sábado, janeiro 08, 2011

Boletim de férias

Tenho uma relação ambígua com essa tão querida instituição trabalhista. Sempre torço para que as férias cheguem, mas, pouco tempo depois de iniciá-las, fico entediado. Às vezes, muito entediado. Não é exatamente falta do que fazer: há toneladas de trabalhos de graduação esperando para ser corrigidos, textos para escrever etc. Mas a sensação de que os meus referenciais de tempo não existem mais -- tal aula na quarta, tal na sexta, determinada atividade no sábado --, de que todos os dias se parecem, isso é um horror. Pior ainda quando se trata do verão -- de todas, a estação que menos me agrada. Passada a temporada de festas de fim de ano, janeiro emerge com todo o seu calor e monotonia.

Mas nem tudo é tédio. Ontem vi o novo filme de Clint Eastwood, Além da vida. As sinopses se encontram à farta por aí, e a história é contada de forma delicada, humana, como era de se esperar. O tema me interessa particularmente, pois o filme gira em torno da morte -- e do que há depois dela. Abordam-se, sem efeitos especiais espetaculosos e a costumeira glamourização, coisas como mediunidade e experiência de quase-morte. Agradou-me. Porém, admito que o que mais me impressionou foi a cena sobre o maremoto de 2004 (sim, há um equivalente português para tsunami). Ganhei uma nova perspectiva sobre o fenômeno.

Também andei um pouco por um shopping. Até tinha o que comprar, pois meu celular teve uma morte súbita e precisa ser substituído. Mas, apesar disso, por causa do pouco tempo até o início da sessão de cinema, andei sem muita pressa ou preocupação com a compra. Nesse estado de espírito, a experiência do shopping se torna bem curiosa. Prefiro olhar as pessoas às vitrines, ver os rostos no eterno vai-vem dos corredores amplos e refrigerados. E, claro, o ambiente todo perde muito do brilho que normalmente lhe atribuímos. Houve época em que consideraria uma volta por lá como uma forma barata de lazer, mas hoje não mais. Não desgosto, mas não é realmente divertido. Exceto, naturalmente, por ver as pessoas e apreciar o ar-condicionado.

Comecei a ler um livro de Dean Koontz. Conheci o autor por conta da adaptação para o cinema de um outro romance seu, Phantasms. A premissa é quase a mesma de Silent Hill: pessoas desavisadas chegam a uma cidade vazia, embora, no caso em questão, uma em que as panelas ainda estão no fogo e tudo indica que as pessoas estavam ali minutos antes. Gostei muito da ideia e a curiosidade de ler Koontz permaneceu no meu subconsciente por anos. Mas agora que comecei Midnight, senti que não ia gostar muito desde a primeira página. Estranho, pois a história já começa com ação e não é nada econômica em ganchos que prendem a atenção do leitor. Entretanto, talvez estilo literário seja um pouco como casos de amor: aquilo que você já experimentou molda sua expectativa nas experiências subsequentes. Admito, eu senti falta da sutileza de Stephen King. Koontz praticamente entrega o "mistério" da trama por volta da página 50, e aí minha curiosidade se desvaneceu. Além disso, e sei o quanto é terrível, à medida que lia, eu fui destrinchando as técnicas do autor: aqui ela tenta criar empatia; ali ele põe uma criança em jogo, que obviamente vai escapar do perigo, já que sobreviveu à primeira cena; mais à frente, uma personagem obsessiva que vai fazer uma espécie de par com o "herói". Captei tudo na hora, sem maior esforço intelectual, e foi como fazer a análise química do seu prato favorito -- pode ser interessante, mas não ajuda a abrir o apetite. Ora, por que isso não acontecia quando lia King? Talvez seja porque King se esforça, ao longo de dezenas e dezenas de páginas, para acostumar o leitor com uma realidade que é bastante trivial e realista. Ele normalmente introduz dúzias de personagens, seu cotidiano, seus problemas, sua monotonia (grande parte das história se passam em pequenas cidades do estado americano do Maine). O sobrenatural aparece gradualmente, perturbando a ordem do dia-a-dia. Em Koontz não é assim: você já sabe que existe algo muito errado já na página 5. Em certos momentos, senti-me num filme de ação, não num livro de terror.

Eis, então, que depois de ler 40 páginas em menos de duas horas na quinta, na sexta eu troquei o movimentado Midnight pelos Ensaios de Montaigne. Abri ao acaso e me deparei com uma interessantíssima discussão renascentista sobre como a noção do que é bom varia segundo a cultura e a época. Foi engraçado achar relativismo cultural numa obra de 1580, e o estilo informal do autor é sempre fascinante. Gosto muito de Montaigne, foi um dos meus grandes amigos de adolescência, e acho-o tanto mais admirável quanto noto que sua leitura não se me tornou menos agradável com o tempo. Esse é o dom de um grande escritor.

Hoje, há trabalhos a fazer. Devo algumas páginas sobre o governo de Bill Clinton a uma série de apostilas de educação a distância que quase me arrependo de ter aceitado fazer. Estou mais propensos a pegar um livro de contos qualquer, e devorá-lo sem compromisso. Mas seria apenas adiar o inevitável. Mãos e teclado à obra, pois.

Antes, porém, a dica de um blog curioso que descobri esta manhã. Para quem se identifica com o drama da solteirice juvenil ou simplesmente quer rir um pouco, pode valer a pena: http://desaventurasnamorosas.wordpress.com.



5 comentários:

mayara disse...

Legal o boletim de férias.
Vou procurar o filme para ver se gosto, estou baixando filmes ilegalmente mesmo por conta do tédio.
Um colega me falou ontem de uma série britânica que tenha um que de terror, mas antes de dar nomes e indicações vou conferir se gosto e depois dou um retorno.
O comentário sobre o livro me lembrou minhas decepções com autores, e batia com o que disse. Me sinto quase no sofá da sala obrigada a ver as novelas da Globo, que não precisam de esforço para saber o que vai acontecer já na estréia. E me deu vontade de ler novamente Um fim de verão da Joyce Mainard. O estranho é que pela primeira vez que comprei um livro por indicação de revista, que não são lá bons, mas esse me prendeu não sei bem o motivo.
Vamos ver se me divirto com seu link.

Jacque disse...

"Gosto muito de Montaigne, foi um dos meus grandes amigos de adolescência..."

Assustador! :)

Priscila Azeredo disse...

Tô doida pra ver esse filme do Clint Eastwood... Mas além de estar enrolada, ando meio sem paciência para programas solitários.

bjs e boas férias!

Rodrigo disse...

Oi, Priscila.

O filme é bom, pelo menos eu gostei. Tem fãs do Clint que enão gostaram, mas paciência. Acho que espíritas tenderão a gostar *mais* que a média, mas até aí...

Sobre programas solitários, embora eu seja um sólido adepto do cinema sozinho, sempre há alguém para chamar. Aposto que você conhece meia dúzia de cinéfilos. Mas, se não, será bem-vinda ao meu clubinho de gente-que-vê-os-melhores-filmes-do-Oscar-perto-da-premiação. Geralmente somos três ou quatro na época de férias ou no Carnaval, e um novo membro é sempre bem-vindo. É só dar sinal de vida.

Boas férias também!

Um abraço,
R.




Um abraço cinematográfico,
Rodrigo.

Priscila Azeredo disse...

OBA!!! =D Tô dentro do "clubinho de gente-que-vê-os-melhores-filmes-do-Oscar-perto-da-premiação" ( dá pra abreviar esse nome??? rs rs rs)

Podemos fazer um bolão. rs =D

Avisa quando for os encontros. =D

Pois é, eu também tenho o hábito de ir ao cinema sozinha. Isso nunca foi um problema pra mim. Mas ultimamente, talvez pelo clima da dissertação, isso está me aborrecendo... rs rs rs

Para piorar, metade dos meus melhores amigos resolveram casar e ter filhos e a outra metade, morar na Europa. Então, restaram no Rio de Janeiro Eu e o meu Tédio (com um "T" mais que maiúsculo)... rs rs rs

Bom, deixa eu voltar para os meus fichamentos... (AHHHHHHHHHHHH)

Beijocas!
Priscila