domingo, janeiro 21, 2007

Olhar

Uma hora da última tarde de verão. Almoço.


- O Carnaval é a melhor coisa que já inventaram! Uma maravilha! Em Salvador, então, foi melhor ainda...- e começou a contar, animada, suas aventuras momescas Brasil afora.

Do outro lado da mesa, ouvia-a, atento. Observava-a, na verdade. A história era boa, cheia de lances engraçados. Ouvia-a, mas sobretudo via-a. Melhor dizendo, gravava-lhe a imagem. Vagava prazerosamente, por trás da máscara de atenção, por aqueles traços que ficara tanto tempo sem ver. A narrativa seguia, em gestos e expressões que valeriam um Oscar. Mas era apenas uma trilha de fundo. Salvador estava tão longe, e ela estava tão perto, logo ali. Seus olhos, pequenos e vivazes, dançavam nas órbitas a cada lembrança. Testemunhas silenciosas de cada momento contado, iam para a esquerda, para a diagonal direita, pulavam para cima e para baixo, e como que ausentavam-se quando ela buscava uma palavra ou frase mais fugidia. Poucas vezes fixavam-se nos dele, cravados nela.

E a história, sempre adiante. Trios elétricos. Cachaça deliciosa. Comida típica cara e rara. Medo de intoxicação alimentar. Festa. Dança. Catarse. Cansaço.

E os olhos dele sempre a vagar: ora se perdendo nos dela, como se a querer ver o que lhes havia por trás; ora demorando-se, gulosos, nas tenras maçãs do rosto pequenino; enfim lampejando sobre os lábios vermelhos e absorventes... E então voltava aos olhos fugidios, para melhor convencer num comentário qualquer, ou numa risada estratégica.

Os olhos... tão pequenos e vivazes! Lembrou-se de como os via antes, quando se conheceram. Não os contemplava tanto, por falta de audácia e oportunidade. Colegas de trabalho em sala repleta, como demorar-se neles? E, não obstante, ainda via ali o mesmo brilho, a mesma energia, a mesma overdose de vida. Como estrelas negras, eram olhos cheios de luz e calor, que por estranho capricho da gravidade prendiam os dele em sua órbita.

Timbalada. Daniela Mercury. Frevo. Suor exalando de milhares de corpos. Fulana bêbada. Beltrano abusado. Vatapá. Noite virada na rua.

A pele branca, não demais, saborosa ao olhar, uma promessa de acolhimento. Sedosa, com certeza, não imaculada, um cravo aqui e outro ali denunciando as imperfeições encantadoras de sua humanidade.

Carlinhos Brown. Axé. Blocos. É o Tchan. Modelo famosa se agarrando com um anônimo. Praia. Mar.

Encimando o rosto de boneca, um arco de trevas, brilhosas e bem cuidadas, curtas mas dispostas em gracioso conjunto de...

- ... você não acha?

Pego de surpresa, praticamente em flagrante. O rosto traiu de imediato o susto da volta à realidade. Ainda ensaiou um balbucio qualquer, a título de explicação, mas a mente se tornou apenas um grande vazio branco...

Ela sorriu. E no fundo de seus olhos, tão pequenos e vivazes, brilhava a misericordiosa fagulha da compreensão.


(21/3/2004)

2 comentários:

Gabriel disse...

Rodrigo,

É a segunda vez que leio este texto. É a segunda vez que acho ele ótimo. Escreva mais, rapazola. Escreva mais...

Abraço,

Lena :] disse...

O ar da graça :]
eeee matando a saudade enquanto o "tranca tese" não te deixa ^^
:] texto ótimo! Verídico?
Fiquei curiosa. O mais curioso foi o cenário que eu imaginei :]
Depois te conto!
Beijinhos querido!