quarta-feira, janeiro 14, 2009

Experimento mental

Saudações.

Tenho lido o blog de Stephen Walt, coautor do controverso artigo (que virou livro) O Lobby de Israel, no site da revista Foreign Policy. É mais um dos muitos espaços virtuais onde o recente ataque a Gaza deflagrou uma avalanche de posts e outra de comentários -- muitos nada gentis. Uma das características de Walt é o apelo ocasional aos thought experiments (situações hipotéticas para analisar uma dada situação sob outro ângulo), e um deles, proposto pelo professor de filosofia Joseph Levine, da Universidade de Massachusettsme parece útil para entender o atual ultraje manifestado em vários países acerca do problema em Gaza:

Suponha que o Hamas estivesse se escondendo em Tel Aviv (ou Los Angeles, ou Londres -- o exercício é igualmente esclarecedor se aplicado aos EUA ou qualquer outro Estado ocidental "civilizado"). Um ataque do tipo que vimos em Gaza seria ao menos contemplado? Os oficiais israelenses calculariam sombria e desapaixonadamente a razão custo-benefício envolvida em um ataque aéreo maciço em bairros judeus? Os membros dos governos americano e europeus endossariam tal ataque? Os comentaristas demonstrariam sua simpatia pelo terrível dilema de Israel? 

Bem, se você piscou antes de responder, mesmo que sua resposta seja um indignado repúdio à mera hipótese apresentada, seguido de uma defesa apaixonada do ataque aos palestinos em nome do direito de autodefesa, ou simplesmente uma série de ponederações sensatas sobre o porquê da hipótese ser absurda, o experimento já cumpriu sua função: na prática, fazer o leitor se pôr por um instante na posição do outro, no caso que é objeto de suas posições. 

Parece incrível como, em assuntos políticos, a máxima do "Não fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem" é pouco aplicada. Quanto às manifestações rituais de lamento -- "É muito triste que tenhamos de fazer isso, mas..." --, fico me perguntando quantos dos que as enunciam efetivamente sentem alguma coisa. E também me questiono quanto ao que é preciso "sentir"  para que as pessoas tenham a iniciativa de romper com o paradigma das situações em que se envolvem. Aliás, mais e mais me convenço de que as situações em que a violência é realmente inevitável, seja na escala individual e sobretudo na das relações entre os Estados, são bem menos numerosas do que parece ser o entendimento geral. 

4 comentários:

Cynthia Lopes disse...

Rodrigo, ótimo texto, entretanto, senti falta de uma explicação das reais motivações de Israel com este ataque à faixa de Gaza. Com relação a se por no lugar do outro, perfeito. Um abraço...

Rodrigo disse...

Olá, Cynthia.

Em primeiro lugar, obrigado por sua visita ao Divagações. Seja sempre muito bem-vinda!

Quanto às reais motivações israelenses, meu primeiro post sobre Gaza tem alguns links úteis a esse respeito. Ao que parece, a eleição que se realizará em fevereiro, e na qual o atual governo estava em desvantagem, tem muito a ver com isso, e, segundo analistas, a transição nos EUA também. O momento não foi escolhido aleatoriamente, por tanto. Ao que parece, enfraquecer o Hamas militarmente é apenas um dos objetivos, e talvez nem o mais importante.

Um abraço,
R.

Pablo disse...

Não preciso me colocar de ninguém, os nossos vilões se escondem no meio da nossa própria cidade. Capitão Nascimento neles!

Pablo disse...

BTW, Rodrigo, o teu comentário é, no mínimo, temerário. Enfraquecer o Hamas é um motivo muito mais real do que os dois que você mencionou. Se um governo resolve fazer uma ofensiva realmente válida contra os traficantes do Rio de Janeiro, eu não estou nem aí se isto é uma ação eleitoreira. Faça este exercício mental, e você vai entender que, para o israelense que está tomando bomba na cabeça, o timing é o menos importante. Uma ação só pode ser eleitoreira na medida em que vai de encontro à vontade da população, portanto, nada mais democrático do que as ações eleitoreiras.