sábado, setembro 29, 2007

Arte "sonâmbula"

A falta que um conceito faz...
Fosse no Brasil, provavelmente este sujeito estaria expondo em locais bem diferentes.
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Britânico expõe arte produzida durante o sono
desenho de Lee Hadwin
"Arte noturna" inclui desenhos, retratos e pinturas
Os trabalhos de um britânico que vira artista enquanto dorme vão ser expostos numa cidade do País de Gales, na Grã-Bretanha.

Lee Hadwin, de 33 anos, afirma que tem feito o que denominou de "arte sonâmbula" há muitos anos e não sabe explicar por que seu talento artístico aflora só depois que ele adormece.

Hadwin conta que começou a ser sonâmbulo quando tinha 4 ou 5 anos "fazendo o que crianças normais fazem, como andar pela casa, nada sério".

"Há 12 ou 14 anos atrás eu dormi na casa de um amigo e quando sua mãe acordou viu desenhos na parede da cozinha. Mas ela achou que tivesse sido o filho sob efeito de bebida", relembra.

O artista só se deu conta de que o desenho na verdade era de sua autoria, quando percebeu, pouco tempo depois, que seus jornais começaram a amanhecer desenhados.

Lee Hadwin
Hadwin diz que não se lembra do que faz durante a noite

Enxaqueca

Os trabalhos de Lee, que não faz arte enquanto está acordado, vão desde desenhos, retratos de nus até pinturas.

Hadwin garante que só percebe o que fez durante a noite quando acorda no dia seguinte.

"Eu só sei que estive sonâmbulo durante a noite porque normalmente acordo com enxaqueca. De resto, eu não me lembro de absolutamente nada".

Ele admite que seu estranho hobby noturno já levou a alguns problemas em casa.

desenho de Lee Hadwin
Trabalhos de Lee Hadwin serão expostos

"Minha mãe não gosta quando eu pinto embaixo das escadas".

Quatro meses atrás, o britânico cortou uma de suas calças jeans preferidas e, sem saber, colocou um pedaço de tecido numa moldura.

Os trabalhoS serão expostos numa galeria da cidade de Denbigh, no País de Gales no início do mês que vem.

domingo, setembro 23, 2007

Uma sociedade de insanas aparências

Recebi por email e infelizmente não tenho a data dessa edição da IstoÉ. Mas gostei muitíssimo da entrevista, pois nos lembra do quanto a cultura em que vivemos nos predispõe para a frustração com seus padrões severos de eficácia e sucesso.
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O entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional.

“Cuidado com os burros motivados”

Em “Heróis de Verdade”, o escritor combate a supervalorização da Aparência e diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.

Observador contumaz das manias humanas, Roberto Shinyashiki está cansado dos jogos de aparência que tomaram conta das corporações e das famílias. Nas entrevistas de emprego, por exemplo, os candidatos repetem o que imaginam que deve ser dito. Num teatro constante, são todos felizes, motivados, corretos, embora muitas vezes pequem na competência. Dizem-se perfeccionistas: ninguém comete falhas, ninguém erra. Como Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) em Poema em linha reta, o psiquiatra não compartilha da síndrome de super-heróis. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida (...) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe”, dizem os versos que o inspiraram a escrever “Heróis de verdade” (Editora Gente, 168 págs., R$ 25). Farto de semideuses, Roberto Shinyashiki faz soar seu alerta por uma mudança de atitude. “O mundo precisa de pessoas mais simples e verdadeiras”.

ISTOÉ—Quem são os heróis de verdade?

Roberto Shinyashiki—Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes.E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

ISTOÉ—O sr. citaria exemplos?

Shinyashiki—Dona Zilda Arns, que não vai a determinados programas de tevê nem aparece de Cartier, mas está salvando milhões de pessoas. Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito “100% Jardim Irene”. É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido,mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTOÉ—Qual o resultado disso?

Shinyashiki—Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTOÉ - Por quê?

Shinyashiki—O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei-a na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ—Há um script estabelecido?

Shinyashiki—Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um Presidente de multinacional no programa O aprendiz? “Qual é seu defeito?” Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: “Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar”. É exatamente o que o Chefe quer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder. O vice-presidente de uma das maiores empresas do planeta me disse: “Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir”. Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ—Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?

Shinyashiki—Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer Que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTOÉ—Está sobrando auto-estima?

Shinyashiki—Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parece que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTOÉ—Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?

Shinyashiki—Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: “Quando você quiser entender a essência do ser humano,imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham”. Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza,já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTOÉ—O conceito muda quando a expectativa não se comprova?

Shinyashiki—Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTOÉ—Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?

Shinyashiki—Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros.

Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo. Um amigão me perguntou: “Quem decidiu publicar esse livro?” Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.

ISTOÉ - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?

Shinyashiki—O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas. A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTOÉ—Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?

Shinyashiki—A sociedade quer definir o que é certo. São quatro Loucuras da sociedade. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais. A segunda loucura é: Você tem de estar feliz todos os dias. A terceira é: Você tem que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura: Você tem de fazer as coisas do jeito certo. Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo a praia ou ao cinema. Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes. Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: “Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz”. Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida.

Balanço da Bienal

Duas tardes de garimpagem, contenção de despesas e muita caminhada. O resultado? Eis o saldo recorde desta Bienal (para lembrar aos incautos que perdição é a combinação de salário com megafeira de livros):

  • Os doze volumes encadernados da Revista Espírita -- Jornal de Estudos Psicológicos, da Sociedade Espírita de Paris, editada por Allan Kardec.
  • Religião, de Carlos Imbassahy (o pai), verdadeiro sobre a bizarra e interminável discussão sobre ser ou não o Espiritismo uma religião.
  • Eça de Queirós, Póstumo, coletânea de psicografias de Fernando Lacerda atribuídas ao literato português (digam o que quiserem sobre a autenticidade ou não dos escritos, a leitura é uma delícia).
  • A Doutrina de Buda e o Tao-te-king (este comentado por Huberto Rohden).
  • Ficções, de Jorge Luís Borges, a ridículos doze reais.
  • Em Silêncio: Por que rezamos, de Donald Spoto, sobre o hábito da prece nas mais diversas tradições religiosas.
  • A História da Família, de James Casey.
  • A Voz do Fogo, o primeiro romance do virtuoso dos quadrinhos Alan Moore, também autor de V de Vingança, Watchmen e, last but not least, o recém-lançado em português Lost Girls.
  • Salambô, de Flaubert, uma incursão do autor de Madame Bovary pelo romance histórico, trocando a charmosa Paris pela exótica Cartago.
  • Homens Representativos, de Ralph Waldo Emerson, com pequenos ensaios biográficos de grandes homens, de Platão a Montaigne e Shakespeare.
  • Contando Vantagem, de John Kenneth Galbraith, em que o célebre e espirituoso economista narra suas experiências com os diferentes governos americanos de Roosevelt a Lyndon Johnson.
Pena o dinheiro ter acabado antes de eu voltar à seção de neurociência da Companhia das Letras... Mas exercitei meu impulso biblioconsumista pelo equivalente a meses. Só falta agora levar minhas aquisições para uma ilha deserta por alguns anos e pôr a leitura em dia.

(Não custa sonhar...)


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sábado, setembro 22, 2007

Meditações de fim de semana


A última encarnação da inocência sobre a Terra deixou de sê-lo ao se descobrir inocente.

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Quando naturalizamos a tal ponto a malícia que ficamos chocados com a inocência?

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Ou estará a malícia tão cansada de si própria que não teve outro recurso senão o de se refugiar na forma da inocência?


sábado, setembro 08, 2007

As leis da física hollywoodiana


Você já reparou que nos filmes de ação, basta um tiro no tanque de gasolina para explodir um carro?

Que as explosões espaciais têm som?

Que ninguém se machuca ao estilhaçar uma vidraça com o próprio corpo?

Finalmente, os especialistas dão seu parecer sobre esse fenômenos tão comuns na tela que nem nos perguntamos se eles são possíveis: http://www.intuitor.com/moviephysics. Um site divertidíssimo, instrutivo e com indicações de algo raro no Brasil: livros de física para leigos e sem aquelas "assustadoras" (?) fórmulas matemáticas.

(Devo a informação ao meu prezado Hermenauta, um dos blogueiros mais versáteis da Internet brasileira.)

sexta-feira, setembro 07, 2007

A Voz: 1935-2007


Ciao, Luciano!

segunda-feira, julho 30, 2007

Versos para um dia cinzento

Para que serve um bom poema senão para dar forma àquilo que, no momento, é indizível?

Se eu morrer novo

Se eu morrer novo,
sem poder publicar livro nenhum
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela unica grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez a porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraido.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

sábado, julho 28, 2007

A primeira superprodução italiana



Amantes da sétima arte e de Gustave Doré, não percam isto:

http://www.linferno.com/index.htm


Já sei o que vou querer de Natal...

Outra descoberta tardia


Sem dúvida, este film e sua continuação feita dez anos depois, Antes do Pôr-do-Sol, constituem o mais belo romance já feito nas últimas décadas. Com diálogos realistas e inteligentes, sem clichês mas sem abrir mão do encantamento, são filmes que continuam a nos assombrar muito depois de acabarem os créditos. Fico realmente feliz por tê-los assistido, ambos no mesmo dia.

E Julie Delpy acaba de ganhar o posto de Musa cinematográfica ao lado de Jennifer Connelly. Que vontade de conhecer Viena...

quinta-feira, julho 26, 2007

quarta-feira, julho 25, 2007

Breves avisos

Voltei ao modelo anterior do Divagações, com uma ou outra modificação. Mas ainda estou indeciso se o mantenho ou fico com aquele azul que estava aqui até ontem. Opiniões são bem-vindas.

A Azel's Home Page, por sua vez, saiu do ar pela primeira vez em oito valorosos anos. O Yahoo simplesmente decidiu apagar minha conta, levando de roldão minha lista de discussão de História (com mais de 170 membros) e o site. Não me disseram o motivo real, exceto que o termo de serviço previa que isso poderia acontecer. Estou no escuro até agora, e também no prejuízo, pois eles não me deixam usar o velho endereço para reabrir o site.

O que me faz lembrar o quão efêmera pode ser a Internet. Todo esse HTML e todos esses pixels não passam de névoa...

A nossa natureza "imoral"

Já falei antes aqui sobre a sociobiologia -- a idéia de que muitos dos comportamentos humanos podem ser explicados por uma abordagem darwinista. Dado o papel que o impulso reprodutivo tem nela, em seus aspectos fundamentais, não é tão diferente assim da psicanálise freudiana: por trás de muito do que fazemos estaria, simplesmente, o sexo, ainda que a linguagem da sociobiologia enfatize os genes e não um mecanismo psíquico. De qualquer forma, como era de se esperar, a visão de mundo sociobiológica, surgida da zoologia, previsivelmente tornou-se uma corrente psicológica chamada "evolucionista".

Uma das maiores dificuldades da perspectiva sociobiológica é o determinismo nela implícito. Acostumados que estamos a nos ver como seres especiais, é difícil, uma vez que se aceite a análise sociobiológica, resistir à idéia de que somos apenas animais mais imaginativos que, não obstante, mantêm-se escravizados à sua programação genética. Nossas preferências, gostos, motivações, e até algumas de nossas ideologias e religiões, seriam no fundo apenas estratégias sofisticadas ligadas à obsessão de passar nossos genes adiantes. E o pior é que, da maneira como são apresentadas, essas explicações parecem tão abrangentes e lógicas que é difícil resistir a elas sem um certo grau de informação e pesquisa. É sempre muito tentador retomar a idéia de natureza humana como chave explicativa de tudo que fazemos, sentimos e desejamos. Como demonstraram os darwinistas sociais do século XIX e início do XX, de chave explicativa para tese legitimadora do status quo, ou coisa pior, bastam poucos passos.

De minha parte, considero-me um moralista. Não, isso não significa que eu use o preto severo dos velhos pregadores puritanos e saia por aí brandindo maldições contra a corrupção dos costumes; nem tampouco que eu siga um código estrito e "ultrapassado" de conduta. Longe disso. Meu moralismo se refere ao sentido mais antigo dessa palavra, de alguém que se preocupa com noções de certo e errado, que reflete (ou tenta refletir) sobre as ações humanas e procura referenciá-las a algum padrão ético. No meu caso, um padrão transcendente que não se reduz a instintos e programação genética, e nada tem a ver com estratégias reprodutivas. Embora reconheça tais forças como relevantes, de forma alguma admitiria que elas devam ser a nossa meta, ou a única fonte de nossos atos.

Entretanto, o quão relevantes elas são? De que formas somos influenciados por elas? Eis o tipo de coisa em que a sociobiologia, com todas as suas controvérsias, pode ser útil. Afinal de contas, até para cultivar o espírito é preciso conhecer também o animal que também vive em nós.

O artigo parcialmente reproduzido abaixo ilustra o quanto a perspectiva sociobiológica vem avançando nas ciências humanas, mas seus autores felizmente não chegam a ser radicais como Richard Dawkins. O texto apresenta alguns dados empíricos muito interesantes, e sua versão integral está disponível neste endereço. Vale a pena a leitura.

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Ten Politically Incorrect Truths About Human Nature
Why most suicide bombers are Muslim, beautiful people have more daughters, humans are naturally polygamous, sexual harassment isn't sexist, and blonds are more attractive.


Human nature is one of those things that everybody talks about but no one can define precisely. Every time we fall in love, fight with our spouse, get upset about the influx of immigrants into our country, or go to church, we are, in part, behaving as a human animal with our own unique evolved nature—human nature.

This means two things. First, our thoughts, feelings, and behavior are produced not only by our individual experiences and environment in our own lifetime but also by what happened to our ancestors millions of years ago. Second, our thoughts, feelings, and behavior are shared, to a large extent, by all men or women, despite seemingly large cultural differences.

Human behavior is a product both of our innate human nature and of our individual experience and environment. In this article, however, we emphasize biological influences on human behavior, because most social scientists explain human behavior as if evolution stops at the neck and as if our behavior is a product almost entirely of environment and socialization. In contrast, evolutionary psychologists see human nature as a collection of psychological adaptations that often operate beneath conscious thinking to solve problems of survival and reproduction by predisposing us to think or feel in certain ways. Our preference for sweets and fats is an evolved psychological mechanism. We do not consciously choose to like sweets and fats; they just taste good to us.

The implications of some of the ideas in this article may seem immoral, contrary to our ideals, or offensive. We state them because they are true, supported by documented scientific evidence. Like it or not, human nature is simply not politically correct.

Adapted from Why Beautiful People Have More Daughters, by Alan S. Miller and Satoshi Kanazawa, to be published by Perigee in September 2007.

  1. Men like blond bombshells (and women want to look like them)

    Long before TV—in 15th- and 16th- century Italy, and possibly two millennia ago—women were dying their hair blond. A recent study shows that in Iran, where exposure to Western media and culture is limited, women are actually more concerned with their body image, and want to lose more weight, than their American counterparts. It is difficult to ascribe the preferences and desires of women in 15th-century Italy and 21st-century Iran to socialization by media.

    Women's desire to look like Barbie—young with small waist, large breasts, long blond hair, and blue eyes—is a direct, realistic, and sensible response to the desire of men to mate with women who look like her. There is evolutionary logic behind each of these features.

    Men prefer young women in part because they tend to be healthier than older women. One accurate indicator of health is physical attractiveness; another is hair. Healthy women have lustrous, shiny hair, whereas the hair of sickly people loses its luster. Because hair grows slowly, shoulder-length hair reveals several years of a woman's health status.

(Continua...)





sábado, julho 14, 2007

En voyage


Este blogueiro se encontra em expedição antropo-socio-psico-turismológica às gélidas terras do Sul. Ele pede a todos que lhe queiram falar para deixar um recado que, caso sobreviva ao inverno meridional, ele responderá o mais rápido possível.

segunda-feira, julho 09, 2007

Divagações musicais

Durante boa parte da minha vida, ouvi predominantemente música clássica e instrumental, sobretudo a sinfônica. Enquanto meus colegas de escola e até alguns amigos desfrutavam sua adolescência procurando se identificar com as letras de tantas canções -- Legião Urbana era uma escolha certeira daqueles com noções mínimas de gosto --, eu sempre preferi noturnos, poemas sinfônicos e, quando os encontrava, temas incidentais. Nessa época antes da Internet e do Napster, a preferência por tais gêneros tinha um lado negativo: algumas melodias absolutamente encantadoras podiam ser terrivelmente difíceis de achar, e, como eram puramente instrumentais, não havia refrão que pudesse ser procurado nos mecanismos de busca. Se o locutor da rádio não anunciasse o nome ou se não houvesse papel para anotar, ou ainda se o nome do compositor fosse ininteligível ou a trilha em questão só aparecesse de relance numa determinada cena de filme ou desenho, uma composição magnífica poderia se perder para sempre. E muitas tiveram esse destino triste, vítimas dos abismos da memória, buscadas mais tarde na casualidade da programação radiofônica, das reprises televisivas ou, eventualmente, nos lançamentos em vídeo. Não poucas vezes alugava uma fita para ouvir a música de uma cena específica, e ali me perder em notas que por razões misteriosas ecoavam em minha sensibilidade e diziam algo de sublime à minha alma. Esqueci-as aos borbotões, sem que perdesse de todo a marca que cada uma deixava em minhas emoções. Longe de um mero passatempo, elas podiam se tornar momentos preciosos de introspecção e/ou catarse, e eu me lançava à torrente de sensações e cenas imaginárias que as notas sugeriam, sem palavras nem versos, mas intensas sempre. Da Eroica de Beethoven a uma casual faixa instrumental de alguma banda mais popular, como a própria Legião, os momentos musicais sempre traziam em si alguma promessa de êxtase.

Não obstante, aos poucos fui ouvindo cada vez menos música, limitando-me a alguns CDs espaçados, tocados uma, duas ou três vezes, e ao considerável acervo de meu disco rígido. O engraçado é que, num mar de opções ao meu gosto, eu tendia a ouvir quase sempre as mesmas músicas, uma fração muito reduzida do total, geralmente enquanto fazia alguma outra coisa. As sessões de fruição musical propriamente dita deram lugar a sessões de múltiplas atividades com música ao fundo, o que é um tanto diferente. Quando dei por mim, notando também a evolução deste blog e de minhas leituras, vi-me demasiadamente em prosa. Salvo momentos muito específicos, percebi-me por demais descritivo, analítico, ainda apaixonado pela beleza mas sem a mesma comoção. Uma fruição estética serena, talvez até demais, que só de vez em quando sentia fome de belas notas e do prazer inconfundível que elas podem proporcionar. A energia que tive de dedicar ao saber e aos raciocínios nos últimos tempos -- por força de novos compromissos acadêmicos e profissionais -- de certa maneira ocupou parte do espaço antes destinado à ânsia da beleza pura, outrora mais ativa e perceptível.

Ontem, porém, ao visitar um amigo enlutado, tive uma agradável surpresa. Depois de um longo tempo acomodado ao meu próprio acervo, já tão conhecido, eis que descubro Sigur Rós através de um clipe extremamente lírico. Nunca tinha pensado em explorar outros gêneros começando pela Islândia, a exótica ilha gelada repleta de atividade vulcânica cuja independência "comemorei" em post anterior. Musicalmente, os 300.000 islandeses eram representados por Björk, um ser de outro planeta que já era celebridade o bastante para uma nação ínfima. E apesar disso, numa noite que aparentemente seria marcada pelo travo da melancolia, senti um pouco da velha ânsia, do doce apetite por beleza sonora que quase já não mais associava às produções não exclusivamente instrumentais. Um sinal de que chegou a hora de explorar um mundo novo de musicalidades há muito negligenciadas.

Portanto, aproveitando uma dica do blog da Jaqueline, criei uma nova seção neste blog. Por meio da imagem em flash no menu à direita, meus sete leitores poderão ouvir um pouco do grupo islandês e outros similares, todos representantes de alguma coisa alcunhada de "pós-rock", que, por sua vez, tem uma veia minimalista que me recorda uma trilha recente muito de meu agrado. Aproveito para lhes apresentar também o Last.fm, uma notável rádio virtual gratuita que vale a pena conhecer. É só clicar, registrar-se, baixar um software de pouco mais de 3Mb e reservar algum tempo para brincar em um oceano de possibilidades sonoras.

Quanto a mim, seguirei em busca de um pouco do êxtase que só a música proporciona.

terça-feira, julho 03, 2007

O sexo da União Européia

Um dos motivos pelos quais a Europa ainda é um lugar fascinante.

Pena que não há indicação dos filmes de que as cenas são retiradas. Em todo caso, não deixem de conferir o que o dinheiro dos contribuintes do Velho Mundo tem ajudado a financiar:
http://www.youtube.com/watch?v=koRlFnBlDH0.