terça-feira, novembro 29, 2022
Thomas Paine e seu "Nosso Lar" de 1852
quinta-feira, novembro 17, 2022
Didaqué: o senso crítico dos primeiros cristãos
Reli a Didaqué de ontem para hoje, por conta da aula sobre Cristianismo em Introdução às Grandes Religiões. É breve, mas impactante. Como pude esquecer desse livreto tão rico de espiritualidade? Quase tudo ainda é perfeitamente válido, e foi difícil não lembrar do ideal de uma comunidade cristã baseada na simplicidade e na boa-vontade, sem todo o monturo teológico e ritualístico que se acumulou depois. Fiz até um miniculto no lar com os primeiros capítulos, e deixo aqui alguns destaques como lembrete para mim mesmo quanto à utilidade da obra.
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Didaqué (ou Instrução dos Doze Apóstolos, séc. I)
Cap. XI
4- Todo apóstolo que vem até vocês seja recebido como o Senhor.
5- Ele não deverá ficar mais que um dia ou, se for necessário, mais outro. Se ficar por três dias, é um falso profeta.
6- Ao partir, o apóstolo não deve levar nada, a não ser o pão necessário até o lugar em que for parar. Se pedir dinheiro, é um falso profeta.
8- Nem todo aquele que fala inspirado é profeta, a não ser que viva como o Senhor. é assim que vocês reconhecerão o falso e o verdadeiro profeta.
9- Todo profeta que, sob inspiração, manda preparar a mesa, não deve comer dela. Caso contrário, trata-se de um falso profeta.
10- Todo profeta que ensina a verdade, mas não pratica o que ensina, é um falso profeta.
[...]
12- Se alguém disser sob inspiração: “Dê-me dinheiro” ou qualquer outra coisa, não o escutem. Contudo, se ele pedir para dar a outros necessitados, então ninguém o julgue.
Cap. XII
1 - Acolham todo aquele que vier em nome do Senhor. Depois, examinem para conhecê-lo, pois vocês têm juízo para distinguir a esquerda da direita.
2- Se o hóspede estiver de passagem, deem-lhe ajuda no que puderem; entretanto, ele não permanecerá com vocês, a não ser por dois dias, ou três, se for necessário.
3- Se quiser estabelecer-se com vocês e tiver uma profissão, então trabalhe para se sustentar.
4- Se ele, porém, não tiver profissão, procedam conforme a prudência, para que um cristão não viva ociosamente entre vocês.
5- Se ele não quiser aceitar isso, é um comerciante de Cristo. Tenham cuidado com essa gente.
AA. VV.. Didaqué (Avulso) . Paulus Editora. Edição do Kindle.
domingo, novembro 06, 2022
Angulimala, o "serial killer" budista
Palestra na Congregação Espírita Francisco de Paula (CEFP), tema "A felicidade e a consciência tranquila", numa série chamada "Descobrindo Jesus". Deixei para planejar meio em cima, consultei livros sobre a filosofia da felicidade, e estava difícil achar uma linha argumentativa, um raciocínio que fluísse pela exposição. E aí, querendo aproveitar algo dos meus estudos sobre religião para a UFRJ, procurei sobre Taoísmo, depois Budismo e acabei achando a história de Angulimala, talvez o primeiro serial killer de que tenhamos registro. Entre Wikipedia e o livreto de Hellmut Hecker que linkei acima, fiquei impressionado com a história e suas implicações, a ponto de ter meu roteiro original quase engolido por ela. O que era para ser uma história mote acabou virando o coração da palestra. Cabia tudo nela: o ser vítima de uma injustiça inicial como indução ao crime, a violência, a culpa, a decisão de mudar de rumos, o respeito para com o criminoso. Uma história poderosa de redenção, que me comoveu quase às lágrimas, e que serviria não só para a palestra, como também para meus estudos sobre desobsessão.
A palestra foi ótima, acho que desenvolvi bem o assunto, pois a história é muito eloquente por si mesma. Na volta, voltei lendo The Buddha and the Terrorist, uma adaptação da história escrita pelo ativista Satish Kumar. É um livro curto, e até aqui interessante. Certamente pode ser um bom material para um curso sobre não violência também. (Aliás, o ensaio de Hecker é lindo, valeria a pena uma tradução.)
quarta-feira, outubro 19, 2022
Chico Xavier/Emmanuel e a democracia liberal, 1935
Chico Xavier: A
defesa da democracia em entrevista de 1935 psicografada ao GLOBO
Durante série de reportagens sobre o médium
publicada em 1935, mineiro recebeu mensagem de espírito criticando extremistas
e o personalismo na política brasileira
01/07/2022 18h05
Chico Xavier tinha 25 anos de idade
e trabalhava no balcão de uma venda em Pedro Leopoldo, a 40 quilômetros de Belo
Horizonte, quando o repórter Clementino Alencar, do Jornal O GLOBO, chegou à
pequena cidade mineira para ver de perto e escrever sobre as habilidades
sobrenaturais do até então desconhecido médium, em abril de 1935.
Na época, textos do escritor
Humberto de Campos psicografados por Xavier estavam circulando pelo Rio,
gerando grande curiosidade sobre o jovem mineiro. Enviado a Pedro Leopoldo para
revelar os detalhes por trás daquelas "mensagens", Alencar chegou ao
município desconfiado, não sabia ainda até que ponto poderia crer no trabalho
do médium. Xavier, por sua vez, também se mostrou hesitante. Não estava
interessado em ser tema de reportagens de um jornal da cidade grande.
"Sou um pobre rapaz
do mato, não convém tanta notícia... Por favor, deixem-me assim mesmo, na
obscuridade", disse ele quando foi apresentado ao repórter, que respondeu
dizendo que as mensagens psicografadas por Xavier já estavam gerando muito
interesse e que os esclarecimentos não fariam mal. "Mas eu tenho receio.
Os jornais falam, e depois toda a gente por aí se põe a discutir, não me deixam
mais tranquilo no meu canto. De certo, quererão coisas que eu não posso
fazer".
Mas aquele era só início
de uma troca entre repórter e entrevistado que evoluiria ao longo de semanas.
Durante todo o mês de maio, O GLOBO publicou reportagens diárias sobre Xavier.
Foi a primeira grande publicação sobre o trabalho do médium, que se tornaria um
ícone do espiritismo, famoso em todo o Brasil. Ao morrer, há 20 anos, o mineiro
deixou de legado mais de 490 obras psicografadas.
Nas semanas em que estiveram
juntos, Alencar conheceu a casa do médium, conversou com pessoas próximas e
acompanhou diversas sessões espíritas, sempre às quartas e sextas-feiras.
Também levou a ele perguntas elaboradas por médicos, juristas e
administradores, para testar a capacidade de Xavier de psicografar as
"mensagens de além túmulo" enviadas. Apesar de o mineiro não ter
concluído o ensino básico, as respostas impressionavam por mostrar conhecimento
sobre os temas. Para as testemunhas, era um sinal de que ele estava recebendo
aquelas informações de outro plano.
No dia 16 de maio de 1935, o jornal
publicou na primeira página a manchete: "Repórter do GLOBO consegue a primeira
entrevista das sombras no país". Era uma pergunta de Clementino Alencar
sobre política respondida por Emmanuel, o espírito que conversou com Xavier ao
longo da vida do médium, falecido em 30 de junho de 2002, aos 92 anos.
Estávamos na era Vargas, dois anos antes da
instauração da ditadura do Estado Novo, ainda sob a crescente ameaça fascista
do movimento
integralista e seis meses antes da Intentona Comunista. O jornalista, então, questionou Emmanuel, através do
medium, sobre os riscos e as possíveis consequências da instalação de um regime
extremista no Brasil. Eis a resposta psicografada:
"Amigos, que Deus ilumine o vosso entendimento.
Avesso a política, me sentiria mais a vontade se fosse inquirido acerca
do evangelho. Todavia, opiniões são cousas que pouco se custa a fornecer.
Contudo, os meus pareceres são igualmente pessoais como os vossos, sem o
caráter da infalibilidade.
As mais extravagantes teorias políticas têm sido veiculadas no Brasil.
Tudo aí se mistura e todas as ideias se propagam sem que o sejam devidamente
estudadas, ponderadas no cadinho de análise mais rigorosa. A implantação de um
regime extremista seria um grande erro que o sofrimento coletivo viria
certamente expiar.
De um lado prevalecem as doutrinas dos governos fortes, como a política
do "sigma" copiando o fascismo em suas bases; na outra margem, se
encontra o comunismo, inadaptável ainda à resistência da nacionalidade,
levando-se em conta o problema da necessidade de braços para o trabalho em uma
terra vastíssima a espera das iniciativas e cometimentos de progresso preciso.
É verdade que a Rússia atual fornece exemplos ao mundo inteiro, porém os homens
que inauguraram violentamente os seus novos regimes não se fizeram de um dia para
o outro. Eles representavam muitos séculos de opressão, de martírios, de
tormentos nefandos. Não saíram do proletariado que se compraz da incultura, mas
da energia coordenadora que busca conciliar o labor operário com o trabalho
intelectual das academias.
O Brasil necessita, antes de tudo, combater o magno problema do
analfabetismo. É necessário que se solucione o enigma pedagógico que implique
toda essa mocidade sem entusiasmo e sem energia para o estudo. Para o estado
atual não se enquadra outro regime fora da democracia liberal, até que o povo
se eduque convenientemente para as grandes iniciativas do porvir. Fora disso é
a ilusão portadora dos desenganos trágicos que empobrecem a economia e roubam a
paz social.
Infelizmente, a ambição, o personalismo infestam os bastidores da
política brasileira, eminentemente prejudicada pela sua visão mesquinha,
concernente aos problemas da coletividade. Mas o que quereis? O trabalho é dos
homens e a eles compete a realização do progresso necessário. Longe do cenário
do mundo não nos é lícito influenciar sobre questões distantes da nossa esfera
de ação.
A nossa atividade unicamente se circunscreve ao esclarecimento das
almas, pugnando para que as construções de crença sejam novamente reedificadas
no templo dos corações humanos trabalhados pelas concepções amargosas e
destruidoras do negativismo. Para atingirmos semelhantes desideratum só no
evangelho buscamos os nossos programas de ação. O nosso labor intenso é todo
realizado com esse objetivo.
Que os homens resolvam de entendimento posto no código da perfeição,
legado à Terra por Jesus e estarão de acordo com a evolução que deve presidir
todas as manifestações das nossas atividades nos setores do trabalho humano. A
Deus elevemos, assim, os nossos votos humildes para que os governantes do
Brasil se acautelem com a infiltração de ideias contrárias ao bem estar social
e em desacordo com a sua vida de nacionalidade nova e apta a desempenhar um
papel muito preponderante no seio da humanidade."
terça-feira, junho 07, 2022
domingo, dezembro 26, 2021
Infância e memória
Acabo de ler o capítulo X de Lições de Abismo, de Gustavo Corção. Tocou-me singularmente, e acho que a convivência com a Aurora é em grande parte a causa. Ele fala das lembranças da infância, mas não as próprias, e sim as que os outros guardam de nós. E assim me fez lembrar de todas as "testemunhas", como ele diz, da minha própria infância, e de como eu sou, agora, da de minha filha -- guardando aquilo que atiramos fora, os fatos que perdemos, um mundo de coisas que se apagam de nossas mentes. A cada foto ou registro que faço de Aurora nesta fase de sua vida, de apenas 3 anos e quase 10 meses, eu me pergunto se ela irá lembrar, e sei que provavelmente não vai. Vivemos uma espécie de grande prólogo, que mal é lembrado depois que o drama avança.
Transcrevo, que é coisa bela demais para ser tão-somente mencionada:
A morte dos mais velhos - tia Dulce, mamãe, papai, tio Afonso - amortece muito em nós essa idéia de ter surgido quando já ia em meio a tumultuosa conversação que é a história do homem. Lembro-me da aflição em que fiquei quando vi fecharem-se os olhos, da última testemunha de minha infância, a velha Cata? rina, que criara a mamãe, e que se obstinava em sobreviver. Morreu com oitenta e sete anos, velhinha, sequinha, e eu me achei despegado de tudo o que ficara para trás. Nunca me senti tão adulto, e tão só.
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Ah! a velhinha morta no seu berço
Com o terço na mão !
Sementes de ave-marias penduradas
Num galho murcho e curtido
Caído
No chão.
Nunca me sentira tão autônomo e tão sem mimmesmo. Catarina levava em seu caixão um monte de vida perdida - e era justo que levasse. Pois minha infância era mais dela do que minha. Era o seu tesouro. O que eu ia atirando fora ela ia guardando . . . ah! a velhinha guardadeira ! É claro que não era para si mesma que ela apanhava no chão as lembranças caídas . Era para todos? para a serventia geral da casa. Para o que desse e viesse. Guardava meus risos como guardava os botões, porque era preciso que alguém guardasse o que todos perdiam.
Expulso de mim, morava nela a minha infância, inteira, intata, verdadeira. Atrás da testa engelhada, eu continuava a correr em domingos de sol. Sua alma era um
baú enorme onde cabia tudo. Cabiam papagaios soltos, barra-manteiga, chicote-queimado. Lembranças desbotadas, suavemente amarelas . Doenças. Tombos. Você se lembra, Catarina? Catarina está ficando velha, mas não esquece. Velha por fora, cada vez mais velhinha, mas por dentro cada vez mais louçã,
mais clara, mais lisa.
Ah! a velhinha crestada, queimada
pelo seu próprio coração. Queimada viva!
As rugas da alma foram subindo docemente,
bolha por bolha,
à tona da pele engelhada
(de renda e de folha)
numa transfiguração !
Naquele tempo eu não sabia (juro que não sabia!) que estava dentro dela um mundo imenso, um mundo de prodígios - um mundo que não era este mundo - em que eu continuava criança a correr numa lembrança inextinguível. Um mundo fora e dentro deste mundo. Andando pela casa. Varrendo. Indo e vindo. Familiar. Ao meu alcance. Catarina ! Eu chamava, e vinha um mundo. E atrás, um mundo ainda maior ! O mundo anterior; em que eu não fui. O mundo em que eu não era...
Seu corpo seco, enxuto, murcho,
era um cânhamo torcido,
esticado e lançado sobre vales profundos.
Sua mão cerzia os anos.
Sua alma era um nó entre dois mundos.
Minha infância - eu já disse - era mais dela do que minha. Sem que ela reclamasse, é claro, esse direito de reter. Guardava para o que desse e viesse; para servir.
E agora?
Quando viva, minha vida era suspensa e gratuita. E eu não sabia! Estava nela o meu segredo, o sinal, a explicação, o nexo, e a mistura - sim, a composição metafísica de ser e de não-ser de onde eu nascia continuamente. Os dois mundos. Os dois mundos se casavam, se confundiam, e eu vivia a nascer, a crescer, a jorrar inextinguivelmente.
E agora?
Catarina! Catarina!! Ca-ta-riii-na! Você não ouve, criatura? Você ficou surda? ... Catarina, onde é que você botou minha infância?
quarta-feira, dezembro 22, 2021
A formação do Espiritismo (artigo no Café História)
Um artigo que gostei muito de escrever, embora o assunto seja sempre maior que o espaço disponível: https://www.cafehistoria.com.br/a-formacao-do-espiritismo/.
sábado, setembro 11, 2021
Sanidade espiritual em tempos de loucura
Já divulguei antes, mas os tempos pedem... Para cristãos de todas as correntes, e seus afins, uma ajuda para manter a sanidade espiritual quando entes queridos se deixam seduzir pelas falsas promessas de demagogos e extremistas:
https://godbooks.com.br/product/o-evangelho-da-paz-e-o-discurso-de-odio/
domingo, novembro 22, 2020
sexta-feira, outubro 30, 2020
"Esclarecimento" (ou uma visão espírita de religião e política)
Você pergunta, meu amigo, pelas razões que nos levam a escrever tanto.
Não deveríamos procurar a Corte Celestial para repouso? Teríamos tamanha saudade da tarefa humana, a ponto de reabsorver-lhe, voluntariamente, as angústias? A seu ver, o sepulcro seria o caminho ideal para o esquecimento absoluto.
Até aí, sua indagação se perde no domínio das coisas vulgares. Ocioso inquirir de um homem comum, quanto aos motivos que o compelem a trabalhar pela garantia da própria felicidade.
Seu inquérito, contudo, vai mais além. Deseja saber por que nos dedicamos ao assunto religioso.
— “Todos os Espíritos desencarnados — alega, espantadiço — se empenham na difusão dos princípios de fé e caridade. Emparelham-se com os pregadores insistentes do alto dos púlpitos. Não possuiremos suficiente número de ministros e padres no mundo?”
Equivoca-se em semelhante generalização. Nem todos os desencarnados se consagram, ainda, a serviço tão nobre. Milhões deles permanecem imantados à Crosta do Mundo, impedindo o progresso mental das criaturas que lhes são afins. Preferem a discórdia e a malícia, como autênticos demônios soltos, e, quando podem, chegam a destilar venenos cruéis, através de escritores invigilantes. Mantêm a ignorância de muita gente, a respeito da eternidade, para melhor se acomodarem às reclamações da inferioridade em que se comprazem.
No entanto, não é para comentar as perturbações da nossa esfera de ação que lhe escrevo esta carta.
Refere-se você à religião, como se a fé representasse bolorento asilo para Espíritos inválidos. Certamente envolvido na onda turbilhonária que agita o oceano de nossa civilização decadente, também você penhorou o raciocínio nas ilusões do homem econômico. Crê possível a regeneração do mundo, de fora para dentro, e dar-se-ia, talvez, de bom grado, a qualquer renovador sedento de sangue que prometesse um mundo reformado por decretos que se vão caducando, de cinco em cinco anos.
Dentro de tal clima, não pode compreender o serviço religioso. Admite que um pomar se mantenha e produza sem a sementeira? Persistiria a vida humana sem o altar da maternidade?
O castelo teórico e o campo da experimentação prática, em que se assentam os princípios filosóficos e científicos da Terra, não se sustentariam sem a fonte oculta e invisível da mística religiosa.
Somente o ser privado de razão consegue movimentar-se sem raízes na espiritualidade superior.
Os grandes escritores, supostamente materialistas, que você menciona com indisfarçável prazer, não foram senão atletas do pensamento em conflito com as imposições do sacerdócio organizado. Não hostilizavam Deus, objeto sagrado de seus estudos e cogitações. Combatiam os processos infelizes, muita vez usados pelos homens de má-fé, para situarem o Eterno e Supremo Senhor na ordem política. No fundo, identificavam a luz divina, na própria lâmpada de intelectualidade que lhes aclarava a mente.
A religião é chama sublime, congênita na criatura. Todas as noções de direito no mundo nasceram à sua claridade e todas as secretarias de justiça, nos mais diversos países do Globo, devem a ela sua procedência.
Quando o primeiro selvagem compreendeu que lhe competia respeitar a taba do irmão, tal entendimento ter-lhe-ia surgido, à face da gloriosa visão do céu, recolhendo, através da contemplação do Sol e das estrelas, da sombra e da tempestade, a primitiva ideia de Deus.
Subtrair o pensamento religioso da experiência humana seria o mesmo que desidratar o corpo da Terra. Sem a água divina da espiritualidade, qualquer construção planetária se destina a irremediável secura. Conseguirá você viver exclusivamente no deserto?
O homem poderá rir com Voltaire, estudar com Darwin, filosofar com Spinoza, conquistar com Napoleão, teorizar com Einstein, ou mesmo fazer teologia com São Tomás; entretanto, para viver a existência digna, há que alimentar-se intimamente de princípios santificantes, tanto quanto entretém o corpo à custa de pão. Quem não dispõe do divino combustível para uso próprio, recorre inconscientemente às reservas alheias, porquanto, não existe idealismo superior que não tenha nascido da atividade espiritual e, sem ele, o conceito de civilização redunda em grossa mentira.
Não sorria, pois, usando o sarcasmo, perante aqueles que consagram o tempo ao ministério religioso.
Com os cientistas modernos, vocês poderão entrevistar o átomo, fotografar a célula e positivar a curvatura do espaço… Há muita gente na América que já pensa em pedir às autoridades administrativas da política dominante a reserva de terrenos na Lua, considerando o desenvolvimento dos veículos a jato…
Poderão cogitar de tudo isto, mas não deslocarão a ideia religiosa em um milímetro, sequer, de rota. A fé representa claridade de um sol que ilumina o espírito humano, por dentro, e, sem essa claridade no caminho, o Planeta poderia perder, em definitivo, a esperança num futuro melhor.
Quanto ao fato de demorar-me, por algum tempo, na atualidade, entre admiráveis amigos que cogitam de servir, depois da morte, ao Cristianismo renascente, creia que isto ocorre por gentileza deles e não por merecimento de minha parte. Não sou nenhum Livingstone em áfricas do “outro mundo”. Quem define o meu caso, com paciência, é o nosso velho sábio Shakespeare. Disse ele, certa vez, que “quando Deus nos vê endurecidos no mal, cerra-nos os olhos para a imundície e nos obscurece o juízo, de modo que chegamos a adorar os nossos desvarios e a zombar de nós mesmos, caminhando, cheios de cegueira e de orgulho, para a perdição”. Segundo depreende, sou um enfermo à procura de melhoras.
Embora desencarnado, não posso saber se você guarda saúde integral. Creio, porém, que, se algum dia atingir a infelicidade a que cheguei, não deixará de fazer conforme estou fazendo.
Irmão X ("Luz Acima", psicografia de F. C. Xavier, 1947).
terça-feira, setembro 15, 2020
King e o vírus do ódio
"Assim, na sua morte, o presidente Kennedy tem muito a dizer a cada um de nós. Ele tem algo a dizer a todo político que alimenta seus eleitores com o pão azedo do racismo e a carne podre do ódio. Tem algo dizer a todo sacerdote que observa as perversidades do racismo e permanece calado por trás da segurança dos vitrais. Tem algo a dizer aos devotos da extrema-direita que despejam palavras venenosas contra a Suprema Corte e as Nações Unidas e rotulam de comunistas aqueles com os quais não concordam. Tem algo a dizer a uma filosofia comunista equivocada pela qual os homens aprenderiam que os fins justificam os meios e que a violência e a negação da liberdade básica são métodos justificáveis para se atingir o objetivo de uma sociedade sem classes.
Ele diz a todos nós que o vírus do ódio que se inseriu nas veias de nossa nação, se não for extirpado, levará inevitavelmente à nossa ruína moral e espiritual." (P. 283.)
"Todos nós estivemos envolvidos na morte de John Kennedy. Nós toleramos o ódio; toleramos a simulação doentia da violência em todas as esferas da vida; e toleramos a aplicação diferencial da lei, pela qual a vida de um homem só é sagrada se ele concorda com nossas opiniões." (P. 284.)
sábado, junho 13, 2020
"Solitude"
Nós, a gente comum das ruas, não vemos a solidão como a
ausência do mundo, mas como a presença de Deus.
Encontrando-o em todos os lugares que criam nossa solidão.
Para nós, estar verdadeiramente sozinhos significa participar
da solidão de Deus.
Deus é tão grande que nada pode achar espaço em qualquer
lugar que não dentro dele.
Para nós, o mundo inteiro é como um encontro face a face com
aquele de quem não podemos escapar.
Nós encontramos sua causalidade viva bem ali nas esquinas
das ruas cheias.
Nós encontramos sua pegada sobre a terra.
Nós encontramos sua Providência nas leis da ciência.
Nós encontramos Cristo em todos estes “pequeninhos que a ele
pertencem”: os que sofrem no corpo, os que estão entediados, os que estão em
apuros, os que sangram, os que estão necessitados.
Nós encontramos Cristo rejeitado no pecado que usa mil
faces.
Como poderíamos simplesmente ter a coragem de debochar
dessas pessoas ou de odiá-las, esta multidão de pecadores em quem esbarramos?
A solidão de Deus na caridade fraternal; ela é Cristo
servindo Cristo, Cristo naquele que está servindo e Cristo naquele que está
sendo servido. Como poderia o apostolado ser uma desperdício de energia ou uma
distração?
Fonte: DELBREL, Madeleine. We, the Ordinary People of the Streets (Ressourcement: Retrieval & Renewal in Catholic Thought) (Locais do Kindle 751-758). Edição do Kindle.
sábado, maio 09, 2020
Karl Barth e o "cristianismo de cultura"
domingo, abril 05, 2020
Espiritismo e ideias sociais
Onde, então, encontrar algo uma articulação mais séria entre minha visão de mundo e os problemas concretos da nossa organização social? Nem me refiro a questões mais metafísicas, e sim à base ética espírita, que é basicamente a mesma do cristianismo em sua versão teologicamente liberal? Onde haveria uma reflexão que considerasse os princípios da solidariedade e da compaixão, sem o fetiche pela violência revolucionária e a romantização ingênua dos oprimidos, por um lado, e o paternalismo estéril, sentimental e míope dos conservadores? Nalguma parte deveria haver quem tratasse dessas questões com a seriedade e amplitude de vistas necessárias. Infelizmente, não nos centros espíritas, em que tais coisas não raro são até malvistas, pois "política" é uma espécie de tabu, e as consequências -- a meu ver, óbvias -- do pensamento de Kardec para a sociedade são constantemente minimizadas. Considera-se importante ajudar os pobres, mas ninguém gosta de se perguntar por que os pobres existem.
Depois de muito tatear, e muito por causa de meus estudos como historiador, acho que encontrei duas possibilidades. A bem da verdade, são interligadas. A primeira diz respeito aos métodos da luta política, e creio que já a mencionei em postagens anteriores: a não violência de Gandhi, depois adaptada e desenvolvida por outros ativistas nos mais diversos contextos. Já a segunda, no que tange à teoria, está no próprio campo da teologia liberal (para os protestantes) ou modernista (para os católicos). A partir de uma visão iluminista comum, eles construíram um pensamento cristão mais preocupado com o Sermão da Montanha do que com profecias apocalípticas e celebração de milagres, que interioriza o sentido da religião em vez de focar na autoridade externa de textos supostamente inerrantes e/ou tradições dogmáticas (para os quais reconhecem a crítica histórica e científica). Mais do que isso, sua atuação não se limitava a tratados e púlpitos, indo muitas vezes para fora das igrejas e ganhando forma como movimentos de reforma social e sínteses com as propostas políticas de seu tempo.
Talvez os estudantes de Teologia sorriam diante dessa "descoberta", haja vista que esse tipo de corrente faz parte da história cristã há mais de dois séculos, já tiveram sua ascensão e sua relativa queda no seio do cristianismo tradicional. Mas, para mim, foi uma iluminação. Já tinha lido sobre a influência do socialismo romântico francês sobre Kardec, mas nada ainda sobre possíveis paralelos teológicos. O espírita de hoje, normalmente, não vai muito além das citações e refutações que os autores espíritas incluem em suas obras. A historiografia intelectual do movimento é escassa, em boa parte importada e sem tradução em português. Poucos, além disso, são versados na história cristã em geral -- no máximo, gostam de especulações (ou teorias de conspiração) históricas sobre como o "verdadeiro cristianismo" era uma espécie de Espiritismo com outro nome. Diria mesmo que a maioria de nós subestima nossos companheiros católicos e protestantes, orgulhosos demais de nossa "fé raciocinada" -- embora qualquer visita a uma comunidade virtual espírita mostre bem como isso costuma ser mero excesso de autoestima tribal.
O guia que encontrei para esse reformismo cristão tem sido Gary Dorrien, um acadêmico e sacerdote episcopal norte-americano. Autor de tomos bem alentados, Dorrien escreve muito bem e é um erudito: cada livro seu funciona como um grande catálogo de referências. Entre seus temas, está a história da formação da teologia liberal americana (3 volumes), a influência do Social Gospel sobre o ativismo negro pelos direitos civis e as raízes religiosas e políticas da social-democracia na Grã-Bretanha e na Alemanha, entre outros. Ao lê-lo -- tarefa que vai me exigir alguns anos, entre as folgas mentais que a universidade permite --, a impressão é de que ele escreveu os livros que procurei quase a vida toda. É um universo intelectual e ético que se abre, profundamente afim com a visão espírita, mas completamente apartado em termos de desenvolvimento.
Neste vídeo, que infelizmente só tem as legendas automáticas do YouTube, Dorrien fala de um ramo específico dessas correntes, o socialismo cristão dos séculos XIX e XX, e suas relações com fabianos e marxistas. É o tema principal do seu livro mais recente, Social Democracy in the Making, linkado acima. Para quem puder entender e tem interesse em história, vale a pena.
Tempos de pandemia
Quarentenas são capazes até mesmo de ressuscitar blogs, a despeito de filhos, distrações de rede social e outros que tais. Talvez seja pelo desejo de dar alguma "permanência" ao que se escreve, por mais volátil que todo meio digital seja. Mas há coisas que gostaria de registrar e são perfeitamente compartilháveis, e o Divagações se presta bem a isso. Então, ei-lo de volta... por um tempo.

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