quinta-feira, dezembro 31, 2009

Uma alvorada interior



Estou lendo Buda, de Karen Armstrong. Era um dos incontáveis e pacientes livros que aguardavam por minha atenção, no caso, há mais de um ano. Mas eis que um amigo oculto natalino e um pequeno achado numa banca de jornal me levaram à curiosidade de conhecer melhor a vida dessa figura admirável, por muitos comparada a Jesus de Nazaré, e a sua sofisticada doutrina de iluminação. E também foi meu primeiro contato para valer com a prosa envolvente de Armstrong, autora de renome entre os divulgadores de estudos da religião, uma ex-freira que hoje leciona Judaísmo numa faculdade e escreve livros como estes.

Sempre simpatizei com Buda. As causas se perdem na memória. Talvez tenham sido os livros "esotéricos" que li ainda garoto -- descobri Lobsang Rampa com uns oito ou nove anos --, em que Buda parecia um detentor da chave de grandes mistérios; talvez fosse o fato de que, até onde eu sabia, o budismo não tem as pretensões exclusivistas da maioria dos cristãos ("Creia em nós ou você irá para o inferno!"). Não sei. Mais importante é o fato de que a doutrina budista reconhecia coisas em que eu acreditava, como a reencarnação (ainda que não como eu supunha), e propunha técnicas e conceitos muito mais interessantes à primeira vista do que a simples submissão dogmática a um deus tribal ciumento capaz de torturas suas próprias crias. Quando, poucos anos depois, adquiri um exemplar de O Pensamento Vivo de Buda, da Ediouro, fiquei espantado com alguns de seus ensinos, em particular com uma certa preleção poética que me levou às lágrimas na primeira leitura. Daí por diante ele sempre seria uma referência latente, uma montanha especialmente convidativa em meu horizonte, à espera de uma nova visita mais demorada e atenta. E agora finalmente ela chegou.

Para alguém minimamente familiarizado com as correntes espiritualistas ocidentais, como a Teosofia e o Espiritismo, vários conceitos budistas, para não dizer até hinduístas e de doutrinas aparentadas, são relativamente familiares: a reencarnação, a efemeridade das coisas materiais, o equívoco de nossas noções mundanas de felicidade e bem-estar... Entretanto, lendo Armstrong, que se baseia fortemente nos textos pális (língua, aliás, organizada pelo próprio Buda), o que vi emergir era mais do que essas ideias hoje tão difundidas e superficialmente conhecidas no Ocidente. Vi um pregador itinerante e determinado, que soube tirar o que havia de melhor nas ideias metafísicas de seu tempo, criar uma síntese própria, testar vários caminhos e passar os restantes 45 anos da sua vida traduzindo-a para a linguagem do povo. Ao contrário do que popularmente se pensa, Sidarta não criou uma ordem de monges meditadores isolados do mundo, mas uma ativa e crescente ordem de popularizadores, prontos a levar seu dhamma (ou "darma", isto é, seu "caminho") a todos os que quisessem ouvir. Nesse ponto, a semelhança com os apóstolos de Jesus são notáveis; porém, não havia ali nenhum ranço salvífico, nenhuma afirmação da divindade do Mestre, nenhuma imposição. O budismo é, acima de tudo, um método contra o sofrimento trazido pelo apego ao que é impermanente -- e não pretende ser mais do que isso, o que já é muito. Ele não se preocupa em dar respostas a tudo, não se preocupa em explicar o universo, nem em negar as divindades tradicionais ou afirmar uma superioridade exclusiva. É feito para todos, baseado em observações gerais sobre a natureza humana, sem discriminação ou anátema. A iluminação (Nirvana, Nibbana ou que outro nome tenha) não é uma concessão dos céus, mas uma conquista, uma descoberta pessoal que brota da jornada pessoal de cada um. É uma compreensão da natureza do mundo e de si mesmo, não apenas intelectual, mas também num nível que desafia descrições. Talvez se possa dizer que ele é como um insight de consequências permanentes, que remodela, a partir daí, toda a consciência do indivíduo.

A história de Sidarta Gautama, o homem que se tornaria célebre pelo título de Buda ("O Desperto" ou "O Iluminado"), é suficientemente conhecida para que eu não precise repeti-la aqui. Mas há uma passagem dela que eu nunca havia conhecido e que me impressionou, e que Armstrong narra com a habitual habilidade: um dia, menino ainda, Sidarta fora levado pelo seu pai, o rei da "república" de Sakka, para ver uma aradura cerimonial dos campos, um preparativo para a semeadura do ano seguinte. Entregue aos cuidados de algumas amas, que acabaram deixando-o sozinho, o menino sentou-se sob uma macieira e

quando ele olhou para o campo que era arado, notou que a relva nova fora arrancada, destruindo-se os insetos e os ovos que eles haviam depositado nos novos rebentos. O menino olhou a carnificina e sentiu um estranho pesar, como se houvessem sido os seus próprios parentes os assassinados. Mas era um belo dia, e uma sensação de pura alegria brotou espontaneamente em seu coração. Todos experimentamos tais momentos, que nos vêm inesperados e sem qualquer esforço de nossa parte. Na verdade, tão logo começamos a refletir sobre nossa felicidade, a perguntar por que estamos tão alegres, e tomamos consciência de nós mesmos, a experiência desfaz-se. Quando levamos o eu a ela, essa alegria não premeditada não pode durar; é essencialmente um momento de êxtase, um arrebatamento que nos tira do corpo para além do nosso egotismo. Esse exstasis, palavra que significa literalmente "estar fora do eu", nada tem a ver com o anseio e a cobiça que caracterizam parte tão grande da nossa vida desperta. Como Gautama refletiu depois, aquilo "existia separado dos objetos que despertam tanha [desejo, apego às coisas impermanentes]". A criança fora retirada de si por um momento de compaixão espontânea, quando deixara que o sofrimento de criaturas que nada tinham a ver com ela pessoalmente lhe varasse o coração. Essa onda de desprendida empatia trouxera-lhe um momento de liberação espiritual. (P.93-4)

Em outras palavras, o primeiro lampejo do Nirvana não veio pelo niilismo que tantos erroneamente atribuem ao budismo, mas pelo amor. Um momento de desinteresse na infância foi uma das principais pistas para que o futuro homem Sidarta Gautama chegasse ao mais elevado nível de consciência. Enquanto iogues e mestres variados na Índia da época se embrenhavam em exercícios psíquicos variados em busca de um Eu divino, e outros ainda em transes ritualísticos, o caminho de Sidarta era bem outro. Não se tratava, como os faquires e ascetas, de violentar a sua própria natureza, castigando corpo e mente, "esmagando" emoções e impulsos considerados impuros. Se uma criança havia tido um momento de iluminação, ainda que só um momento, a partir da compaixão espontânea, então o caminho já fazia parte da natureza de cada um. E foi assim, observando-se, e não reprimindo-se, que Sidarta foi desenvolvendo seu dhamma: quando sentia algo, digamos irritação, por que o sentia? Como sentia? Como reagia? Por que em tais situações e não noutras? E então, paulatinamente, foi desbravando o burburinho da própria mente, percebendo que também ela, em grande parte, era passageira, efêmera, caprichosa -- mas que era possível haver uma desidentificação, um distanciamento em relação a ela. Em suma, deixar de ser governado por impulsos que muitas vezes brotavam em seu ser, mas não eram o seu próprio ser. Se não eram, então o que era?

Há muitas complexidades no pensamento oriental em geral e no budismo em particular, e não tenho a menor pretensão de dar conta da centésima parte delas mesmo se passasse uma vida tentando. No entanto, esse pedaço da vida de Sidarta, a meus olhos, tornou-o parente espiritual de Jesus, de Francisco de Assis e outros tantos. Métodos e tecnicalidades variadas divergem, mas, no âmago, há um núcleo comum, uma indicação de o que cultivar, o que buscar. Para Sidarta, em especial, a liberação é uma mudança radical de visão, uma forma de ver que não consiste apenas nas virtudes usuais, mas sobretudo na compreensão -- não apenas intelectual, é preciso dizer e repetir -- do que está por trás delas. É um convite para uma nova forma de ser, uma nova forma de viver, uma nova forma de sentir (ou, ao menos, de se perceber sentindo). Monge ou não, o seguidor do dhamma olha para o mundo e seus habitantes com uma consciência nova, e na base dessa consciência está não a indiferença do asceta, mas a compaixão, a empatia, a compreensão mais profunda. A iluminação não vai contra a natureza das coisas, ela é, isso sim, uma visão panorâmica delas, e uma apreciação profunda do que há em cada qual.

É muito o que processar, e este post já se alongou o bastante. Mas os fogos já estouram, e quase todos nós daqui a pouco estaremos fazendo mil planos e promessas. De minha parte, só posso desejar que, para além de trabalhos, estudos tantas coisas mais, possamos adicionar às nossas metas um novo item: uma nova forma de ver, um realmente novo sentir, quem sabe até um pequeno "Nirvana". Já que tudo passa -- coisas, pessoas, até tantas lembranças -- isso certamente fica. Então, que 2010 nos traga novos olhares, e isso por si só já o tornará um ano especial. Afinal, que meta há mais nobre que a de aumentar nossa percepção da Eternidade?
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P.S.: Para entender um pouco da visão budista das coisas, uma versão legendada em português de uma das famosas TEDTalks, em que um monge francês fala sobre a felicidade. Esta é só a primeira parte, as demais estão linkadas na página correspondente do YouTube.



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