segunda-feira, julho 09, 2007

Divagações musicais

Durante boa parte da minha vida, ouvi predominantemente música clássica e instrumental, sobretudo a sinfônica. Enquanto meus colegas de escola e até alguns amigos desfrutavam sua adolescência procurando se identificar com as letras de tantas canções -- Legião Urbana era uma escolha certeira daqueles com noções mínimas de gosto --, eu sempre preferi noturnos, poemas sinfônicos e, quando os encontrava, temas incidentais. Nessa época antes da Internet e do Napster, a preferência por tais gêneros tinha um lado negativo: algumas melodias absolutamente encantadoras podiam ser terrivelmente difíceis de achar, e, como eram puramente instrumentais, não havia refrão que pudesse ser procurado nos mecanismos de busca. Se o locutor da rádio não anunciasse o nome ou se não houvesse papel para anotar, ou ainda se o nome do compositor fosse ininteligível ou a trilha em questão só aparecesse de relance numa determinada cena de filme ou desenho, uma composição magnífica poderia se perder para sempre. E muitas tiveram esse destino triste, vítimas dos abismos da memória, buscadas mais tarde na casualidade da programação radiofônica, das reprises televisivas ou, eventualmente, nos lançamentos em vídeo. Não poucas vezes alugava uma fita para ouvir a música de uma cena específica, e ali me perder em notas que por razões misteriosas ecoavam em minha sensibilidade e diziam algo de sublime à minha alma. Esqueci-as aos borbotões, sem que perdesse de todo a marca que cada uma deixava em minhas emoções. Longe de um mero passatempo, elas podiam se tornar momentos preciosos de introspecção e/ou catarse, e eu me lançava à torrente de sensações e cenas imaginárias que as notas sugeriam, sem palavras nem versos, mas intensas sempre. Da Eroica de Beethoven a uma casual faixa instrumental de alguma banda mais popular, como a própria Legião, os momentos musicais sempre traziam em si alguma promessa de êxtase.

Não obstante, aos poucos fui ouvindo cada vez menos música, limitando-me a alguns CDs espaçados, tocados uma, duas ou três vezes, e ao considerável acervo de meu disco rígido. O engraçado é que, num mar de opções ao meu gosto, eu tendia a ouvir quase sempre as mesmas músicas, uma fração muito reduzida do total, geralmente enquanto fazia alguma outra coisa. As sessões de fruição musical propriamente dita deram lugar a sessões de múltiplas atividades com música ao fundo, o que é um tanto diferente. Quando dei por mim, notando também a evolução deste blog e de minhas leituras, vi-me demasiadamente em prosa. Salvo momentos muito específicos, percebi-me por demais descritivo, analítico, ainda apaixonado pela beleza mas sem a mesma comoção. Uma fruição estética serena, talvez até demais, que só de vez em quando sentia fome de belas notas e do prazer inconfundível que elas podem proporcionar. A energia que tive de dedicar ao saber e aos raciocínios nos últimos tempos -- por força de novos compromissos acadêmicos e profissionais -- de certa maneira ocupou parte do espaço antes destinado à ânsia da beleza pura, outrora mais ativa e perceptível.

Ontem, porém, ao visitar um amigo enlutado, tive uma agradável surpresa. Depois de um longo tempo acomodado ao meu próprio acervo, já tão conhecido, eis que descubro Sigur Rós através de um clipe extremamente lírico. Nunca tinha pensado em explorar outros gêneros começando pela Islândia, a exótica ilha gelada repleta de atividade vulcânica cuja independência "comemorei" em post anterior. Musicalmente, os 300.000 islandeses eram representados por Björk, um ser de outro planeta que já era celebridade o bastante para uma nação ínfima. E apesar disso, numa noite que aparentemente seria marcada pelo travo da melancolia, senti um pouco da velha ânsia, do doce apetite por beleza sonora que quase já não mais associava às produções não exclusivamente instrumentais. Um sinal de que chegou a hora de explorar um mundo novo de musicalidades há muito negligenciadas.

Portanto, aproveitando uma dica do blog da Jaqueline, criei uma nova seção neste blog. Por meio da imagem em flash no menu à direita, meus sete leitores poderão ouvir um pouco do grupo islandês e outros similares, todos representantes de alguma coisa alcunhada de "pós-rock", que, por sua vez, tem uma veia minimalista que me recorda uma trilha recente muito de meu agrado. Aproveito para lhes apresentar também o Last.fm, uma notável rádio virtual gratuita que vale a pena conhecer. É só clicar, registrar-se, baixar um software de pouco mais de 3Mb e reservar algum tempo para brincar em um oceano de possibilidades sonoras.

Quanto a mim, seguirei em busca de um pouco do êxtase que só a música proporciona.

3 comentários:

Nina Braga disse...

Boas noites, senhor Rodrigo.
Estou ofegante depois da maratona deleitura que me proporcionou esse seu último post. Mas, puxa! Valeu a pena. Fez-me pensar na importância também por mim esquecida da apreciação da música como uma atividade completa e não complementar, como ela tem sido.
Atrevo-me a dizer que o seu post foi um complemento de um pensamento que "acordou" comigo hoje. Estava, mais cedo, revisitando os meus cd's perdidos, aqueles que não ponho mais nem os olhos em cima. Achei muita coisa boa que eu nem lembrava mais. Passei o dia ouvindo meus "fantasmas musicais".
:)

Como sempre, adorei os seus escritos.
Muito bom passar por aqui.
Mais uma beijoca.

Gabriel disse...

Jeez! Rodrigo Farias escrevendo sobre post-rock? Que inusitado, rapazola! Bom, deixo uma humilde dica: Mogwai. Pode baixar. Acredito que o senhor irá gostar.

Um abraço.

Laura Vieira disse...

Um pouco de êxtase que só a música proporciona...
Só a música?!...