sexta-feira, agosto 12, 2016

Memórias da nova direita - 1

Foi em 1996 a primeira vez que ouvi falar, pelos jornais, de uma polêmica curiosa. Alguém havia dito, em linha gerais, que se recusava a criar o filho num país onde Caetano Veloso era considerado pensador. Aos meus 16, 17 anos, achei divertido o ataque a uma vaca sagrada por quem nunca morri de amores. Como qualquer jovem em busca não só da "cultura", mas também da aparência da cultura sabia à época, havia pessoas de quem não se podia falar mal, sob pena de opróbrio e olhares de pena ou desdém: Caetano, Chico Buarque ou, noutro campo, Fernanda Montenegro, Marília Pera e outros. Mesmo que você não gostasse deles, tinha de demonstrar certo respeito -- até alguém ousar dizer que o rei estava nu e quebrar o acordo tácito sobre o que estava ou não acima do bem e do mal. Havia um prazer um tanto malvado na coisa.



O iconoclasta em questão era Bruno Tolentino, poeta e professor universitário de quem nunca ouvira falar antes. Mas não foi por ele quem recordei a polêmica, e sim por um seu admirador que também apareceu nos jornais nesse momento. Um homem que também não era familiar, mas fez do ataque sistemático a vacas sagradas, piedades politicamente corretas e tabus vários uma arte e, ao fazê-lo, ensinou uma geração de jovens estudantes uma forma diferente de rebelião. Aprendíamos a dizer o que os mais velhos não ousavam, a contestar o que pareciam "dogmas" e a divisar obras, discursos e ideias completamente fora do radar de nossos professores universitários e da grande imprensa. Era um pequeno universo paralelo, um nicho de discussões, em que um certo clima de "clandestinidade" apimentava o intelectualismo aspirante do que pareciam ser apenas algumas dúzias de graduandos Brasil afora. Não era apenas o prazer de descobrir coisas novas, mas de explorar uma terra incognita mental: questões diante das quais os nossos mestres, confortavelmente instalados nos tronos da autoridade socialmente reconhecida, silenciavam com desdém ou, pior, fugiam constrangidos. "Como você se atreve a questionar o autor X ou a ideia Y?", era o máximo que se conseguia. E foi aí, nesse vácuo deixado pelo establishment intelectual-universitário, que esses jovens contestadores encontraram em Olavo de Carvalho uma referência, ou mesmo um líder: o outsider carismático que, com erudição aparentemente infinita e contundentes artigos de jornal, "desmascarava" os falsos ídolos de nossos pais e professores. E estes, eles próprios rebeldes em sua juventude, muitas vezes pareciam chocados ao verem que as convicções pelas quais tanto haviam lutado durante os anos de chumbo -- a igualdade social, o reconhecimento da cultura nacional, a superioridade moral da esquerda política, a recusa da religião como algo relevante na arena pública -- precisavam demonstrar seus méritos. Como assim!?      

                                                    

Para quem possa estranhar essa fascinação tendo em vista o que Olavo diz e evoca hoje, cabe lembrar que em meados dos anos 90 ele tinha muito mais compostura pública. Comunicando-se principalmente pela escrita e tendo jornais como meio principal de divulgação -- seu curso de Filosofia era necessariamente mais limitado --, sua linguagem obedecia aos padrões tradicionais da imprensa opinativa. Ele também era muito mais comedido quanto a teorias de conspiração e mais seletivo na escolha dos temas, geralmente atualidades, cultura e grandes e ideias. Mantinha-se, pois, dentro de certos parâmetros de respeitabilidade. Mas o que realmente atraía em seus textos eram o senso de humor incisivo, as críticas a um sem-número de figuras públicas (que raramente se dignavam a responder ou que, quando o faziam, nunca era com a mesma verve) e as referências a ideias e autores que, se quase ninguém conhecia, pareciam fazer muito sentido na maneira como eram apresentados. E quanto mais célebre fosse a vítima da eloquência olaviana, menos probabilidade havia de uma réplica ou debate. E assim, sem que houvesse qualquer reação, milhares aprenderam a desprezar Marilena Chauí sem nem mesmo saberem direito quem era, ou os professores de Humanas da USP, mesmo sem conhecerem de suas credenciais ou sua obra. Bastava saber -- e todos "sabiam" -- que eles eram parte de uma elite intelectual mimada, aferrada a ideias ultrapassadas (o chavão dos "100 milhões de mortos pelo comunismo" veio depois), e incapaz de uma debate real. Silenciavam enquanto uma intelectualidade alternativa e antagônica se formava embaixo dos seus narizes, porém fora do circuito acadêmico que controlavam e ao qual estavam acostumados. Não se pode culpá-los de todo: no campus e na sociedade em geral, eram realmente poucas as vozes que contestavam sua autoridade de forma visível. Por que se preocupar com um nicho ainda marginal de contestadores, sem cargo nem poder editorial? E foram deixando as ideias e artigos circularem sem resposta em meio à "plebe" acadêmica juvenil, nas poucas colunas impressas e fóruns online disponíveis -- uma marginalidade que nem de longe parecia capaz de chegar aos centros de prestígio acadêmico. 

Lembro-me de uma ocasião na UERJ, um evento no auditório da Faculdade de Comunicação Social, em que se criticava o "neoliberalismo" do governo Fernando Henrique e a Rede Globo, então o discurso padrão da esquerda. Devia ser o ano de 1996, talvez 97, e estávamos entre o segundo e o quarto período do curso. Era algum tipo de conferência ou mesa-redonda e um colega, Daniel, e apenas ele, fez o que era quase impensável: na hora das perguntas da plateia, ele questionou a tese do expositor. Infelizmente não me recordo mais do conteúdo do que ele disse, nem tampouco posso julgar seu mérito, mas lembro da impressão de surpresa: ele era o único que apresentou um contraponto em um auditório cheio em vez de tomar como certos os pressupostos do que era dito, a saber, a maldade inerente do governo e da Globo. Noutras palavras, ele demandou do que parecia uma exposição de fatos consensuais uma defesa convincente. Apesar do pouco tempo de faculdade, eu já sabia que isso era inusitado e por isso marcou a memória: com serenidade e polidez, Daniel questionou uma narrativa que não costumava ser desafiada -- e, ao mesmo tempo, mostrou a pobreza de perspectivas do que passava por discurso crítico em nossa faculdade, mesmo sendo a segunda mais disputada no maior vestibular público do Rio de Janeiro daquele tempo.



Esses três elementos intelectuais -- o frisson de uma rebelião ideológica sem grandes custos num ambiente democrático, a inércia/inépcia dos intelectuais e acadêmicos estabelecidos e a pouca variedade de pontos de vista em circulação nos meios mais educados --, somados ao aparecimento da Internet e uma mídia virtual alternativa, estão na raiz do que viria a ser nova direita brasileira. (Continua.)


Voltando a divagar.

As redes sociais "mataram"os blogs. Uma atualização de status no Facebook provavelmente tem mais leitores, mesmo descontando as travessuras algorítmicas de Zuckerberg, que um post da maioria dos blogs ainda existente, inclusive este. Ainda assim, os blogs têm pelo menos uma vantagem: a permanência. Certo, a relativa permanência. De qualquer forma, é muito mais fácil achar uma postagem aqui do que no Facebook, onde as coisas mais interessantes são soterradas por compartilhamentos e outras postagens mais triviais. Por isso, como uma forma de "guardar" algumas coisas, e torná-las acessíveis pelos sites de busca, decidi retornar ao Divagações. Ele tem poucos acessos, deve ter sido esquecido até pelos leitores que tinha, mas está aqui, firme e forte, desde 2004. E há de continuar.

A você, que volta ou chega pela primeira vez, minhas boas-vindas. ;-) 

segunda-feira, maio 18, 2015

Dicas de sabedoria para acadêmicos iniciantes:



1- O universo está pouco se lixando para o seu ego. 
2- Brilhantismo raramente compensa falta de disciplina e de metas. 
3- Boa parte do que é produzido por especialistas é arquivado e esquecido.
4- Muito jargão é antes falha que virtude.
5- Laços pessoais não são nem devem ser planos de carreira.
6- Sua carreira é só parte do que você é, o mundo é maior que ela.
7- Não entre em concursos ou competições se não estiver preparado também para perder (v. dica 1).
8 - Menos ego. Menos ego. Menos ego.
9 - Alunos não são vassalos nem lhe devem nada além de respeito.
10 - Ter muito "poder político" num departamento raramente é coisa boa.
11 - Nem todo mundo se convence só com argumentos.
12 - Lattes é meio, não fim.
13 - A academia deveria nos ajudar a nos tornarmos pessoas (e não só "profissionais") melhores também.
14 - Alguns colegas/mestres simpáticos são picaretas.
15 - O mundo dá voltas.

16 - Existe mais de uma forma de ser útil à sociedade com seu saber.

sábado, março 28, 2015

Falando sobre raça com a Ku-Klux-Klan

The Audacity of Talking About Race With the Ku Klux Klan

Can conversation help end bigotry? An improbable example suggests that it would be unwise to discount the possibility.
Wikimedia Commons
When musician Daryl Davis first met a member of the Ku Klux Klan he was the only black man in a country band. They were playing a gig at an all-white venue in Frederick, Maryland. After their set, a member of the audience approached Davis to compliment his piano skills, saying he'd never heard a black pianist play like Jerry Lee Lewis. "Who do you think taught Jerry Lee Lewis to play that way?" Davis replied. They hit it off. The patron wanted to buy Davis a drink, and soon after he observed that he'd never in his life had a drink or conversed with a black man.
"Why is that?"
"I'm a member of the Ku Klux Klan."
At first Davis thought he was joking. But the man pulled out his wallet and produced his Klan card. Later he wrote down his phone number. He asked Davis to call him the next time he played the Silver Dollar Lounge. He'd come out to watch.
* * *
That meeting happened in 1983. It has been recounted in several interviews and a book, but I first heard about it this year while listening to the interview podcast Love+Radio. There is no substitute for hearing Davis tell the story in a his own words.
Those words came back to me this week as I reflected on an ongoing controversy: what to make of the notion that we need to have "a conversation about race." Lately, that debate has focused on a flawed plan by the CEO of Starbucks to host in-store conversations. But disagreements on the subject are much older. I believe that remedying discrete injustices ought to be the first priority of the anti-racism movement and that conversations about race can offer some salutary benefits. Others disagree. Here I want to present Davis's views, which are worth grappling with as judgment calls are made in less extreme circumstances.
As he sees it, conversations of a particular sort can be hugely useful in the fight against racism. Indeed, he has defended conversations that many people would condemn, starting with the time that he called up that member of the Ku Klux Klan, informed him of an upcoming gig at the Silver Dollar Lounge, and befriended him as he attended subsequent gigs, sometimes with other Klan members. His friends, black and white alike, thought that he was crazy. These people belonged to a despicable, stomach-churning, evil organization. They deserved contempt.
But Davis was just getting started.
To understand everything that he did next it's necessary to go back to his childhood. That's where he began to develop his ideas about racism and public discourse, leading to uncomfortable actions and results that can't be easily dismissed.
* * *
After a childhood spent abroad, where he was educated at international schools attended by people of many races and ethnicities, Davis moved at age ten to a suburb of Boston, Massachusetts, where he was one of two black kids in his school.
In 1968, on a statewide Boy Scout march to commemorate the ride of Paul Revere, he was chosen by his troop to carry the American flag. He was also the only black Boy Scout present. When people in the crowd started to hurl bottles, cans, and rocks, he thought to himself, these people must not like the Boy Scouts. In time, he realized that he was the only kid being targeted but he didn't know why. Upon returning home, his parents explained racism to him for the first time. He couldn't comprehend that people who knew nothing about him would inflict pain based only on the color of his skin: "I literally thought they were lying to me."
Some years later, a teacher brought the head of the American Nazi Party as a speaker to his 10th grade class. As he remembers it, the man declared, "We're going to ship you back to Africa. And all you Jews out there are going back to Israel ... If they don't leave voluntarily they will be exterminated in the coming race war."
So began a lifelong fascination.
Davis undertook a study of racism in all its forms: white supremacy, black supremacy, anti-Semitism. Learning what motivated racists became his obsession.
The most consequential part of his investigation began when he took out the card of that Klansman who came to his gigs, looked up his address, and went unannounced to his house. The man had, in the interim, been kicked out of the group (he'd taken Ku Klux Klan money to attend a rally but spent it on Hulk Hogan tickets). "Do you know Roger Kelly, the Grand Dragon?" Davis asked. He wanted to set up an interview with the Klan leader. Finally he got a phone number from his ex-Klan friend, who said, "Do not go to Roger Kelly's house. Roger Kelly will kill you."
His first meeting with Roger Kelly is retold dramatically in the podcast.
For our purposes, it is enough to know that at the end of the interview, the two men shook hands and the Klan leader said, "Stay in touch," extending his business card. "I was thinking, what? I didn't come here to make friends with the Klan!" Davis said. "I came here to find out, how can you hate me when you don't know me?" Nevertheless, he started inviting the Klan leader to gigs and then to his house.
"He'd sit right over there on the couch," Davis said. "Sometimes I would invite over some of my Jewish friends, some of my black friends, some of my white friends, just to engage Mr. Kelly in conversation ... I didn't want him to think I was some exception. I wanted him to talk to other people. After awhile he began coming down here by himself, no [bodyguard]. He trusted me that much. After a couple years, he became Imperial Wizard. The national leader. He began invitingme to his house."
In time, Davis attended Klan rallies. He was clear that he vehemently disagreed with the group and its ideology. But he would also shake their hands and pose for photographs.  
He explained his logic:
The most important thing I learned is that when you are actively learning about someone else you are passively teaching them about yourself. So if you have an adversary with an opposing point of view, give that person a platform. Allow them to air that point of view, regardless of how extreme it may be. And believe me, I've heard things so extreme at these rallies they'll cut you to the bone.
Give them a platform.
You challenge them. But you don't challenge them rudely or violently. You do it politely and intelligently. And when you do things that way chances are they will reciprocate and give you a platform. So he and I would sit down and listen to one another over a period of time. And the cement that held his ideas together began to get cracks in it. And then it began to crumble. And then it fell apart.
Eventually Roger Kelly quit the Ku Klux Klan. "He no longer believes today what he said," Davis explains. "And when he quit the Klan he gave me his robe and hood, which is the robe of the Imperial Wizard." Twelve other Klansmen did the same.
He credits his approach for helping to dismantle the local Klan. "The three Klan leaders here in Maryland, Roger Kelly, Robert White, and Chester Doles—I became friends with each one of them—when the three Klan leaders left the Klan and became friends of mine, that ended the Ku Klux Klan in the state of Maryland," he asserted. "Today there is no more Ku Klux Klan in the state. They've tried to revive it every now and then but it immediately falls apart. Groups from neighboring states might come in and hold a rally ... but it's never taken off."
The visionary behind Love+Radio, Nick van der Kolk, interjected at this point in the story. "Do you think there's a danger that when you're up on stage with a Klan member there's some sort of tacit approval happening? That he can point to you and say, 'This black guy, we're cool, so therefore my separatist beliefs are right?'"
He also asked, "Have you ever gotten criticism from black folks?"
"Of course," Davis replied. "Absolutely. Not black people who are friends of mine, who know me and understand where I'm coming from. Some black people who have not heard me interviewed or read my book jump to conclusions and prejudge me ... I've been called Uncle Tom. I've been called an Oreo." It doesn't sway him:
I had one guy from an NAACP branch chew me up one side and down the other, saying, you know, we've worked hard to get ten steps forward. Here you are sitting down with the enemy having dinner, you're putting us twenty steps back."
I pull out my robes and hoods and say, "look, this is what I've done to put a dent in racism. I've got robes and hoods hanging in my closet by people who've given up that belief because of my conversations sitting down to dinner. They gave it up. How many robes and hoods have you collected?" And then they shut up.
What Davis did makes a lot of people uneasy even when they fully grasp his intentions. I'm a relatively radical proponent of public discourse who respects his motives, his ingenuity, and his results ... and it still makes me uneasy. But one needn't agree with the decision to engage literal Klansmen (or minimize the good work done by the NAACP) to conclude that if conversation has changed the minds of multiple leaders of what is arguably the most hateful group in American history, it could probably do a lot of good in various less-extreme cases.
Interestingly, Davis argues that conversing about race is most useful in extreme cases. "There are a lot of well meaning white liberals. And a lot of well meaning black liberals," he says. "But you know what? When all they do is sit around and preach to the choir it does absolutely no good. If you're not a racist it doesn't do any good for me to meet with you and sit around and talk about how bad racism is." I have some disagreements with Davis. This isn't the place for them. He should have us convinced, beyond any doubt, that conversation has a place in the anti-racism tool kit. And as he'd note, he's struck more blows against racism than I ever have.


http://www.theatlantic.com/politics/archive/2015/03/the-audacity-of-talking-about-race-with-the-klu-klux-klan/388733/?utm_source=SFFB 

sábado, março 21, 2015

Libertação



A finalidade precípua e mais importante da reencarnação diz respeito ao processo de autoiluminação do Espírito. 

Herdeiro de suas próprias experiências mantém atavismos negativos que o retêm nas paixões perturbadoras, aturdindo-se com freqüência, na busca frenética do prazer e da posse. Como conseqüência, as questões espirituais permanecem-lhe em plano secundário, em conceder-se ensejo de crescimento libertador. 

Indispensável que se criem as condições favoráveis ao desenvolvimento dos seus valores éticos e espirituais que não devem ser postergardos. Somente através desse esforço - que é o empenho consciente para o auto-encontro, o denodo para romper com as amarras selvagens da ignorância, da acomodação, da indiferença - que o logro se torna possível. 

Há pessoas que detestam a solidão, afirmando que esta lhes produz depressão e angústia, sensação de abandono e de infelicidade. 
Outras, no entanto, buscam-na como terapia indispensável ao refazimento das forças exauridas, caminho seguro para o reexame de atitudes, para a reflexão em torno dos acontecimentos da vida. 

A solidão, todavia, não é boa nem má. Os valores dela defluentes são sentidos de acordo com o estado de espírito de cada ser. 

O silêncio produz em alguns indivíduos melancolia e medo. Parece sugerir-lhes um abismo apavorante, ameaçador. 
Em outras pessoas, faculta a paz, o processo de readaptação ao equilíbrio, abrindo espaço para o autoconhecimento. 
O silêncio, no entanto, não é positivo ou negativo. Conforme o estado íntimo de cada um, ele propicia o que se faz necessário à paz, à alegria. 

Muitos homens se atiram afanosamente pela conquista do dinheiro, nele colocando todas as aspirações da vida como sendo a meta única a alcançar. Fazem-se, até mesmo, onzenários. 
Inúmeros outros, todavia, não lhe dão maior valor, desperdiçando-o com frivolidade, esbanjando-o sem consideração. Terminam, desse modo, na estroinice, na miséria econômica. 
O dinheiro, entretanto, não é essencial ou secundário na vida. Vale pelo que pode adquirir e segundo a consideração de que se reveste transitoriamente. 

É indispensável que inicies o processo da tua libertação quanto antes. 
Faze um momento habitual de solidão, onde quer que te encontres. Não é necessário que fujas do mundo, porém que consigas um espaço mental e doméstico para exercitares abandono pessoal e aí fazeres silêncio, meditando em paz. 
Não digas que o tempo não te faculta ocasião. 
Renuncia a alguma tarefa desgastante, a alguma recreação exaustiva, ao tempo que dedicas ao espairecimento saturador e aplica-o à solidão. 

Nesse espaço, isola-te e silencia. 
Deixa que a meditação refunda os teus valores íntimos e logre libertar-te das paixões escravizantes. 
Considera o dinheiro e todos os demais valores como instrumentos para finalidades próximas, cuidando daqueloutros de sabor eterno e plenificador, que se te fazem essenciais para o êxito na tua jornada atual, a tua auto-iluminnação libertadora.

Autor: Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo Franco. Do livro: Momentos de Felicidade


sábado, março 07, 2015

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Que tenho feito?

Organizando eventos acadêmicos com ex-alunos e também colegas.
Conhecendo minha própria fé, o Espiritismo, de um ponto de vista um pouco mais experimental e menos teórico.
Assistindo, não sem preocupação, ao linchamento virtual de um blogueiro famoso.
Percebendo-me um tanto melancólico com os tribalismos político-virtuais, mais barulhentos desde a última eleição.
Aprendendo o que é a vida a dois, e me preparando para, num futuro próximo, a vida a três.
Acompanhando The Flash e revendo Changeman e A Viagem, completamente alheio ao retorno de The Walking Dead e, o que me dói, House of Cards. Não consigo acompanhar muitas séries de uma vez.
Estudando para um concurso de professor, quando dá, mas sempre com prazer.
Cuidando da casa, mas sem neurose e às vezes com alguma preguiça.
Maravilhando-me de como a idade e a vida alteram nossas percepções, não só quantitativa, mas também e sobretudo qualitativamente.
Constatando como o campo "O que você está pensando?" do Facebook feriu de morte a Era dos Blogs, pelo menos entre amadores como eu.
Vendo alguns horizontes se abrindo com a aurora.
Vivendo, enfim...


Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire. 
O que agradece que na terra haja música. 
O que descobre com prazer uma etimologia. 
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez. 
O ceramista que premedita uma cor e uma forma. 
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade. 
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto. 
O que acarinha um animal adormecido. 
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram. 
O que agradece que na terra haja Stevenson. 
O que prefere que os outros tenham razão. 
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo. 

Jorge Luis Borges, in "A Cifra" 
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

quinta-feira, agosto 28, 2014

A volta de um clássico

Heróis de "A Droga da Obediência", Karas crescem e encaretam em novo livro

Pablo Miyazawa
Do UOL, em São Paulo

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Bienal do Livro de São Paulo 201426 fotos

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26.ago.2014 - O escritor Pedro Bandeira lança o livro "Droga da Amizade" na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no Anhembi Carla Carniel/Frame/Estadão Conteúdo
Os Karas cresceram e reapareceram. O grupo formado por Miguel, Chumbinho, Magrí, Crânio e Calú, jovens personagens criados pelo escritor paulista Pedro Bandeira, retornam de um limbo editorial de 15 anos, agora crescidos, bem-sucedidos e envoltos em nostalgia. Lançado esta semana na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, "A Droga da Amizade" (Ed. Moderna) é o sexto livro estrelado pelos heróis, que surgiram no best-seller "A Droga da Obediência" (1984) e vivenciaram sagas de aventuras em "Pântano de Sangue" (1987), "Anjo da Morte" (1988), "A Droga do Amor" (1994) e "Droga de Americana!" (1999).
O hiato de uma década e meia tem explicação. Em uma carta endereçada ao leitor, publicada na última página do novo livro, Bandeira, 72 anos, explica que tinha dificuldades em escrever novas aventuras d'Os Karas em decorrência do avanço da tecnologia, e que engavetou uma história pronta, "A Droga Virtual", por sentir que o material soava fora de contexto. Ele enxugou a trama, excluiu detalhes sobre tecnologia e lançou "Droga de Americana!". Sentindo-se "derrotado pelas modernidades", resolveu não mais investir n'Os Karas, a quem considerava seus "filhos da imaginação".
Obviamente, Bandeira voltou atrás na decisão. Mas a motivação não foi mercadológica, uma vez que ele continua sendo um dos autores infanto-juvenis brasileiros mais populares das últimas décadas, com mais de 20 milhões de exemplares comercializados em 31 anos de carreira. "A Droga da Obediência", com cerca de 1,5 milhão de cópias vendidas, continua ainda hoje requisitado como leitura obrigatória em escolas de ensino médio. 
Com a foto na mãos, seu olhar não se concentrava na luz do monitor que lhe azulava a expressão e exibia o texto do discurso (...). Eles eram Os Karas! A turma secreta que Miguel havia reunido há tantos anos no Colégio Elite, a princípio apenas como brincadeira de jovens, como uma forma de sonharem juntos, de partilharem a força de suas imaginações, mas que a realidade haveria de empurrar para as mais perigosas aventuras!
Na mesma carta ao leitor, o escritor explica os motivos para ressuscitar a saga. "A insistência dos meus leitores, sempre pedindo novas aventuras, levou-me a concluir que a modernidade não existe para bloquear coisa alguma, e sim para acelerar o desenvolvimento da humanidade". Ele não especifica a faixa etária dos fãs que requisitam novas tramas dos Karas, mas presume-se que uma parcela razoável seja de leitores já adultos, que tomaram primeiro contato com a obra de Bandeira há pelo menos duas décadas.
O fato é que "A Droga da Amizade" está longe de ser considerada uma nova aventura dos Karas, está mais para uma prequel, no qual Bandeira se dá ao luxo de remontar as origens dos personagens e desvendar elementos básicos da mitologia da série que criou. Estão lá os primeiros encontros entre os protagonistas nos corredores do fictício Colégio Elite, a fundação dos Karas, turma de agentes secretos amadores e bem-intencionados, as elaborações dos códigos e procedimentos secretos do grupo, e o fortalecimento das relações mútuas --a "droga da amizade" do título refere-se às afinidades e à sede de aventuras compartilhadas pelos cinco amigos. 
Anos após a última aventura juntos, todos são bem-sucedidos e referências em suas respectivas profissões. Em um acesso de nostalgia, o líder Miguel rememora a adolescência momentos antes de realizar um importante discurso (algo que só é explicado na última linha do livro). Cada capítulo é destinado à origem de um dos integrantes ou no relato de algum momento-chave na consolidação dos Karas, e poderia até ser lido de maneira independente, como uma coleção de contos soltos e enfileirados.
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Os Karas, a turma de Pedro Bandeira11 fotos

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Vinte anos depois de seu lançamento, a coleção completa d'Os Karas ganha reedição com capas e formatos mais moderno ao estilo HQ. "Pântano de Sangue" é o segundo livro da série, lançado em 1987. Aqui, os Karas voltam a lutar contra o crime organizado, que está agindo no Pantanal de Mato Grosso, sob liderança do implacável Ente. O enredo cheio de suspense, a turma se envolve na trama criminosa que leva à destruição dos jacarés, dos índios e da natureza. Crânio, o geniozinho dos Karas, é quem terá de arrastar os amigos em sua perigosa missão Reprodução
Características cinematográficas
Tempos depois da publicação de "A Droga da Obediência", Bandeira declarou que a trama --a invenção de um entorpecente capaz de controlar as vontades das pessoas-- seria uma espécie de crítica metafórica à ditadura militar, que se encerraria no país em 1985, um ano após o lançamento do livro. Talvez por conta do momento político-social em que foi escrita, a prosa de Bandeira trazia características cinematográficas rígidas, de sentenças longas e rica em detalhes, ainda que brilhantemente fluída e endereçada a leitores recém-entrados na adolescência.
Leitores já crescidos e com memória afetiva em relação aos Karas talvez percebam certa diluição da narrativa de "A Droga da Amizade", principalmente se houver uma comparação imediata com os primeiros livros da série. Dessa vez, os parágrafos são curtos, as estruturas de texto são menos elaboradas e algumas frases chegam a soar mais ingênuas e deslocadas do que deveriam, pelo menos vindas da boca de um personagem na idade adulta.
Se levada em conta a maneira como se expressa em seus pensamentos em voz alta, dá para concluir que Miguel encaretou --algo que contraria o próprio mote dos Karas: "o avesso dos coroas, o contrário dos caretas". Pode-se especular que o formato mais leve do relato tenha sido uma escolha deliberada do autor, para embutir na obra um clima mais de retrospectiva saudosa e menos de thriller da aventura típica dos cinco livros anteriores. Seja como for, os fãs das antigas notarão a diferença de estilo.
Outro detalhe que não passa batido em "A Droga da Amizade" é uma incongruência cronológica em relação às primeiras aventuras, escritas na segunda metade da década de 1980. Nelas, mesmo que o autor jamais tenha especificado o ano em que ocorre cada história, fica óbvio que os Karas vivem em uma época de reduzida penetração tecnológica, com a inexistência de celulares ou computadores ligados à internet. Já em "A Droga da Amizade", as lembranças da gênese do grupo são pontuadas por diversas citações a sites, conferências virtuais e celulares com identificação de chamadas. Erro de continuidade ou uma tentativa brusca de atualizar a trama para gerações vindouras de leitores?
Em se tratando de uma série literária tão bem sucedida e que atingiu pelo menos duas gerações de leitores, uma pergunta surge pertinente ao longo das 170 páginas de "A Droga da Amizade": quem é o público-alvo? É possível que jovens leitores de primeira viagem se identifiquem com o universo dos Karas e tenham curiosidade de procurar os livros anteriores (que também ganharam relançamento com uma roupagem modernizada e capas ao estilo HQ, mas com texto idêntico ao original).
Mas, dada a natureza de prelúdio da narrativa, é certo assumir que é um produto principalmente endereçado aos fãs dedicados, aqueles que tomaram gosto pela leitura com aqueles livros, que sentem saudades das aventuras empolgantes de caráter vertiginoso e que gostariam que os destinos dos personagens fossem desvendados. Mexer com personagens adormecidos por 15 anos pode ser uma tarefa ingrata para um escritor. E, mesmo cumprindo somente parte das expectativas, Pedro Bandeira merece aplausos por se arriscar a tentar.

Renascimento...




domingo, março 09, 2014

Como ser um bom professor - algumas dicas muito pessoais

Um aluno me escreveu perguntando que aptidões um bom professor deve ter. Boa questão. Cada um tem sua resposta pessoal a ela, mas quis arquivar a que eu mandei e o blog também serve para isso. E você, caro leitor ou cara leitora, o que acha?

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Empatia - Gostar de gente é fundamental. Não é preciso ser extrovertido, mas não se pode ser nem tímido demais nem tampouco (e principalmente) misantropo. Também é preciso se colocar no lugar do aluno para tentar ver onde ele pode ter dificuldades, ou como ele está pensando sobre o que lhe é apresentado.

Domínio do assunto - Embora não seja necessário ser expert, é preciso saber pelo menos o eixo lógico do que se vai ensinar, os pontos principais e as relações entre eles. Ainda que eles só representem, digamos, 25% de um tema qualquer, são pontos que precisam estar claros na sua cabeça -- e, nunca é demais repetir, as relações entre eles, a lógica por trás deles -- para que possa passá-los aos outros. Além disso, é preciso estar sempre aberto a atualizações: novas descobertas e interpretações aparecem de tempos em tempos, e o que era certíssimo num momento pode ser rapidamente ultrapassado num outro. Daí a necessidade de um estudo regular, ainda que informal. O professor que para no tempo, mesmo que dê uma boa aula inicialmente, logo se condena à fossilização. (Uma dica que funcionou para mim: virar um rato de livraria, tanto físicas quanto virtuais. Ajuda a sempre saber o que está sendo lançado, e assim se formar um acervo decente e atualizado.)

Criatividade - Não dá para seguir sempre o mesmo esquema de aula. O que funciona para uns, não funciona para outros, então o professor precisa saber se adaptar. Isso pode ser difícil porque nas faculdades o que se oferece geralmente é um mero preparo intelectual (e mesmo assim, nem sempre muito bom). Mas aí cabe ao professor "pensar fora da caixa" ou buscar auxílio de quem o faz para achar maneiras de passar o conteúdo de formas mais eficientes para seus alunos. Pode ser uma coisa muito simples, desde a discussão de uma imagem ou música, até dinâmicas de grupo razoavelmente complexas, ou mesmo uma analogia com alguma coisa do cotidiano. Mas essa abertura para o novo tem que exisstir em alguma medida.

Humildadepersistência - Nem sempre se é o melhor professor do mundo. Mesmo os muito bons têm seus momentos menos felizes. Pode ser por razões emocionais, digamos um atrito com um aluno, ou intelectuais, como um engano com uma informação ou a dificuldade em achar a tática certa para aquela turma específica. Erros e insuficiências vão acontecer, e é preciso aceitar isso de antemão --- não como fatalismo e acomodação, mas constatação da realidade. Isso é da natureza humana, e temos de saber disso. E, por outro lado, às vezes o ótimo é inimigo do bom (o que qualquer um que dê aula para o Ensino Fundamental ou Médio descobre no primeiro mês). Nem sempre aqueles alunos determinados aceitarão o que preparamos para eles, por várias razões, e até podem rejeitá-lo ativamente. Por isso, o magistério é também um exercício moral: exige um exame de si mesmo, uma recalibração emocional constante, e o exercício de virtudes tradicionais como a fortaleza e a perserverança. Não é um espaço para a massagem permanente no ego que certos professores imaginam, mas uma atividade que vai exigir uma dose razoável de autoconhecimento e preparo psicologico. 

Disciplina -  Porque dá trabalho e exige certo tato. Autocontrole no trato com os outros é importante, e organização para preparar o que se vai fazer (nem que seja o estudo básico da matéria do dia) são indispensáveis.

Gosto pelo que se faz -  Com tantas exigências, o magistério não é muito tolerável sem algum amor por ele. Isso não significa uma abnegação absoluta, de mártir, da qual poucas pessoas são capazes, mas um mínimo de satisfação pelo que a atividade pode criar de bom no mundo. Perder isso de vista é se condenar à mediocridade profissional e humana. Claro que muitas vezes as condições de trabalho não ajudam, mas até para isso a pessoa tem de se preparar dentro do possível. Um  professor que perdeu a "chama" será um professor acomodado e cada vez menos eficiente.  Por isso, é aconselhável ter uma noção das possibilidades da área, de modo a se saber como procurar oportunidades de trabalho mais satisfatórias, para que não aconteça de a pessoa ficar anos e anos presa a um emprego desagradável porque nada mais aparece. Há que se ficar "antenado" com o que aparece de bom, e traçar estratégias para chegar lá. Ex.: saber que concursos são interessantes, como se pode chegar a instituições mais atraentes, a que atividades alternativas se pode recorrer na falta do bom e velho emprego clássico e estável.  

Contato com a experiência alheia - Especialmente quando se é jovem, é sempre bom ter figuras mais experientes a quem recorrer. Isso requer alguns cuidados, claro, já que nem sempre o profissional mais experiente será sábio (muitos viram cínicos amargos). Mas ter pessoas que conhecem a profissão ajuda muito, enriquece nossa visão e pode ser uma grande ajuda em momentos difíceis. Na falta de alguém assim em pessoa, a Internet pode propiciar uma troca de experiências frutífera. Eu, por exemplo, vez por outra procuro materiais e experiências divulgadas na rede por outros professores (e nisso saber outro idioma ajuda muito. Os americanos, por exemplo, frequentemente criam websites para disciplinas e cursos inteiros, tanto no nível básico como no superior, e isso é tremendamente útil.) e abstraindo um pouco da profissão em si: o contato com pessoas que têm interesses intelectuais comuns, mesmo que de fora da área, ajuda muito a nos manter atualizados e "afiados" mentalmente. Ter alguns amigos assim ajuda muito. 
 

Cautela e discrição - A profissão tem suas armadilhas. É triste, mas hoje é preciso ter prudência. Não se recomenda, por exemplo, falar com alunos, especialmente do sexo oposto, a portas fechadas ou na ausência de outros. Também é preciso ter cuidado com o que se diz na frente de colegas, mesmo num momento de descontração. Ambientes de trabalho são solo fértil para fofocas, e professores são particularmente propensos a isso. Não é preciso ser paranoico, mas também não se deve achar que se está cercado de anjos.