terça-feira, junho 13, 2006

O retorno do filho pródigo...

Dos muitos lazeres que a modernidade nos pôs à disposição, são justamente os mais "sofisticados", afeitos à tecnologia, os que primam pela efemeridade. Refiro-me não ao que podemos produzir com eles, mas simplesmente à habilidade para exercê-los. Diz-se que nunca esquecemos como andar de bicicleta, e, embora eu duvide um pouco disso, certamente ninguém ousará dizer o mesmo de jogos eletrônicos, confecção de home pages e, agora, blogs. Podemos praticar cada uma dessas atividades com afinco, dominá-las à perfeição, mas basta um período não tão longo sem prática e toda aquela maestria vai esmaecendo. Os macetes escoaram por algum recesso cerebral, e os velhos reflexos, antes tão afiados, têm de ser reconstruídos, certamente com mais facilidade do que da primeira vez, mas nem sempre até o nível de antes. De certa maneira, é como se nossa habilidade específica envelhecesse.

Será assim também com a escrita? Nos últimos meses, este caderno virtual de notas apresentou cada vez mais material alheio enquanto a presença de seu autor minguava a umas poucas palavras introdutórias em posts infreqüentes. Curiosamente, não se tratou nem de falta de assunto nem crise de inspiração -- pelo contrário, poucas vezes as idéias e os temas afloraram com tanta facilidade, nem tanto por rompantes criativos quanto pela própria riqueza das novas experiências deste divagador. O mais criativo dos escritores não negará que é muito mais fácil, senão estimulante, escrever sobre aquilo que se viveu do que procurar assunto em matérias estranhas à nossa realidade pessoal. Em tese, isso significa que um blogueiro nessas circunstâncias seria muito mais prolífico do que o normal, tirando do dia-a-dia a base de posts sem conta. Era o que eu também achava, até por experiência, até perceber que o contrário também é possível: desfrutar uma fase tão envolvente que vivê-la pode ser muito mais interessante que dissertar a seu respeito. Primum vivere, deinde philosophare, diziam os antigos: "Primeiro viver, depois filosofar". Não há dúvida de que muitos conseguem conciliar ambas as coisas de forma até sublime; este blogueiro, contudo, pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se uma exceção em seus hábitos de autobiógrafo indireto e simplesmente desarmou-se da pena por algum tempo. Verdade que menos por escolha que por inércia, mas o fato consumou-se.

Esse interlúdio como mero leitor, sem compromisso com a escrita própria, serviu para mostrar o quanto escreever é um hábito e, como todo hábito, requer uma boa dose inicial de vontade. Não basta o sopro da Musa a trazer idéias e mais idéias; há que se ter o trabalho de traduzir toda aquela avalanche de pensamentos velozes na corrente lenta e ordenada de um texto -- isso quando há trabalhos esperando, prazos que se esgotam, horários que devem ser cumpridos e, por último mas não menos importante, as incontáveis distrações do dia-a-dia. Sim, pois quando se tem uma biblioteca sedutora, Internet e paixão por história em quadrinhos, é que se descobre o quão curto um dia, uma semana e sobretudo um prazo podem ser.

Nada de lamúrias, porém. Por hoje, quebrei o longo jejum e, se este não é o mais brilhante dos meus posts (se houve brilho em algum deles), ao menos tem o mérito de ter finalmente chegado inteiro à tela do computador. E isso apesar de não ter nascido de nenhum insight, nenhuma inspiração fulminante, nenhum assunto longamente meditado e desenvolvido por dias... ou talvez exatamente por essa razão. Na falta de uma disciplina rigorosa da vontade, uma virtude que freqüentemente me atribuem sem saberem realmente do que estão falando, sobra apenas o impulso, o improviso, o pôr-se diante do teclado e calar o crítico interno enquanto se constrói alguma coisa que possa ser lida ao menos por mim mesmo. Ei-la. Agora tudo é uma questão de dar prosseguimento.

Depois, claro, de tirar todas essas teias de aranha que apareceram por aqui...

Um comentário:

Palasatena disse...

Teu estilo sem amarras muito me agrada, muito mais quando escreves sem idéias. :) Elas surgem aos montes.
Adoro teias de aranhas... são fractais!