domingo, outubro 03, 2010

Eleição


Uma linda manhã cinzenta e chuvosa deu boas-vindas aos eleitores cariocas. Marchei com minha irmã até o local de votação -- uns 2km -- esperando ver o mesmo de outros anos: toda aquela gente familiar, ainda que só de vista, reunida em torno do mesmo objetivo. Lembro-me de que, nas eleições anteriores, era uma experiência algo comovente sentir-se momentaneamente ligado a uma multidão anônima que vejo cotidianamente nas ruas de meu bairro, nas lojas, nos ônibus. Gostava disso. Hoje, contudo, com a chuva, a ênfase foi o pessoal violando a lei que proíbe propaganda na última hora, a imundície de "santinhos" molhados cobrindo o chão pelo caminho e a conversa com minha irmã sobre possíveis maneiras de coibir o triste espetáculo da falta de civismo dos candidatos. Nenhuma daquelas que consideramos seria aprovada pelo STF -- um tribunal incapaz de decidir com firmeza sobre questões graves e no qual tecnicalidades prevalecem sobre princípios.

Nunca fiquei tão pouco interessado em uma eleição. A coisa mais emocionante na disputa presidencial foi ver um candidato socialista sem nada a perder ironizar a performance robótica de seus concorrentes nos chatíssimos debates televisivos. Ele questionava princípios e premissas, ao menos, coisa que deveria ser mais importante em política, embora não a única coisa -- o que socialistas, comunistas e quejandos, por sua vez, se recusam a compreender. Gostei de sua atuação como entertainer e respeito sua coragem aos 80 anos... mas votei na ambientalista. Enquanto um falava em guerra de classes e estatização em pleno século XXI, ela tocava num problema absurdamente igonorado: o de que nosso modelo de crescimento pode ser inviável e suicida. Enquanto os outros se prendem a promessas pontuais, ela propõe uma visão de conjunto. Sei que não vai ganhar, nem mesmo irá a um segundo turno, mas espero, com meu modesto voto, lembrar ao chefes partidários que esse tipo de questão vale votos.

No mais, é quase certo que o títere com laquê vença. É surpreendente como, de uma hora para outra, ele deu um grande salto nas pesquisas -- e como as mesmas pesquisas parecem induzir à conformidade uma parte do eleitorado. Vota-se em quem está à frente, como se eleição fosse uma casa de apostas. No entanto, vendo os programas eleitorais, eu me pergunto se alguém verdadeiramente acredita que aquele mundo perfeito de gente sorridente e obras contínuas é real. Não que não haja obras ocorrendo e projetos em andamentos, mas os jornais não cansam de mostrar, por outro lado, "inaugurações" de pedras fundamentais e obras inacabadas. Claro, sempre com o ativismo de um presidente que perdeu a vergonha de se valer do cargo para favorecer sua candidata. Os fins justificam os meios, não?

Cada vez mais, sobretudo nas campanhas nacionais, sinto que os candidatos subestimam minha inteligência. Todo os elementos da propaganda massificada -- slogans, atores contratados, linguagem de cinema, a "humanização" sentimentalista do candidato -- me soam estranhos, como se vindos de um planeta distante. Isso é o que chamam de campanha política? Nem me refiro propriamente às eternas promessas impossíveis ou não explicadas, mas à maneira como são apresentadas. Um cenário de sonho para falar de coisas que são muito pouco oníricas.

Particularmente, preferiria uma campanha tecnocrata, como as antigas propagandas de carro. Quem promete X, que explique em detalhes como vai cumprir: de onde vem o dinheiro, em que grau dependerá do Congresso, que projetos já existem etc. Sei que é uma utopia, o tipo de coisa que mataria a maioria do eleitorado de tédio, mas pouco me importa. Não tenho fetiche pela democracia de massas; não soubesse o quanto elites instruídas podem ser arrogantes, insensíveis e autocentradas, eu provavelmente seria um liberal à moda da primeira metade do século XIX, certo de que o sufrágio deveria nas mãos apenas daqueles preparados para exercê-lo. O problema incontornável é que é impossível selecionar quem estaria ou não apto; o corte por classe social, censitário, é tão ruim quanto qualquer outro. Talvez o por nível de instrução fosse menos ruim, mas o problema da democracia de massas é que, uma vez estabelecida, ela só retrocede por meios autoritários -- e o autoritarismo por si mesmo já deteriora a consciência política da população, fora os muitos outros problemas extras que traz. Lógico que o nível intelectual da população tende a subir com o tempo, e que a melhoria do sistema de ensino é essencial nisso. Mas é uma solução de longo prazo, e não se pode condenar alguém por fantasiar com soluções extremistas rápidas, não é?

Enfim, uma última palavra sobre a eleição para o Senado. Cá no Rio, os três candidatos favoritos são, respectivamente: um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, um conglomerado disfarçado de religião que lançou a versão religiosa da cobrança mafiosa por "proteção"; um ex-líder estudantil que, em plenos anos 90, tinha a cara de pau de ir à TV defender o regime stalinista albanês (!) e deixou dívidas na prefeitura que ocupou, segundo amiga minha que lá trabalha; e, finalmente, um ex-prefeito do Rio que deixou uma obra de mais de 500 milhões de reais incabada, um elefante branco horroroso na área que mais cresce da cidade, sem falar na omissão em tantas outras áreas. Existe ainda um quarto colocado, que por uma razão misteriosa não consegue sorrir em foto nenhuma e, nas cenas em que aparece falando, parece em permanente mal-humor. Desse nada tenho a falar, exceto que me parece tão vazio de conteúdo quando os pobres coitados que só têm 8 segundos para falar o nome e o número. Entre declarações de apoio de outros, nada vi a seu favor além de tentar levar os louros da vitória pela cassação de um notório deputado corrupto durante a gestão na presidência da ALERJ. Eu sempre pensei que investigar denúncias fosse obrigação do cargo, não mérito eleitoral.

Seja como for, no fim da noite teremos os resultados. Nenhuma grande mudança, exceto que nesta eleição finalmente o sistema absorveu minimamente a noção de que ficha policial deveria ser critério para aceitar ou não candidaturas. É bom ver um Roriz sair da campanha na décima-primeira hora, e saber que Maluf sofreu impugnação e o mesmo destino pode aguardar um Garotinho. É alguma coisa, mas ainda pouco. Torço para que seja o começo de uma maior racionalização desse festival de superficialidade circense que tem sido cada eleição.

A esperança é a última que morre, afinal.

P.S.: Tiririca foi eleito deputado com o previsível recorde de votos, e ao que parece rejeitaram a denúncia de que seria analfabeto. Com isso, ele, que é do partido da Igreja Universal do Reino de Deus e contratado da Rede Record (pretencente à IURD), deve ter levado mais uns 4 ou 5 deputados do seu partido ao Congresso. Realmente, esse é o retrato do Brasil -- saber ler para quê?

2 comentários:

Priscila Azeredo disse...

Nem me fale dessas eleições... Que medo do Crivella e do Lindberg como Senadores!!! Que medo!!

Ingrid disse...

Nossa também me sinto muito desconfortavel com a propaganda eleitoral.É tudo superficial e articulado para as pessoas não questionarem o candidato, sem contar as inumeras candidaturas para o cargo de deputado que duram miseros 6s. Concordo com vc, perdi o gosto pela coisa.