uma câmera, daqueles enormes modelos antigos de lambe-lambe, ele me passa a vontade de lhe dar colo, de tomá-lo nos braços e anacronicamente desviá-lo de uma vida de decepções, rancores e batalhas. Vendo-o assim, tão pequeno e frágil, como não pensar que isso seria possível? Que se tal evento tivesse sido diferente, que se determinada coisa pudesse ter acontecido... Mas a história desconhece o se. Para ela, quando muito, só existe o "Foi assim". E apesar disso, eu me recordo de um texto ouvido há muito tempo em um centro espírita, que dizia mais ou menos isso: que todos tinham um outro lado, e que mesmo aquele que para nós é o pior criminoso, é ou foi o amigo, filho, esposo ou pai de alguém; que há sempre um outro lado pelo qual se pode vê-lo, e que nossa perspectiva acusatória, por mais justa que nos pareça dentro de nossas circunstâncias pessoais, nem por isso é absoluta. Coisa óbvia, mas da qual esquecemos com muita frequência em um mundo a todo tempo clamando por vinganças e punições exemplares.

Hoje, vendo essa foto e lendo um pouco da biografia desse bebê, compadeci-me dele. É bem provável que, se tivéssemos compartilhado a mesma época e sobretudo a mesma região, isso fosse bem mais difícil. Mas aí entra a questão da circunstância mais uma vez: a posição de oponente ou vítima não nos dá necessariamente maior claridade moral para julgar alguém, apenas cria ênfase nos aspectos negativos. Isso é normal, é humano, mas não deve ser a única possibilidade. Porque, afinal de contas, uma perspectiva mais alta é sempre possível e desejável. E como dizia Buda no Dhammapada: "Jamais se extingue o ódio com o ódio. O ódio só se extingue com o amor, esta é a lei eterna".

Sim, somos responsáveis pelas escolhas que fizemos e arcamos com as consequências delas. Mas não é da natureza da compaixão que seja proporcional à necessidade dos que a recebem? E como negá-la àqueles que, neste mundo tão confuso e onde não raro há mais sombras que luzes, justamente mais dela precisam?

Enfim, nesta manhã de domingo, dediquei uma prece a esse menino, que um dia deve ter sido a luz de sua família, feito a alegria de sua mãe e encarnado as esperanças de seu pai. Que engatinhou por uma casa, encantou-se com as pequenas e inúmeras descobertas infantis, e todas essas coisas normais da infância... Hoje, enfim, eu lhe dediquei um pouco de minha simpatia naquilo que todos temos em comum, que é a condição básica de ser humano.

Seu nome era Adolf.

quinta-feira, maio 13, 2010

O mito do "grande amor"


Uma reflexão saudável sobre um dos "mitos" da nossa época.

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06/01/2010 10:43
A solidão essencial
O amor que nos resolve a vida é uma promessa enganosa
Ivan Martins

Arquivo Época
IVAN MARTINS
É editor-executivo de ÉPOCA

Acho que foi um professor de cursinho quem contou em classe o mito dos andróginos. Parte homem e parte mulher, esses seres eram tão completos e tão felizes que despertaram a inveja de Zeus. Irado, o patriarca do Olimpo disparou raios que separaram em duas cada uma das criaturas perfeitas. Desde então, elas vagam pelo mundo em busca de sua metade. São solitárias e incompletas. Somos nós.

Não sei o que os gregos queriam dizer ao criar essa lenda, mas a maneira como nós a interpretamos, modernamente, é muito clara: existe alguém lá fora que nasceu para nós. Enquanto não acharmos essa metade (o amor verdadeiro) jamais seremos felizes.

Muitos de nós acreditamos nisso o tempo todo. Outros acreditam apenas de vez em quando. Raro é encontrar alguém totalmente imune a essa espécie de esperança (ou seria armadilha?) romântica.

Mas eu às vezes me pergunto se essa é uma ideia construtiva. É saudável imaginar que a nossa felicidade não depende de nós, mas, sim, de outra pessoa qualquer? Mesmo sem tomar o mito dos andróginos ao pé da letra, milhões de pessoas adiam o futuro diariamente à espera de que a vida lhes traga um grande amor, aquele que vai colocar tudo nos eixos.

Eu pergunto de novo: essa é uma ideia saudável?

Há um livro do qual eu gosto muito que trata dessa questão – a ideia do amor romântico – como nenhum outro. Chama-se “Sem fraude nem favor, estudos sobre o amor romântico” e foi escrito pelo psiquiatra e psicanalista pernambucano Jurandir Freire Costa, uma das pessoas que melhor fala dos sentimentos e das emoções no mundo real (que é o contrário do mundo idealizado no qual a gente, sem perceber, passa a maior parte da nossa vida).

SAIBA MAIS

Nesse livro, Jurandir afirma que o amor romântico – ao contrário de tudo que nos dizem – não é natural e universal, não é incontrolável e nem é condição essencial à felicidade humana. Isso seriam apenas coisas em que se acredita.

Não vou reproduzir os argumentos minuciosos e nem a prosa erudita do escritor, mas essencialmente ele afirma que o amor exaltado, sublime e raro que nós endeusamos é uma invenção social (como a música) e uma crença (como a religião) que pode perfeitamente ser questionada e modificada. Não existe um jeito eterno e imutável de amar, diz ele. O amor e a forma de encará-lo sempre variaram ao longo da história. Se nosso jeito atual de amar nos parece opressivo, antiquado ou insatisfatório, que tal tentar outra forma de amar?

É estranho pensar no amor dessa maneira, não? Estamos acostumados a vê-lo como algo imutável, quase sagrado, que as pessoas têm ou não têm, conseguem ou não conseguem. Mas claramente não é assim. Ao redor de nós existem pessoas que tratam o amor de forma muito diferente entre si. Fulano é muito romântico, quase tonto, enquanto fulana é de um pragmatismo inquietante: sabe exatamente o que deseja e vai atrás. Essas são diferenças reais, que mostram que o bicho amor não é exatamente o mesmo para todo o mundo.
Quando se compara o nosso modo de agir e pensar com o das outras culturas, as diferenças ficam ainda mais óbvias.

Lembro de ter tido, anos atrás, uma conversa muito interessante com um amigo nissei que havia morado no Japão. Éramos os dois casados e eu me queixava das dificuldades do casamento. O amigo, mais velho, respirou fundo e me disse que, no Japão, eles achavam que casamento era uma coisa muito séria para ser decidida por paixão. Se você ia passar a vida com alguém, as compatibilidades eram mais importantes que o desejo.

Na hora achei aquilo esquisito, mas hoje percebo que ele estava sugerindo apenas outra forma de olhar para a mesma situação: diante da escolha do casamento, que tipos de sentimentos são mais importantes?

Nos últimos dias, eu tenho pensado muito em um aspecto particular da nossa ideologia do amor, aquele que diz que é impossível ser feliz sozinho. Não é só a música de Tom Jobim que afirma isso. Tudo que nos circunda brada a mesma mensagem. Ela está nos filmes, nas novelas, nas conversas. Ausência de parceiro é sinônimo de infelicidade, fracasso ou esquisitice. Ou tudo isso junto.

Talvez seja verdade que as pessoas sem parceiros tendem a serem menos felizes, mas o contrário certamente é falso: estar com alguém, ter alguém, não é garantia de felicidade.
A gente sabe disso, a gente vive isso, mas, socialmente, a gente não divide essa informação. Para todos os efeitos públicos, vale o seguinte combinado: se a pessoa está casada, ou tem um namorado bacana, sua vida está “resolvida”. Mas isso é falso, não?

Namorei uma vez uma moça cujo pai, um sujeito espetacular, casado com uma mulher encantadora, estava há meses numa terrível depressão. Eu olhava para o sujeito e não entendia. Ele tinha mulher, filhos, casa, profissão, amigos e... tinha desmoronado. Os motivos íntimos da derrocada talvez nem ele soubesse, mas a lição para mim foi clara: nossas questões interiores não se resolvem com a parceria amorosa, nem mesmo com a família.

Não adianta nos cercamos de um cenário de propaganda de margarina (mulher, filhos, cachorro, condomínio) porque, ao final, nossa felicidade depende de nós, das forças interiores que nós somos capazes de mobilizar. As pessoas que amamos nos ajudam, mas elas não substituem nosso amor próprio, nossa motivação e a nossa estabilidade. Precisamos das pessoas, mas precisamos ainda mais de nós mesmos.

É por isso que a promessa de felicidade amorosa às vezes me incomoda. Ela é falsa. Ela é uma forma de propaganda enganosa. Ele conduz as pessoas numa procura inútil por alguém que as faça sentir inteiras e completas, quando, na verdade, essa sensação de inteireza talvez seja inalcançável.

Se a gente olhar de novo para o mito do andrógino, talvez haja nele outra sabedoria a ser extraída: a de que nós, homens e mulheres, somos criaturas intrinsecamente solitárias. Vivemos em grupo, precisamos do grupo e buscamos conforto na intimidade do outro, no amor. Mas talvez seja da nossa natureza jamais nos sentirmos inteiros e completos.
Talvez haja em nós uma inquietação inextinguível e uma angústia que advêm da nossa própria consciência e que nos torna humanos. O amor seria então um alento, um consolo, uma fogueira que nos protege do frio. Mas o frio está lá. E a melhor medida da felicidade talvez seja a forma como lidamos com ele. Como indivíduos, não como casais.

(Ivan Martins escreve às quartas-feiras.)

segunda-feira, maio 10, 2010

Sonho de consumo nerd do mês


Adão Negro (Black Adam), o melhor anti-herói da DC.

Por que raios não vendem isso aqui?

domingo, maio 09, 2010

Uma outra América colonial

Ralph Hamor visia Powhatan com uma proposta
De Johann Theodore de Bry seguindo Georg Keller
Gravura, 1619

Passei os últimos dois dias mergulhado em American Colonies, de Alan Taylor, um livro que bem gostaria que tivesse chegado uma semana antes. É possível que seja o melhor livro sobre a fase colonial da América do Norte (excluindo o México), dando ampla atenção não só à muito negligenciada história das sociedades indígenas, mas também considerando o impacto ambiental que índios e europeus tiveram ao se instalarem no continente. Desfaz, por exemplo, o estereótipo de que os primeiros eram "santos ambientais", perfeitamente integrados à natureza segundo uma forma new age de religião: na verdade, embora eles tivessem menos impacto que os europeus, em parte devido à natureza animista de sua religião, houve vários exemplos de colapso ecológico que dariam ótimos estudos de caso para Jared Diamond. Do rápido espalhamento de espécies europeias de ervas daninhas ao prejuízo causado pela introdução, asselvajamento e reprodução rápida diferentes tipos de gado em um ambiente novo, o encontro do Novo e do Velho Mundo é visto também em seus aspectos biológicos, coisa que normalmente não se encontra em manuais convencionais.

Como se não bastasse, o autor explicita as estratégias desenvolvidas pelos índios no comércio com os europeus e a maneira como, ao contrário do que normalmente se espera, conseguiam manipulá-los para extrair vantagens, fosse na forma de um maior preço para as peles que ofereciam ou o acesso a uma quantidade maior de armas e objetos metálicos. Também é mostrado como a incorporação d tecnologias e produtos europeus alterou o modo de vida indígena, especialmente no que diz respeito à letalidade de suas guerra e, mais tarde, à exploraçãodos recursos naturais, que deixam de se voltar para a mera subsistência e passam a objetivar um mercado externo. Seja como for, o índio emerge não como uma vítima passiva da atividade incessante do colonizador europeu, mas como parte importante de um processo dialético de cooperação, luta e negociações complicadas.

O mais fascinante ao se dotar tal ponto de vista é a desconstrução da própria noção de "índio", bem como de "branco" e "negros": como o autor lembra logo na introdução, esses rótulos são simplificações construídas ao longo do tempo. Algonquianos, iroqueses, hopi, pueblos, entre outros, nunca se viram como parte de uma massa indistinta e homogênea de "índios", e a história de suas relações com os colonizadores europeus bem mostra a diversidade considerável desses povos, inclusive na parte que lhes coube na destruição de outros "índios"; da mesma forma, o que normalmente se considera genericamente como "ingleses" ou somente "brancos" envolvia escoceses, suecos, holandeses, irlandeses, franceses, espanhóis, ingleses propriamente ditos etc., uma gama tal de etnias e culturas que levou um bom tempo para se ver considerada sob o rótulo. de "brancos".

Nessa mesma linha, o fato da colonização europeia deixa de ser visto como o "início" de uma história americana progressiva. Como Taylor bem lembra, ao se olhar a história do povoamento americano na longa duração, a chegada europeia representou um grande recuo demográfico e, sob vários aspectos, uma perda material, humana e, claro, cultural. Nessa ótica, é difícil continuar adotando a velha narrativa de uma terra vazia a ser "desenvolvida" e que vai crescendo teleologicamente rumo à suprema realização que é o país no presente. A presença europeia torna-se apenas parte, ainda que inegavelmente importante, em um processo maior e mais longo da ocupação humana no continente.

O livro é muito envolvente e já retirei dele uma farta quantidade de material para aulas futuras de história norte-americana. É apaixonante essa descoberta e o aprofundamento em um assunto que, pelo menos nos cursos brasileiros de História, é quase sempre muito marginalizado, para não dizer desprezado. E embora não possa ficar muito tempo nele, espero conseguir inspirar nas novas turmas que adquiri um pouco da curiosidade pelo fascinante (ainda que trágico) mundo colonial no que viria a ser os Estados Unidos da América.

segunda-feira, maio 03, 2010

Uma mente aberta

"If you're someone who only reads the editorial page of The New York Times, try glancing at the page of The Wall Street Journal once in awhile. If you're a fan of Glenn Beck or Rush Limbaugh, try reading a few columns on the Huffington Post website. It may make your blood boil; your mind may not often be changed. But the practice of listening to opposing views is essential for effective citizenship. So too is the practice of engaging in different experiences with different kinds of people.

For four years at Michigan, you have been exposed to diverse thinkers and scholars; professors and students. Do not narrow that broad intellectual exposure just because you're leaving here. Instead, seek to expand it. If you grew up in a big city, spend some time with some who grew up in a rural town. If you find yourself only hanging around with people of your race or your ethnicity or your religion, broaden your circle to include people who've had different backgrounds and life experiences. You'll learn what it's like to walk in someone else's shoes, and in the process, you'll help make this democracy work" - Barack Obama

domingo, maio 02, 2010

Se você pudesse ter sido o autor de qualquer livro, de qual teria sido?

"Ensaios de Amor", de Alain de Botton. A combinação perfeita de uma observação afiada e bem-humorada da vida, sensibilidade, estilo e filosofia.

O que você quer me perguntar?

Afinidades amorosas


A Superinteressante deste mês é sobre o amor. Fora uma série de descobertas sobre o lado químico desse sentimento -- do tipo que explica a importância de neurotransmissores e hormônios, como se isso desse plenamente conta do lado mais propriamente "humano" da coisa --, há um teste curioso sobre a "personalidade amorosa". Não é tão diferente de um horóscopo e me pareceu muito superficial. Ainda assim vale como curiosidade: afinal, descobri que sou um "construtor", ou seja,

o tipo mais calmo, leal e persistente de todos. Construtores são pé no chão, tradicionais e super responsáveis. Sociáveis, são ótimos gerentes. A rotina é relaxante para eles, por isso, o melhor par para eles são outros construtores, gente leal para constituir família. O hormônio que sobra nos construtores é a serotonina.".

Em outras palavras, eu sou "para casar", desde que com alguma outra "pedreira" como eu. (Por que não existe o tipo "intelectual público", "gênio literário" ou "professor titular"?)

Quem quiser fazer o teste, é só clicar aqui. E viva a astrologia reinventada!

500!

Sim, 500 postagens (ou "posts", para encurtar). Poderia comemorar o 499º ou o 614º, tanto faria; mas nossa cultura tem predileção por múltiplos de 5, os famosos números "redondos", então quis comemorar este. É bem verdade que muitas dessas postagens são meras transcrições, filhas da revolucionária combinação CTRL+C/CTRL+V. Não importa, são minhas também, como tudo mais que tenho publicado aqui desde 2004. E o que postar nesta ocasião tão especial?

Eu poderia compor versos! Já fui bom nisso, ainda que a rima continue sendo uma arte impenetrável e por alguma razão só sinta vontade de fazê-lo sob o império melancólico da dor de cotovelo. Também poderia me arriscar na prosa poética, meu gênero favorito, em que já fiz algumas incursões bem-sucedidas... segundo o meu próprio gosto, ao menos. Mas, infelizmente, nestes dias tenho excessivamente solicitado por obrigações variadas que me roubam da concentração para o estado mental peculiar que tais composições exigem. Por último, poderia dissertar sobre um tema qualquer, o que seria até fácil, porém demasiado árido, para não dizer medíocre. Sendo assim, que resta? Ora, o recurso comum de todos os blogueiros: copiar e colar.

Então, seja minha voz, meu canto, minha confissão, Rudyard.
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Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!

If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings --nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And --which is more-- you'll be a Man, my son!

(Rudyard Kipling)

Ainda beleza

Por vias tortas, parece que o mundo está mesmo evoluindo para melhor nalgumas coisas. Espero que isso signifique modelos padrões de beleza um pouco mais saudáveis e realistas.

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Hollywood em guerra contra o botox

O GLOBO, 30/04/2010

Na era do 3D, plástica vira aberração e estúdios preterem atrizes retocadas em excesso

Hollywood passou anos tentando criar a mulher perfeita. Agora, os grandes estúdios enfrentam a maior das batalhas: querem que as mulheres abandonem as intervenções estéticas e voltem a envelhecer naturalmente.

O motivo não é nobre, mas sim comercial.

Na era dos filmes 3D, atrizes com excesso de retoques ficam com um aspecto ainda mais artificial e destoam do resto do elenco.

Na Fox Broadcasting, as produções já começaram a privilegiar atrizes britânicas e australianas justamente porque elas não têm o hábito de mudar a aparência à medida que envelhecem.

A produtora de elenco Marcia Shulman, em entrevista ao “New York Times”, declarou que as atrizes americanas estão ficando cada vez mais parecidas com strippers e travestis. Poucas são aquelas sem preenchimentos, cabelos alisados, seios com silicone ou pele artificialmente bronzeada.

Na próxima sequência de “Piratas do Caribe”, a Disney exigiu que atrizes com seios turbinados fiquem de fora do elenco. Segundo pesquisadores de tendências, o público está cansado de ver mulheres tão artificiais, principalmente em filmes históricos ou de época.

Como as atrizes não falam a verdade, muitos produtores entram no site www.awfulplasticsurgery.compara saber se passaram ou não pela faca.

Não é preciso ter um olho treinado para ver que o botox e os preenchimentos similares não combinam com a TV de alta definição. Algumas atrizes mais velhas, como Meryl Streep, já entenderam que fazer certos procedimentos estéticos pode atrapalhar sua carreira.

As jovens, no entanto, ainda investem em intervenções e chegam ao extremo da aspirante a celebridade Heidi Montag, que fez dez plásticas em apenas um dia para parecer “mais rentável”.

A apresentadora Sharon Osbourne declarou recentemente que quer remover os implantes de silicone. A atriz Lisa Kudrow, mais conhecida por seu papel de Phoebe Buffay em “Friends”, deu uma entrevista dizendo que nunca tinha feito e provavelmente nunca faria nenhum procedimento estético invasivo.

— Uma coisa é envelhecer com elegância, a outra é fazer inúmeros procedimentos e acabar com a cara de um personagem do Batman — avaliou.