segunda-feira, maio 02, 2011

Game Over?


Obama anunciou que Osama bin Laden, o legendário terrorista que arquitetou o 11 de Setembro, foi morto no Paquistão. "Justice has been done", disse ele, e várias outras pessoas têm concordado. O próprio Andrew Sullivan, blogueiro católico mezzo conservador e mezzo liberal, comemorou a morte de Osama. Eu, no entanto, não comemoro; acho mesmo incômoda tanta alegria pela morte de uma pessoa -- uma morte que, sabidamente, não resolve o problema do terror ou das muitas mazelas que a luta contra ele causou à própria alma dos Estados Unidos. Entendo Obama, é um político em um mundo que ainda vê com naturalidade a pena de morte ou assassinatos seletivos. Entendo os americanos, feridos por um atentado horrível que marcou época. Entendo todos os que pensaram "Bem feito!" ao saber da notícia. Entender, entendo. Mas acho que podemos ir além, podemos fazer mais. Preferiria ver bin Laden julgado, contestado em público, em toda a crueza de sua visão primitiva do mundo. Mas não foi o que houve; o que se deu foi uma celebração da vingança. Não houve julgamento, não houve processo legal. Do opnto de vista utiliátio, uma morte assim o faz mártir dos que o seguem, e dá uma ilusão de solução para os que o combatem. Ainda é uma forma de culto da morte, e isso me incomoda. Num país que se gaba da fé nas leis e instituições, bem como nos direitos individuais, essa exceção em nome da vingançaa coletiva realmente me incomoda. Até Eichmann foi julgado (justo ou não, confesso não saber), e Göering e outros altos nazistas. Seria verdadeiramente um triunfo se bin Laden tivesse o mesmo destino.

Parece que a morte foi num tiroteio, e pode bem ser que não tenha mesmo sido possível capturá-lo com vida. Não entro nesse mérito. Mas ainda assim, deixo aqui um registro de dissidência. Enquanto acharmos que matar pessoas elimina problemas amplos como fanatismo religioso ou ódios coletivos, estaremos longe da verdadeira solução. E embora eu entenda que um chefe de Estado como Obama diga o contrário, ainda estou por ver uma postura que vá além disso, que consiga conciliar minimamente as responsabilidades de um líder com uma ética mais elevada que o toma-lá-dá-cá da guerra.

Mas, enfim, Estados lutam por poder, e refletem o estado moral de seu povo. Ainda estamos longe de uma cultura de não-violência, de maior reverência pela vida, de busca de alternativas. Um líder desse gênero provavelmente estaria se suicidando politicamente. Ou será que não? é possível um novo Gandhi, alguém que atue na política mas sabendo manipular outras referências de conduta, outros princípios? Não sei, não tenho mais que perguntas na cabeça. É, porém, algo que importa considerar, pois o status quo moral de nosso tempo é péssimo. Algo deve ser feito, e comemorar mortes não é parte disso.
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P.S.: Um comentário de Lawrence Wright sobre o caso, na The New Yorker: http://www.newyorker.com/online/blogs/newsdesk/2011/05/bin-laden-hey-hey-goodbye.html. E mais um, que reconhece os problemas morais do caso (embora não exatamente como eu): http://www.frontporchrepublic.com/2011/05/he-deserved-it/. Outro, de um autor que sugetivamente assina "Thoreau", aqui: http://highclearing.com/index.php/archives/2011/05/01/12861.

P.P.S.: Uma reflexão católica, que pega bem o aspecto moral do evento: http://catholicmoraltheology.com/justice-mercy-and-solidarity/.

Um comentário:

Parte de mim disse...

Legal, posso dizer que essa celebração também me incomoda. E que vai poder fazer várias reflexões.
Para o Obama como político dá uma fortalecida na imagem dele, ainda mais se pretender ser reeleito, pois as coisas não andavam lá muito bem. Mas dizer que justiça foi feita é exagero.
As complicações do que aconteceu ainda vão pipocar por ai, e mesmo parecendo pessimista, acredito que não serão coisas boas.
Não vai dar para saber muito sobre o que aconteceu, mas o que foi feito tem o nome de assassinato. Ou existe outra forma para nomear a ação de matar alguém? É a razão do Estado que é bem volátil. Para os americanos como nação deve ser uma recuperação de sua honra e outros tantos, pois era um feito esperado.
Simbolicamente jogar o corpo dele no mar, não vai impedir, ao meu ver, uma celebração do corpo dele. Pode mudar de um mausoléu para um rio, mas a celebração é parte do ritual deles. Não foi como a morte e exposição de Mussoline ou queima de Hitler. Mas é um símbolo.