sábado, maio 09, 2009

Política e autocrítica



Nunca escrevi a um parlamentar. A maioria das pessoas que conheço, também não. E, no entanto, por força da profissão, conheço bem o conceito de cidadania, suas implicações e como, segundo os analistas mais conhecidos, ele é mal aplicado em nosso país. Mas hoje, levantando e indo verificar um download, acabei parando no blog do jornalista Pedro Dória, e lá descobri esta campanha, graças à qual fiz minha estreia no ativismo individual: escrevi um email ao tristemente ilustre deputado federal Sérgio Moraes, que esta semana deu uma demonstração de prezo por seu país ao desdenhar a opinião pública em declaração a uma repórter de O GLOBO. Também mandei cópia para o presidente da Câmara,  Michel Temer.

Os emails voltaram em segundos. Ao que parece, os deputados bloquearam seus endereços ou estão sofrendo de lotação da caixa postal. Não tem problema. Mais tarde eu tento de novo. E de novo.

Demais, eu bem sei que só isso é muito pouco. Cada novo Congresso que se elege, pouco tempo depois é chamado pela imprensa de "o pior dos últimos tempos". Não é possível que sempre esteja pior -- o problema é mais profundo, trata-se de privilégios já naturalizados pela cultura interna da instituição, como se viu na questão das passagens aéreas, e também da leviandade de como votamos. Sim, votamos, eu e você. Sei que há exceções honrosas, mas, em minha acanhada experiência cidadã, essa é uma generalização bastante segura. Por que critérios elegemos nossos parlamentares? Que levantamento nós -- e me refiro aos dez leitores deste blog, mais alguns passantes -- pessoas que usam a Internet com certa desenvoltura, têm instrução, veem o mundo de forma bem mais sofisticada que boa parte da população -- fizemos antes de despejar nosso voto na urna eletrônica? Podemos ter gostado de uma ou outra proposta, simpatizado com um ou outro candidato, apreciado sua abordagem... Mas alguma vez entramos em contato com ele? Procuramos saber mais a seu respeito do que aquilo que nos era mostrado na propaganda? Entende-se que antes isso fosse muito difícil, a imprensa era tudo que tínhamos (com todos os defeitos que ela possui), mas agora há muitas opções de informação, de modo que, não se tratando de um completo recém-chegado, há boas chances de que consigamos descobrir alguma coisa sobre a carreira anterior do aspirante ao dinheiro de nossos impostos. Quem quiser confirmar, é só visitar o site do Transparência Brasil. 

A Internet, com tempo e persistência, pode ajudar a formar uma classe de eleitores mais crítica e bem informada -- mais do que em qualquer outra época da história. Sendo assim, faço a minha parte nesta construção ciclópica, e peço a vocês, minha dúzia favorita de leitores, que adicionem os links aos seus Favoritos e repassem as informações. Não vai exigir mais que alguns cliques e, claro, um mínimo de acompanhamento. Na pior das hipóteses, quando as eleições se aproximarem, e ano que vem já as teremos, vocês terão meios para prevenir grandes equívocos.

Abaixo, uma amostra do que o site oferece sobre cada parlamentar, tendo como fonte bancos de dados públicos, incluindo processos a que ele esteja respondendo. 



Fernando Gabeira (PV-RJ)
Câmara dos Deputados/BR
83.501 acessos. Estatísticas de acesso...

Nome de batismo:
Fernando Paulo Nagle Gabeira

CPF: 667.175.587-68

Cargo anterior:
Deputado federal (PT-RJ)

Cargos relevantes: Deputado federal por três legislaturas (1995-1999/1999-2003, PV-RJ; 2003-2007, PT-RJ).

Outros dados relevantes: Jornalista. Foi candidato a prefeito do Rio de Janeiro pelo PV em 2008.

Histórico de filiações partidárias: PT, 2001-2003; PV, 1986-2001; PV, 2005; PV, 2005-; S.PART., 2005.

e-mail: dep.fernandogabeira@camara.gov.br

Votos recebidos na última eleição: 293.057

Eleito(a) pelo PV.

Foi candidato(a) em 2008.


Exceto por itens em que se informam explicitamente datas de atualização, os dados de Fernando Gabeira apresentados nesta página foram alterados por último em 02/02/2009. A Transparência Brasil só se responsabiliza por referências extraídas daqui após essa data.

Deu no Jornal
Saiba mais...

Clique em "saiba mais" para ver todas menções a Fernando Gabeira no noticiário sobre corrupção, integridade do Estado e assuntos correlatos acumulado no projeto Deu no Jornal, da Transparência Brasil. A presença de um certo nome numa matéria que trata desses assuntos não significa necessariamente que a pessoa esteja envolvida em algum caso como acusada de corrupção, mas apenas que é mencionada. Preste atenção em possíveis homonimias: verifique pelo contexto da notícia se o parlamentar em questão é de fato mencionado no texto, e não outra pessoa com o mesmo nome.

Matérias legislativas
Veja todas as matérias apresentadas
por Fernando Gabeira

Examinaram-se todas as proposições apresentadas por Fernando Gabeira desde o início de seu mandato. Clique no botão "Saiba mais" para ver todas as proposições de sua autoria apresentadas no período. As matérias são classificadas pela Transparência Brasil em diversas categorias temáticas. Tais categorias, por sua vez, são divididas em duas classes: com impacto e com pouco ou nenhum impacto. As categorias com baixo impacto são: Homenagens a pessoas e instituições; Batismos de logradouros, salas etc.; Simbologia; Cidades-símbolo, Cidades-irmãs; Pedidos de convocação de sessões solenes e especiais; e Datas comemorativas. Classificar um projeto como dotado de impacto não significa julgá-lo meritório, mas apenas que, se aprovado, teria conseqüências concretas sobre a comunidade – ainda que o teor do projeto seja possivelmente descabido.

Classificação200720082009Total%
Com impacto103619100,0
Com pouco ou nenhum impacto00000,0
Total103619 

Fernando Gabeira formulou ainda: 3 requisições e/ou pedidos de informação a outros órgãos, principalmente do Executivo; 9 proposições relativas a tramitações e a outros assuntos da Casa.

Veja aqui o resumo da produção legislativa de todos os integrantes desta Casa.

Dados atualizados em 28/03/2009.

Como votou
Clique no título da matéria para ver a sua ementa

Veja como Fernando Gabeira votou as matérias apresentadas ao Plenário. A lista tem algumas lacunas, porque o banco de dados da Câmara dos Deputados é falho, deixando de registrar diversas votações.

MPV-328/2006SimMPV-332/2006NãoMPV-336/2006SimMPV-338/2006Sim
MPV-339/2006SimMPV-346/2007SimMPV-349/2007AusenteMPV-354/2007Sim
MPV-357/2007SimMPV-358/2007NãoMPV-360/2007SimMPV-362/2007Não
MPV-363/2007Não votouMPV-364/2007SimMPV-366/2007NãoMPV-374/2007Sim
MPV-375/2007NãoMPV-377/2007NãoMPV-378/2007Não votouMPV-381/2007Não votou
MPV-386/2007SimMPV-387/2007SimMPV-388/2007SimMPV-390/2007Ausente
MPV-391/2007AusenteMPV-392/2007AusenteMPV-397/2007NãoMPV-398/2007Obstrução
MPV-399/2007SimMPV-400/2007SimMPV-402/2007Não votouMPV-404/2007Ausente
MPV-405/2007NãoMPV-406/2007AusenteMPV-408/2007SimMPV-409/2007Ausente
MPV-413/2008NãoMPV-414/2008Não votouMPV-415/2008SimMPV-420/2008Sim
MPV-421/2008NãoMPV-422/2008NãoMPV-434/2008Não votouPDC-1345/2008Secreto
PDC-387/2007SimPDC-4/2007SecretoPDC-563/2008SimPEC-138/2003Não votou
PEC-272/2000SimPEC-333/2004AusentePEC-495/2006SimPEC-511/2006Não votou
PEC-558/2006NãoPEC-58/2007SimPL-2468/2007AusentePL-3674/2008Ausente
PL-4125/2004Não votouPL-7225/2006SimPL-84/2007ObstruçãoPL-940/2007Não votou
PLP-1/2003SimPLP-132/2007SimPLP-144/2007AusentePLP-177/2004Sim
PLP-182/2004SimPLP-183/2001AusentePLP-184/2004AusentePLP-2/2007Sim
PLP-306/2008SimPLP-35/2007Não votouPLP-375/2006AusentePLP-79/2007Ausente

Dados atualizados em 27/03/2009

Assiduidade (todo o mandato)
Saiba mais...
Assiduidade em plenário (sesssões - pode haver mais de uma sessão por dia)
Presenças312
Faltas justificadas43
Faltas24
% Faltas17%

Dados atualizados em 08/04/2009.

Assiduidade em Comissões Permanentes e Especiais em que é titular
ComissãoSessõesPresençasFaltas
JustificadasNão just.%
Cpi - crise do sistema de tráfego aéreo573252043%
Plp 0001/07 - limite de despesa com pessoal732257%
Relações exter. e de defesa nacional11769143441%
Totais181104215642%

Dados atualizados em 19/04/2009.

Uso de verbas indenizatórias (acumulado)
Saiba mais...

Dados disponíveis desde o início do mandato.

AluguelR$ 169.700,43
Consultorias/DivulgaçãoR$ 87.700,00
DiversosR$ 32.331,69
Transportes/EstadiasR$ 96.179,24
TotalR$ 385.911,36
Atualizado em 06/05/2009.
 


Clique para ver a correspondência entre as categorias de despesas usadas aqui e os itens de custos originais.

Emendas ao Orçamento
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Individuais
AnoTipoPedidoAutorizadoAutorizado/
Pedido
Liqüidado
2007Assistência Social1.500.000,001.500.000,00100%1.125.000,00
2007Cultura270.000,00270.000,00100%0,00
2007Educação600.000,00600.000,00100%0,00
2007Gestão Ambiental900.000,00900.000,00100%0,00
2007Saneamento134.000,00134.000,00100%0,00
Total 20073.404.000,003.404.000,00100%1.125.000,00
2008Comércio e Serviços150.000,00150.000,00100%0,00
2008Cultura150.000,00150.000,00100%0,00
2008Educação2.000.000,002.000.000,00100%0,00
2008Gestão Ambiental900.000,00900.000,00100%0,00
2008Saúde320.000,00320.000,00100%0,00
Total 20083.520.000,003.520.000,00100%0,00

quinta-feira, maio 07, 2009

Vida porca

Um pouco de humor involuntário em dias de peste e falência...

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Afeganistão coloca único porco do país em quarentena

País muçulmano proíbe carne suína; animal é mantido em zoológico e foi presente da China.

Da BBC

Tamanho da letra

Como precaução contra a gripe suína, o Afeganistão decidiu colocar em quarentena o único porco que se tem conhecimento que exista no país, segundo funcionários do zoológico da capital do país, Cabul.


Por motivos religiosos, a carne de porco e seus derivados são ilegais no país muçulmano.


O porco, chamado Khanzir, foi dado de presente ao Afeganistão pela China em 2002.


No zoológico de Cabul, ele era mantido ao lado de bodes e veados, mas visitantes manifestaram temores de que ele pudesse ser vetor do vírus H1N1 - o que levou à decisão de isolar o animal.


Companheira


O diretor do zoológico, Aziz Saqib, disse que Khanzir se encontra forte e saudável.


"O único motivo que nos levou a movê-lo é que os afegãos não sabem muito sobre a gripe suína e quando veem um porco, ficam preocupado e acham que vão ficar doentes", disse ele.


Apesar do isolamento, Saqib disse que o porco vai ser mantido em um local maior e mais arejado. Ele disse ainda esperar que a quarentena dure poucos dias apenas.


Reconhecendo o fato de que Khanzir é solitário, Saqib disse ter esperança de encontrar uma companhia feminina para o animal.


Mas o diretor reconhece que a tarefa é atualmente difícil, por causa da gripe.


"Esses são tempos perigosos e difíceis para conseguirmos uma porca para nosso porco", disse ele.


quarta-feira, maio 06, 2009

Reabilitando o orgulho

"O orgulho e a vaidade, duas chagas da Humanidade."

(Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, livro III, cap. VI)


(Via Hermenauta.)

Capitão América começa a ser filmado no ano que vem

(Eu só quero saber como vão fazer para promover um personagem que morreu nos quadrinhos, sua mídia matriz.)


(06/05/2009 - 15h18) 

Da Redação www.cineclick.com.br

Capitão América
A Marvel Entertainmentanunciou que as filmagens do longa de The First Avenger: Captain America (título provisório) começarão em 2010.

Ainda não tem um nome definido para o papel. Por enquanto, Matthew McConaughey (Como Perder um Homem em 10 Dias) continua sendo o favorito para interpretar o herói Capitão América nas telonas.

Segundo o site Cinemablend divulgou no ano passado, McConaughey é o único que os produtores se interessaram para viver o herói. Apesar de acharem que o ator não tem aparência de um soldado da década 1940, acham que seu físico apropriado para o personagem.

Joe Johnston será o diretor do filme. Stepheen McFeely e Christopher Markus são responsáveis pelo roteiro. A previsão de estreia é para 22 de julho de 2011 nos cinemas norte-americanos.

quinta-feira, abril 30, 2009

Jared Diamond processado

Saudações.

Acadêmicos do mundo, tremei!

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The Chronicle of Higher Education
Today's News
Friday, April 24, 2009

Research Subjects Sue Jared Diamond, the Author and Professor, for $10-Million

Article tools

“While acting on vengeful feelings clearly needs to be discouraged, acknowledging them should be not merely permitted but encouraged,” wrote Jared M. Diamond in an essay in The New Yorker last April.

Now two of the subjects of that essay are acknowledging their own vengeful feelings. This week a lawyer filed a $10-million defamation claim in a New York court on behalf of two Papua New Guinea men whom Mr. Diamond described as active participants in clan warfare during the 1990s.

Mr. Diamond, a professor of geography at the University of California at Los Angeles and the author of the best-selling Guns, Germs and Steel: The Fates of Human Societies (W.W. Norton, 1997), andCollapse: How Societies Choose to Fail or Succeed (Viking, 2004), based the essay almost entirely on accounts given to him by Hup Daniel Wemp, an oil-field technician who served as Mr. Diamond’s driver during a 2001-2 visit to New Guinea. (The full text of the essay is open only to New Yorker subscribers, but a long summary is available here.

Mr. Wemp is now one of the lawsuit’s two plaintiffs; the other is Henep Isum Mandingo, a man who, according to Mr. Diamond’s article, was attacked and paralyzed on orders from Mr. Wemp.

For nearly a year, Mr. Diamond’s article has been scrutinized by Rhonda Roland Shearer, director of theArt Science Research Laboratory, a multifaceted New York organization with a sideline in media criticism.Ms. Shearer, a sculptor and writer, is the widow of Stephen Jay Gould, who preceded Mr. Diamond as a widely esteemed public interpreter of science.

Ms. Shearer has collaborated with three indigenous scholars and journalists in New Guinea—Michael Kigl, Kritoe Keleba, and Jeffrey Elapa—in an attempt to verify and reconstruct Mr. Diamond’s accounts. In a new report, the four writers argue that Mr. Diamond botched the history of the conflict he described, and they say that his errors may have placed Mr. Wemp in danger.

They also present evidence that Mr. Diamond misleadingly presented his quotations from Mr. Wemp as if they were spoken during their car rides together in 2001 and 2002, when in fact they were all gathered during a single interview in Mr. Wemp’s office in 2006. And regardless of when they were spoken, the quotations are so polished that they were almost certainly not Mr. Wemp’s verbatim words, according to an analysis given to Ms. Shearer by Douglas Biber, a professor of applied linguistics at Northern Arizona University.

In a post on Wednesday at Savage Minds, an anthropology blog, Alex Golub, an assistant professor of anthropology at the University of Hawaii-Manoa who does field work in New Guinea, suggested that this affair was emblematic of “a fundamental ethical issue that anthropologists will have to face for decades to come.” The rise of the Internet means that whatever scholars write about their field informants—no matter how remote those people might seem—will inevitably be read by the communities they have described.

“While this should always have been important to us,” Mr. Golub wrote, “it is a topic we can no longer ignore in a world where their ‘informants’ are more connected than ever before to the flows of media and communication in which ‘we’ depict ‘them.’”

Mr. Diamond has not replied to a request for comment from The Chronicle.

quarta-feira, abril 22, 2009

Precedentes

"Every bad precedent has arisen from some good circumstance; but when command passes to those ignorant of it or to the less good, any new precedent is transferred from the deserving and appropriate to the undeserving and inappropriate."

Julius Caesar, in SALLUST, "Catilinarian War"

terça-feira, abril 14, 2009

Retratos da Leitura do Brasil

28 de maio de 2008

Resultado de pesquisa constata que brasileiro lê cerca de 4,7 livros ao ano

Na manhã desta quarta-feira, 28 de maio, foi apresentada a segunda edição da pesquisa Retratos da Leitura do Brasil durante a realização de um seminário no Brasília Alvorada Park Hotel, na capital federal. Estiveram presentes representando o Ministério da Cultura, o secretário executivo, Juca Ferreira e o secretário de Articulação Institucional, Marco Acco.

Também compuseram a mesa, representando o Ministério da Educação, o professor André Lázaro, o secretário executivo do Plano Nacional de Livro e Leitura (PNLL), José Castilho, o presidente do Instituto Pró-Livro, Jorge Yunes, o vice-presidente da Abrelivros, Andrés Soria, a presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Rosely Boschini e o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL), Paulo Rocco.

A pesquisa foi encomendada pelo Instituto Pró-Livro e executada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) e coordenada pelo Observatório do Livro e da Leitura (OLL). Durante a cerimônia, o diretor do OLL, Galeno Amorim, e o representante do Ibope, Maurício Garcia, apresentaram os números do exame.

Leitor e não-leitor

O estudo foi aplicado em 5.012 pessoas em 311 municípios de todo o país de 29 de novembro de 2007 a 14 de dezembro do mesmo ano, o que representou mais de 172 milhões de pessoas, ou seja, 92% da população. O método adotado para definir o leitor ou não-leitor foi a declaração do entrevistado de ter lido ao menos um livro nos últimos três meses.

A pesquisa constatou que, 95 milhões de pessoas, ou seja, 55% da população são leitores, enquanto 77 milhões, 45% dos entrevistados, foram classificados como não-leitores.

A pesquisa apontou também que o brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano. Em algumas regiões o número é ainda maior, como é o caso do Sul, onde foi apurado que são lidos 5,5 livros por habitante ao ano. No Sudeste o número foi de 4,9, no Centro-Oeste 4,5, no Nordeste 4,2 e no Norte 3,9. A pesquisa confirmou também que as mulheres lêem mais que os homens, 5,3 contra 4,1 livros por ano.

A primeira edição da pesquisa foi realizada em 2000 e 2001 em 44 municípios brasileiros. Na época o estudo constatou que 49% da população eram consideradas leitores.

O seminário se estende durante todo o dia. À tarde serão apresentados os painéis: A Leitura no Imaginário Coletivo: Percepção e Valores da Sociedade; Pesquisas de Comportamento Leitor no Mundo; A primeira edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2000); O que dizem os números; Leituras da Pesquisa e Retratos da Leitura - Caminhos para os atores do mundo do livro.

A margem de erro da pesquisa é de 1,4 para mais ou para menos.

A pesquisa completa pode ser acessada no site do Instituto Pró-Livro.


(Comunicação Social/MinC)

sexta-feira, março 27, 2009

Wall Street Fighter IV: o jogo do ano

Nada como duas sátiras em uma.



Se você não entendeu nada, não se preocupe. Provavelmente você já era velho demais nos anos 90. :-)

segunda-feira, março 23, 2009

O homem e seus livros



23/03/2009 - 00h01

Livro que pertenceu a Hitler reduz esse ícone do mal à dimensão humana

International Herald Tribune
Timothy W. Ryback*
Há três anos, os bens de Yves Saint Laurent foram leiloados por quase meio bilhão de dólares. Duas semanas atrás, um punhado de pertences pessoais de Mahatma Gandhi - óculos de aro redondo, um par de sandálias, uma tigela de arroz - foram vendidos por US$ 1,8 milhão. Na semana passada, um livro da desaparecida biblioteca pessoal de Adolf Hitler foi oferecido no famoso centro de leilão parisiense Hotel Drouot por um lance inicial de mil euros. Depois de uma rápida rodada de apostas, o volume foi vendido por € 1.800.

No caso de um Matisse de Yves Saint Laurent, vendido por € 35,9 milhões, o comprador investiu num bem cultural durável e, é claro, no bom gosto impecável do último dono. O milionário indiano que ofereceu o lance vencedor para os pertences de Gandhi disse que queria repatriar os objetos para exibição pública em seu país.

Mas o que motiva alguém a comprar um artefato de Hitler? Toda vez que pertences autênticos de Hitler vão a leilão, é inevitável e compreensível que o número de protestos se iguale ao número de apostas - acusações de especulação; críticas quanto à fetichização do líder nazista morto; inquietações quanto à natureza dos possíveis compradores ("Que tipo de pessoa compraria esse tipo de coisa?")

Com a maioria dos artefatos de Hitler, como o globo que foi vendido por US$ 100 mil, essas questões são certamente compreensíveis e justificáveis. Mas um livro da biblioteca particular de Hitler pode ser mais do que o objeto de um desejo questionável.

Hitler não era apenas um bibliófilo fanático, tendo reunido uma biblioteca de 16 mil volumes até sua morte, mas era também um leitor voraz que dizem ter lido um livro por noite durante a maior parte de sua vida adulta. Os livros eram uma parte integral do seu caráter e identidade. "Quando uma pessoa dá, tem que receber", disse ele uma vez. "E o que eu preciso, recebo dos livros".

Nesse sentido, os livros de Hitler são mais do que meros artefatos. Os volumes que ele leu e estudou, as passagens marcadas a lápis, tudo isso diz algo sobre seus interesses e sobre o curso de seus pensamentos em algumas de suas horas mais íntimas. Eles nos permitem observar este ícone do mal reduzido a dimensões humanas: um homem de meia idade numa poltrona com um livro na mão, e, vez ou outra, um lápis.

A maior parte da coleção de Hitler, dividida entre três bibliotecas elegantemente mobiliadas em suas casas de Berlim, Munique e em seu retiro nos Alpes em Obersalzberg, desapareceu na primavera de 1945, vítima da caça de troféus coletiva dos soldados americanos, franceses e do Exército Vermelho.

A parte remanescente da biblioteca, cerca de 1.200 livros - que incluem uma coleção de ensaios escrita por Gandhi - pode ser encontrada no setor de livros raros da Livraria do Congresso em Washington, D.C. Outros 80 livros, retirados do abrigo de Hitler em Berlim depois de seu suicídio, estão na Universidade Brown, em Rhode Island. Há relatos de que um número desconhecido, talvez vários milhares de livros, esteja escondido num arquivo de Moscou.

Portanto, quando volumes isolados vêm à tona - como o que foi leiloado no Hotel Druout -, eles representam exatamente o tipo de fonte primária de evidência histórica de que os estudiosos de Hitler carecem. Infelizmente, esses livros aparecem rapidamente nos leilões e depois somem em coleções privadas.

Um colecionador americano juntou dezenas de livros de Hitler, incluindo uma coleção da obra de Shakespeare em dez volumes encadernados à mão em couro trabalhado com uma suástica e as iniciais "AH" gravadas na lombada. Hitler citava Shakespeare frequentemente - "Ser ou não ser" era sua frase favorita.

Um morador do norte do Estado de Nova York comprou um livro de Hitler de um sebo por 50 centavos. O livro de 200 páginas e capa dura, "God's Realm and the World Today" [algo como "O Reino de Deus e o Mundo de Hoje"], foi publicado em 1915 e tem muitas anotações. Um colecionador holandês encontrou uma cópia surrada de Hitler do livro "Life of Frederick the Great" ["A Vida de Frederico, o Grande"] de Thomas Carlyle, uma biografia do século 19 que enaltece o fervor destrutivo do rei da Prússia e que alimentou as esperanças delusórias de Hitler em relação a uma miraculosa mudança de sorte na primavera de 1945.
Hitler estava lendo Carlyle nas semanas anteriores a seu suicídio.

De acordo com o catálogo do leilão montado pela empresa parisiense Kahn-Dumousset, o livro de Hitler em oferta na semana passada era um volume de antiquário, publicado em 1712, com uma ilustração de frontispício que mostrava o "furor, guerra, ódio e discórdia" na história europeia, e contava a história dos governantes europeus desde o duque de Savoy até o rei da Prússia.

O livro foi supostamente retirado do retiro de Hitler nos Alpes por um membro da 2ª Divisão Armada da França, o que empresta ao volume ainda mais valor histórico. A casa de Hitler nas montanhas abrigava muitos dos livros mais apreciados pelo líder nazista, incluindo seus volumes de Shakespeare.

Diferente de muitos outros livros remanescentes, que contêm dedicatórias de colegas ou admiradores nazistas - Heinrich Himmler, Herman Goering, Leni Reifenstahl, para citar alguns - esse volume não tem nenhuma dedicatória, sugerindo que foi uma aquisição particular, tornando-o assim ainda mais pessoal e relevante.

Na última quarta-feira, quando o livro de Hitler foi a leilão, junto com mais de outros 200 itens de antiquário, só havia lugar para ficar em pé no Hall 11 do Hotel Druout, mas ninguém respondeu ao lance de abertura de mil euros.

Entretanto, seguiu-se uma rodada movimentada de apostas anônimas por telefone, e o livro foi finalmente vendido por € 800 a mais do que o preço inicial. O tomo belamente encapado foi removido de vista e preparado para ser enviado para seu dono anônimo.

Hitler teria aprovado. No final de sua vida, o líder nazista ordenou que seus pertences pessoais fossem destruídos numa tentativa de obliterar o máximo possível sua vida privada. Ele queria ser lembrado exatamente como havia apresentado a si mesmo para o mundo: cheio de fúria, guerra, ódio e discórdia. Ele não queria deixar espaço para nuances, muito menos para insights sobre as obsessões e inseguranças particulares que alimentavam sua personalidade.

Enquanto o Matisse de Yves Saint Laurent passou da coleção de um investidor para outro e os artefatos pessoais de Gandhi retornaram para sua terra natal como patrimônio nacional, o livro de Hitler - como muitas outras coisas que poderiam nos dar mais informações sobre essa personalidade impenetrável - foi destinado a uma obscuridade ainda maior.

* Timothy W. Ryback é secretário geral da Academia Diplomática Internacional, e autor de "Hitler's Private Library: The Books that Shaped the Man" [algo como "A Biblioteca Particular de Hitler: Os Livros que Formaram o Homem"].

Tradução: Eloise De Vylder

sexta-feira, março 20, 2009

De Heróis e Vigilantes

E South Park faz sua versão dos super-heróis sombrios que têm feito o deleite de Hollywood: conheça Mysterion & The Coon. Aqui vai um aperitivo:




Uma sátira perfeita e emocionante ao Cavaleiro das Trevas.

terça-feira, março 17, 2009

Desejo, beleza e horror: a Internet, tráfico de mulheres e algumas divagações

É de largo conhecimento de qualquer pessoa que tenha passado mais de meia hora navegando pela Internet que, desde os primeiros tempos em que a rede se tornou conhecida do grande público, o negócio que mais prosperou no mundo virtual foi o de imagens eróticas. Seja na forma de ensaios artísticos ou da pornografia mais hardcore, o sexo parece estar a um clique de distância de quase qualquer recanto eletrônico. Obviamente, ele sempre esteve presente em qualquer sociedade, mas a facilidade de acesso ao menos visual a ele nunca foi tão grande -- e, naturalmente, ao mercado que o acompanha. 

"Anna", do MET-Art

Não é preciso ser um expert para perceber que, em boa parte desse oceano virtual de corpos esculturais e performances extravagantes, boa parte das modelos atende por nomes naturais do Leste Europeu e da Rússia: Olga, Svetlana, Sofia, Zuzana etc. Depois que, muitos anos atrás, por dica de uma colega de faculdade, adentrei uma das então ascendentes agências de casamentos russas, foi fácil entender o motivo. Mesmo descontando o fato de que não é qualquer pessoa que aparece em sites onde um belo corpo é pré-requisito, o tipo físico nessa região corresponde muito bem ao ápice do padrão de beleza caucasiano. Ou, como me disse um amigo que já teve a sorte de visitar Praga, é possível esbarrar em várias "top models" anônimas simplesmente andando pela rua. Some-se a isso o fato de que os países da região, ao emergirem das ruínas do comunismo, entraram numa crise econômica considerável, privando seus cidadãos das velhas garantias. Em outras palavras, havia um pool genético formidável à espera de oportunidades capitalistas que quisessem tirar proveito dele. 

Pois bem: demanda e oferta, certo? Nós, internautas ocidentais cheios de testosterona e tempo para gastar online, somos beneficiados com modelos e atrizes (?) esteticamente impressionantes, e elas, por sua vez, ganham  mais assim do que em carreiras mais "respeitáveis" em seus países natais. Um belo argumento liberal que, do ponto de vista estritamente legal, legitimaria as 372 milhões de webpages pornográficas, segundo um dado de 2007.

Particularmente, sempre fiquei intrigado com essa simbiose. Não pelos números grandiosos (você sabia que se gastam 89 dólares por segundo com pornografia na rede?) ou pela possibilidade de ter acesso instantâneo a material contendo (quase) toda e qualquer variedade sexual já concebida pela imaginação humana. O que sempre me despertou curiosidade, e deve ser ago até comum, era a pessoa das modelos. Não, não me refiro às proporções de sua figura, que falam por si nos sites; refiro-me às suas origens. Como elas foram parar ali? Tendo nomes eslavos, provavelmente vieram de áreas onde as perspectivas de vida são limitadas, mas não necessariamente o nível educacional. Teriam tido acesso de fato a estudo? Fizeram uma carreira nesse ramo ou teria sido um "bico"? Por que uma opção aparentemente tão extravagante? Suas famílias sabem dessa atividade? Como a sociedade a que pertencem encara esse segmento pujante e em expansão da economia? E ainda...quais os laços disso com a prostituição tradicional?

Tenho pensado muito nisso desde que li McMáfia: Crime sem Fronteiras, de Misha Lenny, mencionado em um post anterior. Um dos capítulos do livro é dedicado ao tráfico de mulheres dos países da antiga União Soviética para o resto do globo, sobretudo Oriente Médio (Israel incluso) e Ásia. Seguindo o padrão das reportagens sobre o assunto, Lenny começava com uma história individual e a partir daí traçava um panorama do tema. Lendo-o, não pude deixar de pensar no quanto pode ser tênue a linha que separa as ninfas de beleza estonteante que ilustram tantos ensaios e vídeos e o destino melancólico das prostitutas comuns. Hoje, em particular, pesquisando sobre o assunto, deparei-me com isto: 

Nowhere is this trafficking worse than it is in Moldova, Olga’s home, where experts estimate that since the fall of the Soviet Union between 200,000 and 400,000 women have been sold into prostitution — perhaps up to 10 percent of the female population.

Isso é aterrador. A explicação bate com o que eu já imaginava desde os tempos em que me permiti sonhar por uns minutos com uma noiva russa:

The numbers are staggering, but for Liuba Revenko of the International Organization for Migration in Moldova the bondage of the country’s young women has become routine. “Moldovans are a hybrid population of Russians, Romanians, Jews, Ukrainians and Bulgarians,” Revenko said. “That creates a special race of women that are beautiful and in demand. They have no future. They are a good target for the traffickers.”

Como acontece com outras atividades criminosas, a paralisia e a corrupção dos ex-Estados socialistas permite ao tráfico e à escravização de mulheres seguir seu curso sem grandes obstáculos policiais. Na Macedônia, por exemplo, a reportagem da MSNBC informa que o próprio ministro do Interior, um "linha-dura", admitia que os policiais sob seu comando estavam na folha de pagamento dos cafetões e traficantes. Nada muito diferente, afinal, do que acontece também em nossas plagas.

Achei as reportagens em dois minutos de pesquisa, e agora me volto para a moça da foto acima. Seria ridículo pressupor que o mercado virtual de sexo sobrevive apenas às custas de escravas, ou fazer da existência desse tipo de monstruosidade um pretexto moralista contra a indústria pornográfica. Enquanto houver desejos e fantasias insatisfeitos, ela continuará existindo; enquanto existir, continuará responsável por muito dinheiro; finalmente, enquanto houver esse fluxo de recursos, não faltarão jovens atraentes dos dois sexos dispostos a fazer uso de seu corpo para ter direito a uma parcela do lucro. Não obstante, olhando para "Anna", e pensando nas legiões como ela -- muitas delas com carreiras muito menos sedutoras em sites muito mais sórdidos --, ocorre-me que, para o observador/consumidor distante, é quase impossível dizer a diferença. Não sei de onde ela vem, ou para onde foi depois que se vestiu e deixou o set de fotografia. E percebo, para meu espanto e alguma tristeza, o quão fácil pode ser esquecer o assunto e parar apenas no deleite que é olhar para sua imagem. 

Mas hoje não.

segunda-feira, março 16, 2009

O princípio do prazer: um retiro misto dedicado à sexualidade feminina

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2009/03/16/ult574u9230.jhtm

The New York Times
Por Patricia Leigh Brown e Carol Pogash
San Francisco - Até mesmo numa cultura em que os brinquedos sexuais são um negócio próspero e Oprah Winfrey discute como ter uma vida melhor no quarto, uma comunidade mista dedicada ao orgasmo feminino paira nos extremos.

A fundadora do One Taste Urban Retreat Center, Nicole Daedone, vê a si mesma como a líder de um "lento movimento sexual" que enfatiza exclusivamente o prazer feminino - no qual o amor, o romance a até o flerte não são necessários.

"Na nossa cultura, admitir as questões do corpo é quase como admitir um erro", diz Daedone, 41, que pode citar a poeta Mary Oliver e falar ironicamente sobre as complexidades da anatomia feminina com a mesma autoconfiança. "Não acho que as mulheres serão verdadeiramente livres antes de conquistar sua sexualidade".

Um grupo de 38 homens e mulheres - com média de idade beirando os 30 - vivem em tempo integral no centro de retiros, um prédio simples e elegante no distrito de South of Market. Eles cozinham juntos, praticam ioga e meditação e lideram workshops sobre comunicação para grupos de fora de até 60 pessoas.

Mas o coração das atividades do grupo, chamado misteriosamente no calendário do site de "prática matinal", é fechado para todos exceto os moradores.

Às 7 da manhã, todos os dias, enquanto o resto dos EUA está comendo cereal ou tentando enfrentar um engarrafamento sem hiperventilar, cerca de uma dúzia de mulheres, nuas da cintura para baixo, deitam-se com os olhos fechados numa sala de cortinas de veludo, enquanto os homens, vestidos, se aconchegam a elas, acariciando-as num ritual conhecido como meditação orgástica - "OMing", para os íntimos. Os casais, que podem ou não estarem envolvidos romanticamente, chamam uns aos outros de "parceiros de pesquisa".

Uma comunidade dedicada a que homens e mulheres criem em público "o orgasmo que existe entre eles", nas palavras de uma moradora, isso pode soar como a sátira mais recente da Califórnia. Mas a baía tem uma história vivaz e notável de buscadores construindo vidas em torno da aventura sexual.

San Francisco tem orgulho de sua herança libertine, como Sean Penn demonstrou recentemente em "Milk". A busca pela transformação pessoal, inclusive através do sexo, levou para o litoral as banheiras quentes do Esalen Institute em Big Sur, berço do movimento do potencial humano, e nos anos 60, as comunidades floresceram na cidade, muitas abraçando o amor livre.

A One Taste é apenas a última parada desse metrô sexual, costurando uma liberdade individual radical, a espiritualidade ocidental e o feminismo.

"A ideia de uma comunidade sexual em San Francisco voltada para o orgasmo feminino faz parte da longa e rica história de mulheres que assumiram sua sexualidade e a tornaram pública", diz Elizabeth A.
Armstrong, professora de sociologia na Universidade Indiana, que estudou as subculturas sexuais de San Francisco.

Assim como em muitas comunidades anteriores, a líder da One Taste, Daedone, é uma personalidade polarizadora, cujos admiradores veneram como uma diva sexual, apesar de alguns membros antigos dizerem que ela exerce um poder de culto sobre seus seguidores. Segundo eles, ela costumava sugerir fortemente quais os casais que deveriam se envolver romanticamente.

"Sempre existiu uma pressão em relação aos limites das pessoas", diz Judy Silver, que morou na One Taste por três anos e meio e saiu no outono passado. "Todos sabíamos que era um lugar extremo, e viemos para jogar duro".

O grupo não atraiu muita atenção durante seus quatro anos e meio de existência - talvez que esse tipo de comunidade não seja novidade para os moradores de San Francisco - apesar de ter causado alguma sensação quando o The San Francisco Chronicle escreveu sobre as aulas de ioga sem roupa do grupo (sem fins sexuais). Muitos voyeurs apareceram por lá depois disso. Agora as aulas são com os alunos vestidos.

As pessoas que chegam à One Taste são um grupo eclético. Algumas estão em períodos de transição, entre elas um engenheiro de 50 anos do Vale do Silício, com cara de jovem, divorciado recentemente, que disse que a prática de fixar sua atenção em um ponto minúsculo do corpo da mulher melhora sua concentração no trabalho.

A maioria dos moradores é de jovens buscadores, que procuram preencher um vazio interno e se fortalecer com a mistura de sexualidade e espiritualidade centrada na mulher pregadas por Daedone. Uma delas, Beth Crittenden, 33, cresceu entre as plantações de tabaco da conservadora Virgínia, um lugar onde, segundo ela, a anatomia feminina nunca era discutida e a masturbação era algo que não podia ser mencionado. "Eu nunca tinha feito nada, mesmo no cair da noite", diz ela.

Ela acabou caindo no prédio do centro na rua Fulton, com seus sofás aconchegantes, e matriculou-se num curso de prazer da mulher porque seus relacionamentos com os homens "acabavam sempre batendo num muro de cimento", diz.

Ela resistiu às ofertas de fazer novos cursos (por uma taxa), deletando as incessantes mensagens de e-mail do centro. Mas às vésperas de seu 29º aniversário, ela voltou, hesitante. "Eu estava com medo de abrir tanto minha vida, mas estava com mais medo de não fazê-lo", diz.

Agora que é uma instrutora, Crittenden fala sobre "a velocidade lenta do meu desejo e minha hesitação em ceder a ele".

Outra integrante, Racheli Cherwitz, 28, passou anos lutando com a anorexia e o alcoolismo, disse. Na busca de sua identidade, ela mudou-se para Israel e se tornou uma judia ortodoxa.

Descobrir a One Taste, diz ela, melhorou sua autoimagem e deu a ela um "profundo acesso físico à mulher que sou e à mulher que quero ser".

Cherwitz viaja para Nova York e oferece treinamento particular sobre sensualidade numa filial da One Taste na Grand Street. Muitos de seus clientes, diz ela, são casais de judeus ortodoxos do Brooklyn.

No mundo da One Taste, homens e mulheres fazem um estranho pacto impessoal. Não há contato visual durante a meditação orgástica. A ideia, similar ao sexo do budismo tântrico, é prolongar o clímax sensorial - e compartilhá-lo publicamente - antes da "aceitação", que é como os moradores, que tendem a usar o jargão do grupo, chamam o orgasmo.

Apesar de os homens não serem tocados pelas mulheres e não chegarem ao orgasmo, eles dizem vivenciar uma sensação de energia e saciedade.
Tanto os acariciadores quanto as acariciadas insistem que o propósito verdadeiro do OMing é uma "hidratação" do ser, da conexão humana, e não o sexo.

Reese Jones, empresário-geek-capitalista-e-namorado de Daedone, compara a meditação orgástica a uma massagem.

"É um procedimento para nutrir o sistema límbico, como ioga ou pilates, sem nada além disso", diz. "Quando você vai a uma massoterapeuta", diz ele, "você não leva a massagista para jantar depois".

O inspirador e mentor de Daedone para se tornar uma guru sexual foi Ray Vetterlein, que ficou famoso nos círculos sexuais alegando prolongar os orgasmos de uma mulher comum para 20 minutos.

Vetterlein, que tem quase 80 anos, inspirou-se em Lafayette Morehouse, uma comunidade controversa de 40 anos de existência localizada no subúrbio de Lafayette, Califórnia, que promove demonstrações públicas de uma mulher atingindo o orgasmo desde 1976.

O fundador da Morehouse, Victor Baranco, era um vendedor de ferramentas que chamava sua filosofia de "hedonismo responsável".
Segundo alguns depoimentos, Baranco, que morreu em 2002, usava técnicas coercitivas de controle mental.

"Era uma gigantesca máquina de destruir o ego, assim como é toda tradição monástica válida", diz um homem que viveu na Morehouse por 20 anos e não quis ser identificado.

O início da carreira de Daedone não foi nem um pouco alternativo: ela estudou semântica na Universidade do Estado de San Francisco e depois doou suas pérolas para fundar uma galeria de arte. Mas aos 27 anos, seu mundo começou a ruir quando ela ficou sabendo que o pai, do qual ela estava afastada há tempos, estava morrendo de câncer na prisão, depois de ser condenado por molestar duas meninas.

"Tudo na minha realidade entrou em colapso", disse ela. "Meu corpo virou pedra e se estilhaçou".

Seu pai não havia se comportado inapropriadamente com ela, diz Daedone; pelo contrário, ele era uma figura distante.

"De certa forma eu me sentia próxima dele no toque, e de repente ele se fechou", diz ela. "Mais tarde entendi que ele estava tentando proteger-me dele mesmo, de sua patologia".

Seu caminho de volta para a vida começou no budismo, que ela seguiu com vingança, querendo morar numa comunidade zen. Mas numa festa em 1998, ela conheceu um budista que tinha uma prática que ele chamava de "sexualidade contemplativa".

Ele a convidou para deitar-se nua com ele, colocou um despertador e, enquanto a acariciava, começou a narrar delicadamente em detalhes a beleza que ele via, as cores que ia do coral, ao rosa profundo, ao rosa-choque perolado. "Eu simplesmente me abri, e o sentimento foi puro e limpo", diz Daedone. "De uma forma estranha, acho que naquele momento eu decidi viver".

Desde a abertura da One Taste, ela permitiu que a comunidade passasse por inúmeras mudanças; para seu desgosto, o local atraiu inicialmente desajustados que "gostavam de ficar à toa se bolinando", diz ela.

Ela admite que cometeu erros - entre eles as aulas de ioga sem roupas - mas tem sido astuta em relação a como apresentar seu produto. Ela trocou o termo "orgasmo deliberado", como é chamado pelos outros praticantes, por "meditação orgástica", mais apropriado para o marketing. Grande parte da atmosfera da comunidade gira em torno de Daedone, uma mulher de um charme considerável, apesar de seus detratores a verem como uma mestra em manipulação.

"Nicole lê as pessoas", diz Marci Boyd, 57, moradora mais velha do grupo, emprestando uma frase do livro "Stranger in a Strange Land", de Robert A. Heinlen, que significa entender alguém tão completamente que o observador se torna uno com o observado.

Elana Auerbach, uma das primeiras moradoras, que deixou o grupo com Bill Press, que hoje é seu marido, disse que a consequência da capacidade de Nicole de se tornar exatamente a pessoa mais desejada por um indivíduo é que "eles se apaixonam por Nicole, exalam Nicole". "Você deixa de confiar em si mesmo e começa a confiar em Nicole", diz ela.

Até pouco tempo, os moradores viviam num lugar apertado, sacrificando a privacidade pelo grupo, duas pessoas em cada cama, 12 camas em cada quarto, separadas por cortinas. Agora eles têm quartos particulares num prédio adjacente ao centro de meditação (ambos estão localizados providencialmente em Folsom Street, lugar que abriga a maior feira anual de couro, "bondage" e fetiche).

Auerbach diz que ela e Press acabaram decidindo que queriam uma vida "focada no coração e não nos genitais". Agora que têm um filho, veem sua experiência como uma lição.

"Nicole divulga uma mensagem e todo mundo repete aquilo", diz Press. Daedone insiste que ela não incentiva nem gosta da imagem de toda-poderosa. "Há um grande potencial para isso ser um culto", diz ela.

Ela deixou recentemente sua moradia na comunidade, em parte para evitar essa tendência. "Sempre que eu estava lá, todo mundo me tratava como uma guru", diz. "Eu acordava e as pessoas vinham sentar na minha cama".

Agora ela mora com Jones, seu namorado, que vendeu uma companhia de software que ele fundou, a Netopia, para a Motorola por US$ 208 milhões, e fornece recursos financeiros para a One Taste, ajudando inclusive a comprar uma sede de retiros em Stinson Beach, Califórnia.

Daedone quer que a One Taste seja conhecida, e para isso o centro oferece ensinamentos de rabinos e monges tibetanos, junto com aulas públicas e cursos sobre "sexualidade consciente".

Mas é difícil imaginar uma academia One Taste. Num curso de fim de semana realizado recentemente no centro, com uma platéia grande de homens e mulheres interessados em aprender a meditação orgástica, Daedone resumiu sua filosofia.

"Na nossa cultura", disse, beatificamente sentada sobre uma almofada, "as mulheres têm sido condicionadas a terem uma sexualidade fechada e uma abertura de sentimentos, e os homens têm uma sexualidade aberta e os sentimentos fechados. Há uma região enorme de resistência e vergonha".

Em breve os aspirantes a praticantes, incluindo um casal de Marin County que esperava reacender seu casamento, reuniram-se no chão em volta de uma cama de massagem. Justine Dawson, uma bela moradora da comunidade, de 34 anos, tirou seu robe e subiu na maca. Outro morador, Andy Roy, 28, começou sua tarefa, com uma concentração tão intensa que começou a suar.

Os presentes foram instruídos a falar sobre seus sentimentos, e muitos o fizeram, descrevendo a excitação que eles, também, estavam sentindo.

Quando terminou, Dawson emanava uma radiância digna de um Caravaggio, uma inocência juvenil. Em outro contexto, poderia ter sido um momento profundo e romântico entre dois amantes. Em vez disso, uma imagem diferente veio à mente: a entrevista pós-coito de Howard Cosell, segurando um microfone, no filme "Bananas", de Woody Allen.

Tradução: Eloise De Vylder

segunda-feira, março 02, 2009

Amor voraz

A criatividade das pessoas não tem mais fim...

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