segunda-feira, dezembro 31, 2007

As convicções invisíveis


Estudo História. Existe muita coisa que se poderia dizer sobre esse ramo do conhecimento, mas existe uma, em particular, que me interessa mais. Não se trata apenas de ter uma profissão ou um acervo de informações especializadas que garantem certo reconhecimento social. Apesar de todos os seus acessórios acadêmicos, todas as teorias e cansativas notas de rodapé, a História é também um meio de autoconhecimento. Quanto mais não seja pelo simples fato de que estudá-la significa apreender as muitas e diferentes idéias que indivíduos e sociedades adotaram ao longo dos séculos, e apreender também o caráter transitório de quase todas elas. Noções sagradas de uma época nada significam para uma outra; tabus pelos quais multidões morreram de bom-grado reduzem-se a uma mera circunstância quando observados da distância segura da posteridade.

Abusa-se dessa posição privilegiada de analista de várias formas. A mais comum é julgar-se no topo da escala de valores da humanidade, e olhar a paisagem das civilizações com a convicção de quem chegou ao patamar perfeito. É julgar homens e mulheres de épocas remotas com os parâmetros implacáveis do agora, "exigir" deles, por assim dizer, o olhar que temos hoje. A isso se costuma chamar anacronismo, ou, em alguns meios, cronocentrismo. Uma segunda forma de abuso, um componente da primeira, é na verdade uma negligência: ao olhar para as culturas passadas, para sua freqüente falta de consciência em relação às limitações filosóficas e mesmo geográficas de sua visão de mundo, esquecermos que também sofremos do mesmo mal. Assim como os antigos não podiam ser recriminados por manterem idéias que, de tão "óbvias" e tradicionais, nem mesmo chegavam a ser problematizadas, permanecendo numa espécie de nível inconsciente, nós também temos inúmeras concepções de que nem mesmo nos damos conta. E, no entanto, convivem conosco, ditam nossa conduta, enraízam-se na nossa vsão do mundo. Enquanto não forem percebidas plenamente, o que em geral se dá pelo constraste com quem as nega ou ignora, não poderão ser mudadas e continuarão sendo uma parte "invisível" de nós mesmos, um desafio à compreensão da base mais elementar de nossa vida como seres humanos -- nossa mente.

Nada disso é novidade para quem costuma se auto-analisar e possui um mínimo de informação. Mas saber algo não quer dizer compreendê-lo em todas as suas conseqüências, ou mesmo experimentá-lo na prática. Daí haver pessoas cultas, eruditas até, que, tendo todos os recursos para se valer dos conhecimentos disponíveis para uma análise de si e da sua atuação no mundo, não o fazem. Gastam tempo e energia em inúmeras atividades que, embora socialmente úteis, podem bem não sê-lo para a alma -- a velha questão entre conhecimento e sabedoria, só que no plano individual. Dessa forma, até aqueles que pareceriam os mais capazes de entender o mundo e demonstrar como esse entendimento poderia ajudar na construção do aperfeiçoamento de si mesmos e de seus semelhantes , na conquista da tão buscada "felicidade" -- mesmo eles não o conseguem, simplesmente porque não se dão ao trabalho de investigar as idéias que carregam e as suas conseqüências. Pois eles, tal como o mais medíocre dos homens, também vivem sob o jugo de uma gama de convicções invisíveis, despercebidas, que, para o bem e para o mal, determinam seus caminhos.

Em mais de uma ocasião tive a oportunidade de constatar o quão perigosa uma idéia não-analisada pode ser. Mas não é preciso recorrer a nenhuma experiência individual para demonstrar isso. Todos nós estamos embutidos de valores, prioridades e modelos mentais, e não poderia ser de outra forma; mas quem saberia dizer exatamente quais são e onde vieram? Quem pode garantir que esses mapas da vida que carregamos dentro de nós são tão bons ou proveitosos quanto poderiam ser? E, uma vez que não os conhecemos de fato, ou pelo menos não em sua totalidade, como será possível afirmar que eles são apropriados? Pode-se julgar uma convicção que não se enxerga?

Vivendo em sociedade, temos sempre o espelho do outro. É ele a nossa referência, o nosso parâmetro, nosso feedback. Mas de pouco serve a sua existência se o que ele nos traz não é complementado por um olhar para si. Isso de modo algum significa a contemplação de Narciso, mas a percepção de que temos padrões, e é necessário saber enunciá-los e compará-los com a nossa auto-imagem. Muitas e muitas vezes, ver-se-á que eles são díspares em alguns pontos -- que não somos quem pensamos ser, que nossa conduta não está sempre à altura de nossas idéias, ou vice-versa. O choque que advém disso, o "vazio" interior decorrente desse espelho íntimo que se parte, é uma oportunidade privilegiada de recomeço, de ajustar a imagem, os valores que a colorem ou a conduta que os concretiza no mundo. Em inúmeras variedades de "exercícios espirituais" desenvolvidos nos quatro cantos do mundo, em todas as épocas, essa desconstrução de si em busca de um "eu" mais verdadeiro ou mais elevado é considerada uma meta preciosa, quando não o próprio objetivo da vida. É o "véu" que se rasga, os olhos de finalmente se abrem depois de um sono profundo e cheio de sonhos envolventes ao ponto de se passarem pela realidade.

Poucos chegam a esse ponto. Quem já passou por um dificilmente o terá deixado de notar, de uma forma ou de outra. Mas todos eles, ou a grande maioria, tiveram o seu momento de terror diante de si mesmos, quando tiveram de confrontar suas certezas e se permitir, por um momento que fosse, caminhar em terreno desconhecido. Foram desvendar suas convicções invisíveis, seus "óbvios", tudo o que não era questionado mas apenas seguido. Nesse momento, foram verdadeiro indivíduos. Ali, tornaram-se algo que estava apenas latente dentro de si, e que ainda está dentro de todos os outros. Para o bem ou para o mal, encontraram o autoconhecimento.

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Thomas Merton (1915-1968), monge trapista e escritor prolífico, desenvolve uma breve análise de uma dessas idéias invisíveis, ainda hoje extremamente presente na vida de quase todos nós. Lendo-o num dos artigos desta coletânea, encontrei enunciada uma reflexão que andava não tão despercebida nos porões de minha mente, fruto de um desafio que, longe de ser característico apenas da minha geração, tem sido muitas vezes mais intuído que analisado. É curioso que venha de um monge o seu autor, mas talvez por isso mesmo ela tenha surgido. Para Merton, quem sabe, as convicções invísiveis dos outros tenham sido claras até demais.

Deixo-vos com ele.

4 comentários:

CresceNet disse...

Gostei muito desse post e seu blog é muito interessante, vou passar por aqui sempre =) Depois dá uma passada lá no meu site, que é sobre o CresceNet, espero que goste. O endereço dele é http://www.provedorcrescenet.com . Um abraço.

ELAINE disse...

PARECE QUE QUANDO SURGIMOS NO MUNDO,RECEBEMOS UM PACOTE COM O QUE O AUTOR CHAMA DE "CONCEPÇÕES QUE NÃO NOS DAMOS CONTA". ESTAS PASSAM A CONDUZIR NOSSAS ATITUDES E MOLDAR NOSSO PENSAMENTO,MOLDAR NOSSA MANEIRA DE INTERPRETAR O QUE ESTA NO EM TORNO.
PENSO EU QUE A NECESSÁRIA "DESCONSTRUÇÃO DE SI,EM BUSCA DO EU VERDADEIRO",PASSA LONGE DO DOMÍNIO DE CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS, FILOSÓFICOS ETC.
CREIO EU, QUE PASSA PELA ACEITAÇÃO.
ACEITAÇÃO DO OUTRO E DE SI MESMO. ACEITAÇÃO DO EU QUE ÀS VEZES EVITAMOS CONHECER.ISSO PQ ESSA ACEITAÇÃO EXIGE DISPOSIÇÃO DE SE RECONHECER HUMANO.EXIGE O EXERCÍCIO DE SER HUMANO.E ESSE EXERCÍCIO INCLUI RECONHECERMOS NOSSAS LIMITAÇÕES;RECONHECERMOS QUE ESTAMOS LONGE DE ESTARMOS NO ÁPICE DO DESENVOVIMENTO INTELECTUAL;QUE ESTAMOS LONGE DE SERMOS SERES INACABADOS PORQUE SEM FALHAS. ENFIM,QUE PRECISAMOS DESENVOLVER A CAPACIDADE DE AMAR SEM EGOÍSMO E,PENSO EU QUE SÓ SE AMA SEM EGOÍSMO, QUANDO SOMOS TOLERANTES COM QUEM AMAMOS. NOSSA QUE COISA DIFÍCIL DE SE FAZER!!
EU ENCERRO AQUI, CONFESSANDO QUE A ESTRADA A SER PERCORRIDA POR MIM, EM BUSCA DO MEU EU VERDADEIRO É IMENSURÁVEL.QUE DEUS ME AJUDE A CONSEGUIR PELO MENOS VISLUMBRAR A PRIMEIRA CURVA DO CAMINHO.

Palasatena disse...

"vivem sob o jugo de uma gama de convicções invisíveis, despercebidas, que, para o bem e para o mal, determinam seus caminhos."

Adorei...

Palasatena disse...

Delicioso o teu texto...teve eco em mim...