Estou espantado e ao mesmo tempo emocionado. Espantado com a pouca cobertura que a guerra política, religiosa e cultural que começou no Irã tem recebido da nossa imprensa, sobretudo das redes de TV; e emocionado por estar ciente de que, seja qual for o desfecho imediato do que se passa nessa terra tão habitualmente vista como obscurantista e retrógrada, estou assistindo a algo que pode marcar um ponto de virada na posição do Oriente Médio no mundo -- e sob a égide principalmente da não-violência.

Não sei se o que está se passando é o começo de uma revolução dentro da revolução iraniana, ou um arroubo efêmero que será sileciado a balas, bombas e terror. Tenho plena consciência de que, por trás de todo enfrentamento, os dois lados veneram e recorrem ao legado -- a meu ver, detestável -- do aiatolá Khomeini, um homem que não recuou ante a possibilidade de esmagar vários dos seus aliados na derrubada do também autoritário xá Reza Pahlevi, em 1979. Um homem que, com toda a admiração que lhe era dedicada por uma esquerda ocidental estúpida nos anos 1970, que o tomou por líder espiritual sábio, renegou todos os valores que seus admiradores ingênuos projetavam nele e mostrou qual era a sua concepção de liberdade. Um homem, enfim, que destruiu dissidências, condenou Salman Rushdie à morte e consolidou seu poder com base no medo, na paranóia e na repressão à discordância. São a sua foto e suas palavras que são tomadas como inspiração por parte das multidões de verde que lutam por democracia e, a partir de hoje, também por suas vidas nas ruas de Teerã, Shiraz e outras cidades de que nunca tínhamos ouvido falar até esta semana. Gente que procura uma vida melhor, que não quer baixar a cabeça ante uma mentira clara e, aparentemente, não aceita mais a desculpa de que a hostilidade ocidental serve de pretexto para calar suas insatisfações -- e que provavelmente não teria como fazer o que faz hoje enquanto seu herói teocrático estava vivo. E, ainda assim, hoje, essa gente toda, por mais ingênua que possa nos parecer à distância para confiar a tal patrono seu amor e sua lealdade, hoje concentra as mais concretas esperanças do que pode vir a ser um Oriente Médio capaz de romper o beco-sem-saída que tem dominado a maior parte dos países muçulmanos: a dualidade entre o atraso fundamentalista ou uma relativa modernidade ditatorial, entre a desconfiança acirrada do fanático e a corrupção e a brutalidade dos "líderes" cuja legitimidade vem da força e do comodismo de populações que não sabem ou podem ainda se organizar.
Há 30 anos, o Irã assombrou o mundo com uma revolução teocrática nunca antes vista. Nos anos seguintes, associou-se ao medo da expansão desse movimento nos outros países -- o Hezbollah, por exemplo, é fruto desse desejo -- e ao fomento da violência. Foi também uma ameaça simbólica, quando não de fato, aos regimes seculares e ditatoriais de seus vizinhos. Mas hoje, quando os ocidentais se arrepiam ou balançam a cabeça com uma superioridade condescendente ao olharem a pobreza reinante no Oriente Médio, o Irã representa outra coisa: é o levante popular, é a população marchando unida, é a cantoria cada vez mais alta das ruas a repetir "Alá é grande!". O Irã é hoje um grande "NÃO" ao fechamento da sociedade, ao uso da religião para negar às pessoas a escolha de seus rumos, à corrupção dos que confiam demais no próprio poder, à retórica dos que pretendem "proteger o povo de si mesmo". Independentemente do que o homem em torno do qual esse movimento se criou venha a fazer -- ele que foi braço-direito de Khomeini nos anos mais negros da Revolução --, ou de alguns de seus apoiadores mais poderosos venham a conquistar (como o milionário mulá Rafsanjani, cuja idoneidade, até onde sei, não é exatamente consensual), é o movimento em si que importa. É o clamor das manifestações que prova o que deveria ser óbvio a toda gente: que nenhuma repressão dura para sempre, e que o ímpeto pela liberdade, que não pode ser imposto pelas armas (vide Iraque), uma vez desperto, só tende a crescer. Enganaram-se os que outrora julgaram que revolucionário é aquele que precisa de um bando armado pronto a tudo para abrir um sanguinolento caminho até o poder; esse, mesmo que bem intencionado quanto aos fins, só perpetua erros milenares quanto aos meios. O verdadeiro revolucionário é aquele que catalisa os anseios dos seus semelhantes e age, não pelo terror, não se tornando igual ao inimigo que combate, mas que quebra o círculo vicioso da violência e demonstra, de uma vez por todas, que nenhuma arma, nenhuma tropa, é mais poderosa que uma multidão unida pronta a se fazer ouvir. E hoje, como tem provado a guerrilha virtual que os partidários do "mar verde" iraniano tem demonstrado, isso é mais demonstrável do que nunca.
Mesmo que o pior aconteça, o Irã não será mais o mesmo. Khamenei, Ahmadinejad e sua cáfila nunca mais terão a mesma tranquilidade, a mesma segurança, a mesma legitimidade. Seu poder, derivado de uma justificativa teocrática, foi deslegitimado aos olhos de milhões, e no fim das contas vêm se comportando como qualquer regime autoritário secular. Eles não são o Islã, mas somente pecadores como outros quaisquer, falíveis e por vezes renitentes no erro, como está evidente a quem testemunhe o que se passa. Mesmo que Moussavi seja preso ou morto, e o seu movimento se disperse, seu exemplo ficará -- até o próximo estopim, a próxima onda. E assim, quem sabe, a despeito de si mesmo, a Revolução Iraniana acabe finalmente sofrendo uma reforma por dentro.
Abaixo, algumas imagens coletadas na melhor fonte até o momento sobre os eventos no Irã, o blog de
Andrew Sullivan.