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sábado, julho 17, 2010

Leitura para a madrugada

The Phantom World: History and Philosophy of Spirits, Apparitions &c., &c., do Pe. Augustin Calmet (1746). Simplesmente a mais citada obra canônica católica sobre o sobrenatural, com relatos variados de fenômenos como poltergeist (chamado de "elfos"), aparição espectral de vivos e, delícia das delícias, casos de vampirismo. Praticamente todo autor de não-ficção que trata deste último assunto o menciona, e lembro de alusões a ele nos livros de "realismo fantástico" que lia na infância. E agora encontro a obra inteira online. Antes tarde do que nunca, eis que me deleito com ela nesta semana gótica.

O mais interessante é que Calmet insiste e relata vários casos de exumação de cadáveres de vampiros -- reconhecidos pela preservação desproporcional ao tempo da morte e a presença de sangue fresco, bem como a ausência dos tradicionais sinais cadavéricos -- promovidos e assistidos por oficiais do governo austríaco. Há dois casos famosos disso, o de Arnold Paole e o de Peter Plogojowitz, mas eu me pergunto se há fontes remanescentes desses outros. Calmet dá a entender que era um procedimento um tanto frequente. Fiquei curioso.

sexta-feira, julho 16, 2010

Companheiros de férias

Nada como o trabalho para nos fazer sentir úteis... e ansiosos para que ele termine. Ok, é verdade que não tenho que não tenho um horário fixo das 9h às 18h todo santo dia e faço parte da minoria privilegiada que ainda tem horas livres enquanto o sol brilha no céu e pode se dar ao luxo de acordar em horários decentes pelo menos algumas vezes por semana. Por outro lado, não tenho um expediente demarcado e os trabalhos que faço envolvem, de uma forma ou de outra, criação: de textos, de aulas, de atividades. Isso também gera sua cota de tensão, e é com alívio que me vejo livre de pelo menos uma das minhas obrigações: duas disciplinas a menos para administrar, menos provas para corrigir, menos textos obrigatórios para ler. Resultado? Retomei um velho hobby e troquei Roosevelt, Lincoln, Kardec e similares por três dias de histórias de terror. Do vitoriano ao mais moderno, passeei por gêneros e autores, feliz da vida (ou da morte...) em poder ler por puro deleite outra vez.

O primeiro foi World War Z: An Oral History of the Zombie War, que deverá ser traduzido em breve por aqui. Faz algum tempo que comprei o exemplar, mas é irônico que só agora o esteja lendo para valer, pois o faço justamente depois de descobrir o autor que o inspirou. Afinal, o que Max Brooks fez foi recriar o estilo do historiador e radialista Studs Terkel, autor de livros como The Good War, e aplicá-lo ao cenário romeriano de uma pandemia de cadáveres canibais reanimados. Em vez de um único narrador, temos depoimentos em forma de entrevista dos mais diferentes tipos de pessoa, desde políticos a seguranças de celebridades. Mais que os zumbis em si, interessa mais a desagregação de uma sociedade desesperada -- e o autor não se exime de muito sutilmente fazer uma certa crítica política e cultural nas entrelinhas de alguns de seus "entrevistados" (note-se a fala de um certo ex-vice-presidente americano, por exemplo). O livro aborda as diferentes fases da maior catástrofe necrofílica da história, desde os primeiros incidentes até os anos pós-guerra (sim, sobrou alguém, do contrário o formato não faria sentido...), e merece alguma consideração pelos apreciadores do gênero.

M.R. James

Saindo do presente para o passado mais glamouroso, descobri no site da Livraria Cultura um bom acervo da coleção Contos de Mistério e Sobrenatural da Wordsworth Editions. São brochuras muito baratas (R$ 11,30 cada uma) de autores em sua maioria vitorianos, mas que incluem desde o patriarca do Gótico Horace Walpole até o maior e mais erudito de todos os autores de histórias de fantasmas, M. R. James. Deste último fiquei com An Episode of Cathedral History, que foge aos clichês do bestiário sobrenatural que o cinema consagrou. Não é o mais medonho de todos os contos de James -- Number 13 chega a ser perturbador --, mas traz todo o seu estilo característico: a erudição coloquial do antiquário, o fraseado elegante, o cenário interiorano, a sutil introdução do extraordinário no cotidiano até então demasiado tranquilo. Não é para menos: não é sempre que um medievalista bem-sucedido se dedica a escrever contos sobrenaturais -- e ninguém melhor que um para dar veracidade àquilo que escreve.


Outro amigo de férias foi W. F. Harvey. Nunca ouviu falar? Não se preocupe, a grande maioria também não. Porém, é dele um dos mais originais e estranhos conceitos de vilão sobrenatural, do qual a primeira representação de massa tenha sido o filme The Beast with Five Fingers, de 1946, exibido no Brasil como Os Dedos da Morte. Esse filme impressionante traz uma atuação de Peter Lorre que, nalgumas cenas, mostra do que o cinema em preto e branco é capaz, mesmo nestes dias de CG e 3D. O filme é apenas levemente baseado na história de Harvey, que nos anos 80 teve uma adaptação em quadrinhos no Brasil -- jamais esqueci o que li numa daquelas Histórias Reais de Drácula, publicação mensal da Bloch Editores. O conto em si tem suas imperfeições, mas o conceito... O que posso dizer é que vale a pena. Pode-se lê-lo gratuitamente aqui.

Ilustração de Varney, the Vampyre:
exemplo de vampiro à moda antiga.

Ainda na mesma leva, uma "história real" de ataque vampírico na Inglaterra. Digo "real" porque sua proveniência não é tão fácil de determinar, e ela contém elementos confirmados de verdade -- não à toa se tornou famosa não nos famosos pulps em que tais histórias eram comuns, mas numa autobiografia do escritor Augustus Hare. Mais interessante ainda é que sua história nos permite ver o quão pouco a atual versão do vampiro hollywoodiano tem a ver com o monstro que povoa lendas e relatos mais antigos. Uma extensa discussão a respeito pode ser encontrada aqui, e uma concisa avaliação cética e desdenhosa, aqui. Já o relato propriamente dito pode ser lido neste link.

quinta-feira, julho 01, 2010

A teoria das Relações Internacionais em um apocalipse zumbi



Sim, a ascensão ao poder dos nerds está mesmo deixando o mundo mais interessante: http://www.foreignpolicy.com/articles/2010/06/21/night_of_the_living_wonks?page=full

E aqui o blog do autor, que, surpreendentemente, é mesmo um especialista da área... de Relações Internacionais, bem entendido: http://drezner.foreignpolicy.com/posts/2010/06/21/oh_right_the_zombies

Extravasando a raiva

Finalmente alguém usou o Twitter para algo...hã...útil: http://movie.uol.com.br//conteudo.php?id=2036

"Era uma noite escura e tempestuosa..."



Nada como um talento que não se leva a sério. Será que vingaria uma versão brasileira deste concurso dedicado a um velho conhecido deste blog: http://www.bulwer-lytton.com ?

sábado, junho 26, 2010

Política de vanguarda

Parece que Obama vem tendo dificuldades para se fazer entender por seu eleitorado...

sexta-feira, junho 25, 2010

Um filmaço


Homem-Aranha encontra American Pie, Kill Bill e Pulp Fiction. E fica terrivelmente bom!

domingo, junho 20, 2010

"Compression of Time"

Nenhuma linguagem pode dizer tanto e de forma tão sucinta quanto a música. Por isso mesmo gosto tanto, sobretudo de trilhas sonoras -- são pura emoção em notas. Esta, um remix de um tema de Final Fantasy VIII, já citado no vídeo do post anterior sobre arte e videogame, me deu alguns minutos de intenso prazer hoje com sua mistura de melancolia, expectativa e lirismo. Compartilho com vocês.

A autoria é de Stephen Kennedy, e o tema original é do brilhante Nobuo Uematsu.


sábado, junho 19, 2010

Videogame como arte, uma vez mais



É como eu digo: videogames são uma arte, sim, ou, pelo menos, uma atualização do que deve ser a mais antiga de todas as artes: o contar histórias. É preciso nunca ter tido a experiência de um bom jogo para não entender isso. Mas não importa: esse esnobismo intelectual de Roger Ebert sempre se manifesta diante de qualquer novidade, seja a TV, um novo gênero de música ou o cinema. Rejeita-se com base em abstrações altamente subjetivas, uma exaltação ao que já se conhece, visto como profundamente enriquecedor, e rejeita-se o resto. Ora, convenhamos, o que faz a arte é sobretudo sua aceitação social como tal -- e sujeitos como Ebert fazem disso o seu ganha-pão. Afinal, com uma certa predisposição socialmente criada, a contemplação de uma formiga pode ser esteticamente enriquecedora -- ao contrário, e aqui é só minha opinião pessoal, quase tudo que vejo por aí ocupando espaço em galerias de arte contemporânea. Porém, é fato que a boa arte também cria tais experiências quando a gente menos espera -- e aí resta decidir se é a obra em si que realmente é capaz desse efeito, ou se se trata de alguma coisa em nós. Seja como for, da mesma forma como romances tais como Guerra e Paz marcaram gerações passadas como uma experência de fôlego, hoje o mesmo se dá também (e não só) com filmes e, de forma provavelmente mais intensa, também com jogos. Afinal, uma boa história -- penso aqui, por exemplo, em títulos de roteiro marcante como Metal Gear Solid ou Final Fantasy -- podem despertar no jogador uma sucessão de estados emocionais e até insights filosóficos da mesma ordem que um livro. Naturalmente, são linguagens diferentes com características muito próprias -- mas é realmente possível dizer que uma é arte e a outra não? Se o efeito que produzem nos seus... digamos "experimentadores" não é para ser levado em conta, então qual o critério? A pretensa autoridade subjetiva de ranzinzas profissionais como Ebert, supostamente mais habilitados a julgar a habilidade de terceiros?

Não importa muito. Ebert e outros como ele serão esquecidos, como os críticos da TV e do cinema já foram. Enquanto isso, o videogame é cada vez mais parte do cotidiano de gerações e está em vias de ganhar a respeitabilidade necessária, tão logo a atual juventude, que cresceu com Pac Man e Zelda, tiver assumido o topo da escala de prestígio cultural hoje ocupado por seus pais quase aposentados. Daqui a vinte, quiçá trinta anos, e um artigo como o que segue será redundante: ninguém mais precisará de livros para dizer o que será parte do senso comum.

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Inside the Box

Video games have created what must be the biggest generation gap since rock ’n’ roll. Sure, a generational rift of sorts emerged when the World Wide Web showed up near the end of the last century, but in the case of the Web, the older cohort admired and tried to emulate the younger crowd, rather than looking down on them with befuddlement or disdain. With games, a more traditional “Get off my lawn” panic has reared its head.

Illustration by Lasse Skarbovik

EXTRA LIVES

Why Video Games Matter

By Tom Bissell

218 pp. Pantheon Books. $22.95

Multimedia

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Take Roger Ebert, one of the most outspoken voices on the fogy side of this divide. In April, Ebert enraged a good portion of the Internet with a post titled “Video Games Can Never Be Art” on his Chicago Sun-Times blog. (To which one games blogger offered the rejoinder “Art Can Never Be Video Games.”) Acknowledging that “never” is a “long, long time,” Ebert wrote, “Let me just say that no video gamer now living will survive long enough to experience the medium as an art form.”

Ebert was restating a claim he made five years ago that “no one in or out of the field has ever been able to cite a game worthy of comparison with the great dramatists, poets, filmmakers, novelists and composers.” And he’s right about that, for now. But I would happily accept a wager, and I imagine Tom Bissell would, too. Almost 30 years ago,Martin Amis wrote a book called “Invasion of the Space Invaders,” now out of print, about the dawn of the arcade era of video games — which Bissell nods at in the very first sentence of his new book, “Extra Lives: Why Video Games Matter.” A mere blink of an eye later, video games (at least the kind Bissell is interested in) have evolved into ambitious works of narrative fiction. They are not yet, granted, what we would regard as literary fiction, but that’s one reason Bissell wrote this book. (Of early game designers he writes, “These men’s minds were typically scattered with the detritus of Tolkien, ‘Star Wars,’ Dungeons and Dragons, ‘Dune’— and that was if they had any taste.”)

Bissell was born in 1974, which puts him on the cusp of gaming’s generational divide. That transitional position affords him a perspective not unlike — if you’ll indulge the grandiose analogy — that of Tocqueville or McLuhan, figures who stood on the bridges of two great ages, welcoming the horizon while also mourning what the world was leaving behind. Bissell sees video games with open eyes. His book is about the profoundly ambivalent experience of playing them — close readings (close playings?) mostly of big-budget action and science fiction titles for consoles like the Xbox and PlayStation. These are the games most likely to draw a disparaging remark from a United States senator or a newspaper film critic. “Extra Lives” is a celebration of why they matter, but it is also a jeremiad about “why they do not matter more.”

Bissel, a contributing editor at Har per’s Magazine who teaches fiction writing at Portland State University, cops to spending more than 200 hours playing one game, some 80 hours another. “The pleasures of literary connection seem leftover and familiar,” he writes. “Today, the most consistently pleasurable pursuit in my life is playing video games.” He says this despite encountering “appalling” dialogue, despite hearing actors give line readings of “autistic miscalculation,” despite despairing over the sense that gamers and game designers have embraced “an unnecessary hostility between the greatness of a game and the sophistication of things such as narrative, dialogue, dramatic motivation and characterization.”

Despite all this, the interactive nature of video games enables moments that Bissell calls “as gripping as any fiction I have come across.” In particular, he is smitten with Grand Theft Auto IV, a game he sometimes regards as “the most colossal creative achievement of the last 25 years” (while at other times regarding it as “misguided and a failure”). A scene in that game, in which the protagonist — controlled by the player — must dispose of two dead men by driving them across a fictional New York City with their bodies in the trunk of his car, illustrates how video games are “an engine of a far more intimate process of implication” than other works of fiction, Bissell writes. Inter activity “turns narrative into an active experience, which film is simply unable to do in the same way. And it is moments like this that remind me why I love video games and what they give me that nothing else can.”

If photographs are “experience captured,” in Susan Sontag’s phrase, then video games are experience created. The medium can be so engaging, so addictive — Bissell compares playing games to his time using cocaine — that many game makers get away with fiction that makes Stephenie Meyer “look like Ibsen.” A novel or a movie that is poorly written is relatively easy to abandon. Well-designed games that feature bad writing “do not have this problem,” Bissell notes. “Or rather, their problem is not having this problem.”

Roger Ebert and those who agree with him are unlikely to have their minds changed by a book. You can understand video games as a medium of communication, or as an emerging art form, only by playing them. (Ebert’s most recent judgment was rendered after watching online videos of certain games, which is something like judging movies by listening to them.) But Bissell has written the finest account yet of what it feels like to be a video game player at “this glorious, frustrating time,” a rare moment when humanity encounters, as he writes, “a form of storytelling that is, in many ways, completely unprecedented.”

Chris Suellentrop is an editor at The Times Magazine.