sábado, junho 18, 2005

Reflexões na madrugada...


Pára, instante que passa, és tão formoso!

Goethe, Fausto.

Na vida, como nos bons livros, nada é tão bom quanto virar uma página após outra. Se por um lado uma fase recém-encerrada deixa suas marcas, quem sabe até nostalgia, as esperanças do futuro nos prendem o olhar no horizonte de mil possibilidades, um “talvez” cheio de promessas apenas adivinhadas, algumas cheias de ansiedades. Perceber-se nessa transição é experiência das mais enriquecedoras, quando vemos a Vida agir ao nosso redor e em nós, até a despeito de nós mesmos. Uma cadeia de eventos começa a ganhar ímpeto de uma hora para outra, por vezes da forma mais banal, e em pouco tempo nossos rumos dão uma guinada, fazem de nossos planos nada mais que um sopro, confrontam-nos com aquela potência indecifrável, que na falta de nome melhor designamos apenas como o “Acaso”. Se formos ao fundo das coisas, sempre o encontraremos aqui e ali, ora juntando peças fundamentais de nossas existências, ora impondo pequenos desvios, banais no primeiro momento, titânicos na ordem geral das coisas. A única certeza em seu movimento é que ele é constante: estamos sempre sendo levados a alguma parte numa corrente invisível e grandiosa, da qual temos tanta consciência quanto um peixe tem da água. Pouco importa se a percebemos ou não — ela nos envolve e arrasta, nutre e destrói. E ao sermos arrastados, alheios à corrente que nos leva e ao destino que nos aguarda, se destino houver, que será o tão falado livre-arbítrio? Uma sombra ou uma realidade, uma impotência ou uma força eficaz à espera de bom uso? Teremos algo de verdadeiramente livre quando não conhecemos nossa real condição no mundo? Se tantas vezes agimos sem plena certeza dos porquês, se vivemos sob o látego de impulsos que nos definem, mas não se sabe donde vêm, como falar em liberdade? Pode-se ser livre do próprio eu?

Um comentário:

Anônimo disse...

Bravo! Conseguiste colocar em palavras de prosa o que um dia tentei com a poesia...
"Se tantas vezes agimos sem plena certeza dos porquês, se vivemos sob o látego de impulsos que nos definem, mas não se sabe donde vêm, como falar em liberdade? Pode-se ser livre do próprio eu?"