segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Vegetarianos e onívoros

Não sou vegetariano. E, para ser franco, também não estou convencido de que sê-lo -- pelo menos no sentido mais completo da palavra -- seja uma opção saudável no mundo de hoje. Carne é um alimento extremamente eficiente sob vários aspectos -- há quem veja nela um dos motivos do sucesso de nossa evolução cerebral, nos duros tempos de nossos antepassados simiescos. Abrir mão dela inteiramente não só dá trabalho, mas exige uma série de cuidados que duvido que a maioria de nós queira ou tenha condições de ter -- pergunte a um pediatra se ele recomenda uma dieta assim para crianças pequenas ou grávidas. No entanto, não seria honesto negar que: a) nunca se comeu tanta carne no mundo; b) isso tem um preço ambiental elevado; c) comer carne tem, sim, implicações éticas; d) comemos mais carne do que realmente precisamos. Por isso, comprei o livro de Saffran Foer, citado abaixo, para conhecer melhor o que ele tem a dizer sobre a questão. E divido com vocês esta reportagem interessante da Folha de S. Paulo, publicada hoje.

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Comer ou não comer animais?

jovens elegem vegetarianismo como bandeira política, mas precisam ficar de olho na qualidade do que colocam no prato

Carlos Cecconello/Folhapress
Da esq. para a dir., Iran, Athos e Rodolfo têm uma banda de hardcore vegana

LAURA CAPRIGLIONE
DE SÃO PAULO

FERNANDA MENA
EDITORA DO FOLHATEEN

"Meus pais comem muita carne. Minha mãe comprava galinha e matava em casa. Aquilo mexia comigo. Um dia, fui visitar familiares no Nordeste e eles mataram um porco a marretadas! Como tinham coragem de marretar a cabeça de um bicho que era quase de estimação? Ali eu parei." Foi assim que Rodolfo Duarte, 23, gerente de restaurante em São Paulo, riscou as carnes do seu cardápio.
Mesmo sem presenciar um abate, a estudante Laura Viana, 17, chegou à mesma conclusão. "Comecei a achar que, com tantas opções de alimentos, não era necessário criar animais com o único objetivo de comê-los."
Enfrentando os preconceitos que ainda existem contra vegetarianos (seriam hippies tardios, fracotes) e a pressão dos pais (meu filho vai ficar anêmico?), um grupo crescente de jovens tem optado por não comer animais, movidos mais por questões éticas e ambientais do que de saúde (veja quadro à pág.8).
Pesquisa da Escola Superior de Propaganda e Marketing no final de 2010 contabilizou 4% de vegetarianos entre jovens de São Paulo e Rio, das classes A, B e C. Nos EUA, um em cada cinco universitários já aboliu a carne.
Segundo Johathan Safran Foer, autor de "Comer Animais", "virou um fenômeno político. Quando eles se tornarem jornalistas e políticos, o ponto de vista sobre a questão da carne vai mudar completamente", diz.
É nas redes sociais, em eventos como a Verdurada (festival de música com comidinhas sem carne), ou na base da curiosidade que os novos vegetarianos se viram.
A estudante Ana Carvalho, 15, parou de comer carne há três anos e começou a se encher de pão e doces. No fim de 2009, estava anêmica.
Foi um drama. A mãe queria porque queria que ela parasse com aquela história. E Ana concordou em voltar aos bifes. "Só por seis meses." Assim que o sangue voltou ao normal, ela -de novo- aboliu a carne.
"Agora, sigo a dieta indicada por uma médica, com soja, beterraba, cenoura e verduras. Estou ótima", diz.
Segundo o nutrólogo e hebiatra Mauro Fisberg, docente da Universidade Federal de São Paulo, "aprender com os amigos não basta; é importante procurar a ajuda de um médico ou nutricionista para uma dieta equilibrada".
"Quando parei de comer carne, parecia que eu é que era a aberração", diz Thiago Vasconcelos, 18. Nem a mãe dispunha-se a cozinhar para ele. "Eu já sabia cozinhar de forma péssima. Aí, tive de melhorar para ruim."
Muitos vegetarianos são obrigados a aprender a cozinhar, já que ainda há poucas opções nos restaurantes.
Mas conforme tornam-se mais importantes na demografia, grandes indústrias passam a cobiçar o novo mercado. A Perdigão, por exemplo, já oferece produtos como salsicha e hambúrguer de soja. Outras empresas vêm com quibes e linguiças vegetais, bife de glúten e até os inacreditáveis glutadela (mortadela de glúten) e tofupiry (requeijão de tofu).
Já que essa geração de vegetarianos tem mais problemas com os maus-tratos da indústria do abate e seu ônus para o planeta do que com o gosto da carne em si, dá-lhe imitação. "Adoro os industrializados", diz Iran Pereira, 21, da banda Still Strong. É um vegetarianismo muito além das abobrinhas.


"Não há opção fácil do tipo "vou parar de comer hambúrgueres'"

IZABELA MOI
EDITORA-ASSISTENTE DA ILUSTRÍSSIMA

"Comer Animais", lançado no início do mês no Brasil, é a primeira obra de não ficção do premiado autor norte-americano Jonathan Safran Foer ("Tudo se Ilumina"). O livro já saiu em 25 países. "É um livro que mostra como o sistema de produção de alimentos está falido", disse Foer, 33, à Folha.


Folha - Por que você resolveu escrever "Comer Animais"?
Jonathan Safran Foer
- A principal razão foi meu filho. Quando descobri que minha mulher estava grávida e que teríamos a responsabilidade de alimentar outra pessoa, eu quis procurar informações para decidir melhor.

Como é que isso se transformou num livro?
Não tinha como não escrever. Eu tinha de compartilhar todas essas descobertas.

Como as pessoas reagem em suas palestras?
Todo o mundo concorda que o sistema de produção de alimentos está falido e que precisamos de um novo. Afinal, quem quer apoiar um sistema que é a causa número um do aquecimento global? Quem quer um sistema que mantém fêmeas de animais grávidas em espaços tão exíguos que elas não conseguem se mexer durante toda a sua vida?

Como mudar esse sistema sem virar vegetariano?
Não há uma opção fácil do tipo "vou parar de comer hambúrgueres". Temos de reduzir o consumo de carne. Em um planeta que não vai ficar maior, o sistema que existe não é sustentável nem saudável. Na sua próxima refeição, não coma carne.

E se seus filhos quiserem provar carne de vaca ou galinha?
Não sei. Nosso objetivo não é criar vegetarianos, mas formar seres humanos capazes de agir de acordo com seus princípios.


CARNE TAMBÉM É ISTO

-O que indústria de abate de animais produz além da carne que chega aos supermercados

-80% das áreas desmatadas do país são ocupadas pelaatividade pecuária
-A criação de animais emite mais gases de efeito estufa do que todo o setor de transportes
-A cada 18 segundos, um hectare de floresta amazônica é convertida em pasto
-O rebanho brasileiro que mais cresce está na região da Amazônia
-Galinhas poedeiras (que botam ovos) vivem numa área menor que uma folha de papel A4 cada. Os pintinhos machos que nascem nessa indústria são "destruídos" em maceradoresporque não têm valor comercial
-6 semanas é o tempo médio de vida de um frango de granja até seu abate. Na natureza, ele viveria cerca de 15 anos. Esse crescimento em tempo recorde é estimulado artificialmente
-Frangos de abate tem seus bicos cortados para não machucarem uns aos outros ou a si próprios, o que é comum no ambiente confinado das granjas
-70% dos estoques pesqueiros comerciais estão ameaçados de extinção
20 das 35 espécies de cavalo-marinho estão ameaçadas de extinção porque são mortas "sem querer" por redes de pesca de arrastão
-Para cada quilo de camarão pescado em redes de arrastão, cerca de 20 quilos de outros animais marinhos são mortos "sem querer" e atirados de volta ao mar
-15 mil litros de água são exigidos na produção de apenas um quilo de carne
-Leitões são castrados sem anestesia e vivem em cercados superpovoados para se locomoverem menos e, assim, engordarem mais e mais rápido

CAMINHO DO MEIO

-O que carnívoros convictos podem fazer?

-Dê preferência a ovos orgânicos ou caipiras, produzidos por galinhas criadas livres
-Escolha carnes orgânicas e certificadas, com comprovação de origem (para ter certeza de que não ajudaram a desmatar a Amazônia)
-Adote a campanha Segunda Sem Carne. Com isso, você reduz o seu consumo de carne e faz refeições diferentes às segundas-feiras (www.svb.org/segundasemcarne). O ex-beatle Paul McCartney, a apresentadora Oprah Winfrey e os artistas Gilberto Gil, Marisa Monte e Moby já adotaram

DE OLHO NA SAÚDE

Como ser um vegetariano saudável

-Consulte um nutrólogo para aprender a fazer refeições equilibradas e nutritivas. Discuta com ele a necessidade do uso de suplementos vitamínicos
-Segundo alguns nutrólogos, manter ovos e laticínios na dieta é interessante porque são fontes importantes de proteína
-Não dá para ser vegetariano e viver de batata frita e bolacha recheada. Há veganos que consomem mais gordura trans do que os carnívoros. Aprenda a cozinhar
-Quem não come carne tem mais chance de ter anemia, causada por carência de ferro. O ferro de origem vegetal (feijões, cereais integrais, castanhas e folhas verde-escuras) é melhor absorvido pelo corpo se acompanhado de vitamina C (frutas e verduras cruas)

Fontes: Governo Federal, Unesco, Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), WWF, Greenpeace, PETA, Instituto Nina Rosa, "Comer Animais" (de Jonathan Safran Foer) e "Virei Vegetariano. E Agora?" (de Eric Slywitch)

6 comentários:

Jeanne disse...

Então, Rodrigo, alguns pontos dentro da perspectiva vegana, que tenho por sê-lo:

- O trabalho que dá ser vegetarianx é igual ou menor o que dá ser onívorx. Na verdade, você não tem trabalho por não comer carne e sim por querer alimentar-se de forma saudável. E alimentação saudável é igualmente "trabalhosa" para onívorxs e vegetarianxs, embora, sinceramente eu não considere algo nem um pouco penoso, muito pelo contrário;

- Tirando esquimós e outras situações semelhantes, todxs temos condições de sermos vegetarianxs. Isto porque a alimentação vegetariana é tão despendiosa quanto a onívora, pode ser menos, inclusive, se alimentação for baseada em comida não-industrializada. Talvez seja mais caro alimentar-se de produtos industrializados vegetarianos, mas isso não é necessidade para ninguém, nem gastronomica nem fisicamente falando;

- Gravidez, infância e veganismo tem tudo a ver e é algo totalmente possível. Um dos maiores mitos que envolvem o vegetarianismo é ele ser apropriado apenas para alguma fase da vida. Caso seja de seu interesse, posso te passar várias referências sobre veganismo na gravidez e infância, sem contar exemplos vivos disso;

- Sobre facilidades e dificuldades em ser vegetarianx acho que depende da postura que se assume diante disso. Para mim não existe dificuldade alguma em me alimentar de forma saudável, gostosa, mais ética e ambiental - embora para resolver estas duas últimas questões o esforço necessite ser maior do que a abolição ou não do corpo de um animal no prato;

- O caminho do meio é pura balela se você está considerando o viés ético do vegetarianismo. Não existe uma forma justa de explorar seres sensíveis e conscientes;

- Saúde e vegetarianismo estão muito mais próximos do que oniviorismo e saúde. A lógica que apresenta casos de anemia para vegetarianos é a mesma que omite e negligencia os danos que ingredientes de origem animal causam ao nosso corpo - tais como prisão de ventre, AVC, problemas cardíacos, obesidade entre tantos outros;

- Eu devo conhecer mais de cem vegetarianos, além de participar de eventos, ler e discutir o assunto e eu NUNCA vi em toda minha vida alguém com carência proteica. Isso não existe. Qualquer combinação vegetal simples supre nossa carência de proteínas. O ÚNICO nutriente escasso é a vitamina B12, que além de poder ser suplementada sem dificuldade, é mais rara muito por conta da produção, transporte, conservação, etc. aos quais os alimentos estão submetidos na nossa sociedade.

Por enquanto é isso. :)

Carinho,
Jeanne

Priscila disse...

Realmente é um processo muito difícil... É triste, mas conclui que isso não será possível nessa minha encarnação... rs rs rs
Beijos!
P.

Rodrigo disse...

Olá, Jeanne.

Em primeiro lugar, bem-vinda ao meu cantinho virtual! :-)

Pelo visto, você é realmente uma adepta consciente, que se informa sobre o assunto. Obrigado por compartilhar comigo e meus perseverantes leitores.

Vou aproveitar o livro do Foer para conhecer melhor a questão. Por enquanto, minha única objeção é sobre o que disse sobre "o caminho do meio" ser balela. Ele o é na perspectiva vegana, que abre mão completamente de todo alimento de origem animal e ainda -- me corrija se estiver enganado -- outros produtos do mesmo tipo. Logo, é uma perspectiva que vê qualquer uso dos animais para fins humanos (pelo menos quando implica sua morte) como imoral. É uma visão possível, mas decerto não autoevidente, especialmente quando se leva em conta o tamanho que a população humana atingiu nos últimos séculos e o histórico da nossa espécie. Fora esse lado prático, que é, sim, antropocêntrico, tem a questão do papel do homem na natureza e o que daí lhe seria ou não lícito fazer nas relações com ela.

A discussão é instigante e complexa, como todas que envolvem visões fundamentais de mundo. Mas vou me informar mais e, quem sabe, no futuro podemos voltar a ela.

Um abraço,
Rodrigo.

Tostes disse...



B12 é encontrada no gergelim e em algumas algas, em quantidade comparável à encontrada no fígado de vaca.
Uma dica: alga no feijão. =)


E, Rodrigo

é mais fácil do que se imagina.

Abraço e parabéns pelo blog.

Fernanda Rodrigues disse...

Realmente não é uma escolha fácil, até por que é difícil ainda o acesso a alimentos necessários a alimentação vegetariana, e a lugares que se destinam a esse público específico. Porém é uma escolha, e enquanto tal deve ser feita de forma equilibrada, sem forçar nada, seguindo a modismos que infelismente vem ocorrendo nesse sentido, e de acordo com o que for melhor para o organismo. Concordo com a Jeanne em tudo que ela destaca, tem mais de 6 anos que me alimento dessa maneira e nunca tive nenhum tipo de problema, e eu nem sigo a risca uma dieta necessária para tal. Abraço Rodrigo...

mayara disse...

Legal a discussão. Vi informações interessantes a respeito, mas não posso me intitular vegetariana.
A questão me parece uma necessidade pessoal, podem ter tanto pessoas com problemas adotando uma dieta com grande quantidade de carne, como com a ausência dela. Cabe reconhecer o que seu corpo sinaliza.
Particularmente não como carne de porco, não gosto muito de bovinos e tolero frango. Laticínios e derivados me fazem mal, mesmo sem ter alergia alimentar. Prefiro um bom espinafre e coisas mais naturais, me sinto melhor fisicamente falando, e por aí que vou terminar, pois não consigo nem pensar nas implicações que esses animais passam para chegarem até nós, é muito doloroso. Mas sei o que acontece e acho lamentável.