sábado, fevereiro 15, 2014

1964: novas visões

Há quase meio século, o Brasil mergulhava em mais um período ditatorial. A produção acadêmica a respeito é bem grande, e agora ficou ainda maior. Colho no Prosa & Verso alguns artigos interessantes a respeito. Para ser franco, eu mesmo nunca dei muita atenção ao assunto, mas isso mudou quando comecei a estudar história latino-americana e as conexões com a história de outros países foi ficando mais clara. Então deixo aqui como registro:

Daniel Aarão Reis: As conexões civis da ditadura brasileira



Em nova obra, professor da UFF analisa a participação da sociedade durante a ditadura e defende a discussão sobre a tradição autoritária brasileira


Por Leonardo Cazes

No ano em que se completa o cinquentenário do golpe que derrubou o presidente João Goulart da presidência e deu início à ditadura, Daniel Aarão Reis, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), defende que é preciso aprofundar o debate sobre as conexões civis do regime militar. Em seu novo livro, “Ditadura e democracia no Brasil” (Zahar), ele avalia algumas das relações entre a sociedade e as Forças Armadas, além de propor uma diferenciação entre ditadura e estado de direito autoritário. Em entrevista ao GLOBO, Aarão Reis diz que, sem o conhecimento e a discussão sobre os fundamentos sociais e históricos da ditadura, não será possível avançar.

Quais as principais mudanças e descobertas, nos últimos dez anos, no campo dos estudos sobre a ditadura militar brasileira?

A grande novidade nessa última década é que se fortaleceu uma corrente crítica à principal tendência da historiografia sobre o período. A história da ditadura que ainda permanece hegemônica no Brasil, encarnada em grande parte pelo Arquivo Nacional e em certa medida pela Comissão Nacional da Verdade, se recusa a considerar a ditadura nas suas complexas relações com a sociedade brasileira. Imagina que a ditadura foi imposta de cima para baixo e enfatiza, quase que exclusivamente, a resistência à ditadura. Ulysses Guimarães, por exemplo, é uma grande figura da resistência democrática, foi chamado de “Senhor Diretas” e presidiu a Constituinte. Mas pouca gente sabe que ele foi um dos líderes da Marcha da Família com Deus pela Liberdade e apoiou o golpe de 1964. Ele fez parte da comissão do Congresso que tentou elaborar o primeiro Ato Institucional, mas os militares não gostaram e assumiram a responsabilidade. A própria CNBB, que exerceu um papel importante na divulgação de violações contra os direitos humanos durante a ditadura, apoiou o golpe. D. Paulo Evaristo Arns era bispo de Petrópolis e foi apoiar as tropas do General Olímpio Mourão Filho que desciam de Minas para o Rio. É preciso estudar as complexas relações que se estabeleceram. Houve muita colaboração, cumplicidade, zigue-zagues. Juscelino Kubitscheck, sobre quem até hoje há suspeitas de que foi assassinado pelos órgãos de segurança, apoiou o golpe, mesmo que com reservas. Ele cabalouo voto para a eleição de Castello Branco no Congresso. Tudo isso é silenciado. Quem sabe, não fala no assunto.

É por isso que no seu livro recém-lançado, “Ditadura e democracia no Brasil”, o senhor enfatiza a participação civil tanto no golpe quanto no regime?

Não é à toa que cada vez mais gente fala em uma ditadura civil-militar, não apenas uma ditadura militar. A noção de uma ditadura militar foi criada logo depois do golpe pelas esquerdas derrotadas. Era um recurso político legítimo na época, porque a gente queria isolar a ditadura. Fingíamos ignorar os apoios que ela tinha no mundo civil e a designávamos de militar. Essa ideia inicial, politicamente legítima, vai sendo incorporada por todos que migram de uma posição de tolerância ou cumplicidade ativa com a ditadura para as oposições. Vai haver uma migração maciça, principalmente a partir de 1973, 74, de líderes do regime e de segmentos sociais que encontraram na expressão “ditadura militar” um verdadeiro bálsamo para absolver e esconder as suas relações. A apoteose desse tipo de perspectiva foi a colocação do marco cronológico do fim da ditadura, que é construído em função de premissas e perspectivas teóricas e políticas. Fixou-se o marco em 1985, na posse de José Sarney. Ora, o Sarney foi homem da ditadura desde o início e uma de suas lideranças, mas essa cronologia ganha coerência porque a ditadura era militar e ele foi o primeiro presidente civil. Se a ditadura fosse entendida como um complexo civil e militar, seria mais problemático colocar esse marco. Creio que, passados tantos anos, embora a resistência à ditadura mereça e continuará merecendo atenção nos nossos debates, essa tendência de rever a história vai crescer. Se você assume esse ponto de vista, apontando os fundamentos sociais e históricos, há áreas incríveis que merecem estudo, como os sindicatos, que tiveram um crescimento gigantesco durante a ditadura.

A ditadura sempre esteve muito preocupada em manter uma aparência de legalidade e com a sua legitimidade. Manteve o Congresso Nacional aberto e criou uma nova Constituição em 1967. Por quê?

A ditadura se instaurou em nome da democracia. Essa é uma diferença importante a se fazer entre as ditaduras anteriores e posteriores à Segunda Guerra Mundial. No Estado Novo, o Getúlio não tinha nenhum problema em dizer que aquele regime era autoritário porque a democracia estava muito desprestigiada à época. A União Soviética se desenvolvia a passos gigantescos e não era uma democracia, o nazifascismo aparecia como uma alternativa universal e recusava a democracia. Muitos regimes na Ásia, África e América Latina adotaram formas corporativistas autoritárias, como o Brasil. Já depois da Segunda Guerra, feita em nome da democracia e contra o nazifascismo, era muito mais difícil legitimar um regime contra a democracia. O movimento de 1964 foi feito em defesa da democracia e contra a corrupção. Muitas lideranças políticas que apoiaram o golpe acharam que os militares iam fazer uma intervenção rápida. Cassariam os comunistas, os trabalhistas e as esquerdas mais radicais e abririam caminho para as eleições presidenciais de 1965. O apoio de JK a Castello Branco se insere aí, porque Juscelino era um dos fortes candidatos, assim como Carlos Lacerda e Adhemar de Barros. Esses líderes civis que participam do golpe eram liberais autoritários. Tinham medo de que uma democracia ampla no Brasil incitasse as massas à luta e que isso provocasse uma revolução social no país. A farsa da Constituinte do Castello marca o início do estado de direito autoritário que vai de março de 1967 a dezembro de 1968, com o AI-5.

No livro, o senhor marca uma diferença entre esse estado de direito autoritário e a ditadura propriamente dita. Poderia explicar melhor?

Eu tento fixar um critério para conceituar um governo como ditatorial ou não. O critério que eu coloco é óbvio, o do estado de exceção. É quando o governo faz e desfaz leis a seu bel-prazer, não passando por nenhuma instância de controle nem sendo controlado por nenhuma instância. O governo inventa os meios legais como quer, como a figura jurídica do banimento, criada para permitir a libertação dos 15 presos trocados pelo embaixador americano em 1969. A república entre 1946 e 1964 era um estado de direito autoritário. Quase metade da população não votava porque era analfabeta. Ninguém chama o governo Dutra de ditadura, mas na contagem do PCB, então na ilegalidade, 51 militantes foram mortos em manifestações. No regime militar, a ditadura é reativada em dezembro de 1968, com o AI-5, e segue até 1979. Do governo Figueiredo até 1988, temos um estado de direito autoritário. Na Constituição de 1988, que sem dúvida é a nossa carta mais democrática, ainda subsistem claramente aspectos autoritários, como o direito dos militares intervirem na vida política nacional desde que sejam chamados pelo chefe de um dos três poderes. Isso é de um autoritarismo enorme e foi incluído por pressão dos milicos à época. Poderíamos mencionar outros, como a concentração de poder que cria um presidencialismo de caráter imperial e as medidas provisórias. Desde 1889, quando não tivemos ditaduras, tivemos um estado de direito autoritário no Brasil.

Muito se discute atualmente sobre as heranças da ditadura. Como essa tradição autoritária que o senhor aponta se manifesta hoje?

Uma prática que persiste é a tortura. A tortura foi política de Estado em alguns governos da Primeira República e nas ditaduras do Estado Novo e de 1964. Ela antecedeu e continuou após essas ditaduras e está aí até hoje nas delegacias, nos quartéis. É uma tradição maldita que vem da escravidão. A posição favorável à tortura encontra-se disseminada na sociedade brasileira. O Núcleo de Estudos da Violência da USP, em pesquisa de 2011, apontou que 48,5% dos entrevistados admitiam a tortura em determinados casos. Você pode presumir que esse número é muito maior, pois muita gente não assume essa posição para o pesquisador, mesmo com a garantia do anonimato. Os fundamentos sociais e históricos da ditadura precisam ser discutidos e compreendidos. O autoritarismo permeia toda a sociedade brasileira. De modo nenhum nossa democracia está a salvo de surtos autoritários. A gente viu agora mesmo nas manifestações de 2013 como políticos de diversos partidos se comprometeram com uma repressão desapiedada sobre o movimento. A Polícia Militar mata cotidianamente pessoas no Brasil todo, os índices são demenciais comparados a outros países, e isso está naturalizado. Embora haja críticas muito severas aos black blocs, as críticas à PM são muito moderadas. No Rio, o governador Sérgio Cabral, eleito democraticamente, tentou criar uma estrutura denunciada e repudiada como uma reedição do DOI-Codi, e recuou. Mas o simples fato dele ter proposto é muito simbólico. Sem lidar com a nossa tradição autoritária, as ditaduras não se explicam. O Estado Novo se instaurou em 1937 quase sem resistência e acabou em 1945 em uma transição pelo alto. Em 1964 e em 1979, foi muito parecido. É preciso discutir isso seriamente.
Enviado por O Globo - 
15.2.2014
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6h35m

Carlos Fico: Os riscos de uma leitura vitimizadora do golpe de 1964

Entender por que uma solução autoritária foi de algum modo aceita pode servir para exorcizarmos a sociedade brasileira do despotismo que tantas vezes assolou a República, diz historiador
Por Carlos Fico
O golpe de 1964 é muito citado, mas pouco pesquisado. A literatura especializada usualmente o menciona como a culminância dramática da trajetória de João Goulart ou como o episódio inaugural da ditadura. Hoje, temos uma historiografia crescente sobre os 21 anos dos governos militares, mas o golpe em si não é o objeto preferencial de tais pesquisas. Entretanto, ele é o “evento-chave” da história do Brasil recente: naquele momento, parcelas significativas da sociedade brasileira aceitaram uma solução autoritária para os problemas que afligiam o país. Podemos assegurar que estamos livres dessa “tentação”? Estudos verticalizados sobre o golpe nos ajudariam a responder a esta pergunta.
Não houve grandes revelações desde as últimas contribuições da historiografia conhecidas há mais de três décadas. De fato, os principais “achados” sobre 1964, especificamente, foram divulgados nos anos 1970 e 1980: a descoberta da “Operação Brother Sam” (o apoio norte-americano ao golpe), por Phyllis R. Parker, em 1976; o livro “O governo João Goulart”, de Moniz Bandeira, publicado em 1978 e a obra magistral de René Armand Dreifuss, de 1980, “1964: a conquista do Estado”, que deslindava, com documentos inéditos, a campanha de desestabilização de que João Goulart foi vítima.

Certamente não se deve reduzir a pesquisa histórica à busca de revelações chocantes, mas seria ingênuo não reconhecer sua importância. Nesse sentido, não é difícil antecipar que significativas informações surgirão a partir da pesquisa de novas fontes documentais — e elas são muitas. Os documentos outrora sigilosos, no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países, vêm sendo revelados paulatinamente. Por exemplo, encontra-se em curso, neste momento, pesquisa documental sobre a comissão que cuidou dos primeiros inquéritos policiais militares (IPMs) logo após o golpe. Do mesmo modo — conforme a legislação norte-americana —, a importante documentação do governo daquele país vai aos poucos sendo liberada. Amplo projeto de digitalização desses documentos, conduzido por historiadores do Brasil e dos EUA, encontra-se em andamento. Militares e políticos brasileiros tinham conhecimento da “Operação Brother Sam” e esta revelação virá inevitavelmente.

As principais teses explicativas sobre o golpe também foram divulgadas há muito tempo. Duas delas são clássicas. Alfred Stepan publicou, em 1969, a interpretação segundo a qual a singularidade de 1964 residiria na mudança do padrão de intervenções militares: em vez de apenas corrigir os rumos e devolver o poder aos civis, os militares, na ocasião, estariam convencidos de que deveriam assumir integralmente o poder. A leitura de Wanderley Guilherme dos Santos, divulgada em 1979, é mais sólida porque amparada em expressiva pesquisa empírica: o golpe de 1964 se explicaria em função de uma “paralisia decisória”, isto é, a radicalização dos atores políticos impediria qualquer tomada de decisão. Outra contribuição importante e mais recente contrapôs-se à leitura marxista segundo a qual os militares eram mero “instrumento” da burguesia: a preocupação em valorizar o que os próprios oficiais pensavam motivou a equipe do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) a realizar significativas entrevistas com eles, publicadas em 1994, por meio das quais podemos conhecer sua própria interpretação sobre o golpe.

Boa parte dos projetos de pesquisas que se candidatam aos mestrados e doutorados em História, Brasil afora, dizem respeito aos diversos temas do regime militar. O notável avanço da pós-graduação em nossa área, nas últimas décadas, tem permitido um conhecimento mais detalhado do golpe e da ditadura a partir de uma perspectiva regional — pois, até recentemente, dispúnhamos de leituras que abordavam, sobretudo, o que houve no Sudeste e em Brasília.

O distanciamento histórico é essencial para que possamos abordar questões delicadas, temas tabu. Talvez se possa dizer que o maior avanço da historiografia recente consista nessa busca de objetividade: hoje podemos nos lembrar de que setores significativos da sociedade apoiaram a derrubada de João Goulart. Jovens pesquisadores têm dado grandes contribuições: Aline Presot comprovou que as Marchas da Família com Deus pela Liberdade expressaram efetiva insatisfação das classes médias urbanas, não resultando apenas da “manipulação” propagandística. Mateus Capssa mostrou que alguns estudantes apoiaram o golpe de 1964. Por tudo isso, o golpe de Estado, outrora chamado de “militar”, tem sido melhor designado como “civil militar”. Historiadores como Daniel Aarão Reis e Denise Rollemberg têm chamado a atenção para isso. A serenidade possibilitada pelo recuo temporal e a grande quantidade de novas fontes documentais nos permitem antever um futuro muito promissor para as pesquisas sobre o golpe de 1964.

Isso é essencial. Se entendermos o golpe apenas como o episódio que iniciou uma ditadura brutal, correremos o risco de construir leitura romantizada, segundo a qual a sociedade foi vítima de militares desarvorados. Quando a historiografia mais ousada se contrapõe a essa leitura vitimizadora, ela não está propondo um “revisionismo reacionário” que buscaria eximir de culpa os golpistas. Apenas se trata da reafirmação de algo óbvio: não há fatos históricos simples. Entender porque uma solução autoritária foi de algum modo aceita naquele momento pode servir para exorcizarmos a sociedade brasileira do autoritarismo que tantas vezes vitimou a história de nossa República.

Carlos Fico é historiador, professor da UFRJ e autor dos livros “Além do golpe — Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar” e “O grande irmão — Da Operação Brother Sam aos anos de chumbo”

segunda-feira, janeiro 27, 2014

Entendendo o liberalismo

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,liberais-e-liberais,1122964,0.htm

Liberais e liberais

E-mai: llosa@estado.com.br / Site: www.llosa.com.br

26 de janeiro de 2014 | 2h 03

Mario Vargas Llosa* - O Estado de S.Paulo
Assim como os seres humanos, as palavras mudam de conteúdo dependendo do tempo e do lugar. Acompanhar suas transformações é instrutivo, embora, às vezes, como ocorre com o vocábulo "liberal", semelhante averiguação possa fazer com que nos extraviemos num labirinto de dúvidas.
No Quixote e na literatura de sua época, a palavra aparece várias vezes. O que significa em tal contexto? Homem de espírito aberto, bem educado, tolerante, comunicativo; em suma, uma pessoa com a qual se pode simpatizar. Nela não há conotações políticas nem religiosas, apenas éticas e cívicas no sentido mais amplo de ambos os termos.
No fim do século 18, esse vocábulo muda de natureza e adquire matizes que têm a ver com as ideias sobre a liberdade e o mercado, dos pensadores britânicos e franceses do Iluminismo (Stuart Mill, Locke, Hume, Adam Smith, Voltaire). Os liberais combatem a escravidão e o intervencionismo do Estado, defendem a propriedade privada, o livre comércio, a concorrência, o individualismo, e declaram-se inimigos dos dogmas e do absolutismo.
No século 19, um liberal é acima de tudo um livre pensador: ele defende o Estado laico, quer separar a Igreja do Estado, emancipar a sociedade do obscurantismo religioso. Suas divergências com os conservadores e os regimes autoritários geram, às vezes, guerras civis e revoluções. O liberal de então é o que hoje chamaríamos um progressista, defensor dos direitos humanos (conhecidos desde a Revolução Francesa como Direitos do Homem) e da democracia.
Com o aparecimento do marxismo e a difusão das ideias socialistas, o liberalismo passa da vanguarda para a retaguarda, por defender um sistema econômico e político - o capitalismo - que o socialismo e o comunismo querem abolir em nome de uma justiça social que identificam com o coletivismo e o estatismo (essa transformação do termo liberal não ocorre em todas as partes). Nos Estados Unidos, um liberal é ainda um liberal, um social-democrata ou pura e simplesmente um socialista. A conversão da vertente comunista do socialismo para o autoritarismo impele o socialismo democrático para o centro político e o aproxima - sem juntá-lo - ao liberalismo.
Nos nossos dias, liberal e liberalismo significam, dependendo das culturas e dos países, coisas distintas e às vezes contraditórias. O partido do tiranete nicaraguense Anastacio Somoza dizia-se liberal, e assim se denomina, na Austrália, um partido neofascista. A confusão é tão extrema que regimes ditatoriais como os de Pinochet no Chile e o de Fujimori no Peru são chamados às vezes "liberais" ou "neoliberais" porque privatizaram algumas empresas e abriram mercados. Desta degeneração da doutrina liberal não são totalmente inocentes alguns liberais convencidos de que o liberalismo é uma doutrina essencialmente econômica, que gira em torno do mercado como uma panaceia mágica para a solução de todos os problemas sociais. Estes logaritmos viventes chegam a formas extremas de dogmatismo, e se dispõem a fazer tais concessões no campo político à extrema direita e ao neofascismo que contribuem para desprestigiar as ideias liberais e para que sejam vistas como uma máscara da reação e da exploração.
Dito isso, é verdade que alguns governos conservadores, como os de Ronald Reagan nos Estados Unidos, e de Margaret Thatcher na Grã-Bretanha, realizaram reformas econômicas e sociais de inequívoca raiz liberal, impulsionando a cultura da liberdade de maneira extraordinária, embora em outros campos a fizessem retroceder. Poderíamos dizer o mesmo de alguns governos socialistas, como o de Felipe González na Espanha ou o de José Mujica no Uruguai, que, na esfera dos direitos humanos, promoveram o progresso em seus países reduzindo injustiças inveteradas e criando oportunidades para os cidadãos de renda inferior.
Nos nossos dias, uma das características do liberalismo é que pode ser encontrado nos lugares mais impensados e, às vezes, brilha pela ausência onde certos ingênuos acreditam vê-lo. Pessoas e partidos devem ser julgados não pelo que dizem e pregam, mas pelo que fazem. No debate que se desenrola nos dias de hoje no Peru sobre a concentração dos veículos de comunicação, alguns defensores da aquisição pelo grupo El Comercio da maioria das ações de Epensa, o que lhe confere quase 80% do mercado da imprensa, são jornalistas que silenciaram ou aplaudiram quando a ditadura de Fujimori e Montesinos cometia seus crimes mais hediondos e manipulava toda a informação, comprando ou intimidando donos e redatores de jornais. Como poderíamos levar a sério esses novíssimos catecúmenos da liberdade?
Um filósofo e economista liberal da chamada escola austríaca, Ludwig von Mises, opunha-se à existência de partidos liberais, porque, na sua opinião, o liberalismo devia ser uma cultura que irrigasse um leque muito amplo de formações e movimentos que, embora tivessem importantes discrepâncias, compartilhavam de um denominador comum sobre certos princípios liberais básicos.
Algo disso ocorre há bastante tempo nas democracias mais avançadas, onde, com diferenças mais de matiz do que de essência, entre democratas-cristãos e social-democratas e socialistas, liberais e conservadores, republicanos e democratas, há alguns consensos que dão estabilidade às instituições e continuidade às políticas sociais e econômicas, um sistema que só se considera ameaçado por seus extremos, o neofascismo da Frente Nacional na França, por exemplo, ou a Liga Lombarda na Itália, e grupos e grupelhos ultra comunistas e anarquistas.
Na América Latina, esse processo se dá de maneira mais pausada e com maior risco de retrocesso do que em outras partes do mundo, em razão da debilidade em que se encontra ainda a cultura democrática, que tem uma tradição somente em países como Chile, Uruguai e Costa Rica, enquanto nos demais é muito mais precária. Mas começou a acontecer, e a maior prova disso é que as ditaduras militares praticamente se extinguiram e que, dos movimentos armados revolucionários, sobrevive a duras penas o das Farc colombianas, com um apoio popular decrescente. É verdade que há governos populistas e demagógicos, deixando de lado o anacronismo que é Cuba, mas a Venezuela, por exemplo, que aspirava a ser o grande fermento do socialismo revolucionário latino-americano, vive uma crise econômica, política e social tão profunda, com a grande desvalorização de sua moeda, a carestia demencial - falta tudo, comida, água, até papel higiênico - e as iniquidades da delinquência, que dificilmente poderia agora ser o modelo continental no qual queria transformá-la o comandante Chávez.
Há certas ideias básicas que definem um liberal. Por exemplo, a liberdade, valor supremo, é una e indivisível, e deve atuar em todos os campos para garantir o verdadeiro progresso. A liberdade política, econômica, social cultural, é uma só e todas elas permitem o avanço da justiça, da riqueza, dos direitos humanos, das oportunidades e da coexistência pacífica em uma sociedade. Se a liberdade se eclipsa em apenas um desses campos, ela se encontra armazenada em todos os outros. Os liberais acreditam que o Estado pequeno é mais eficiente do que o que cresce demasiado e, quando isso ocorre, não só a economia se ressente, como também o conjunto das liberdades públicas. Eles acreditam que a função do Estado não é produzir riqueza, e essa função é melhor desempenhada pela sociedade civil, num regime de livre mercado, no qual são proibidos os privilégios e a propriedade privada é respeitada. Indubitavelmente, a segurança, a ordem pública, a legalidade, a educação e a saúde competem ao Estado, mas não de maneira monopólica, e sim em estreita colaboração com a sociedade civil.
Estas e outras convicções gerais de um liberal têm, na hora de serem aplicadas, fórmulas e matizes muito diferentes relacionados ao grau de desenvolvimento de uma sociedade, de sua cultura e de suas tradições. Não há fórmulas rígidas e receitas únicas para que as ponhamos em prática. Forçar reformas liberais de maneira abrupta, sem consenso, pode provocar frustração, desordens e crises políticas que põem em risco o sistema democrático. Este é tão essencial ao pensamento liberal como o da liberdade econômica e o do respeito pelos direitos humanos. Por isso, a difícil tolerância - para quem, como nós, espanhóis e latino-americanos, tem uma tradição dogmática e intransigente tão forte - deveria ser a virtude mais apreciada entre os liberais. Tolerância significa simplesmente aceitar a possibilidade do erro nas próprias convicções e de verdade nas alheias.
Por isso, é natural que haja entre os liberais discrepâncias, e às vezes muito sérias, sobre temas como o aborto, os casamentos gays, a legalização das drogas e outros. Sobre nenhum desses temas existem verdades reveladas. A verdade, como estabeleceu Karl Popper, é sempre provisória, válida apenas enquanto não surgir outra que a qualifique ou a refute. Os congressos e encontros liberais costumam ser frequentemente parecidos com os dos trotskistas (quando existia o trotskismo): batalhas intelectuais em defesa de ideias contrapostas. Alguns veem nisso um traço de inoperância e irrealismo. Acredito que essas controvérsias entre o que Isaias Berlin chamava de "as verdades contraditórias" fizeram com que o liberalismo continue sendo a doutrina que mais contribuiu para melhorar a coexistência social, promovendo o avanço da liberdade humana.
*Mario Vargas Llosa é Prêmio Nobel de Literatura.
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Qual teólogo você é?

O meu deu Charles Finney, a quem não conhecia, mas me pareceu simpático. O teste pode ser feito aqui: http://www.quizfarm.com/quizzes/new/xcore/qual-telogo--voc-verso-012/index.php.

sábado, dezembro 28, 2013

Colin Wilson, socialismo e incertezas

No último dia 5, meu autor favorito morreu. Lamentavelmente, eu só soube esta semana, uma vez que Colin Wilson nos deixou no mesmo dia que Nelson Mandela. Enquanto o mundo inteiro chorava a previsível morte do líder sul-africano, na Cornualha, o bom e velho autor de joias como O Outsider  e O Oculto terminava seus dias e o silêncio imposto por um derrame em 2012. O mundo ficou duplamente mais pobre neste dezembro.


Em homenagem a ele, subverti ainda mais minha já caótica e impontual lista de leitura e baixei no Kindle um ensaio pouco conhecido dele, The Decline and Fall of Leftism. Foi uma das raras ocasiões em que Wilson deixou de lado a ficção-científica, a criminologia, o sentido da existência, a crítica literária, a parapsicologia e o misticismo para se dedicar a um tema político. Não sabia de quando era o livro, mas pareceu-me ser no mínimo dos anos 70 (vejo agora que é de 1989, fim da Era Thatcher). Típico do estilo wilsoniano, o ensaio parte de uma análise geral e depois envereda pela análise de figuras históricas, os escritores Jack London e B. Traven,  que ilustram o ponto de vista do autor.

E que ideias seriam essas? Basicamente Wilson, um inglês, vê o Estado de bem-estar social como uma instituição que favorece a acomodação e se baseia numa premissa socialista equivocada de que a eliminação da miséria traria a felicidade e a plena realização do potencial de uma sociedade. Nunca o homem aplica tão bem as próprias energias e talentos como quando trabalha para si mesmo, diz ele, e é justamente isso que o socialismo acaba prejudicando. As consequências são a estagnação e o tédio -- argumentos, aliás, fáceis de achar na boa literatura conservadora. No entanto, e isso é importante, quando analisa London e Traven, homens que viveram na transição do século XIX para o XX, Wilson nem de longe os condena como idealistas ingênuos. Ele reconhece as mazelas que eles enfrentaram e os níveis extremos de injustiça com que convivivam, e acha perfeitamente natural que vissem no socialismo uma forma de redenção social. O que eles não tinham era a experiência de ver sistemas socialistas em ação, ao passo que tinham sensibilidade moral o bastante para reconhecer que algo precisava ser feito. Embora essa fosse uma percepção frequente entre intelectuais do século XIX (por exemplo, Dickens), que denunciavam os terríveis problemas sociais de mil maneiras, o socialismo atraía por oferecer uma análise sistematizada e uma solução geral  para eles. Sendo homens de grande energia e que haviam sentido na carne como o mundo podia ser cruel -- experimente-se uma olhada na biografia de London para entender bem isso --, era compreensível que adotassem uma doutrina que prometia mudanças radicais. Nunca é demais lembrar que, numa época em que crianças e mulheres eram exploradas em jornadas de trabalho desumanas, movimentos operários eram combatidos com tropas, direitos trabalhistas eram poucos ou inexistentes e setores da classe alta se autocongratulavam com o darwinismo social, qualquer pessoa com um mínimo de senso de justiça e sem muito a perder provavelmente gastaria pelo menos alguns minutos considerando alguma das propostas de reforma então correntes. Isso, claro, descontando os que seriam atraídos por motivos mais pessoais e menos altruístas que fariam a alegria do Dr. Freud, como seria o caso de Traven.

Seja como for, o que me chamou a atenção foi que Wilson apresentou uma ligação entre suas ideias a respeito da importância da autorrealização e o sistema social em vigor. Sem exatamente se basear nos clichês da mão invisível ou da liberdade como valor supremo desassociado de outros tantos, ele reafirma uma noção simples e intuitiva de forma bem interessante.Comentando a respeito do socialismo de George Bernard Shaw, ele diz: 

O que Shaw parecia não ter, como um socialista, era qualquer  insight psicológico sobre o problema da liberdade humana. Ele entendia suficientemente bem de economia para ver a falácia do Marxismo. Ele entendia suficientemente bem de história social para saber que o verdadeiro pecado contra a luz nào é o capitalismo, mas a pobreza. Mas ele não conseguiu ver que, nesse caso, o objetivo de qualquer sistema político deve ser a abolição da pobreza, não do empreendimento individual.

Noutras palavras, os socialistas estavam jogando fora o bebê junto com a água do banho. Na ânsia de combater os muitos e graves males do capitalismo da época -- males esses, nunca é demais lembrar, ignorados ou minimizados por muitos de seus opositores conservadores --, acabavam combatendo também os elementos positivos do sistema, os quais eram perfeitamente adequados às inclinações naturais do ser humano: o autointeresse tão lembrado por Smith, a possibilidade de ascensão social e seus estímulos. Ao prometer garantias e mais garantias econômicas, e desfazendo o apelo da ascensão, o que se abria era a estrada para a acomodação, para o desinterese, para o feijão-com-arroz diário nas atividades da vida. E isso parece coerente com o destino que as sociedades comunistas de fato encontraram ainda no século XX.

Era isso o que socialistas de todas as épocas tinham em mente? Era esse o seu objetivo? Certamente que não. Nivelando por cima, é muito difícil imaginar que uma pletora de indivíduos brilhantes que aderiram a essa causa -- e falo aqui do marxismo, especificamente -- quisessem viver numa sociedade sem livre iniciativa ou onde o Estado vigiaria os seus passos. E as críticas que faziam às injustiças de seu tempo, e muitos fazem até hoje, eram frequentemente certeiras e úteis. No entanto, diz Wilson, eles não levavam as suas premissas até as últimas consequências, nem tinham como testá-las na realidade; eram idealistas, românticos até. Eu diria ainda que nobres, na maior parte dos casos. Mas, se eles não pensaram direito, nós, com o benefício da retrospectiva, temos a obrigação de fazê-lo.   

***

É engraçado falar de Wilson defendendo tais posições, mas, ao mesmo tempo, elas são coerentes com o que ele sempre defendeu. Um admirador de Gurdjieff, ele sempre defendeu que nós, humanos, vivemos como que "dormindo", deixando-nos levar pela rotina, alheios ao nosso verdadeiro potencial. Em umas poucas ocasiões, no entanto, temos "experiências-clímax" (peak experiences), nas quais esse poder intocado se manifesta. Isso tanto pode significar um momento de grande inspiração artística ou a produção de fenômenos ditos paranormais, ou seja, inclui desde Coleridge e Mozart até Donald Dunglas Home e grandes iogues. Bastam o estímulo certo, a ocasião correta e, normalmente, uma intensa concentação. Daí para uma valorização do indivíduo como um tesouro é curta a distância.

No entanto, se o potencial individual é tamanho, pode-se inferir que a responsabilidade individual também seja? Depois de assistir a uma acalorada discussão entre amigos, todos pós-graduados, a respeito de mais um choque de classes no Brasil, em que vi reproduzidas as posturas clássicas de esquerda e direita a respeito da responsabilidade social e individual, fico aqui pensando a respeito. Um conciliador por temperamento, sempre me chama a atenção como muitas vezes as pessoas se polarizam em torno de ideias que não são excludentes. No caso, que a imagem de jovens de pele escura e com todas as marcas da periferia, em grupo, falando alto e entrando em massa num shopping, evocou a perspectiva de que se tratava de um arrastão entre lojistas e frequentadores, levando a um certo pânico; que esse mesmo senso de exclusão desses mesmos jovens pode perfeitamente lhes inspirar certo prazer não só em "invadir" espaços vistos como privilegiados, mas também, no caso de alguns, a levá-los a cometer delitos de verdade (se isso parece automaticamente improvável e preconceituoso para você, sugiro uma estágio em escolas na periferia das grandes capitais do Sudeste); e, finalmente, que o grande problema em torno dos "rolezinhos" é um grande mal-entendido que não se resolve com acusações e reproches morais à "classe média" -- hoje muito mais atacada, parece, pela esquerda brasileira do que os burgueses clássicos -- ou aos jovens em questão. Isso não exclui que preconceitos de classe, de um lado, e um prazer perigoso na autoafirmação agressiva, de outro, existam; mas que, em conversas de pessoas inteligentes e cultas, essas coisas pareçam assim, é curioso, para não dizer preocupante. Talvez a resposta seja que, no fim, éramos um bando de acadêmicos discutindo um fenômeno sem grandes preocupações empíricas... Mas a maioria dos nossos posicionamentos políticos não são adotados assim? E se o são, qual o valor real das belas ideologias que construímos ou defendemos apaixonadamente?

Sou cético dos céticos convictos. O ceticismo é uma boa defesa, um filtro necessário, mas em si não realiza muita coisa. É uma crença negativa, afinal, e o que forma o mundo são crenças positivas, isto é, que afirmam alguma coisa. Não por acaso, meus conhecidos mais ideologizados sempre me criticaram por meu "em-cima-do-murismo" em várias questões: aquele que berra apaixonadamente que "X é a solução" parece mais convincente do que o que diz "X tem essa vantagem, mas está errado aqui e ali; já Y nos oferece esta outra contribuição, que fica maior ainda se adicionarmos esta parcela de Z". Este último é possível na academia, mas também fica muito mais restrito. E se entre os elementos que informam sua análise houver alguns menos aceitos (experimente, por exemplo, falar de uma perspectiva espiritual em um debate político tradicional), ele fica perdido. Sínteses dão trabalho, requerem estudo, esforço, reflexão, testes, e uma boa dose de interlocução e debate; pacotes prontos são mais fáceis de digerir. O que fazer, então, quando se está naquela fase em que os pacotes já não convencem, mas a síntese ainda não está pronta, se é que um dia estará? 

É justamente como me vejo agora. Mas, enquanto a solução não vem, sempre se pode ir pensando alto...    
***
[Para uma apreciação crítica da obra de Wilson, mas por parte de um admirador, cf. http://aeon.co/magazine/world-views/colin-wilson-the-permanent-outsider/.]  

terça-feira, dezembro 24, 2013

Escrevendo boa prosa

É estranho sugerir um livro americano para questões relacionadas à línguagem, mas a abundância desse gênero em inglês é tamanha, que acaba valendo a pena. Chamou-me particularmente a atenção o fato de haver um capítulo sobre a escrita de ensaios, coisa que não é tão comum. Então, compartilho: http://avaxhome.cc/ebooks/cultures_languages/1400069750.html.


Mas nunca é demais sugerir um dos melhores e mais completos livros já escritos em português sobre esse assunto, do bom e velho Othon M. Garcia, presença perene nas boas livrarias e fácil de encontrar em sebos:





As Cartas de Arthur Schlesinger Jr.

Do NY Times: http://www.nytimes.com/2013/12/22/books/review/the-letters-of-arthur-schlesinger-jr.html?ref=books&_r=0&pagewanted=all


A Historian in Camelot

‘The Letters of Arthur Schlesinger, Jr.’

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Most intellectuals are attracted to power, but none with less ambivalence than Arthur Schlesinger Jr., the brilliant historian of the New Deal who became the quasi-official chronicler of the Kennedys. Schlesinger was born into an American aristocracy in its prime — the Eastern liberal intelligentsia. He was the son of an eminent Harvard historian and grew up apparently knowing everyone. He met his first Kennedy (sister Rosemary, before her lobotomy) when he was 14, at a Christmas party in 1931. It was natural, maybe even inevitable, that Schlesinger, while serving as an intelligence officer in Germany at the end of the war, would be invited to dinner “at the palatial mansion shared by George Ball and Ken Galbraith.” In Washington after the war, the young author of “The Age of Jackson” had a place at the table of Georgetown dinner parties thrown by the columnist Joseph Alsop, where he met Democratic Party royalty — Averell Harriman (“quite favorably impressed by him”), Franklin D. Roosevelt Jr. (“looks astonishingly like his father and has adopted many of his mannerisms”) and John F. Kennedy (“seemed very sincere and not unintelligent, but kind of on the conservative side”).
John F. Kennedy Presidential Library (1962)
Arthur Schlesinger Jr. with President Kennedy.

THE LETTERS OF ARTHUR SCHLESINGER, JR.

Edited by Andrew Schlesinger and Stephen Schlesinger
Illustrated. 631 pp. Random House. $35.
In their world, the identity of Yale’s next president was deemed of national significance, meriting a long, urgent letter to Harriman in which Schlesinger proposed various candidates and shot down others. In 1951, he sent the White House a copy of a quickie book that he’d written with Richard H. Rovere, on the showdown between Truman and Gen. Douglas MacArthur, and received an appreciative reply from the president himself. His letters throughout the 1950s to Adlai Stevenson carry the frank authority of an insider. Schlesinger spoke in the name of “the liberals” with all the confidence and weight of that definite article, a group with political pull at the highest levels — the commanding brain of the country’s ruling coalition. In May 1960, he wrote to Stevenson (just before abandoning him for Kennedy, who would bring Schlesinger into the White House), “If Jack is nominated as the candidate of the liberals as well as of the Eastern organizations, it will lay the best possible foundations for a vigorous and high-minded campaign in the fall.”
A world where politicians and writers mingle on (almost) equal terms brings distinct advantages. Schlesinger’s political intelligence in his correspondence is excellent, the level of discourse and purpose high, the sense of responsibility as keen as the sense of fun. He is fundamentally comfortable with himself and his world, doesn’t waste energy fighting against institutions whose essential rightness he never questions, nor does he suffer from the intellectual’s usual neuroses, the resentment and self-contempt that come with being ignored. He’s always getting on with the business of being a ­participant-observer to history.
Perhaps as a consequence, there’s very little sense in “The Letters of Arthur Schlesinger, Jr.,” selected by two of his sons, of Schlesinger as a private man — no love letters, other than a sublimated correspondence with the highborn and beautiful liberal activist Marietta Tree (“They were never lovers,” the editors note, “despite the words of endearment”). Back in Cambridge from a vacation on the Cape, he tells Tree: “It was really an extremely good month — relaxing, amusing and generally beneficial. I did very little work, but got caught up on sleep, sun, swimming and my children. And there were a large number of pleasant people about. The latest to enter our lives was Montgomery Clift, the actor, who turns out to be a nice, confused, aspiring and quite likable person.” When Schlesinger writes about himself and his friends, the results are often stiff and a bit smug, without psychological insight, which may be the price of the sense of belonging.
The best letters — and there are many — come from the typewriter of the public Schlesinger, the fighting liberal, especially when he’s jousting with a provocative antagonist like William F. Buckley (“You remind me of my other favorite correspondent, Noam Chomsky”) or, even better, arguing a matter of principle with a friend at the breaking point. The Vietnam War, which shattered the New Deal coalition, produced unsparing letters between Schlesinger, who became a vehement opponent of the war, and old friends like Alsop and Henry Kissinger, as well as a remarkable exchange with Schlesinger’s longtime liberal ally, Vice President Hubert Humphrey, during the 1968 campaign. “Don’t overrate yourself, Arthur,” Humphrey wrote in July, shortly before the disastrous Democratic convention in Chicago. “No one’s trying to blackmail you or anyone else into coming over to support my candidacy. On the basis of your earlier and more mature liberal convictions, you ought to be supporting me, but undoubtedly something has happened in your life that has made you angry and bitter.”
“Something” was the assassination, one month before, of Schlesinger’s friend and hero Bobby Kennedy. But Schlesinger’s reply to Humphrey elevated the argument above personal feelings to the realm of conviction: “If you do not understand and will not recognize that some of your old friends might oppose your candidacy on grounds of principle — because they sharply dissent from the position you have taken on Vietnam — then you have lost your own sense of reality and are in deep trouble.” A few weeks later, he admitted to Reinhold Niebuhr: “The murder of Robert Kennedy terminated my interest in the campaign, and perhaps in American politics for some time to come. Hubert seems to me a burnt-out case, emasculated and destroyed by L.B.J. and unlikely ever to become a man again.”
Through the decades, on issue after issue, Schlesinger’s liberal values and intellectual clarity stood him in good stead — his implacable hostility to Communism and McCarthyism, his skepticism about the invasion of Cuba, his opposition to the war in Vietnam, his prescience about presidential abuses of power, his critique of multiculturalism, his fear of a quagmire in Afghanistan. But he had a major blind spot, which started with his nearly uncritical devotion to the Kennedys (their intelligence, their style, their will to power) but didn’t end there. The world of “the liberals” was social as well as political — sparkling dinner parties at Hickory Hill, lunches at the Century Club, summers on the Cape. Robert McNamara, being a Kennedy man, was granted membership, and upon his departure from the Pentagon in 1967, at the height of the war for which McNamara bore so much blame, Schlesinger wrote, “You have been one of the greatest public servants in American history, and your departure from the government is an incalculable loss to this nation.” But for Lyndon Johnson, the vulgar and uneducated Texan, whose liberal achievements on race and poverty far surpassed Kennedy’s, the Schlesinger of these letters has utter contempt. (“The Passage of Power,” the fourth volume of Robert Caro’s great Johnson biography, shows just how far the Kennedys and their men took the humiliation of Johnson, and at what cost to Kennedy’s administration.)
Membership in an aristocracy that for so many years enjoyed proximity to power left Schlesinger cut off from public feeling, and unprepared when the reaction came in the form of right-wing populism. After 1968, his political judgment became unmoored. In 1972, when scandal forced Thomas Eagleton from the Democratic ticket, Schlesinger wrote to Marietta Tree: “I am particularly confident that, if nothing else, Nixon’s personal entrance into the campaign will begin to reverse the tide. In any case, I am sure things will be much closer than they appear at present. After all, with all McGovern’s troubles, the party is in a much better situation than it was after Chicago four years ago.” Nixon went on to win in one of the biggest landslides in American history. In 1976, Schlesinger refused to vote for the insufficiently liberal and excessively religious Jimmy Carter, imagining that what Americans wanted was a return to the New Deal when in fact the opposite was true. In 1980 he supported Ted Kennedy’s destructive insurgency, then John Anderson’s hopeless third-party quest, oblivious of the incoming conservative tide. “I really don’t understand why you are so agitated about Reagan,” Schlesinger wrote to his best friend Galbraith on the eve of the epochal 1980 election. “I am sorry to see people like you fall for the Carter cartoon of Reagan as the Great Satan.”
These letters leave me admiring Schlesinger without ever really knowing him. I came of age when “liberal,” stripped of the definite article, became a term of abuse and a label to be avoided. Schlesinger’s correspondence arrives from that ancient era when eggheads instructed presidents and, not without an entry fee, were admitted into the inner sanctum of power.
George Packer, a New Yorker staff writer, is the author of “Blood of the Liberals” and, most recently, “The Unwinding: An Inner History of the New America.”

sexta-feira, novembro 29, 2013

Polarização e incivilidade

Um fenômeno que tem me incomodado. Os frutos amargos disso já se veem nos EUA, mas a coisa tem chegado aqui também. Vejo no Facebook, entre meus contatos, colegas e até amigos entrando nessa onda. Toda acusação contra o "inimigo", seja na forma de texto ou meme, é verdadeira a priori; enquanto isso, acusações contra sua facção favorita é sempre calúnia e perseguição. Parte-se do princípio de que todos somos obrigados a apoiar o lado da "verdade", ou nos calarmos; e quem não é parte da "solução", só pode ser do problema. E viva o pensamento em clichês e a "crítica" de manada, a vitimização perpétua, o maniqueísmo essencialista. Não importam tanto as instituições, mas contra quem elas são usadas; a Polícia, por exemplo, sempre terá razão se o acusado for um oponente, e será sempre serva do Establishment mal intencionado se o acusado for um aliado. Qualquer versão díspare ou dúvida levantada é "manipulação", seja do Partido da Imprensa Golpista (PIG) ou da mídia chapa-branca. E tome "isenção"  e "pensamento crítico", sempre alimentado nas mesmas fontes, nas mesmas premissas, e invariavelmente com os mesmos resultados. A verdade não pode ser eclética, o mundo não pode ter várias cores, os problemas não podem ser complexos... Enquanto isso, na vida real, o mundo segue pobre de boa vontade, instrução e -- palavra antiquada e risível -- amor, até. Em vez disso, incivilidade, propaganda, superficialidade e ódios articiciais cultivados online. É essa a tão falada "conscientização"? O tipo de cidadania que queremos?

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Pedro Doria

Tempo de radicais

O diálogo político se tornou impossível. Ninguém mais busca o meio termo. E parte da culpa é da internet.

O incômodo é visível. Em sua coluna na Folha de S. Paulo, o veterano jornalista Luiz Caversan anunciou que pretendia tirar férias de Facebook. O radicalismo das pessoas na rede está intolerável. Em um artigo recente, Frei Betto foi outro a se queixar dos radicais à esquerda e à direita. Cá no GLOBO, ontem, Ricardo Noblat desdenhou do país onde, on-line, “se torce apenas pelo cordão vermelho ou pelo cordão azul”. Míriam Leitão foi uma das primeiras, uns domingos atrás. Os radicais, em sua opinião, pioram a qualidade do debate. A polarização política é um fenômeno muito mais nocivo do que parece. Não é um fenômeno apenas brasileiro. E, não à toa, coincide com a popularização da internet. A tendência, aliás, é de que piore.
Em Israel, a esquerda foi sufocada e o governo de direita se radicalizou como nunca na história do país. Na Espanha, da virada do século para cá, o espaço de diálogo entre eleitores do socialista PSOE e do PP praticamente se extinguiu. Idem nos EUA, onde republicanos e democratas não se entendem desde o dolorido embate eleitoral que culminou com a questionável eleição de George W. Bush, em 2000. Este período, entre finais dos anos 1990 e o início da década seguinte é marcado pelo surgimento dos blogs e, com eles, as caixas de comentários. A partir daí, o crescimento das redes sociais. Não há coincidência.
Polarização não ocorre apenas quando o centro desaparece. A coisa é mais complexa. É natural que todos tenhamos paixões por certos temas. Pode ser o casamento gay para um, educação para outro, política econômica na cabeça do terceiro. Duas ou três questões costumam nos ser caras. Para as outras, na maioria das vezes somos ambivalentes, no máximo simpáticos a uma opção.
Quando o ambiente se polariza, porém, as pessoas se alinham a um ou outro grupo ideológico. Sentem-se na obrigação de defender até aquilo que não lhes é caro. O resultado é que as possibilidades de diálogo desaparecem. Afinal, quando tudo é muito importante, ninguém cede. Acordos tornam-se inviáveis.
Jogue “polarização política” no Google, porém, e poucos artigos científicos aparecerão. O tema mais definidor da política brasileira no momento é pouco estudado. Talvez porque, polarizadas, as pessoas que se interessam por política andam mais preocupadas em derrotar o outro lado do que dar um passo atrás e perceber que há algo de errado.
Nos EUA, onde o número de cientistas é inacreditável e tudo se estuda, já há pistas fartas. A primeira é que, para a maioria das pessoas, nada mudou. A população continua onde sempre esteve, não se radicalizou. Quem se radicalizou foi o pequeno grupo de eleitores que mais acompanha política. Como é para este grupo que políticos costuram seus discursos, também eles tornam-se mais radicais. Um estudo do professor Markus Prior, da Universidade de Princeton, avaliou se houve mudança na imprensa nas últimas décadas. Não a descobriu na imprensa tradicional: a cobertura dos fatos, nos EUA, se dá por um ponto de vista de centro. Nas páginas editoriais há uma tendência ligeira à esquerda, mas pouca. Não é assim, lá, para a imprensa que surgiu mais recentemente: canais a cabo de notícias, por exemplo, além de sites e blogs. Aí é tudo extremo, à direita ou à esquerda.
A internet cria o que o ativista Eli Pariser, autor do livro The Filter Bubble, chama de bolha. Lá, as pessoas procuram apenas aqueles sites onde lerão o que reitera suas crenças. Quando comentam em comunidades nas quais todos concordam, só há uma maneira de se destacar. Ou seja, sendo mais puro ideologicamente.
Na opinião de Pariser, aquela que já é uma tendência humana é amplificada pela maneira como a internet contemporânea funciona. Facebook e Google aprendem com aquilo que curtimos, clicamos, lemos, comentamos. Como querem nos ajudar a encontrar o que nos interessa, mostram mais do mesmo. E mais do mesmo é a reiteração da bolha. Lemos tanta gente com quem concordamos que o diálogo com os outros vai ficando mais difícil.
É uma febre. Depende de cada um escolher alimentá-la ou buscar o diálogo com quem discorda.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/tecnologia/tempo-de-radicais-10880244#ixzz2m3XpvZJF 
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domingo, novembro 03, 2013

George Pérez no Brasil

A década de 80, a da minha infância, foi uma época muito feliz em certos aspectos artísticos. Um foi a música, outro foi o dos quadrinhos. George Pérez e seu colega Marv Wolfman marcaram minha vida com alguns dos melhores quadrinhos que tive oportunidade de ler: histórias densas, com personagens multidimensionais, com conflitos realistas, tudo empacotado numa arte belíssima. E agora descubro que Pérez, além de um grande artista, também tem uma senhora veia crítica. Thanks, George!


http://oglobo.globo.com/cultura/george-perez-desenhista-de-crise-nas-infinitas-terras-faz-um-balanco-de-40-anos-de-quadrinhos-10645082

O GLOBO, 02/11/2013:

George Pérez, o desenhista de ‘Crise nas infinitas terras’, faz um balanço de 40 anos de quadrinhos

Ícone das HQs, ele virá ao Brasil para festival em BH

Rodrigo Fonseca

Seja herói ou vilão, todo aquele que é amarrado pelo laço da Mulher-Maravilha é obrigado a falar a verdade, doa a quem doer, e George Pérez, o responsável pela revitalização editorial da amazona nas HQs da década de 1980, aprendeu com ela o valor de ser íntegro. Por isso, o desenhista e escritor nova-iorquino de origem porto-riquenha, que vem ao Brasil no dia 15, para participar do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte, diz sem dó:
— Os quadrinhos deixaram de se preocupar em construir uma mitologia e passaram a existir apenas para ceder matéria-prima para o cinema e os desenhos animados. Não se criam mais personagens por razões artísticas. Hoje, os gibis são criados por interesses monetários na indústria audiovisual. É por isso que, há 20 anos, eu parei de ler HQs, embora ainda viva delas — admite Pérez ao GLOBO por telefone, de sua casa, em Orlando, na Flórida.
Lá ele se recupera de uma cirurgia na retina, a tempo de viajar para BH, onde fala no dia 16 no FIQ (evento sediado de 13 a 17 de novembro no Espaço Cultural Serraria Souza Pinto), comemorando seus 40 anos de carreira. Mas suas palavras niilistas podem desapontar os fãs brasileiros. Sobretudo quem, há duas semanas, desde o anúncio das atrações do FIQ, se estapeia por uma vaga em seu colóquio, atrás de um autógrafo do artista responsável por fenômenos de venda como “Crise nas infinitas terras” (1985).
— Atualmente não se vê mais nenhum personagem de HQ sorrir. Tudo é sombrio, sem leveza. Até o Super-Homem perdeu sua inocência — lamenta Pérez, que contabiliza em seu currículo quatro Eagle Awards, prêmio inglês dado a quadrinistas de verve autoral.
Hoje um senhor de 59 anos, engajado em participar das peças do grupo de teatro comunitário de sua vizinhança, ele vive com a instrutora de dança Carol Flynn, que policia os hábitos do marido para controlar seu diabetes e o arrasta para os eventos onde apresenta suas coreografias. Entre os amigos de Carol, poucos sabem que Pérez foi um artista de rentabilidade milionária para a editora DC Comics, nem que ele foi o responsável por fazer da série “Os Novos Titãs” um rival comercial para os gibis dos X-Men de 1980 a 1984. Nessa época, deu forma a heróis que ficaram célebres, como Cyborg e Asa Noturna.
— O que mais me impressionava em Pérez era seu detalhismo e a maneira como ele representou o início do processo de erotização da editora DC Comics — diz o cineasta Claudio Torres (diretor de “A mulher invisível”), fã de HQs. — Nos Titãs, por exemplo, seu Asa Noturna dormia com a gostosa da (heroína alienígena) Estelar, ambos pelados, o que não era nada comum nos gibis de linha dos anos 1980.




Realismo sem estilização
À frente dos Titãs, Pérez desenvolveu um estilo próprio, que importou para sua experiência posterior na Marvel, em 1998, ilustrando “Os Vingadores”.
— Ele é herdeiro de uma estirpe de desenhistas de traços clássicos, que tentam seguir um modelo mais realista e menos estilizado, como José Luis García-Lopez e Neal Adams. E tem uma capacidade invejável de retratar cenas com um número de personagens absurdamente grande, sem descuidar dos detalhes — explica o pesquisador Sidney Gusman, editor do site “Universo HQ”, leitura obrigatória no setor.
Mais cultuado quadrinista do Brasil, Lourenço Mutarelli resume em uma palavra — “Impressionante!” — a estética de Pérez, ao vasculhar os desenhos feitos pelo americano para a saga “Crise nas infinitas terras”.
— É muito difícil para um quadrinista harmonizar o uso de cor em um desenho tão cheio de elementos quanto o dele. Mas Pérez encontra um equilíbrio no excesso. E surpreende ver como ele combina vários planos em um mesmo quadro, o que dá a seu desenho multiperspectivismo — elogia Mutarelli.
Em 1985, a fim de comemorar os 50 anos da DC, Pérez e o roteirista Marv Wolfman (seu parceiro em “Os Novos Titãs”) tiveram a ideia de desenvolver uma saga que pudesse zerar toda a cronologia da editora, a partir da chegada de um vilão, o Antimonitor, capaz de destruir universos com uma energia chamada antimatéria. Assim nasceu “Crise...”, cujo êxito abriu precedentes para que a DC investisse em projetos mais ousados como “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller, e “Watchmen”, de Alan Moore, e topasse reformular as origens de seus maiores heróis, dando a Pérez o comando da nova série da Mulher-Maravilha, em 1987, que, de cara, virou cult nas bancas.
— “Crise...” foi uma desculpa que dei à DC para ter a oportunidade de desenhar todos os super-heróis que cresci lendo de uma só vez, indo de clássicos de guerra como o Sargento Rock a figuras pós-modernas como os Homens-Metálicos, passando pelo Batman. O sucesso de vendas fez daquela experiência algo histórico e me deu passe-livre para criar — orgulha-se Pérez, que, até hoje, desenha à mão, usando computador apenas para colorir. — Gosto do prazer de desfilar a ponta do grafite sobre o papel.
Há um ano, ele rompeu os laços com a editora DC Comics, por divergências criativas na autoria da revista “Superman”, e sua jornada de trabalho anda mais lenta. Ele também está afastado da Marvel, onde profissionalizou-se em 1973 emprestando seu lápis aos gibis do vigilante Deathlok. Atualmente, sua rotina anda restrita à feitura de capas para o Boom Studios, onde trabalha desde julho, e para o qual desenvolve uma minissérie, “She-Devils”, sobre um bando de guerreiras místicas. Ninguém sabe ao certo do que tratará a nova empreitada de Pérez. Mas, na indústria, ela já atiça a expectativa de lucros das gibiterias dos EUA.
— Essa série vem de um fanzine que criei nos anos 1970. Como eu não tenho mais compromisso com a linha editorial da DC ou da Marvel, posso usar a liberdade criativa na plenitude para falar de mulheres poderosas que se deslocam por diferentes eras — diz Pérez, que sempre teve uma predileção pelas figuras femininas.
Já nos “Titãs”, a maneira como ele e Marv Wolfman expressavam a subjetividade de heroínas como Estelar, Ravena e Terra quebrava com o machismo vigente nas HQs.
— Eu tenho muito mais amizade com mulheres do que com homens. Aprendi que, para retratá-las com honestidade nos gibis, era necessário ouvir experiências femininas da vida real para entender como as moças pensam e agem, sem incorrer em discursos políticos. Meu esforço era não retratar as mulheres a partir de perspectivas masculinas, que só serviriam para criar Super-Homens de saia — diz Pérez.
Essa preocupação em quebrar arquétipos sexistas foi o segredo de seu trabalho em “Mulher-Maravilha”, que ele desenhava e escrevia em parceria com Len Wein, o criador de Wolverine. A partir dela, ele trouxe o misticismo dos deuses gregos para os quadrinhos, buscando elementos visuais anatômicos da arte greco-latino e o espírito trágico do teatro daquela civilização.
— Verdadeiro demiurgo da narrativa gráfica, Pérez recriou a Mulher-Maravilha de um punhado de barro (é assim que a heroína surge na origem idealizada pelo artista) e fez dela a personagem feminina mais icônica da DC Comics — diz o designer gráfico e professor da Comunicação Aristides Corrêa Dutra, pesquisador da estética das HQs. — Seu trabalho de anatomia é mais clássico, com músculos delineados, contornos nítidos e poucas sombras chapadas. Suas figuras, expressivas e vigorosas, remetem à anatomia dinâmica de quadrinistas lendários como Burne Hogarth (de “Tarzan”).


A família como foco criador
Cheio de curiosidade sobre o Brasil, Pérez integra um coletivo de pesos-pesados internacionais de quadrinhos no FIQ, a começar por outros dois campeões de vendas: o desenhista de origem alemã Klaus Janson e o argentino Eduardo Risso. Janson ganhou prestígio por ter trabalhado como arte-finalista de Frank Miller em “Cavaleiro das Trevas”, e Risso ficou cultuado por “100 balas”. Virão ainda o ilustrador e animador congolês Jérémie Nsing (“O conto africano”), o cartunista alemão Felix “Flix” Görmann (“Quando lá tinha o muro”) e o desenhista turco Yildiray Cinar (“Nothingface”). Mas todos querem Pérez.
— Como ele é uma lenda do quadrinho mainstream, já esperamos que a mesa dele seja a mais assediada — afirma Afonso Andrade, coordenador de quadrinhos da Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte, responsável pelo FIQ.
Embora não tenha intimidade com a produção brasileira, Pérez chega a Minas Gerais com uma homilia artística para compartilhar com seu fã-clube: ele quer apontar as tentações em que o mercado de HQs caiu.
— A maior delas foi a falta de percepção para o fato de que, por baixo da fantasia de um super-herói, existe um ser humano cheio de problemas, carente de amizade, com questões tão reais quanto as que qualquer um de nós enfrenta. A base que Marv Wolfman e eu levamos para os Titãs era: antes de serem super-heróis, esses personagens precisam ser pessoas de verdade. Portanto, não vamos idealizá-los como uma superequipe, vamos idealizá-los como uma família. Essa noção de família se perdeu nas HQs — diz Pérez. — É preciso reaver esses valores. Se não, tudo é só oportunismo comercial.
URL: http://glo.bo/18Pzuui