sábado, abril 23, 2005

Limites

Primeiro a dor de cabeça. Discreta, a princípio, das que somem sozinhas após alguns minutos. Mas não quis partir, antes foi ficando, e ficando... Logo, a estranha sensação de um areal recém-surgido na garganta lhe fez companhia. Depois, o enfraquecimento da disposição geral, como se a energia habitual estivesse se dissipando. A dor de cabeça agora parece um eco reverberando pelo crânio, acelerando o cansaço físico. Aos poucos, o corpo se ressente da rotina diária e pede repouso mais cedo. A mente parece fazer coro com ele, a custo absorvendo qualquer leitura e fazendo esforço redobrado por um pensamento. Os olhos, exaustos, ameaçam lacrimejar diante de maior concentração. Vêm então os espirros, a tosse e o golpe fatal, a coriza.

O corpo não vai bem. Precisa diminuir o ritmo, encontrar novas forças, realentar-se. Mas não o fará agora. O processo costuma ser lento, gradual, e ainda por alguns dias os sintomas serão um incômodo, eventualmente até um impedimento para certas atividades. Contudo, a mente se rebela. Também cansada, lenta, ela volta seu foco para si mesma e a relativa impotência em que se encontra. Ativa que é no dia-a-dia, cheia, se não propriamente de idéias, pelo menos de fantasias, ela percebe o quão dependente é, prisioneira de uma máquina que não vai bem. A doença avança, toma espaços, vai espalhando suas perturbações pelos vários órgãos e percepções, minando os empreendimentos da mente desconsolada. É difícil criar quando a maior parte da atenção está concentrada no nariz, ou na garganta, ou na testa que parece latejar em ritmo cruel. Ainda assim, ela insiste, procura ignorar os corrimentos, o frio, a dor, o areal, em busca de qualquer coisa que tome sua atenção e a estimule. Quase certamente não virá nenhuma idéia original,mas sempre se pode elaborar com o material já guardado. Ao pensar em alguma atividade, imediatamente registra o protesto do corpo. Ele quer ficar inerte, esperando a recuperação e a cura; ela se recusa a jogar fora seu tempo com tais exigências. Há tanto para se fazer e meditar, e perder tempo com descanso! Não, não é possível. Deixar-se abater por tão pouco! Resistir, é preciso resistir...

Na pouca energia que lhe resta, ela própria se examina e recorda tudo quanto já deixou escapar. Um torvelinho de pequenas memórias se ergue em seu interior, e num lapso ela repassa tudo que poderia ter sido e se esqueceu... As idéias fulgurantes abatidas pela inanição, projetos deixados de lado após os iniciais arroubos de entusiasmo, os poemas de dois versos jamais desenvolvidos, a pintura cuja técnica não se aprendeu, as frases silenciadas, as réplicas brilhantes e tardias, as cobiças tão repetidamente insatisfeitas, as declarações jamais entregues, cartas sinceras escritas apenas com a tinta de intenção e o resultado da fantasia. E, no fundo de tudo, as pilhas de leituras não completadas, ou nem iniciadas, que agora se amontoam em caixas de arquivos e prateleiras já abandonadas; e a noção tristonha, refletida nas fileiras de lombadas familiares, da extensão dos conhecimentos agora esquecidos... Quantos desses fantasmas a rondar os subterrâneos de uma mente em luta com seu próprio hospedeiro? Impossível dizer, seu nome é Legião. E, todavia, cada um desses elementos tão variados — possibilidades de vida e ação — teve o mesmo berço, ao mesmo tempo tão raso e obscuro, de meu próprio ser. Difícil dizer como nascem, menos ainda como vêm à tona. Não obstante, de alguma forma continuam lá, ressurgindo vez por outra em memórias fragmentadas e fugazes, deixando rastros tênues quase nunca seguidos. Do mais radioso lance de inspiração não desenvolvida ao pensamento mais vulgar, todos talvez voltem para seu abismo primordial, a cada dia, em incontáveis horas. Todo um tesouro que se define pela perda, pela falta, pela dissipação. Por aquilo que não pôde ser, nem poderia ter sido.

Após se debater em vão com seus próprios fracassos, é impossível à mente continuar. O mal-estar físico já lhe nubla os pensamentos mais elementares. É preciso recolher-se, e tudo esquecer novamente.

sábado, abril 16, 2005

Apetites

Os apetites são caprichosos. Vêm e vão sem grande lógica, invadem-nos sem pedir licença e, com certa freqüência, vão-se da mesma forma, saciados ou não. Alguns orgulhosos hão de querer dar-lhes uma satisfação póstuma, até exagerada, em compensação à espera que tiveram de suportar enquanto seus apetites lhes estalavam o látego. Que seja. Nem por isso o fenômeno perde em interesse: pois o mesmo indivíduo que num momento se sente bem e auto-suficiente, no outro se aflige por alguma vontade misteriosa que lhe surgiu à cabeça, insistente e sempre a cobrar providências. O objeto é sempre variável, pode ser o mais inocente doce ou a mais arriscada volúpia, mas o processo não muda muito. O desejo é o irmão siamês da razão. Possivelmente o irmão mais forte.

Dentre as incontáveis linhagens dos apetites súbitos, uma me tem sido recorrente de uns tempos para cá. Mais pacífica que a média, é até fonte de prazer — por si mesma, independentemente da saciedade que possa lhe proporcionar. Um paradoxo, sem dúvida, pois a razão fria não distingue muito senso em uma carência agradável, afinal ela é uma lacuna, uma imperfeição momentânea, implica certo grau de sofrimento. Mas o fato está aí, não posso negá-lo. Ele se faz presente a cada vez que a vontade ressurge, que o pensamento se deixa arrastar por esse apetite tão exótico... Refiro-me, naturalmente, à fome de beleza.

Sim, “fome”. Pois não há outra palavra que melhor defina o que tem guiado meus olhos de algum tempo a esta parte. Eles simplesmente têm vagado por pessoas, objetos e lugares em busca do doce pousio que só a simetria de cores e formas confere — aquela sensação adorável que se tem quando fitamos alguma coisa agradável de ver. A seu modo, é uma ponta de felicidade surpreender a beleza, seja qual for a forma que tome. Aliás, forma talvez seja o que menos importe, pois a beleza é sobretudo uma sensação. Ela não reside no objeto da maneira como o senso comum estabelece, “Isto é belo, aquilo não é”. Ela é o primeiro impacto, o deslumbramento, a força misteriosa que faz com que foquemos o olhar em alguma coisa e não mais queiramos desviá-lo. A beleza é justamente o que nos prende nesse momento. Alguns felizardos a encontram por toda parte; outros, mais retraídos, talvez vaidosos, parecem mais exigentes e dizem vê-la apenas em certas condições. Há mesmo quem diga que vê-la sempre é não vê-la jamais. Os filósofos certamente terão escrito algumas dúzias de tratados sobre essa instigante diferença. De minha humilde parte, sei apenas o que sinto, condicionado sabe-se lá por que arremates do coração. E o que sinto é a vontade de mergulhar nessa comoção deliciosa e contemplar sem pudores qualquer coisa que cative os olhos por mais de dois segundos. Olhar, olhar, e, enquanto olho, tentar ver... Pois a beleza tem lá sua audácia: ao mesmo tempo que prende, ela também desafia. Não basta apenas olhar, ela quer ser decifrada. Fitamos um objeto; sentimos a beleza que nos inspira; mas, ao senti-la, também não nos pegamos tentando entender do que ela é feita? Qual o detalhe especial que nos faz distinguir aquele objeto dos demais? O que é o belo ali? Talvez por isso a beleza se caracterize pela demora no olhar, já que precisamos de tempo para matar sua charada. Olhamos, percorremos as linhas, as texturas e cores, voltamos a percorrê-las em seguida, procuramos uma outra forma de organizar esses elementos e, se tudo falha, voltamos prazerosamente ao início do processo. Se não tivermos cuidado, pode se tornar um vício.

Ainda sob o acicate dessa fome visual, perguntei-me mais de uma vez como saciá-la adequadamente. Há beleza de mil formas, mas relativamente poucas permitem uma contemplação mais demorada. As paisagens certamente são as mais favoráveis, mas o corre-corre cotidiano e as obrigações de sempre não facilitam muito que as procure... A beleza humana, essa é particularmente traiçoeira, ao menos quando buscada ao vivo, por razões óbvias. Resta a arte, a eterna companheira dos que têm fome do belo em todas as suas manifestações, dócil e franca, a acolher generosamente os olhos famintos que a vêm visitar.

domingo, abril 03, 2005

João de Deus

E ele se foi. Depois de uma geração, ele se foi. Cresci vendo-o na TV quase toda semana, em capas de bíblias, calendários, escapulários, jornais. Habituei-me à sua voz, à sua batina branca, seu sotaque típico. Lembro-me bem da última vez em que veio ao Brasil, quando centenas de milhares, milhões o saudaram em um Aterro do Flamengo apinhado, em uma impressionante demonstração da força que a fé católica ainda tem nestes tempos de exorcismos televisivos e espiritualidade de shopping center. Embora não mais lhe partilhasse as convicções, tinha-lhe um carinho, uma simpatia pelo homem de branco que corria o mundo atiçando a devoção de tanta gente, encarnando uma tradição milenar que ajudou a moldar nossa civilização. E ele sabia se valer disso, trazendo às pessoas toda a autoridade que sua posição lhe conferia. Mas fazia isso, em geral, de uma forma gentil, simples. Para minha geração, que tem com ele, em sua maioria, alguns pontos de discordância inegociáveis em certas matérias de conduta, ele era, no entanto, o Papa. Não mais um, mas o Papa. Parecia lá desde sempre.
E agora se foi. Relutou, é verdade, e foi longa sua luta com a morte. E agora que ela o levou, ele conseguiu o que parecia impossível -- a mim, que nasci já com ele no Trono de Pedro: fazer com que, por alguns dias, a TV e a mídia em geral abandonassem um pouco suas pautas apelativas e se enchessem de mensagens de fé e veneração, de recolhimento e edificação. E a impressão que me deu, vendo multidões comovidas mundo afora, foi como se, por um momento, o mundo se unificasse em torno do Vaticano, e aquelas mensagens tão simples, que um dia foram a base do império que a Igreja se tornaria, tivessem sido finalmente ouvidas. Por um instante, ao badalar do sinos seculares da Santa Sé, o mundo inteiro converteu-se... E lembrou, ainda inspirado pela estranha coragem de um sacerdote agonizante, de enfim erguer os olhos para o Céu...
E, nesse instante, eu me uni a ele.


sexta-feira, março 25, 2005

Um experimento progressista

Depois de anos debatendo Filosofia Política e assuntos afins em fóruns de discussão na Internet, que foram para mim o que passeatas e organizações estudantis foram para a geração de meus pais, finalmente me aventurei a escrever alguma coisa a respeito. Não lembro de quem foi a idéia, se minha ou do meu caro amigo Felipe Svaluto, mas o fato é que ela surgiu numa janela de ICQ. Debatíamos a legitimidade do sucesso dos famosos Wunderbloggers e começamos a imaginar como seria um empreedimento próprio. Um mote comum era o alastramento de um tipo particularmente pernicioso de direita conservadora pelos meios virtuais brasileiros, em parte liderada por Olavo de Carvalho, e que tem se difundido principalmente entre jovens universitários. Essa corrente tem se espalhado com certa rapidez em sites, fóruns de debates e, mais recentemente, também na blogosfera. Apesar de, na prática, ser um grupo ínfimo, a Internet tem ampliado consideravelmente o seu alcance e feito emergir certas questões e idéias que, qualquer que fosse o seu impacto no mundo real, merecem uma resposta. Em parte constituída de teorias requentadas dos tempos da Guerra Fria, liberalismo econômico a qualquer custo e noções vagas de nome venerável como "civilização judaico-cristã", essa direita raivosa já cativou mais de uma mente talentosa dentre os meus conhecidos. E cativaria ainda mais se não houvesse quem, ao contrário do que tantos intelectuais de torre de marfim que julgam o movimento indigno de sua sapiente atenção, se dão ao trabalho de examinar as idéias do grupo e refutá-las. Afinal, nada mais perigoso que uma idéia sem réplica.

O resultado, após meses de delongas e ajustes, finalmente se materializou em http://osprogressistas.blogspot.com/. Estão todos convidados a conhecê-lo. Serão muito bem-vindos.

domingo, março 13, 2005

Slavery in the 21st Century

The Economist
 
STILL WITH US
Mar 9th 2005 
 
A botched release of slaves in Niger points up an ugly truth: bondage is alive and well around the world
 
SLAVERY is like polio. Most westerners associate it with earlier, darker times in human history. Its eradication is a sign of human progress. And yet despite these perceptions slavery, like polio, has not in fact been eradicated. The fact of modern slavery was brought home again this week by the story of a botched manumission in Niger.
 
Anti-Slavery International, a London-based human rights group, estimates that 43,000 slaves are held in Niger, which the United Nations reckons to be the second-least-developed country in the world. Slaves in the landlocked west African country form a stigmatised, closed class. Even freed slaves carry the taint of their hereditary status, and their former masters or parents' masters may claim some or all of their income, property and dowries.
 
In 2003, Niger finally got around to amending its laws to make slave ownership punishable with up to 30 years in prison. (The practice was outlawed with Niger's independence from France in 1960, but carried no penalty.) Facing jail, a chieftain in western Niger offered to free the 7,000 slaves held by him and his clansmen in a public ceremony, due to take place on Saturday March 5th. But in the week leading up to the event, Niger's government came to fear that a massive release of slaves would draw unwelcome attention to slavery's existence in the country. The government declared that slavery does not exist in Niger, the ceremony was cancelled and the slaves left as slaves. Far from avoiding a public embarrassment, Niger has multiplied its worldwide shame.
 
Niger is far from alone. Its class-based form of slavery exists in neighbouring Chad, Mali and Mauritania, too. In Mauritania, estimates SOS Esclaves, another anti-slavery campaigner, 40% of the population are slaves or ex-slaves, who suffer the same stigma and lack of rights as their brethren in Niger. In Sudan, too, slavery is widespread. Some 14,000 people were abducted and forced into slavery during the country's two-decade-long civil war between the Arab-run government in Khartoum and blacks in the south. Most of these were women and children forced into domestic work and herding. Many children of abductees, fathered by the slaves' masters, in turn become slaves. Around 12,000 Sudanese remain in bondage. And according to a recent UN report, abduction and slavery have been extended to Darfur in western Sudan, where a separate conflict rages.
 
BEYOND CHATTEL
 
Most people associate "slavery" with the transatlantic chattel slave trade that ended in the 19th century as the United States and later Brazil, the biggest recipients of black African slaves, abolished first the trade and then the practice of slavery itself. But slavery persisted, so much so that the UN made 2004 the snappily-titled International Year to Commemorate the Struggle against Slavery and its Abolition. December 2nd 2004 was designated the International Day for the Abolition of Slavery, to commemorate the adoption of a 1949 convention against human trafficking. But that convention is still widely flouted.
 
The form of slavery that perhaps affects the greatest number of people is bonded labour, which is particularly rife in India, Pakistan and Nepal. Desperate workers are given a loan for as little as the cost of medication for a child, and are forced to work to repay the loan and "interest". But no clear contract is offered--the unfortunate bonded labourer often winds up working years to repay such loans, and the bond is even often passed on to children after the original labourer's death. Because of the apparently voluntary nature of the bondage, many do not see it as slavery. But the labourer is often so desperate for a loan, without other sources of credit, that there is little real choice involved. And once bonded, the threat of violence and the limitations on personal freedom involved make the practice in effect no different from chattel slavery.
 
Many other slavery-type practices remain widespread, despite having been forbidden by UN conventions. These include forced marriage, wife-transfer, child marriage and the sale of children for labour. In Brazil, forced labourers clear Amazonian jungle at gunpoint. In western Europe, prostitutes from the former Soviet block are forced to work without any choice of which or how many clients they sleep with, and with the threat or use of force curtailing their freedom. And in the United States, Free the Slaves, another anti-slavery group, found illegal forced labour in at least 90 cities, involving over 19,000 people. The CIA has estimated the number of slaves in America at 50,000. Chinese, Mexicans, Vietnamese and others work against their will in the sex trade, domestic service, farms and sweatshops.
 
In America and Europe, there is at least some hope of recourse to the authorities. India and Pakistan have banned debt bondage but struggle to enforce the law. Sudan is a criminal state actively encouraging rampaging militias. And Niger has been a rickety democracy for just over five years, unable even to admit its problem, much less tackle it. Like many things that should have been stamped out a long time ago, slavery, it seems, is alive and well.
 

See this article with graphics and related items at http://www.economist.com/agenda/displayStory.cfm?story_id=3737154

sábado, março 12, 2005

Marxism of the Right

by Robert Locke

Free spirits, the ambitious, ex-socialists, drug users, and sexual eccentrics often find an attractive political philosophy in libertarianism, the idea that individual freedom should be the sole rule of ethics and government. Libertarianism offers its believers a clear conscience to do things society presently restrains, like make more money, have more sex, or take more drugs. It promises a consistent formula for ethics, a rigorous framework for policy analysis, a foundation in American history, and the application of capitalist efficiencies to the whole of society. But while it contains substantial grains of truth, as a whole it is a seductive mistake.

There are many varieties of libertarianism, from natural-law libertarianism (the least crazy) to anarcho-capitalism (the most), and some varieties avoid some of the criticisms below. But many are still subject to most of them, and some of the more successful varieties­I recently heard a respected pundit insist that classical liberalism is libertarianism­enter a gray area where it is not really clear that they are libertarians at all. But because 95 percent of the libertarianism one encounters at cocktail parties, on editorial pages, and on Capitol Hill is a kind of commonplace “street” libertarianism, I decline to allow libertarians the sophistical trick of using a vulgar libertarianism to agitate for what they want by defending a refined version of their doctrine when challenged philosophically. We’ve seen Marxists pull that before.

This is no surprise, as libertarianism is basically the Marxism of the Right. If Marxism is the delusion that one can run society purely on altruism and collectivism, then libertarianism is the mirror-image delusion that one can run it purely on selfishness and individualism. Society in fact requires both individualism and collectivism, both selfishness and altruism, to function. Like Marxism, libertarianism offers the fraudulent intellectual security of a complete a priori account of the political good without the effort of empirical investigation. Like Marxism, it aspires, overtly or covertly, to reduce social life to economics. And like Marxism, it has its historical myths and a genius for making its followers feel like an elect unbound by the moral rules of their society.

The most fundamental problem with libertarianism is very simple: freedom, though a good thing, is simply not the only good thing in life. Simple physical security, which even a prisoner can possess, is not freedom, but one cannot live without it. Prosperity is connected to freedom, in that it makes us free to consume, but it is not the same thing, in that one can be rich but as unfree as a Victorian tycoon’s wife. A family is in fact one of the least free things imaginable, as the emotional satisfactions of it derive from relations that we are either born into without choice or, once they are chosen, entail obligations that we cannot walk away from with ease or justice. But security, prosperity, and family are in fact the bulk of happiness for most real people and the principal issues that concern governments.

Libertarians try to get around this fact that freedom is not the only good thing by trying to reduce all other goods to it through the concept of choice, claiming that everything that is good is so because we choose to partake of it. Therefore freedom, by giving us choice, supposedly embraces all other goods. But this violates common sense by denying that anything is good by nature, independently of whether we choose it. Nourishing foods are good for us by nature, not because we choose to eat them. Taken to its logical conclusion, the reduction of the good to the freely chosen means there are no inherently good or bad choices at all, but that a man who chose to spend his life playing tiddlywinks has lived as worthy a life as a Washington or a Churchill.

Furthermore, the reduction of all goods to individual choices presupposes that all goods are individual. But some, like national security, clean air, or a healthy culture, are inherently collective. It may be possible to privatize some, but only some, and the efforts can be comically inefficient. Do you really want to trace every pollutant in the air back to the factory that emitted it and sue?

Libertarians rightly concede that one’s freedom must end at the point at which it starts to impinge upon another person’s, but they radically underestimate how easily this happens. So even if the libertarian principle of “an it harm none, do as thou wilt,” is true, it does not license the behavior libertarians claim. Consider pornography: libertarians say it should be permitted because if someone doesn’t like it, he can choose not to view it. But what he can’t do is choose not to live in a culture that has been vulgarized by it.

Libertarians in real life rarely live up to their own theory but tend to indulge in the pleasant parts while declining to live up to the difficult portions. They flout the drug laws but continue to collect government benefits they consider illegitimate. This is not just an accidental failing of libertarianism’s believers but an intrinsic temptation of the doctrine that sets it up to fail whenever tried, just like Marxism.

Libertarians need to be asked some hard questions. What if a free society needed to draft its citizens in order to remain free? What if it needed to limit oil imports to protect the economic freedom of its citizens from unfriendly foreigners? What if it needed to force its citizens to become sufficiently educated to sustain a free society? What if it needed to deprive landowners of the freedom to refuse to sell their property as a precondition for giving everyone freedom of movement on highways? What if it needed to deprive citizens of the freedom to import cheap foreign labor in order to keep out poor foreigners who would vote for socialistic wealth redistribution?

In each of these cases, less freedom today is the price of more tomorrow. Total freedom today would just be a way of running down accumulated social capital and storing up problems for the future. So even if libertarianism is true in some ultimate sense, this does not prove that the libertarian policy choice is the right one today on any particular question.

Furthermore, if limiting freedom today may prolong it tomorrow, then limiting freedom tomorrow may prolong it the day after and so on, so the right amount of freedom may in fact be limited freedom in perpetuity. But if limited freedom is the right choice, then libertarianism, which makes freedom an absolute, is simply wrong. If all we want is limited freedom, then mere liberalism will do, or even better, a Burkean conservatism that reveres traditional liberties. There is no need to embrace outright libertarianism just because we want a healthy portion of freedom, and the alternative to libertarianism is not the USSR, it is America’s traditional liberties.

Libertarianism’s abstract and absolutist view of freedom leads to bizarre conclusions. Like slavery, libertarianism would have to allow one to sell oneself into it. (It has been possible at certain times in history to do just that by assuming debts one could not repay.) And libertarianism degenerates into outright idiocy when confronted with the problem of children, whom it treats like adults, supporting the abolition of compulsory education and all child-specific laws, like those against child labor and child sex. It likewise cannot handle the insane and the senile.

Libertarians argue that radical permissiveness, like legalizing drugs, would not shred a libertarian society because drug users who caused trouble would be disciplined by the threat of losing their jobs or homes if current laws that make it difficult to fire or evict people were abolished. They claim a “natural order” of reasonable behavior would emerge. But there is no actual empirical proof that this would happen. Furthermore, this means libertarianism is an all-or-nothing proposition: if society continues to protect people from the consequences of their actions in any way, libertarianism regarding specific freedoms is illegitimate. And since society does so protect people, libertarianism is an illegitimate moral position until the Great Libertarian Revolution has occurred.

And is society really wrong to protect people against the negative consequences of some of their free choices? While it is obviously fair to let people enjoy the benefits of their wise choices and suffer the costs of their stupid ones, decent societies set limits on both these outcomes. People are allowed to become millionaires, but they are taxed. They are allowed to go broke, but they are not then forced to starve. They are deprived of the most extreme benefits of freedom in order to spare us the most extreme costs. The libertopian alternative would be perhaps a more glittering society, but also a crueler one.

Empirically, most people don’t actually want absolute freedom, which is why democracies don’t elect libertarian governments. Irony of ironies, people don’t choose absolute freedom. But this refutes libertarianism by its own premise, as libertarianism defines the good as the freely chosen, yet people do not choose it. Paradoxically, people exercise their freedom not to be libertarians.

The political corollary of this is that since no electorate will support libertarianism, a libertarian government could never be achieved democratically but would have to be imposed by some kind of authoritarian state, which rather puts the lie to libertarians’ claim that under any other philosophy, busybodies who claim to know what’s best for other people impose their values on the rest of us. Libertarianism itself is based on the conviction that it is the one true political philosophy and all others are false. It entails imposing a certain kind of society, with all its attendant pluses and minuses, which the inhabitants thereof will not be free to opt out of except by leaving.

And if libertarians ever do acquire power, we may expect a farrago of bizarre policies. Many support abolition of government-issued money in favor of that minted by private banks. But this has already been tried, in various epochs, and doesn’t lead to any wonderful paradise of freedom but only to an explosion of fraud and currency debasement followed by the concentration of financial power in those few banks that survive the inevitable shaking-out. Many other libertarian schemes similarly founder on the empirical record.

A major reason for this is that libertarianism has a naïve view of economics that seems to have stopped paying attention to the actual history of capitalism around 1880. There is not the space here to refute simplistic laissez faire, but note for now that the second-richest nation in the world, Japan, has one of the most regulated economies, while nations in which government has essentially lost control over economic life, like Russia, are hardly economic paradises. Legitimate criticism of over-regulation does not entail going to the opposite extreme.

Libertarian naïveté extends to politics. They often confuse the absence of government impingement upon freedom with freedom as such. But without a sufficiently strong state, individual freedom falls prey to other more powerful individuals. A weak state and a freedom-respecting state are not the same thing, as shown by many a chaotic Third-World tyranny.

Libertarians are also naïve about the range and perversity of human desires they propose to unleash. They can imagine nothing more threatening than a bit of Sunday-afternoon sadomasochism, followed by some recreational drug use and work on Monday. They assume that if people are given freedom, they will gravitate towards essentially bourgeois lives, but this takes for granted things like the deferral of gratification that were pounded into them as children without their being free to refuse. They forget that for much of the population, preaching maximum freedom merely results in drunkenness, drugs, failure to hold a job, and pregnancy out of wedlock. Society is dependent upon inculcated self-restraint if it is not to slide into barbarism, and libertarians attack this self-restraint. Ironically, this often results in internal restraints being replaced by the external restraints of police and prison, resulting in less freedom, not more.

This contempt for self-restraint is emblematic of a deeper problem: libertarianism has a lot to say about freedom but little about learning to handle it. Freedom without judgment is dangerous at best, useless at worst. Yet libertarianism is philosophically incapable of evolving a theory of how to use freedom well because of its root dogma that all free choices are equal, which it cannot abandon except at the cost of admitting that there are other goods than freedom. Conservatives should know better.

http://www.amconmag.com/2005_03_14/article1.html

Negro e pobre freqüentam universidade federal

Não é bem isso o que eu via nos meus tempos de universidade pública, mas, enfim, o que é uma constatação individual frente à precisão fria das estatísticas? Mas seria interessante ver em que cursos essas pessoas se concentram.
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http://www.primeiraleitura.com.br/auto/leia.php?id=41520

Pesquisa mostra que acesso às instituições federais de ensino
superior existe mesmo sem política de cotas



Pesquisa realizada pelo Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos
Comunitários e Estudantis (Fonaprace) e pela Associação Nacional dos
Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes),
com o apoio do Ministério da Educação, mostra que boa parte dos
estudantes pobres têm acesso ao ensino público superior e que a
proporção de negros e pardos nas universidades federais é semelhante
à registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) na população do país.

O levantamento, que ouviu 34 mil alunos de 47 universidades públicas
federais, mostra que 42,8% dos estudantes dessas instituições têm
renda familiar até R$ 927 e que 46,2% fizeram o ensino médio em
escolas públicas. "Ao contrário do que muitos acreditam, do mito que
existe, a maior parte dos estudantes das universidades públicas são
das classes C, D e E", afirmou a pesquisadora Thèrèse Hofmann ao
Jornal Nacional.

A pesquisa investigou também como são os estudantes universitários.
Quando indagados sobre a cor da pele, as respostas mostraram que a
quantidade de pretos, pardos e brancos nas instituições públicas de
ensino superior segue praticamente a mesma proporção de habitantes
das cidades do Brasil.

O critério foi o mesmo adotado pelo IBGE: a autodeclaração. Assim,
declararam-se pretos 5,9% dos estudantes, exatamente o mesmo
percentual de pessoas que se autodefiniram como negras na Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2003, do IBGE. Os
estudantes brancos somaram 59,4% do total, pouco mais do que os
52,1% registrados pela Pnad. E disseram-se pardos 28,3% dos alunos
entrevistados. De acordo com o IBGE, 41,4% da população brasileira é
parda.

"O que a pesquisa mostra é que existe, sim, um acesso de negros e
pardos nas universidades, nas instituições federais de ensino
superior. É um mito de que o acesso só é dado a estudantes brancos.
Existe, sim, esse acesso. As características da população
universitária são muito semelhantes às características da população
onde a universidade está localizada", afirmou Ana Maria Nogales,
professora da Universidade de Brasília. O levantamento, no entanto,
não mostrou a proporção de pretos, pardos e brancos por cursos.

O Ministério da Educação considerou o resultado da pesquisa
positivo, mas informou que manterá a política de cotas para as
universidades. O governo determinou a reserva de parte das vagas
para índios, afro-descendentes e estudantes de escolas públicas.

"Representa um avanço dos negros, do seu movimento, da sua
consciência, da sua cidadania. Mas a pesquisa revela um problema com
relação aos pardos, e portanto, esta política não é apenas para a
população negra. Mas para todos os afro-descendentes", justificou
Jairo Jorge, secretário- executivo adjunto do MEC.

Os dados do 2º Perfil Socioeconômico e Cultural dos Estudantes de
Graduação das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), que
serão divulgados na segunda-feira, foram antecipados pelo Jornal
Nacional na noite desta sexta. A da pesquisa visa a oferecer
subsídios para a definição de políticas para o ensino superior
público no Brasil.

O atual levantamento atualiza os dados do primeiro trabalho,
realizado no segundo semestre de 1996. Na época, foram pesquisados
328 mil alunos, e a pesquisa identificou que 44% dos estudantes
matriculados vinham de famílias das classes C, D e E e que 14% deles
demandavam programas de assistência para poder concluir o curso
superior.

sábado, fevereiro 26, 2005

Pílulas do dia

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"Seja sempre um poeta, mesmo em prosa."

Charles Baudelaire


Música para acompanhar: Barcarola, de "Os Contos de Hoffmann", de Offenbach.





quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Doce regresso

Adentrar novamente os muros que me abrigaram por 42 meses de felicidade não poderia deixar de ser um prazer. Rever a pequena multidão ambulante que a todo momento percorre prédios, corredores e jardins, no seu burburinho alegre e interminável; reencontrar velhas faces conhecidas, que, mesmo quando à distância, compuseram minha paisagem favorita por tanto tempo; ouvir mais uma vez o burburinho interminável do campus; sentir a revigorante eletricidade de aulas, debates e da produção de idéias. Talvez em nenhum outro lugar experimente um efeito igual ao da minha universidade-mãe: nela, uma energia misteriosa como que jorra de dentro do cérebro e aciona potências desconhecidas da personalidade. O agito do campus, com sua cornucópia de possibilidades e boas lembranças, é o melhor programa a que poderia aspirar numa noite de quarta-feira.

O motivo do retorno, uma solenidade inócua de premiação monográfica seguida de uma formatura de uma colega, é de pouca monta. Marcante mesmo foi a possibilidade de reencontros que ele ocasionou. Não dos amigos de sempre, dos que estão costumeiramente ao nosso lado, buscando-nos em alegrias e tristezas. Não é desses de que falo. Refiro-me, ao contrário, àquela outra espécie mais fugidia, dos encontros raros e espaçados, que nunca telefona espontaneamente, mas que, quando enfim achada, proporciona muita alegria. O tipo de amigo que é como as efemérides astrais, só aparece quando o cosmo conspira para isso, e nem por isso deixa de nos provocar um sorriso quando o faz. O amigo, enfim, que causa sempre um reencontro memorável, pela raridade com que o proporciona. Não é o amigo do peito, o irmão de todas as horas; tampouco o confidente, que vigia zeloso os nossos segredos e dilemas. Basta que ele faça parte aqui e ali de algumas alegrias comuns, de pequenos grandes momentos de conversas generosas. E assim, como quem nada quer, vai ganhando algum espaço em nossa memória e, se não chega a inspirar propriamente saudade como os outros, também não é esquecido.

Noites assim, todavia, guardam lá suas surpresas, mesmo aquelas, é bem verdade, não tão surpreendentes. Pode acontecer que algo mais do que efusividade marque presença e observar como isso acontece é sempre fascinante. É involuntário, a princípio, mas não tarda a ter uma agradável deliberação: sutil e insistentemente, os olhos começam a gravitar na mesma direção, correr sobre os mesmos traços, estudados com um cuidado que se poderia dizer digno de um artista. A tagarelice torrencial provocada pela familiaridade do ambiente e o “estar à vontade” libertador que ele proporciona logo deixam escapar, no meio de um argumento ou no fim de uma frase, entre cuidadosos parênteses ou como impulsiva interjeição, pequenos elogios irrefletidos, talvez sinceros demais, escorregando inconseqüentes de lábios quase famintos. Nada de arrependimentos, porém. Há aqui uma força em ação, antiga como a espécie, admirável pela astúcia com que contamina gestos, palavras, expressões — criando entrelinhas aqui e ali, quase alardeando a própria presença. Reprimi-la? Para quê? Não há temores na segurança do lar reencontrado. Só o prazer lúdico, a sensação de que naqueles minutos a vida parece mais intensa, com sensações mais vivas e marcantes.

Findas as cerimônias, prêmio entregue e colegas diplomados, a confusão das despedidas. Rever colegas há muito sumidos de vista, cumprimentar os antigos mestres, perder-se por instantes na multidão que dá parabéns, tira fotos, despe becas... Uma algazarra gostosa de se ver. O entusiasmo ainda impregna o rosto de todos.

Hora de partir. Os lábios ainda quase famintos, a alma sorridente. Fartou-se à sua moda, rejuvenescida por seus próprios apetites.

sábado, fevereiro 19, 2005

À musa ausente

"De tanto vigiar, meus olhos acabaram perdendo o sono. Contudo, mesmo que não te encontre, é doce ficar vigiando.

Meu coração se assenta na sombra das chuvas, esperando teu amor. Todavia, mesmo que ele se frustre, é doce ficar esperando.

Eles vão embora, cada um por seu diferente caminho, e me deixam para trás. Porém, mesmo que eu esteja sozinho, é doce ficar à escuta, esperando por teus passos.

A face nostálgica da terra tece as névoas de seu outono e desperta a saudade em meu coração. E, embora seja inútil, mesmo assim é doce para mim sentir a dor da saudade."



Rabindranath Tagore


sábado, fevereiro 12, 2005

Coletânea de terror é clássico das emoções


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Escritora Heloísa Seixas compilou os melhores contos do autor inglês Blackwood, um mestre do horror que é pouco divulgado até em seu país

por SCHNEIDER CARPEGGIANI

Aos 82 anos, o inglês Algernon Blackwood foi convidado para ler na TV uma história assombrada na noite de Halloween. Usando duas câmeras e dois cenários iguais, o diretor do programa conseguiu um feito extraordinário para aquele ano de 1947: fez Blackwood desaparecer, deixando para os telespectadores apenas sua voz em off e sua cadeira vazia ocupando a telinha. No dia seguinte, a repercussão na Inglaterra foi retumbante. E acabou marcando também um dos últimos momentos de glória da carreira desse que foi considerado um dos maiores autores de terror do começo do século 20, hoje em dia, praticamente esquecido. Até mesmo em sua terra natal, seus títulos são difíceis de ser encontrados.

Pelo menos para os brasileiros, Blackwood acaba de receber os créditos merecidos. A escritora Heloísa Seixas compilou e traduziu alguns dos seus principais contos, na coletânea A Casa do Passado. "Eu, que me interesso muito por literatura de terror, jamais ouvira falar dele, até o dia em que comprei num sebo uma antologia de contos assombrados, da editora Modern Library", disse Heloísa, por telefone.

Os fãs de literatura de terror devem lembrar que essa não é a primeira contribuição de Heloísa ao gênero. Ela já organizou Depois - Sete Histórias de Horror e Terror, com textos de autores diversos, como Edgar Allan Poe e o próprio Blackwood; e Visões da Noite, centrado na obra de Ambroce Bierce, escritor que gostava de misturar lendas estranhas com psicopatas em seus escritos. Do seu próprio legado, Heloísa lançou ainda Pente de Vênus, excelente reunião de contos, que comunga os arrepios próprios de uma estória de terror, com outros segmentos, como o mistério e o erotismo.

No texto de apresentação que preparou para A Casa do Passado, Heloísa descreveu de forma magistral o que Blackwood faz com o leitor: "Comecei a ler uma das suas histórias, chamada Os Salgueiros. De repente, como ocorre com os personagens das histórias de fantasmas, lá estava eu, cenho franzido, lábios apertados, mãos úmidas segurando as bordas do livro, uma sensação de arrepio, uma inquietação. Eu estava com medo."

O melhor na literatura de Blackwood é que ela se distancia do clichê de sangue, fantasmas e vampiros. Nela, o medo surge aliado ao drama interno da personagem: ou seja, ele pode existir ou não. Seu texto é permeado por aquela sensação de se estar sozinho em casa e escutar algum barulho, como o som de janelas batendo. Sempre pode ser o vento ou não, tudo depende do seu estado de nervos.

O conto Os Salgueiros, que Heloísa afirmou ter sido o primeiro de Blackwood que teve contato, exemplifica bem o estilo do autor. Dois viajantes acampam em uma ilhota, até então, aparentemente virgem de presença humana. Por todos os lados, uma gigantesca extensão de salgueiros. De uma hora para outra, ambos começam a ter visões e a sentir que seus mantimentos estão sumindo. Está criado um cenário claustrofóbico que Blackwood descreve com calma e muita sutileza.

Outro ponto bem interessante no seu texto são pequenas pinceladas de ficção-científica, gênero ainda bem incipiente naquele começo do século 20.

SEM DENTADAS - Com as suas antologias, Heloísa Seixas está ajudando a divulgar a literatura de terror no Brasil, um gênero que nunca encontrou grande abertura em território nacional. "Não sei citar um grande autor ou obra de terror brasileira. Pode até existir, mas não tenho conhecimento", disse Heloísa.

Fã do gênero desde pequena, a autora afirmou que não tem muito interesse em histórias com monstrengos, como vampiros ou lobisomens. "Prefiro uma abordagem mais psicológica nesse caso, na qual o terror passe pelas emoções da personagens e também por algo que não consegue ser explicado."

Heloísa listou ainda as estórias que mais a arrepiaram na vida: Ruínas Circulares, de Borges; Os Salgueiros, de Blackwood; A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe; e O Túmulo, de Lovecraft.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Tédio

Finalmente os dias do reinado de Momo ficaram para trás e a normalidade aos poucos está retornando. Por alguma razão, no que toca a este blog, os dias de folia foram extraordinariamente estéreis, mas de uma esterilidade perversa: as idéias vinham aos montes, o que faltava era o desenvolvimento. A insistência era inútil. A "fagulha" da inspiração ausentou-se sem aviso e não disse quando voltaria. Enquanto isso, meu cérebro, nem um pouco amigo de folias e desfiles, jazia como terra arrasada, sem erva nem fruto, seco e inerte. O meu mundo interior como que se transformara em um grande deserto, ermo e sem ventos, nem mesmo uma brisa que o movimentasse. E se nada ele produzia, tampouco absorvia qualquer coisa com que se tentasse semeá-lo: não havia leitura que se fixasse nele, idéia nova que ali estabelecesse raízes. Uma fase de absoluta abstinência criativa, em que, a bem da verdade, senti-me emburrecer.

Que inveja de Leopardi, que podia contemplar o infinito na paisagem e mergulhar na Fonte de todas as musas. Neste carnaval ela desertou de mim, e por momentos pude remotamente conceber a imensidão do castigo de Lúcifer quando a Deidade lhe desviou Sua face. Nenhuma solidão é mais absoluta que esta de ser deixado à própria sorte, apenas com os recursos do seu ego, desligado do fluxo incessante da transcendência. "O Inferno", disse uma vez um famoso beneditino brasileiro, "é a ausência de Deus". Ocorreu-me que a secura interna que impede o ato de criar deve ser um dos primeiros sintomas dessa ausência.

Mas fora com os queixumes! Dou a palavra ao bom poeta, para que ele dissipe os miasmas do tédio neste post e leve algum contentamento aos meus parcos e fiéis leitores. Ele será minha apologia por um tema tão insípido.

The Infinite

It was always dear to me, this solitary hill,
and this hedgerow here, that closes out my view,
from so much of the ultimate horizon.
But sitting here, and watching here, in thought,
I create interminable spaces,
greater than human silences, and deepest
quiet, where the heart barely fails to terrify.
When I hear the wind, blowing among these leaves,
I go on to compare that infinite silence
with this voice, and I remember the eternal
and the dead seasons, and the living present,
and its sound, so that in this immensity
my thoughts are drowned, and shipwreck seems sweet
to me in this sea.

Giacomo Leopardi


domingo, janeiro 23, 2005

Para ler em noites de tempestade...



Um dos grandes mestres do terror sobrenatural do século XX, o americano Howard Phillip Lovecraft (1890-1937) criou toda uma cosmogonia aterradora de deuses arcanos e avançadíssimas civilizações pré-humanas. O seu O Chamado de Ctulhu é um dos maiores clássicos da ficção sobrenatural já escritos e ajudou a dar forma a todo um subgênero dentro do campo. Misturando o que viria a ser chamado de “ficção científica” com línguas estranhas, referências histórico-arqueológicas, velhos mitos orientais e uns toques de magia, Lovecraft criou um universo todo próprio, longe do tipo mais comum de horror – aquele que envolve monstros consagrados, geralmente folclóricos, como vampiros, espectros e lobisomens. Em nossa época saturada de imagens, que tirou muito do que esses seres lendários tinham de assustador, o imaginário lovecraftiano continua muito eficiente, praticamente intacto. O motivo? Como o próprio Lovecraft dizia, nenhum medo é tão grande quanto o medo do desconhecido. E disso suas histórias estão cheias...

O universo lovecraftiano deu muitas crias, sendo o grande inspirador de vários filmes B (Reanimator é um dos mais conhecidos -- ou menos ignorados -- aqui no Brasil), histórias em quadrinhos (como a velha revista Kripta) e toda uma linha de RPGs de terror. Recentemente, a Editora Iluminuras começou a lançar traduções das principais obras do velho H.P. e a LPM publicou um seu romance O Caso de Charles Dexter Ward, que tem como tema o típico intelectual recluso aficionado por antiguidades que acaba envolvido numa perturbadora trama de necromancia e segredos de família. Se você acha que Stephen King é o “mestre do terror”, provavelmente andou dando muito crédito à propaganda de editoras e estúdios hollywoodianos. Lovecraft tem um estilo único, e não por acaso é venerado pelos fãs da literatura “escura”.

Foi com grande prazer, portanto, que descobri um repositório de textos em português do pai do mito de Ctulhu. Os arquivos estão em formato PDF e têm todos menos de 500Kb. De quebra, o mesmo site ainda possui uma tradução de Os Salgueiros (The Willows), de Algernon Blackwood, também considerado um mestre da literatura fantástica e ídolo do próprio Lovecraft (admiração que infelizmente não era mútua...). O endereço é: http://www.sitelovecraft.cjb.net.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Diálogo entre o Amor e a Indiferença

Chiaroscuro Rose
He:

Fill your bowl with roses: the bowl, too, have of crystal.
Sit at the western window. Take the sun
Between your hands like a ball of flaming crystal,
Poise it to let it fall, but hold it still,
And meditate on the beauty of your existence;
The beauty of this, that you exist at all.

She:

The sun goes down, -- but without lamentation.
I close my eyes, and the stream of my sensation
In this, at least, grows clear to me:
Beauty is a word that has no meaning.
Beauty is naught to me.
He:

The last blurred raindrops fall from the half-clear sky,
Eddying lightly, rose-tinged, in the windless wake of the sun.
The swallow ascending against cold waves of cloud
Seems winging upward over huge bleak stairs of stone.
The raindrop finds its way to the heart of the leaf-bud.
But no word finds its way to the heart of you.

She:

This also is clear in the stream of my sensation:
That I am content, for the moment, Let me be.
How light the new grass looks with the rain-dust on it!
But heart is a word that has no meaning,
Heart means nothing to me.

He:

To the end of the world I pass and back again
In flights of the mind; yet always find you here,
Remote, pale, unattached . . . O Circe-too-clear-eyed,
Watching amused your fawning tiger-thoughts,
Your wolves, your grotesque apes -- relent, relent!
Be less wary for once: it is the evening.

She:

But if I close my eyes what howlings greet me!
Do not persuade. Be tranquil. Here is flesh
With all its demons. Take it, sate yourself.
But leave my thoughts to me.
Conrad Potter Aiken, 1921

quinta-feira, janeiro 13, 2005

A solitude tem seus prazeres...

Feast
I drank at every vine.
The last was like the first.
I came upon no wine
So wonderful as thirst.

I gnawed at every root.
I ate of every plant.
I came upon no fruit
So wonderful as want.

Feed the grape and bean
To the vintner and monger:
I will lie down lean
With my thirst and my hunger.
Edna St. Vincent Millay