quinta-feira, agosto 10, 2006

O cérebro feminino

Primeiro, as diferenças entre os sexos eram explicadas como um fato da natureza: homens e mulheres tinham naturezas diferentes e ponto final. Mais tarde, à medida que as explicações da personalidade pela neurologia iam perdendo popularidade e o contato com diferentes culturas ia expandindo nosso conceito do que era a natureza humana, passou a ser politicamente correto pressupor-se que, embora os cérebros feminino e masculino tivessem diferenças catalogadas, isso não importante. Mulheres agiam de forma "feminina" porque haviam sido criadas assim, o mesmo valendo para os homens. Não haveria um substrato biológico para as diferenças de comportamento tão visíveis em tantas culturas; as diferenças entre os sexos eram uma questão histórico-antropológica, simplesmente.

Eis que, na alvorada do século XXI, essa teoria culturalista da guerra dos sexos se vê ameaçada. Fico me perguntando o que Shulamith Firestone diria desse estudo da Dra. Brizendine sobre o funcionamento do cérebro feminino, que, entre outras coisas, levantou uma propriedade muito interessante dos abraços prolongados.

Leitoras deste blog, nunca abracem por muito tempo alguém em quem não pretendam realmente confiar.
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FEMME MENTALE
San Francisco neuropsychiatrist says differences between women's and men's brains are very real, and the sooner we all understand it, the better

Joe Garofoli, Chronicle Staff Writer

Sunday, August 6, 2006

Louann Brizendine's feminist ideals were forged in the 1970s, so the UCSF neuropsychiatrist is aware that some parts of her new book, "The Female Brain," sound politically incorrect.

Such as the part about how a financially independent woman may talk about finding a soul mate, but when she meets a prospective mate her brain is subconsciously sizing up his portfolio. Or the part describing the withdrawal pains moms feel when they return to work and can no longer cop a hormonal high from breast-feeding their babies.

Women have come a long way toward equality over the past 50 years, but the Yale-trained Brizendine, 53, says her research indicates that human brains are still wired for Stone Age necessities.

Male and female brains are different in architecture and chemical composition, asserts Brizendine. The sooner women -- and those who love them -- accept and appreciate how those neurological differences shape female behavior, the better we can all get along.

Start with why women prefer to talk about their feelings, while men prefer to meditate on sex.

"Women have an eight-lane superhighway for processing emotion, while men have a small country road," she writes. Men, however, "have O'Hare Airport as a hub for processing thoughts about sex, where women have the airfield nearby that lands small and private planes."

Untangling the brain's biological instincts from the influences of everyday life has been the driving passion of Brizendine's life -- and forms the core of her book. "The Female Brain" weaves together more than 1,000 scientific studies from the fields of genetics, molecular neuroscience, fetal and pediatric endocrinology, and neurohormonal development. It is also significantly based on her own clinical work at the Women's and Teen Girls' Mood and Hormone Clinic, which she founded at UCSF 12 years ago. It is the only psychiatric facility in the country with such a comprehensive focus.

A man's brain may be bigger overall, she writes, but the main hub for emotion and memory formation is larger in a woman's brain, as is the wiring for language and "observing emotion in others." Also, a woman's "neurological reality" is much more deeply affected by hormonal surges that fluctuate throughout her life.

(O resto do texto pode ser lido aqui.)


Uma jovem arte

Logo os cinéfilos de todo o mundo terão de reconhecer, se já não o fazem em alguma medida, que ao lado do cinema surgiu uma arte gêmea, com um potencial estético tão forte quanto o de seu irmão mais velho: o videogame. Cada vez mais sofisticado e requerendo doses crescentes de capricho por parte de seus produtores -- em roteiro, música, qualidade de animação --, não deve demorar muito para que sejam vistos como obras artísticas tão meritórias quanto o desenho animado ou simplesmente o próprio filme convencional.

Um bom exemplo do nível de qualidade a que esses jogos podem chegar é esta abertura, uma aterrorizante obra-prima que introduz um dos títulos de uma série lançada em 1996 e que hoje é tida como clássica. George Romero, o seu inspirador, que me perdoe, mas nada do que ele produziu já chegou perto disso: http://www.youtube.com/watch?v=RwqTi1IExwk.

Para os que não estão familiarizados com a história recapitulada nessa abertura, sugiro uma olhada na introdução do segundo jogo, aqui e aqui, seguida deste vídeo, que é mencionado no link de que falei acima e contextualiza a abertura. Para quem quiser se aprofundar na trama, vale a pena conhecer este link.

Quem sabe, quando os críticos vetustos de hoje tiverem já se aposentado, e a minha geração já tiver galgado os degraus da reputação e da responsabilidade -- ainda guardando na memória afetiva os bons tempos com o SNES e o Playstation --, vejamos museus prestando a esse meio o respeito devido.

Tempos sombrios à vista

Acordo cedo e ainda pego o final do "Bom Dia, Rio", da Globo. E para quê? Para descobrir, simplesmente, que o candidato da atual governadora do estado e de seu primeiro-infante tem quase 50% das intenções de voto nas últimas pesquisas, e uma vantagem considerável nas projeções para um segundo turno. Depois de oito anos de peraltices no comando do Rio, a população fluminense não se dá por satisfeita, quer ainda mais quatro. E de quê, perguntarão os incautos de outras regiões do país? A resposta poderia ser dada por qualquer cidadão informado e minimamente isento de paixões partidárias: demagogia política temperada com versículos bíblicos, promessas messiânicas sem qualquer contrapartida na prática, de sub-remuneração na educação, de atraso no desenvolvimento econômico do estado, das "dez mil obras" que nunca o foram, entre outras coisas.

Este não é um blog político. A disputas políticas, ao menos tal como se apresentam no Brasil, têm um grau de vulgaridade que as tornam muito pouco convidativas. Entretanto, nem sempre podem ser evitadas. Como na manhã de hoje, há momentos em que é forte a tentação de mudança para um estado mais sério...

domingo, agosto 06, 2006

Arte e tecnologia

03 de agosto de 2006 - 19:07

Cientistas criam pinturas que mudam de acordo com humor


A tecnologia reconhece o estado emocional da pessoa que está vendo a pintura e provoca mudanças na obra


BBC Brasil
Se pessoa está feliz, a pintura ganha cores vivas e alegres

LONDRES - Cientistas americanos e britânicos criaram pinturas artísticas digitais que mudam de acordo com o humor das pessoas que as vêem. A tecnologia reconhece o estado emocional da pessoa que está vendo a pintura e provoca mudanças na obra. Quando o espectador está zangado, a pintura ganha cores escuras e pinceladas fortes. Se ele estiver alegre, o quadro ganha tons vibrantes, com pinceladas leves.

A equipe de cientistas responsável pelo projeto disse esperar que a tecnologia desenvolvida ofereça uma experiência interativa aos apreciadores de arte.

Uma câmera colocada acima da pintura captura a imagem do rosto do espectador. A expressão facial é analisada por um programa de computador.

O software detecta traços faciais marcantes, como a curvatura da boca, o enrugamento da testa e a amplitude da abertura dos olhos. A partir destes indícios, o programa calcula o estado emocional do espectador. Em tempo real, a imagem digital se adequa ao humor de quem a vê.

Psicologia da imagem

O pesquisador John Collomosse, do departamento de Ciência da Computação da Universidade de Bath, na Grã-Bretanha, disse que a equipe de cientistas estudou psicologia da imagem para entender como as variações de expressões faciais deveriam corresponder aos estados emocionais.

O humor do espectador pode alterar a intensidade das pinceladas, a imagem de fundo e as cores do retrato. "Isso resulta em uma tela digital cujas cores e estilos variam suavemente, produzindo uma experiência nova de interação artística", disse Collomosse.

Segundo ele, a vontade de fazer o projeto nasceu de uma pesquisa em arte sintetizada com fotos e vídeos. "Há muitas formas de arte que ainda não chegaram ao grande público, pois ainda são difíceis de se manipular. Há muitos parâmetros que precisam ser estudados."

"Com nossa obra, o espectador pode usar sua expressão facial para definir os parâmetros. Eu acho que é uma área interessante. A fotografia digital realmente decolou, e há um mercado emergente para ferramentas para manipular imagens digitais", afirmou.

A obra dos pesquisadores foi apresentada em uma conferência sobre animação não-realista na cidade de Annecy, na França.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Mesmice

Recebo na mesma tarde fria três exemplares da recém-assinada Newsweek (minha homenagem impressa à informação globalizada). Na primeira, uma foto do Aeroporto de Beirute em chamas; na segunda, um Bush preocupado enquanto ouve assessores sobre a crise no Líbano; na terceira, soldados israelenses levando um companheiro ferido em algum lugar desértico no sul do território libanês. Contemplo essas três imagens, cada uma delas trágica a seu modo, e sou tomado por um enorme tédio -- sensação muito similar à proporcionada pelos jornais repletos de CPIs e candidatos em campanha. Achava que, quando as revistas chegassem, eu as leria com gana. Ledo engano: folheio-as sem vontade, passeando pelas matérias ricamente ilustradas com o prazer de quem consulta a lista telefônica de uma cidade estranha onde não conhece ninguém. Quanto aos jornais, empilham-se sobre a mesa, quase como chegaram. O que trazem parece uma reprise de mau gosto: manchetes, matérias, colunas, seções de cartas, tudo parece ter se tornado um grande clichê. (À exceção honrosa do destaque dado à licença médica de Fidel Castro -- ao menos uma novidade em 47 anos.)

Mas o mundo segue, e com ele as emoções, impermanentes por excelência, vão mudando. É curioso como parecem tão absolutas quando se manifestam -- a ponto de eventualmente esquecermos o quão são transitórias. Assim também os eventos que as originam -- tudo é rápido como o vento. Quisera as tragédias crônicas de nosso pequeno e explosivo mundo tivessem a mesma efemeridade que minhas oscilações de espectador distante.

Clichê por clichê, há um que me ocorre e ainda serve de consolo. Talvez seja a mais realista manifestação de esperança da linguagem humana, repetida à exaustão mas nem por isso menos eficaz. Pois, quer queiramos ou não, por mais profundo que seja o abatimento que nos acomete e por maioe que nos pareça a insensibilidade do Cosmo frente à desgraça de tantos, amanhã é outro dia.

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Para não infectar meus já poucos leitores com um estado de espírito pouco convidativo, uma reflexão: a força de vontade é um músculo, precisa ser fortalecida com o exercício regular, mas, se for exigida repetidamente, tende a se esgotar. Não entenderam? Então dêem uma olhada neste artigo de Cordelia Fine no The Australian.

Por ruas escuras e almas sujas...


Quem nunca ouviu falar do filme noir? A expressão remete aos recantos escuros e degradados de uma cidade grande, a boates enevoadas de fumo em ruas desertas e molhadas de chuva, e uma fauna humana composta por mulheres sedutoras e cheias de segredos, protagonistas (não raro detetives particulares) destilando cinismo, gângsteres apaixonados e violentos. Tudo isso, claro, com um blues tocando ao fundo. Pois bem, antes do filme noir, veio o romance noir.



Le Monde
03/08/2006
Como foi inventado o romance "noir"
Foi Dashiell Hammett (1894-1961) o grande estilista do gênero, com os seus romances ambientados nos bas-fonds, povoados de personagens torpes e de mulheres fatais, perseguidos por detetives desiludidos, e, sobretudo, com a sua narrativa revolucionária, que logo contaminaria o cinema

Jean-Luc Douin

Histórias sórdidas. Que começam em San Francisco, em 1915. Por 10 dólares por dia, Dashiell Hammett passa horas em emboscada debaixo de alpendres de prédios, espionando e seguindo suspeitos. Com o seu terno cimbrado, sua gravata, seu bigode de dândi, este cara alto e elegante esconde um entalhe no crânio, sob o seu impecável chapéu de feltro. Ele tem cicatrizes nas pernas, vota vermelho, cospe sangue. É um tuberculoso alcoólatra.

Oficialmente, ele é um detetive particular, da agência Pinkerton.
Visceralmente, um agente de atividades incertas e suspeitas. Ele assombra a cidade dos vícios e das corrupções, seus bares, suas docas, seus campos de corridas de cavalos e seus combates de boxe. Hammett não é um homem propenso a proteger a propriedade privada, nem a se tornar cúmplice das injustiças sociais. Desânimo, desgosto, demissão.

Hammett renasce no início dos anos 20. Como escritor. Inspirado nos personagens duvidosos que ele freqüentou, naqueles casos sórdidos que ele considera como "mijo de asno", ele redige novelas que são publicadas pela revista mensal "Black Mask" (Máscara Negra). Contratado como redator publicitário de meio-período por um joalheiro, ele enviou inicialmente seus primeiros textos para a revista "Smart Set" (a ancestral da "New Yorker").

Foi então que ele descobriu, assim como fariam depois dele William Burnett, Don Tracy, James Cain ou Horace Mc Coy, vindos do jornalismo desportivo ou criminal, que ele é o autor sonhado dos "pulp magazines", aquelas revistas que vendem tenebrosas sensações impressas em papel de má qualidade, e que inspirariam o título do filme "Pulp Fiction". Assim, "Black Mask" (cujo nome atiça a mitologia do lobo negro encampado pelos heróis da literatura popular) foi lançada para recuperar as finanças da "Smart Set". Aos poucos, ele vai evoluir em direção á literatura "hard-boiled", a narração "dura na queda".

Homens melancólicos dentro de barzinhos sombrios, mulheres ruivas flamejantes trajando enlouquecedores vestidos tomara-que-caia, emboscadas dentro de becos sem saída, uma pin-up medindo de alto a baixo um canalha metediço enquanto ela fuma um cigarro ou o ameaça com uma arma, uma sombra inquietante sobre um muro, um carro que derrapa na noite ou o fantasma de um loira errando debaixo da chuva: foi lá, nas revistas "pulp", os livrinhos brochados baratinhos, que nasceu um gênero que, desde então, prosperou celebrando o crepitante casamento da metralhadora com a máquina de escrever, e mais tarde as bodas negras dos anjos de rostos sujos com o cinema.

Nada de pânico! O termo de "detective story" foi inventado por Edgar Allan Poe (escritor americano, 1809-1849, um dos primeiros mestres do conto de terror), o criador do primeiro detetive amador (Auguste Dupin). O Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle (1859-1930) será mesmo o primeiro detetive privado (criado em 1887), antes que nasçam um detetive-arrombador (o Arsène Lupin de Maurice Leblanc, em 1905), um detetive-repórter (o Rouletabille de Gaston Leroux, em 1907), um padre-detetive (o Padre Brown de Chesterton, em 1910).

Mas se hoje nós podemos falar de filme "noir", se Quentin Tarantino fez de Uma Thurman uma corrosiva sedutora em "Pulp Fiction" ("Tempo de Violência", 1994), isso se deve à glória dos "hard-boiled" de capas berrantes (capas essas que influenciarão os cartazes dos filmes tenebrosos), e à maneira com a qual Dashiell Hammett transcendeu essas histórias onde o detetive privado se preocupa menos em provar sua engenhosidade em manipular um passe-partout e gazuas do que em fumar toneladas de cigarros e esvaziar garrafas de whisky em miseráveis quartos de hotéis.

"Dashiell Hammett é o anjo tutelar", diz Jean-Bernard Pouy, o inventor, em 1995, do Polvo, um personagem que ganhou vida nas mãos de vários autores. "Em primeiro lugar, é o homem que exerce o fascínio. Mais do que os outros, ele se aproxima do ideal dos escritores da escola do novo romance policial francês: um cara para quem a escrita é importante, porém não necessária. Um cara que é capaz de desaparecer para beber, viver, amar, atuar como militante. Nós fomos acusados de ser filhotes de Maio de 68. Ledo engano! Tudo vem dele, um grande ator do seu tempo!"

"Hammett e o jazz: foi nesses dois elementos que nós estivemos mergulhados. É o emblema do thriller de motivações políticas", diz o cineasta Alain Corneau, autor do filme "Série Noire" (1979), enquanto um outro cineasta, Francis Girod, sublinha sua narrativa, "que respirava a cinema em cada frase", e que o escritor Michel Le Bris, criador do Festival internacional do livro de Saint-Malo (oeste da França), celebra "a sensação de uma inesgotável energia, de uma narrativa dedicada às margens, às vielas sórdidas, às partes contíguas de cozinhas de lanchonetes suspeitas, uma escrita finalmente liberada das formalidades hipócritas e das preciosidades de salão".

"Sou duro na queda e tenho a pele dura por cima do que restou da minha alma e, após vinte anos passados no mundo do crime, eu posso assistir a qualquer assassinato sem ver nele outra coisa que uma forma de ganhar meu pão, o meu trampo cotidiano": tal é a cínica profissão de fé de Continental Op, o detetive que Hammett vai transformar no herói de 26 novelas e dois romances, antes de imaginar Sam Spade, o narrador de "O Falcão de Malta" (editora Gallimard).

Raymond Chandler encontraria uma frase imortal para celebrar a revolução iniciada por Hammett: "Ele tirou o crime do vaso veneziano no qual ele estava metido para arremessá-lo na sarjeta. (...) Não era uma má idéia, essa de afastá-lo das concepções pequenas burguesas que se compraziam em descrever a maneira com que as garotas da alta sociedade mordiscam asas de frango".

Dashiell Hammett está pouco se lixando com as reações de repulsa da National Organization of Decent Literature (Organização nacional em prol da literatura decente), que pede de vez em quando à Brigada criminal para confiscar certos Pocket Books (livros de bolso), por demais afastados dos enigmas bem comportados de Agatha Christie. Ele é daqueles que acrescentam drágeas com sabores agressivos nos thrillers retóricos demais e que jogam pimenta-do-reino sobre "os discursos demagógicos dos políticos, dos pregadores, dos homens de lei".

Lançados abertamente como paralelepípedos sobre a vidraça da América capitalista, os textos de Hammett combinam crítica social com violência documentária e lirismo brutal. Com ele, não se trata mais de valorizar as sutis deduções de um investigador invulnerável, e sim de mergulhar um incorruptível desiludido numa atmosfera turva, de fazer com que ele reaja com os seus nervos e suas tripas, de levá-lo a enfiar as mãos no meio do lixo, de conduzi-lo a se introduzir entre as crápulas. Não há mais crimes perfeitos, e sim apenas assassinatos odiosos. Não há mais um enigma pretexto para o divertimento cerebral, e sim a sensação sufocante de estar se imiscuindo no império do Mal. Tudo isso é contado por meio de um estilo eficaz, que "estala assim como uma chicotada", uma linguagem crua, uma multiplicação de seqüências rápidas e frenéticas.

É dessa forma que, até o ano de 1952 - data na qual a cruzada anti-comunista iria persegui-lo sem trégua -, Hammett foi constantemente reeditado e que a sua influência foi crescendo. Foi assim que os estúdios de Hollywood compraram os direitos de adaptação dos "pulps", e contrataram alguns dos seus autores como roteiristas. Foi assim que, transposto para o cinema por John Huston em 1941, "O Falcão Maltês" deu ao filme "noir" um estímulo radical. O cineasta impõe certos lugares (o escritório do detetive, o apartamento da sedutora, as vielas abandonadas), objetos (telefone, chapéu de feltro, cigarros), personagens (mulher fatal dos olhos de cobalto, levantino perfumado, querubim assassino, gângster epicurista de estertores asmáticos), e um ambiente mórbido no qual vagueiam medos e desejos.

O herói é um homem sem estado civil nem moral, que maneja o humor a frio e a ironia displicente. Ele pratica uma linguagem e adota uma conduta que chocam as velhas senhoras da aristocracia, e exibe uma fleuma misógina para com as suas amantes. Hammett sabia muito sobre os matadores profissionais e os maníacos sexuais, os políticos corruptos e as damas ninfomaníacas, os advogados desonestos e os gerentes de boates suspeitas e de antros de jogatina. Do assassinato que dá a largada dos seus mistérios, ele só deixa entrever um tiro de revólver em meio à neblina. Então, "os diálogos falam no lugar das armas", escreve Roger Tailleur na revista "Positif" (N.º 75, maio de 1966), "os personagens metralham uns aos outros com palavras", as quais se aplicam a "complicar os mal-entendidos, a engabelar o adversário".

Enquanto o filme "noir" vai se propagando em todo lugar, na Itália ("Ossessione", de Luchino Visconti, 1942), na Inglaterra ("O Terceiro Homem", de Carol Reed, 1947), no Japão ("Cão danado", de Akira Kurosawa, 1949), na França ("Bob le Flambeur - Lance de Sorte") de Jean-Pierre Melville, 1955), no Egito ("Estação Central", de Youssef Chahine, 1958), e que ele vampiriza todos os gêneros de Hollywood, os quais passam a ser contaminados pelos temas da lei e da desordem, da corrupção, do destino fatal, tratados por meio de estéticas tomadas pela neblinas, dedicadas às fantasias mórbidas e ao pesadelo, é lançada na França em 1945, por Marcel Duhamel, na editora Gallimard, a "Série Noire" (coleção dedicada a romances policiais), um nome que foi imaginado por Prévert (Jacques Prévert, 1900-1977, importante poeta francês).

Esta logo se veria na companhia de outras coleções, editadas pelos concorrentes, tais como "Le Bandeau Noir" (A venda preta), "La Veuve Noire" (A Viúva Negra), "Fleuve Noir" (Rio Negro)... A coleção "Série Noire" fascina os apreciadores de garotas fatais que trajam meias de náilon e de baladas em Chevrolet conversíveis. Além do mais, ela incentiva os intelectuais franceses a publicarem sob pseudônimos americanos. Louis Chavance torna-se Irving Ford, Louis Daquin assina como Lewis McDacking, Léo Malet diz se chamar Frank Harding ou Léo Latimer, Maurice Nadeau esconde-se por trás de Joe Christmas e Boris Vian inventa Vernon Sullivan.

Mergulhado na leitura de "Em Busca do tempo Perdido", Dashiell Hammett escreve para a sua companheira Lilian Hellman: "Se Proust não se resolver logo a dar um fim em Albertine, acho que ele corre o risco de perder um cliente!".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

quarta-feira, agosto 02, 2006

Um breve alívio




E o material da qualificação partiu, fibra ótica afora. Agora é só estudar como nunca e procurar uma boa defesa para as lacunas e opções heterodoxas de conteúdo que a falta de tempo e, reconheço, de maior disciplina impuseram.

A arte de ser um bom acadêmico é também a arte de criar bons pretextos .

domingo, julho 23, 2006

Expressão

Um bom poema nada tem a ver, em essência, com belas rimas ou uma métrica perfeita. É simplesmente aquele que, em determinado momento, diz tudo aquilo que nos vai pela alma e resiste às palavras -- a sensação nítida, clara, intensa, que, muito embora até nos leve a lágrimas ou gestos impensados, nos faz calar, perplexos, incapazes de fala. O bom poema, portanto, é o que se torna nosso intérprete, que dá voz ao indizível e, ao fazê-lo, de algum modo nos consola e alivia. Ele oferece, pelas palavras de um estranho, o ponto em que nossa individualidade e a experiência comum da humanidade se tocam. E recorda, malgrado nosso, o quão parecidos todos somos.

Hoje, como tantas vezes antes, este é o meu bom poema. Versos que jamais compus, e no entanto são mais meus, hoje, do que de seu próprio autor.

Poemas de Amor - XX

Pablo Neruda


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: ‘A noite está estrelada
e tiritam, azuis, os astros à distância’.

Gira o vento da noite pelo céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis e por vezes ela também me quis.

Eu a tive em meus braços em noites como esta.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela me quis e às vezes eu também a queria.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos?

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E descer o verso à alma como ao campo do rocio.

Que importa se não pôde o meu amor guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. À distância alguém canta. À distância.
Minha alma se exaspera por havê-la perdido.

Como para cercá-la meu olhar a procura.
Meu coração a busca, ela não está comigo.

A mesma noite faz branquear as mesmas árvores.
Já não somos os mesmos, nós os de outros dias.

Já não a quero, é certo, quanto a quis, no entanto.
Minha voz ia no vento para alcançar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro, os olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, porém talvez a queira.
Ai, é tão breve o amor e é tão extenso o olvido.

Porque em noites como esta eu a tive em meus braços,
minha alma se exaspera por havê-la perdido.

Mesmo sendo esta a última dor que ela me cause
e estes os últimos versos que eu lhe tenha escrito.

Da "IstoÉ": Falando com o Além

26/07/2006

Ciência e médiuns aprimoram a
tecnologia e os métodos de contato
com os que morreram. Com isso,
milhões encontram conforto e
respostas para suas inquietações
Por Celso Fonseca, Eliane Lobato
e Ricardo Miranda
Colaborou Eduardo Marini

A morte, para o católico São Paulo, era a “passagem para a vida definitiva”. O poeta grego Eurípedes escreveu que “morrer deve ser como não haver nascido”, enquanto o português Fernando Pessoa a considerava o grande “enigma”. Filósofos, pensadores, mestres como Goethe, Platão, Rimbaud, Byron, Mário Quintana, todos deixaram registrado algum tipo de entendimento sobre a única travessia supostamente sem volta. Mas e se pudéssemos mandar mensagens do lado de lá para cá? Muita gente acredita que falar com os mortos é possível – e alguns afirmam fazer isso cotidianamente. São os médiuns, os intermediários entre os espíritos e os homens. Há estudiosos, como a paulista Sonia Rinaldi, que empregam física, fonética, biometria e tecnologia digital para asfaltar a estrada que parecia interditada entre esses dois planos, o dos vivos e o dos mortos. A ferramenta, nesse caso, é a ciência e não a fé. Uma das maiores especialistas em Transcomunicação Instrumental (TCI), nome dado à gravação de vozes e até filmagem de pessoas que já morreram, Sonia comemora um marco em sua cruzada: o primeiro caso autenticado por um laboratório internacional de um contato com um espírito. O fato mais positivo de tudo isso é que, pelo caminho da ciência ou da espiritualidade, essas comunicações geram um conforto imensurável nas pessoas que buscam contato com os seus entes queridos. E dão respostas para muitas de suas inquietações.

Luis Adolfo
Discípulo: Afonso, que conviveu com Chico Xavier, diz ter psicografado mais de 15 mil mensagens

O caso estudado cientificamente por Sonia é
o de Cleusa Julio, uma mãe como outra qualquer:
não suportava a dor pela perda da filha adolescente, Edna, que morreu há três anos, atropelada por um carro enquanto andava de bicicleta. Dilacerada, procurou a Associação Nacional de Transcomunicadores, presidida por Sonia, e
conseguiu estabelecer comunicação com a menina. Uma das conversas gravadas entre mãe e filha foi enviada há seis meses a um centro de pesquisas em Bolonha, na Itália, o Laboratório Interdisciplinar de Biopsicocibernética, único na Europa totalmente dedicado ao exame e análise científicos de fenômenos paranormais. Junto, foi encaminhada outra fita com um recado deixado por Edna, antes de morrer, numa secretária eletrônica. O resultado, que acaba de chegar, é um surpreendente laudo técnico de 52 páginas, cuja conclusão diz: a voz gravada por meio da transcomunicação é a mesma guardada na secretária eletrônica.

Álbum de família
A mulher do jornalista
Tim Lopes (foto) diz tê-lo encontrado incorporado
em um médium

O chamado Caso Edna, revelado com exclusividade a ISTOÉ, tem o aval do físico Claudio Brasil, mestre pela Universidade de São Paulo que se dedicou nos últimos anos a analisar centenas de vozes paranormais. “Temos que abrir a mente e aceitar que a ciência não tem explicação para tudo”, diz ele. “É um trabalho puramente matemático, à prova de fraudes”, afirma Sonia, autora de sete livros, entre eles Gravando vozes do além, que detalha técnicas para contatos em outras dimensões. Em 18 anos de pesquisas, ela guarda 50 mil gravações em áudio com mortos. No início, usava um gravador. Hoje, as conversas são gravadas por telefone ou microfone conectados ao computador e, no caso de gravação e filmagem simultâneas, com o auxílio de uma câmera digital. Acostumada a trazer conforto aos outros, Sonia perdeu seu marido, Fernando, há um ano, vítima de câncer. Segundo ela, Fernando continua sendo seu mais ativo colaborador, agora do outro lado. “A dor se transforma em esperança”, emociona-se.

Max G Pinto
Prova: a pesquisadora Sonia obteve
o primeiro laudo internacional confirmando a voz de um espírito

Sem a intervenção de médiuns ou videntes, mas apenas de tecnologia, a transcomunicação está, segundo seus praticantes, ao alcance de todos que queiram falar com algum familiar ou amigo que se foi. Em comum com o espiritismo, a certeza de que mortos podem se comunicar com vivos. A diferença está no meio para chegar ao outro mundo. Foi através do médium mais conhecido do País, Chico Xavier (1910-2002), que a família do ortopedista David Muszkat, 70 anos, encontrou conforto para sobreviver à perda do primogênito, Roberto. O jovem, então com 19 anos, foi vítima de uma fatalidade: sofria de bronquite asmática e teve um choque anafilático após pingar um remédio no nariz. Morreu em 1979. Desde então, foram 63 mensagens psicografadas por Chico. Judeu praticante, David só procurou o médium aconselhado pela amiga, a atriz Nair Bello, por causa de sua mulher, que sofria muito. Quando encontrou-se com Chico, ouviu: “David, a morte não existe, seu filho está bem.” Foi o começo de uma longa amizade entre o judeu cético e uma das figuras mais importantes do espiritismo. A primeira mensagem, em 1979, chegou na véspera do Dia dos Pais. A assinatura era muito semelhante à de Roberto. “Se foi uma mentira, foi a mais gostosa que ouvi. Se foi um teatro, foi o mais bonito que assisti. Ninguém trará meu filho de volta, mas as mensagens mudaram nossa vida”, diz David, que a partir das cartas do filho morto lançou um livro, Quando se pretende falar da vida, traduzido até para o italiano.

Renato Velasco
Revolução: o ex-marxista Lima
reviu posições depois de
presenciar “mortos falando”

O banqueiro e médium carioca Luiz Augusto Queiroz, 49 anos, conta ter feito contato com vários espíritos. Mas um foi especial: seu próprio pai, Wellman, assassinado num assalto em 1989 no Rio de Janeiro. “Meu pai surgiu na minha frente e falou comigo”, afirma. O reencontro aconteceu três anos após a morte. Wellman foi o fundador do banco BRJ, hoje presidido por Luiz Augusto. Desde sua morte a família se angustiava. Ao vê-lo, o filho perguntou quem o matou. “Meu pai disse que isso não era importante. Era um carma se cumprindo.” Para os familiares, a mensagem foi um alívio. “Um dos mais significativos pontos dessa comunicação com o mundo espiritual é a confirmação da continuidade da vida”, explica Luiz Augusto, que preside o centro espírita Associação Padre Pio, no Rio de Janeiro.

Max G Pinto
“Antena”: Sérgio de Oliveira pesquisa
a glândula pineal, que seria o “órgão sensorial” dos médiuns

O depoimento de Luiz Augusto
confronta um mundo invisível, habitado por espíritos, à exatidão da ciência com suas idéias cartesianas. Esses dois universos sempre mantiveram uma enorme e irreversível distância. Mas
hoje o que parecia inconciliável se
mostra complementar. “Cientistas de renome, como Stephen Hawking, reconhecem que é pouco inteligente supor que a nossa realidade é a única expressão do universo”, diz a antropóloga Nara de Oliveira, professora e pesquisadora do Centro de Altos Estudos da Conscienciologia, em Foz do Iguaçu, Paraná. “A ciência física que conhecemos, dentro do paradigma materialista, não tem instrumental para estudar mecanismos subjetivos, como o espírito. Como trabalhar fenômenos extrafísicos com parâmetros físicos?” Nara trabalha na Enciclopédia da Conscienciologia, sob a coordenação do médico Waldo Vieira. “Temos no Centro a maior biblioteca do mundo sobre experiências fora do corpo.” O médico Sérgio Felipe de Oliveira, neurocientista com mestrado em ciências pela USP (Universidade de São Paulo) é idealizador do Projeto Uniespírito (Universidade Internacional de Ciências do Espírito) e estuda a mediunidade e os estados de transe. Defende em suas pesquisas que a glândula pineal – localizada no cérebro e que regula o ciclo do sono – seria o órgão sensorial da mediunidade. Segundo Sérgio, a pineal captaria informações do mundo espiritual por ondas eletromagnéticas, como “um telefone celular”, e as transformaria em estímulos neuroquímicos.

Helcio Nagamine
Queiroz diz ter conversado com espíritos, entre eles o do pai assassinado. “Ele surgiu na
minha frente e falou comigo”

O ambiente social hoje é mais favorável à diversidade em todos os sentidos. Nesse contexto, declarar que “qualquer pessoa pode sair do corpo físico e interagir com alguém que já morreu” não choca pelo inusitado. Ex-marxista, Ronie Lima, 48 anos, reviu suas convicções a partir das experiências que viveu no centro espírita Lar de Frei Luiz e tornou-se um pesquisador da espiritualidade. Nos livros Médicos do espaço e A vida além da vida, relata os fenômenos que testemunhou. “Presenciei mortos falando de três formas: através de incorporação em médiuns, de materialização ou de vozes.” Segundo o estudioso, a pessoa materializada volta “com o mesmo corpo, rosto e voz que tinha quando era vivo.”

Para a estilista carioca e médium Alessandra Wagner, viúva do jornalista Tim Lopes, executado e queimado por traficantes quando trabalhava numa reportagem na favela da Vila Cruzeiro, em 2002, para a Rede Globo, não há necessidade de prova científica para que tenha certeza do reencontro com o marido. Ela estava com o filho Diogo, então com 15 anos, quando, segundo conta, o espírito de Tim se incorporou num médium. “Era ele que estava ali. Tive uma sensação real, física. Senti a presença dele”, afirma Alessandra, que começou a freqüentar o Lar de Frei Luiz um ano antes da tragédia. “A doutrina espírita me deu capacidade de entender. A dor aprimora a gente. Foi nesse pior momento da minha vida que eu mais senti a presença de Deus.” Ela afirma desconhecer a revolta ou desejo de vingança. O encontro pós-morte que diz ter tido com o marido fortaleceu seus sentimentos. “Me senti amparada. E mostra que a gente está aqui de passagem”, reflete.

Talvez a última frase de Alessandra resuma o crescente interesse pela doutrina espírita: afinal, a vida não acaba aqui? A dúvida aflige mais as pessoas que têm maior escolaridade e renda, segundo os dados do censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000. Esse é o extrato predominante dos três milhões de espíritas registrados pelo censo no País. Mas, para além dos números oficiais, outros milhões de adeptos de outras religiões, no Brasil e no mundo, buscam caminhos científicos ou espíritas de comunicação com os mortos e sustentam um mercado literário próspero. São quase 200 milhões de livros vendidos sobre as possibilidades de vida e a interligação entre elas. O jornalista carioca Marcel Souto Maior escreveu três livros sobre Chico Xavier, que venderam 350 mil exemplares. Na última obra, As lições de Chico Xavier, conta histórias e questiona até que ponto é possível provar os fenômenos. “São muitas as suspeitas de fraude e de charlatanismo. É necessário checar tudo. A ciência é empírica, mas pode ser contaminada pela fé”, alerta. As dúvidas começam quando a atividade vira uma caixa registradora. Não é o caso de Chico, que psicografou 412 livros, vendeu mais de 20 milhões de exemplares e reverteu tudo para instituições de caridade.

Com 81 anos e quase cega, a carioca conhecida apenas por Dona Célia também poderia estar rica se cobrasse um real de cada pessoa que faz fila para participar das sessões trimestrais nas quais transmite as mensagens que recebe de pessoas mortas. Ela não cobra nada. Dona Célia reúne ciência e espiritualismo: é uma sensitiva que fundamenta o fenômeno de sua comunicação com pessoas “desencarnadas” através da física e da mecânica quânticas. Ao ser perguntada como seria isso, respondeu com novas perguntas: “Desejo ocupa lugar? Tempo ocupa lugar?” Diante da resposta negativa para as duas questões, afirmou que “desejo e tempo são campos quânticos” que os médiuns conseguem captar. Ela recebe pedaços de papel com nomes de pessoas. Leva-os para a casa e, à noite, vai para um quartinho escuro. À medida que toca os papéis, se conecta com o espírito que quer mandar uma mensagem. É apontada com uma possível sucessora de Chico Xavier. Assim como o médium Celso de Almeida Afonso, 66 anos, que atua em Uberaba, mesma cidade mineira onde nasceu Xavier. Ao psicografar recados do “além”, Afonso diz sentir cansaço físico. “Receber seis cartas de filhos mortos é como parir seis filhos.” Ele diz ter psicografado cerca de 15 mil cartas, 90% delas de filhos para pais. “O espírito escreve com alegria, emoção. Serve para apaziguar o coração da mãe, do pai”, diz ele. E assim os mortos confortam os vivos.

Variedades

Uma olhada quase diária pelo Arts & Letters Daily é uma das mais agradáveis e baratas maneiras de expandir a cultura geral e fazer boas leituras. Composto de resenhas, artigos e ensaios atualizados seis vezes por semana, o site é gratuito e oferece uma respeitável seleção de temas. Hoje, por exemplo, deparei-me com a revelação de que Albert Einstein, de quem uma universidade israelense divulgou milhares de cartas, era um mulherengo que sofreu com perdas em Wall Street, deu um filho para adoção e sofria com outro que era esquizofrênico. Certamente nada disso torna a Teoria da Relatividade mais compreensível para o leigo, mas não deixa de ser interessante conhecer um pouco mais a vida de um cientista que, mais do qualquer outro, tornou-se um ícone pop.

Mas não foi só. Um jornalista escreveu para a Harper's Magazine, uma das mais tradicionais revistas dos Estados Unidos, um relato de primeira mão sobre americanos solitários e bem-sucedidos que pagam para participar de uma excursão de "caça à noiva" na Ucrânia. "Aqui você é a mercadoria, você é o pedaço de carne", anuncia o guia da "caçada", encarregado de ajudar os seus clientes a encontrar uma alma gêmea eslava. Aparentemente decepcionados com a dureza no trato com as exigentes mulheres ocidentais, deve ser consolador para essa turma ouvirem que eles é que são o objeto de desejo. A julgar pelo estado das ex-repúblicas soviéticas, fica difícil dizer quem estará realmente fazendo um melhor negócio nessa história: se os americanos, as ucranianas ou a firma que promove as excursões, que incluem em seu roteiro lugares empobrecidos o bastante para potencializar o desespero da nativas por um marido estrangeiro e endinheirado. Ao que parece, as virtudes e os males da globalização já alcançaram os domínios do romance.

E, já que fui parar no site da Harper's, nada como encerrar o passeio pelo circuito de informações-não-tão-úteis com um trecho deste inacreditável "livro de etiqueta" escrito pelo Aiatolá Khomeini. Entre outras coisas, o autor determina quais os lugares onde o fiel não deve defecar e estabelece que a descida das regras de uma mulher no momento de uma oração anula o valor desta. O mundo é mesmo um lugar fascinante...

Enquanto isso, as pilhas de livros à minha frente lembram que não posso perder muito tempo com essas interessantíssimas distrações...

quinta-feira, julho 20, 2006

Vidro, explosões misteriosas e nosso futuro em risco

BBCBrasil.com

20 de julho, 2006 - 19h25 GMT (16h25 Brasília)

Jóia de Tutancâmon 'pode ser resultado de meteorito'

Em 1996, no Museu Egípcio na capital do País, Cairo, o mineralogista italiano Vincenzo de Michele viu uma pedra verde e amarela incomum no meio de um dos medalhões do antigo faraó Tutancâmon.

A jóia foi examinada e constatou-se que se tratava de vidro, mas que, surpreendentemente, era mais velho do que a mais antiga civilização no Egito.

Trabalhando com o geólogo egípcio Aly Barakat, eles descobriram que ele era parte de inexplicáveis fragmentos de vidro espalhados na areia em uma remota região do deserto do Saara.

Mas a presença de vidro, em si, já é um enigma para a ciência. Como ele foi parar lá e quem o produziu?

O programa sobre assuntos científicos Horizon, exibido pela BBC, noticia a existência de uma nova teoria ligando a jóia de Tutancâmon à queda de um meteoro.

Sem cratera

Aly Barakat (BBC)
Aly Barakat com um dos pedaços de vidro do deserto.

Segundo um químico austríaco, Christian Koeberl, o vidro tinha sido formado por uma temperatura tão elevada que só pode haver uma causa conhecida: o impacto de um meteorito na Terra. Mesmo assim, não há sinal da formação de uma cratera, mesmo depois de examinadas imagens feitas por satélites.

O geofísico americano John Wasson é um outro cientista interessado na origem do vidro. Para explicar o fenômeno, ele sugeriu uma teoria que remete diretamente às florestas da Sibéria.

Em 1908, uma poderosa explosão destruiu 80 milhões de árvores em Tunguska, na Sibéria.

Embora não existam sinais do impacto de um meteorito, agora os cientistas acham que um objeto extraterrestre de algum tipo deve ter explodido sobre Tunguska. Wasson perguntou-se se uma explosão semelhante não poderia ter produzido calor suficiente para transformar o solo em vidro no deserto do Egito.

Júpiter

A detonação da primeira bomba atômica em Trinity, no Novo México, em 1945, criou uma fina camada de vidro na areia. Mas a área com fragmentos de vidro no deserto egípcio é muito maior.

O que quer que tenha acontecido no Egito deve ter sido muito mais forte do que uma bomba atômica.

Não se pensava na possibilidade da ocorrência de uma explosão natural desta magnitude até que, em 1994, cientistas observaram o cometa Shoemaker-Levy chocar-se com o planeta Júpiter.

Mark Boslough, especialista em fazer modelos de grandes impactos em supercomputadores, criou uma simulação de um impacto semelhante na Terra.

A simulação revelou que um impacto desse tipo poderia realmente gerar uma bola de fogo que produzisse temperaturas de até 1,8 mil graus centígrados, deixando para trás um campo de vidro.

Boslough enfatizou que seria algo muito maior em termos de energia do que testes atômicos. "Dez mil vezes mais poderoso", afirmou.

No Sudeste da Ásia, John Wasson descobriu vestígios de algo ocorrido há 800 mil anos muito mais forte e destruidor do que o evento no deserto do Egito; foram produzidas várias bolas de fogo e formou-se vidro em mais de centenas de milhares de quilômetros quadrados, sem sinais de uma cratera.

"Nesta região, certamente todos os seres humanos teriam morrido. Não haveria esperança de sobrevivência para nada", disse ele.

De acordo com Boslough e Wasson, eventos semelhantes ao de Tunguska poderiam acontecer com uma freqüência de até cem em cem anos, e o efeito de uma explosão, mesmo que pequena, seria comparável a várias bombas de Hiroshima.

Tentar explodir um asteróide a caminho da Terra, aos moldes do que se faz no cinema, pode piorar a situação ao aumentar o número de impactos devastadores.

"Há centenas de vezes mais asteróides pequenos do que grandes", disse Mark Boslough. "Haverá um outro impacto na Terra. É só uma questão de tempo."

terça-feira, julho 18, 2006

E um homem pode voar...


Por alguns momentos, pude voltar a ter seis anos. Não era um herói com que me identificar, com seus tormentos ou dissabores, mas apenas um ícone sublime e grandioso, a encarnação da superioridade e da grandeza em façanhas divinas.

Pude sentir, como os antigos ouvintes de Homero, o poder do mito. E devo dizer que é realmente emocionante.

segunda-feira, julho 17, 2006

Psicopatas: você já conheceu um

A extensão da tua consciência é limitada apenas por tua habilidade de amar e envolver com teu amor o espaço à tua volta e tudo o que ele contém.

Napoleão Bonaparte


A revista Superinteressante deste mês traz na capa um tema que quase todo o mundo só conhece de filmes de Hollywood: os psicopatas. Vulgarmente associados a assassinos em série, gênios canibais e donos de motéis com complexo de Édipo, o que pouca gente sabe é que as estatísticas indicam que 1 a 3% da população mundial apresenta traços desse distúrbio, o que, no caso brasileiro, representaria de 1,8 a 5,4 milhões de pessoas. Embora eu desconfie desse tipo de estatística -- já repararam como tudo quanto é doença atinge determinada porcentagem da população, de modo que ou somos todos doentes ou tem gente por aí com combinações de sífilis, psicopatia, caspa, verminose e câncer de panturrilha? --, ela dá o que pensar. Primeiro, elimina a idéia de que o psicopata é um indivíduo raro, que quando aparece logo chama a atenção das autoridades e da imprensa por causa das abominações que deixa pelo caminho. Não, longe disso. O que caracteriza esse tipo de pessoa não é a contagem de cadáveres, mas sim uma deficiência grave e muito instigante: o que define o psicopata é sua cegueira emocional, ou seja, a incapacidade de se pôr no lugar do outro (empatia). São pessoas que mentem, roubam, enganam, manipulam e, em casos mais raros, até matam sem aquele mal-estar característico que costuma nos acometer sempre que agimos contra os ditames da consciência. Imagine-se, caro leitor ou leitora, sem esse alerta emocional; pense como seria se, ao pegar aquele item cobiçado sem pagar numa loja, trair seu cônjuge, surrar quem lhe insultou, não lhe doesse a consciência, não houvesse qualquer aperto no coração, e tudo que lhe dissesse que o que fez foi "errado" fosse a compreensão meramente intelectual de que violou uma expectativa social, mas que pode ser, segundo as circunstância, facilmente burlada. Se você conseguir isso, terá começado a entender o que é o mundo de um psicopata.

Começado a entender porque, por mais criativos que sejamos, desde que nascemos somos criados dentro de estruturas morais, nas quais aprendemos que há o certo e o errado, e assimilamos essa distinção à orientação de nosso comportamento. Mas, para um psicopata, não existe isso, pelo menos não da mesma forma. Ele nunca experimentou o remorso quando criança, nunca associou uma sensação ruim ao fato de ser um mau menino. Mais do que isso, como é incapaz de ter empatia, ele também nunca sentiu pena de um animalzinho em perigo, nunca viu nada de especial em alguém que precisasse de ajuda, nunca compreendeu realmente o que significam palavras como amor e ternura. Seu mundo interior, no que tange a esses sentimentos que tanto peso adquirem na vida de uma pessoa normal, é seco. E uma vez que ele não tem esses sentimentos, o que lhe sobra? O que ele vê quando encontra um outro ser humano? Ora, ele o vê de forma instrumental, em termos de custo e benefício -- daí a facilidade com que prejudica os outros para atender aos seus próprios objetivos. Nas palavras de um garoto psicopata ao psicólogo Michael G. Conner, "As pessoas sabem quando fazem algo errado porque sentem que é errado. Eu tenho de lembrar ou ser lembrado de que roubar de alguém é errado. Eu não me sinto mal quando tomo alguma coisa."

Isso não significa que um psicopata necessariamente vá torturar alguém com requintes de crueldade (muito embora, se o fizesse, seria com a mesma naturalidade com que iria cortar a grama ou preparar um café). Mas a educação moral de alguém assim certamente é muito mais difícil e, arrisco-me a dizer, precária. Isso não significa que ela seja inútil: como o próprio artigo da Superinteressante observa, é justamente a educação e o meio ambiente que podem evitar que uma criança com traços de psicopatia se torne uma matadora e se enverede, digamos, para o "mero" estelionato ou o faço-qualquer-coisa-para-subir-no-emprego. Possivelmente, com uma terapia bem feita e o cuidado por parte da família, poder-se-á criar uma pessoa que não esteja sempre envolvida em problemas.

Convém lembrar que o grande perigo dos psicopatas é que, vendo os outros em termos instrumentais e necessariamente sendo cegos às recompensas do altruísmo, eles costumam ser uma pessoas com uma inteligência acima da média. Charmosos, capazes de contar mentiras com grande naturalidade, imunes ao nervosismo que tantas vezes trai os trapaceiros e mesmo ao medo mais elementar em situações de risco, sabem manipular os outros como ninguém. (De fato, se pensarmos bem, conhecer as reações emocionais dos outros sem compartilhar delas nem ter nada parecido com um código de ética facilita muito a influência sobre eles.) No trabalho, são aqueles que passam por cima de todos, criam intrigas e tramam, não raro, a queda de seus próprios superiores para lhes tomar o lugar; na vida amorosa, são promíscuos e infiéis contumazes, vampiros capaz de afetar o mais extremo dos amores e agir de forma oposta em seguida (daí suas relações durarem pouco). São atraídos por profissões que lhes dão alguma forma de poder -- policiais, executivos --, nas quais podem atuar sem grandes entraves ou, conforme o caso, sua ambição e pouca consideração pelos outros podem ser até bem-vindas.

Infelizmente, não se conhece nenhum tratamento ou cura para o problema. Psicopatas são incapazes de corrigir seu modo de ser com punições, motivo pelo qual é comum que, quando enveredam pelo crime e chegam a ser presos, acabem reincidindo. A terapia convencional também é inútil, podendo até estimulá-los a esconderem melhor seu comportamento e, por extensão, a aperfeiçoarem suas habilidades manipuladoras.

O assunto é rico e merece ser mais conhecido pelo público em geral. Deixo aqui alguns links e indicações bibliográficas que podem ajudar os interessados:

Wikipédia
Em português: http://pt.wikipedia.org/wiki/Psicopatia (ainda muito pobre, mas deve ser expandido no futuro).

Em inglês: http://en.wikipedia.org/wiki/Psychopath (muito mais completo, com bibliografia em inglês)

Robert Hare
Site do maior especialista sobre o assunto, criador de um teste de aferição de traços de personalidade psicopática: http://www.hare.org. Autor de vários livros, o mais popular é Without Conscience: The Disturbing World of the Psychopaths Among Us, disponível por menos de 12 dólares na Amazon.com.

Infelizmente não achei nenhuma publicação em português, exceto por um livro já esgotado. Se alguém souber de um, envie os dados que eu publicarei aqui.

quinta-feira, julho 13, 2006

Desabafo

Mesmo que apenas pro forma e estando ciente de que ainda tenho inúmeros aperfeiçoamentos e correções a fazer e uma banca severa pela frente, por hoje posso dizer a plenos pulmões:

LIVRE!

terça-feira, julho 11, 2006

O videogame como obra de arte

Ainda existem pessoas nos Estados Unidos que não levam videogames a sério. São as mesmas pessoas que questionam a relevância do hip hop e supõem que os jornais ainda irão existir daqui a 25 anos. É difícil encontrar uma estatística inegavelmente precisa sobre o valor econômico da indústria do game, mas as estimativas mais positivas chegam a US$ 28 bilhões. Assim, eu não vou gastar nenhum espaço tentando convencer as pessoas de que os games são importantes. Se você está lendo essa coluna, vou assumir que você acredita que os games em 2006 são o equivalente cultural ao rock em 1967, porque isso é (mais ou menos) realidade.

Ok!

Então todos nós concordamos que videogames são uma força importante? E todos assumimos que games têm um significado, que eles refletem visões de mundo e sensibilidades de seu público, certo? E qualquer um que já tenha jogado video games modernos (ou estado em um quarto com alguém jogando) com certeza percebeu que games como “Grand Theft Auto” e “Bad Day LA” são visualmente hipnóticos, porque as imagens são geralmente lindas e os movimentos dos personagens são estranhos e hiper-reais. Todos concordam que essas noções são verdadeiras. O que me leva a propor a seguinte questão: por que não existem críticos de videogames?

(Chuck Klosterman, da revista Esquire, citado no blog do Ricardo Calil)


Parece que não sou o único aspirante a intelectual que leva o mundo dos jogos eletrônicos a sério. Ainda hei de ver acadêmicos eruditos e dados a afetar aquela superioridade olímpica dando palestras sobre a contribuição de Castlevania ao imaginário do terror gótico na era pós-industrial e o valor de Metal Gear como introdução de conceitos de geopolítica na educação dos adolescentes.

Como é bom ter vivido na era do Super Nintendo e do Playstation. Obrigado, Senhor...