"Seja sempre um poeta, mesmo em prosa."
sábado, fevereiro 26, 2005
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
Doce regresso
Noites assim, todavia, guardam lá suas surpresas, mesmo aquelas, é bem verdade, não tão surpreendentes. Pode acontecer que algo mais do que efusividade marque presença e observar como isso acontece é sempre fascinante. É involuntário, a princípio, mas não tarda a ter uma agradável deliberação: sutil e insistentemente, os olhos começam a gravitar na mesma direção, correr sobre os mesmos traços, estudados com um cuidado que se poderia dizer digno de um artista. A tagarelice torrencial provocada pela familiaridade do ambiente e o “estar à vontade” libertador que ele proporciona logo deixam escapar, no meio de um argumento ou no fim de uma frase, entre cuidadosos parênteses ou como impulsiva interjeição, pequenos elogios irrefletidos, talvez sinceros demais, escorregando inconseqüentes de lábios quase famintos. Nada de arrependimentos, porém. Há aqui uma força em ação, antiga como a espécie, admirável pela astúcia com que contamina gestos, palavras, expressões — criando entrelinhas aqui e ali, quase alardeando a própria presença. Reprimi-la? Para quê? Não há temores na segurança do lar reencontrado. Só o prazer lúdico, a sensação de que naqueles minutos a vida parece mais intensa, com sensações mais vivas e marcantes.
sábado, fevereiro 19, 2005
À musa ausente
Meu coração se assenta na sombra das chuvas, esperando teu amor. Todavia, mesmo que ele se frustre, é doce ficar esperando.
Eles vão embora, cada um por seu diferente caminho, e me deixam para trás. Porém, mesmo que eu esteja sozinho, é doce ficar à escuta, esperando por teus passos.
A face nostálgica da terra tece as névoas de seu outono e desperta a saudade em meu coração. E, embora seja inútil, mesmo assim é doce para mim sentir a dor da saudade."
Rabindranath Tagore
sábado, fevereiro 12, 2005
Coletânea de terror é clássico das emoções
Escritora Heloísa Seixas compilou os melhores contos do autor inglês Blackwood, um mestre do horror que é pouco divulgado até em seu país
por SCHNEIDER CARPEGGIANI
Aos 82 anos, o inglês Algernon Blackwood foi convidado para ler na TV uma história assombrada na noite de Halloween. Usando duas câmeras e dois cenários iguais, o diretor do programa conseguiu um feito extraordinário para aquele ano de 1947: fez Blackwood desaparecer, deixando para os telespectadores apenas sua voz em off e sua cadeira vazia ocupando a telinha. No dia seguinte, a repercussão na Inglaterra foi retumbante. E acabou marcando também um dos últimos momentos de glória da carreira desse que foi considerado um dos maiores autores de terror do começo do século 20, hoje em dia, praticamente esquecido. Até mesmo em sua terra natal, seus títulos são difíceis de ser encontrados.
Pelo menos para os brasileiros, Blackwood acaba de receber os créditos merecidos. A escritora Heloísa Seixas compilou e traduziu alguns dos seus principais contos, na coletânea A Casa do Passado. "Eu, que me interesso muito por literatura de terror, jamais ouvira falar dele, até o dia em que comprei num sebo uma antologia de contos assombrados, da editora Modern Library", disse Heloísa, por telefone.
Os fãs de literatura de terror devem lembrar que essa não é a primeira contribuição de Heloísa ao gênero. Ela já organizou Depois - Sete Histórias de Horror e Terror, com textos de autores diversos, como Edgar Allan Poe e o próprio Blackwood; e Visões da Noite, centrado na obra de Ambroce Bierce, escritor que gostava de misturar lendas estranhas com psicopatas em seus escritos. Do seu próprio legado, Heloísa lançou ainda Pente de Vênus, excelente reunião de contos, que comunga os arrepios próprios de uma estória de terror, com outros segmentos, como o mistério e o erotismo.
No texto de apresentação que preparou para A Casa do Passado, Heloísa descreveu de forma magistral o que Blackwood faz com o leitor: "Comecei a ler uma das suas histórias, chamada Os Salgueiros. De repente, como ocorre com os personagens das histórias de fantasmas, lá estava eu, cenho franzido, lábios apertados, mãos úmidas segurando as bordas do livro, uma sensação de arrepio, uma inquietação. Eu estava com medo."
O melhor na literatura de Blackwood é que ela se distancia do clichê de sangue, fantasmas e vampiros. Nela, o medo surge aliado ao drama interno da personagem: ou seja, ele pode existir ou não. Seu texto é permeado por aquela sensação de se estar sozinho em casa e escutar algum barulho, como o som de janelas batendo. Sempre pode ser o vento ou não, tudo depende do seu estado de nervos.
O conto Os Salgueiros, que Heloísa afirmou ter sido o primeiro de Blackwood que teve contato, exemplifica bem o estilo do autor. Dois viajantes acampam em uma ilhota, até então, aparentemente virgem de presença humana. Por todos os lados, uma gigantesca extensão de salgueiros. De uma hora para outra, ambos começam a ter visões e a sentir que seus mantimentos estão sumindo. Está criado um cenário claustrofóbico que Blackwood descreve com calma e muita sutileza.
Outro ponto bem interessante no seu texto são pequenas pinceladas de ficção-científica, gênero ainda bem incipiente naquele começo do século 20.
SEM DENTADAS - Com as suas antologias, Heloísa Seixas está ajudando a divulgar a literatura de terror no Brasil, um gênero que nunca encontrou grande abertura em território nacional. "Não sei citar um grande autor ou obra de terror brasileira. Pode até existir, mas não tenho conhecimento", disse Heloísa.
Fã do gênero desde pequena, a autora afirmou que não tem muito interesse em histórias com monstrengos, como vampiros ou lobisomens. "Prefiro uma abordagem mais psicológica nesse caso, na qual o terror passe pelas emoções da personagens e também por algo que não consegue ser explicado."
Heloísa listou ainda as estórias que mais a arrepiaram na vida: Ruínas Circulares, de Borges; Os Salgueiros, de Blackwood; A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe; e O Túmulo, de Lovecraft.
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
Tédio
Que inveja de Leopardi, que podia contemplar o infinito na paisagem e mergulhar na Fonte de todas as musas. Neste carnaval ela desertou de mim, e por momentos pude remotamente conceber a imensidão do castigo de Lúcifer quando a Deidade lhe desviou Sua face. Nenhuma solidão é mais absoluta que esta de ser deixado à própria sorte, apenas com os recursos do seu ego, desligado do fluxo incessante da transcendência. "O Inferno", disse uma vez um famoso beneditino brasileiro, "é a ausência de Deus". Ocorreu-me que a secura interna que impede o ato de criar deve ser um dos primeiros sintomas dessa ausência.
Mas fora com os queixumes! Dou a palavra ao bom poeta, para que ele dissipe os miasmas do tédio neste post e leve algum contentamento aos meus parcos e fiéis leitores. Ele será minha apologia por um tema tão insípido.
The Infinite
It was always dear to me, this solitary hill,
and this hedgerow here, that closes out my view,
from so much of the ultimate horizon.
But sitting here, and watching here, in thought,
I create interminable spaces,
greater than human silences, and deepest
quiet, where the heart barely fails to terrify.
When I hear the wind, blowing among these leaves,
I go on to compare that infinite silence
with this voice, and I remember the eternal
and the dead seasons, and the living present,
and its sound, so that in this immensity
my thoughts are drowned, and shipwreck seems sweet
to me in this sea.
domingo, janeiro 23, 2005
Para ler em noites de tempestade...
O universo lovecraftiano deu muitas crias, sendo o grande inspirador de vários filmes B (Reanimator é um dos mais conhecidos -- ou menos ignorados -- aqui no Brasil), histórias em quadrinhos (como a velha revista Kripta) e toda uma linha de RPGs de terror. Recentemente, a Editora Iluminuras começou a lançar traduções das principais obras do velho H.P. e a LPM publicou um seu romance O Caso de Charles Dexter Ward, que tem como tema o típico intelectual recluso aficionado por antiguidades que acaba envolvido numa perturbadora trama de necromancia e segredos de família. Se você acha que Stephen King é o “mestre do terror”, provavelmente andou dando muito crédito à propaganda de editoras e estúdios hollywoodianos. Lovecraft tem um estilo único, e não por acaso é venerado pelos fãs da literatura “escura”.
Foi com grande prazer, portanto, que descobri um repositório de textos em português do pai do mito de Ctulhu. Os arquivos estão em formato PDF e têm todos menos de 500Kb. De quebra, o mesmo site ainda possui uma tradução de Os Salgueiros (The Willows), de Algernon Blackwood, também considerado um mestre da literatura fantástica e ídolo do próprio Lovecraft (admiração que infelizmente não era mútua...). O endereço é: http://www.sitelovecraft.cjb.net.
sexta-feira, janeiro 14, 2005
Diálogo entre o Amor e a Indiferença
Fill your bowl with roses: the bowl, too, have of crystal.
Sit at the western window. Take the sun
Between your hands like a ball of flaming crystal,
Poise it to let it fall, but hold it still,
And meditate on the beauty of your existence;
The beauty of this, that you exist at all.
She:
The sun goes down, -- but without lamentation.
I close my eyes, and the stream of my sensation
In this, at least, grows clear to me:
Beauty is a word that has no meaning.
Beauty is naught to me.
The last blurred raindrops fall from the half-clear sky,
Eddying lightly, rose-tinged, in the windless wake of the sun.
The swallow ascending against cold waves of cloud
Seems winging upward over huge bleak stairs of stone.
The raindrop finds its way to the heart of the leaf-bud.
But no word finds its way to the heart of you.
She:
This also is clear in the stream of my sensation:
That I am content, for the moment, Let me be.
How light the new grass looks with the rain-dust on it!
But heart is a word that has no meaning,
Heart means nothing to me.
He:
To the end of the world I pass and back again
In flights of the mind; yet always find you here,
Remote, pale, unattached . . . O Circe-too-clear-eyed,
Watching amused your fawning tiger-thoughts,
Your wolves, your grotesque apes -- relent, relent!
Be less wary for once: it is the evening.
She:
But if I close my eyes what howlings greet me!
Do not persuade. Be tranquil. Here is flesh
With all its demons. Take it, sate yourself.
But leave my thoughts to me.
quinta-feira, janeiro 13, 2005
A solitude tem seus prazeres...
The last was like the first.
I came upon no wine
So wonderful as thirst.
I gnawed at every root.
I ate of every plant.
I came upon no fruit
So wonderful as want.
Feed the grape and bean
To the vintner and monger:
I will lie down lean
With my thirst and my hunger.
Beggarly Heart
| When the heart is hard and parched up, come upon me with a shower of mercy. When grace is lost from life, come with a burst of song. When tumultuous work raises its din on all sides shutting me out from beyond, come to me, my lord of silence, with thy peace and rest. When my beggarly heart sits crouched, shut up in a corner, break open the door, my king, and come with the ceremony of a king. When desire blinds the mind with delusion and dust, O thou holy one, thou wakeful, come with thy light and thy thunder Rabindranath Tagore |
sexta-feira, janeiro 07, 2005
Ars Poetica
como um fruto redondo
Mudo
como os velhos medalhões ao toque dos dedos.
Silente
como o gasto peitoril de uma janela em que cresceu o musgo
Um poema deve ser calado
como o vôo dos pássaros.
Como a lua que sobe,
um poema deve ser imóvel
no tempo,
deixando, memória por memória, o pensamento,
como a lua detrás das folhas de inverno;
deixando-o como, ramo a ramo, a lua solta
as Árvores emaranhadas na noite.
Um poema deve ser imóvel no tempo como a lua que sobe.
Um poema deve ser igual a:
não a verdade.
Para toda a história da dor,
uma porta franqueada e uma folha de ácer.
Para o amor,
as gramíneas inclinadas e duas luzes sobre o mar.
Um amor deve ser,
e não significar.
quinta-feira, janeiro 06, 2005
Redefinições Semânticas Colhidas Semi-Aleatoriamente no Cotidiano
Ah, não sei [quando iremos sair de novo], estou toda enrolada = Não quero mais ver você.
Deixa que eu ligo para você = Não quero mais ver você.
A gente se fala = Não nos veremos tão cedo.
De seus futuros professores no mestrado:
Vou verificar essa informação para você e entro em contato amanhã mesmo = Eu vou esquecer completamente de verificar e de entrar em contato.
Mande-me seu projeto para revisar antes de inscrevê-lo no concurso = Assim que você me mandar o projeto, eu vou sumir da face da Terra até que seja tarde demais.
Você foi ousado na entrevista = Você disse uma grande bobagem na entrevista.
De um burocrata universitário:
O seu processo é coisa rápida, é de um mês para outro = O seu processo levará pelo menos três meses, com sorte.
O diploma fica pronto em 6 a 12 meses = O diploma fica pronto em pelo menos 18 meses.
De uma simpática moça à porta de uma igreja:
Você é cristão? = Você é protestante?
Religião não salva ninguém = Só minha religião salva.
De uma colega de trabalho:
Olha, eu vou precisar da sua ajuda numa coisinha = Olha, eu vou interromper seu trabalho com algo que poderia perfeitamente fazer sozinha se estivesse a fim.
De sua chefe de renome internacional:
Estou muito feliz que você tenha passado no mestrado e compreendo sua opção pela bolsa e a dedicação integral ao curso = Como você vai deixar seu trabalho aqui? Como pode fazer isso comigo? Eu arranjei esse posto para você [em agosto de 2003] e em outubro [de 2004] você já estava transando esse mestrado! Você tinha que ter me avisado [com ano e meio de antecedência] desses projetos! Como você põe seus interesses profissionais à frente dos meus!?
domingo, janeiro 02, 2005
Pílula Filosófico-Musical
sexta-feira, dezembro 31, 2004
Fim de Ano
Mas nada de desânimo. O ano prestes a se encerrar, é preciso que se escreva alguma coisa. Afinal, 2004 foi o primeiro ano deste blog, para não dizer o primeiro ano de uma série de outras coisas quase igualmente relevantes, tais como a labuta docente, um maior envolvimento com a espiritualidade, a pós-graduação, o esforço pelo mestrado e, é preciso reconhecer, a tal vida de solteiro de que tanto falam por aí. Cada uma dessas coisas renderia páginas e mais páginas de reflexões e ego trips que não cabem aqui. Este não pretende ser um blog biográfico, por mais que a tentação exista e certos posts sejam frutos diretos de uma ou outra experiência. O mundo já tem diários públicos demais e se algum dia um autor excêntrico quiser escrever sobre este que vos fala, terá que recorrer aos bons e velhos registros em papel. Eles ainda têm a virtude da permanência, coisa que este mar de megabytes dificilmente terá. Há também um quê de solidariedade corporativa aí: na remota possibilidade de algum colega historiador ou jornalista do futuro vir a se interessar por mim, por que lhe dificultar a vida com tecnologia digital ultrapassada?
Por efêmera que seja, essa tecnologia teve sua importância em 2004. Não apenas ela permitiu que este espaço existisse — embora deva agradecer a idéia ao meu prezado amigo Felipe Svaluto e seu combativo Warfare State — mas também proporcionou alguns reencontros inesperados, e não apenas para mim. Afinal, este foi o ano do Orkut e da idéia de que vale a pena usar a Internet para promover relacionamentos interpessoais. Idéia antiga, é verdade, até onde este adjetivo se aplica à Rede; mas provavelmente jamais fora testada com tamanha eficiência. É impressionante como algo que exige um tempo enorme de navegação, impõe limites severos à postagem de textos e dá defeito dia sim, dia não, tornou-se objeto de uma verdadeira febre entre os internautas brasileiros. Quando fui convidado para o Orkut, os perfis ainda eram escritos em inglês e os brasileiros eram aproximadamente 20% do total de usuários; agora, ele praticamente se tornou um clube tupiniquim, inundado por gente de todo tipo e pródigo de comunidades tão díspares quanto “Política e Governo”, “Filosofia” e “Isso Só Acontece Comigo”, “Chocólatras” e “Deixem as Formigas em Paz!”. Chegou-se mesmo a fazer da hegemonia brasileira um motivo de orgulho patriótico, nas primeiras reportagens feitas sobre o fenômeno, o que obviamente foi razão para criar mais dúzias de comunidades no próprio Orkut. Um bom tema de pesquisa para os futuros (?) estudiosos de História Digital ou para os antropólogos mais modernizados, sem sombra de dúvida. No que me toca diretamente, porém, além do entretenimento que proporcionou, o Orkut foi um meio interessante para reencontrar conhecidos que dava como perdidos, e fazer alguns mais. Embora jamais tenha chegado às centenas de contatos que tantos orkutianos ostentam, posso dizer que o site fez bem à minha sociabilidade digital. Ou talvez tenha simplesmente digitalizado um pouco mais a sociabilidade de um grande número de pessoas, ao mesmo tempo criando mais um nicho exclusivista. Afinal, se antes havia os internautas e os não-internautas, agora há também os internautas não presentes no Orkut... Para os que apreciam ver a proverbial metade vazia do copo, eis mais uma nobre causa para a lista de reivindicações de justiça digital: “Queremos uma conta no Orkut!” não daria um bom slogan em passeatas?
Mas estou digredindo. É o que dá tentar escrever sem inspiração ouvindo Strauss, algo da frivolidade dos salões vienenses acaba contaminando o resultado. Tudo bem, a espontaneidade é importante para meu futuro biógrafo e, pelo menos neste post, não me preocuparei muito com a profundidade de idéias, se é que a tive em algum outro. Acredito que há ocasiões em que é saudável, como num rodopio oitocentista ao som de Sangue Vienense, deixar-se levar pelos acordes da mente que tanto relutou a se pôr em ação. Estou certo de que os meus escassos e generosos leitores hão de compreender. Neste post derradeiro de 2004, não há muita substância além da pura vontade de continuar escrevendo. Quem nunca se aventurou a fazê-lo por simples prazer, a despeito da superficialidade momentânea das idéias, que atire o primeiro comentário.
Agora que Strauss cedeu lugar a Bach, lembrei-me de que a questão espiritual teve um papel importante neste ano. Não direi muito sobre isso, pois os mais próximos sabem do que se trata e os não tão próximos não estarão interessados. Mas vale registrar que o papel da confiança em algo transcendente — “fé” é um termo já viciado — no fortalecimento do caráter não pode ser subestimado. Que me perdoem os ateus militantes e suas aguçadas observações sobre a capacidade humana de auto-ilusão, mas em nenhuma outra época as visões materialistas me pareceram tão pobres e insatisfatórias quanto nesta. Há muito que me interesso pelas chamadas questões do espírito, seja pelo ângulo da crença propriamente dita ou pelo da comprovação empírica de seus efeitos e princípios, e é uma lástima que não tenha dedicado mais tempo ao seu estudo como gostaria. Enquanto tenho amigos mergulhando nos polissílabos da metafísica hindu ou nas sutilezas da Escolástica, o mais próximo que consegui chegar do assunto este ano foi compulsar um livro de ética 100% secular e outro sobre o mundo muçulmano de uma perspectiva puramente histórica. Demandas acadêmicas me forçaram a centrar o olhar no mundo sensível e imediato, no labirinto da política mundana e na teia complexíssima do mundo do último século, e a transcendência perdeu a primazia para o terreno. Afora livros já de muito lidos e estudados, apenas Hermann Hesse redimiu minha biblioteca de 2004 com um toque de Eternidade. Naturalmente, nem só de leituras se alimenta a espiritualidade de alguém, as experiências do dia-a-dia a alimentam continuamente, e disso não seria justo reclamar. Mas o estudo faz falta, e num campo tão vasto como esse, nenhuma leitura é demais. Infelizmente, a tendência é o agravamento desta situação espiritualmente insalubre durante o mestrado em História, e espero chegar a um maior equilíbrio no próximo ano. Dentre as resoluções de Ano Novo, esta será uma das primeiras da lista.
Pachelbel e seu “Cânon” me fazem lembrar de reencontros, do passado que invade o presente e volta a fazer parte da nossa vida. Em 2004, ele reapareceu de várias formas, em manhãs outonais rotineiras no trabalho, casamentos badalados, conversas de ICQ ou um simples email via Orkut. É agradável ser lembrado pela vida de que se tem uma trajetória e marcos de referência deixados pelo caminho, que por vezes reaparecem. Mais do que isso, ser lembrado também de que desempenhamos um papel similar para outras pessoas. Vê-las novamente, reconhecer velhos sorrisos, vozes e maneirismos, procurando as inevitáveis modificações impostas pelo tempo a elas e a nós, é uma revigorante jornada na memória. E por que não também no próprio conhecimento de si mesmo? Afinal, freqüentemente estão ali os antigos sentimentos se remexendo no íntimo — uma grande simpatia num caso, uma pequena rivalidade adolescente em outro, para citar apenas alguns —, a velha persona querendo emergir. Reencontrar velhos conhecidos é, portanto, reencontrar primeiro a si próprio, e permite reavaliar até que ponto realmente mudamos, se é que houve mudança. É uma oportunidade singular de reflexão e, claro, de retomada ou aprofundamento de amizades. Uma dádiva.
Agora que a música acabou, e os fogos pipocam aqui e ali, é hora de deixar este post e começar a me preparar para a despedida de daqui a poucas horas. Alguém já disse que o Ano Novo é o aniversário de todos os homens. De certa forma, isso o torna superior a todas as outras comemorações em intensidade e partilha. Que saibamos aproveitar a festa e entrar bem em 2005.
Boas Entradas a todos!
quarta-feira, dezembro 29, 2004
Ilusão
Pois Maya nada mais é que a ilusão. Por causa dela sofremos; por causa dela fazemos sofrer aos outros; por causa dela nos desviamos a todo momento da senda da verdade, fascinados por brinquedos efêmeros e tentações pueris que nada significam em nossa eternidade. Sim, porque esse é o preço do jogo de Maya: uma infinitude que se desperdiça em não olhar para si mesma.
Os orientais de há muito nos alertam para essa fera gentil, esse demônio suave que nos sussurra belas palavras e nos mata com suas carícias. Os hindus o personificaram em célebre duelo com Buda. Os seguidores do vitorioso Gautama tentam repeti-lo até hoje, sem o mesmo sucesso.
E por que olhar para essa fábula, essa farsa mitológica de uma cultura distante? Porque nada é mais verdadeiro do que a lição nela encerrada. O poderosíssimo Maya, de abraços cálidos e rugido titânico, é mais do que uma figura de lenda, uma deidade das inúmeras que abundam mundo afora, e sobretudo pela terra dos Vedas. Não. Maya é a mais real das forças cósmicas, a mais palpável e também a mais invisível, oculto em sua onipresença. Como o oceano não é percebido pelos peixes até que sejam retirados da água, assim também não enxergamos esse poder de névoa que nos traga. Maya está em toda parte e em lugar algum.
Não é assim com todos nós? Quantas vezes não nos pegamos esquematizando a realidade, generalizando o mundo, encaixando o infindável torvelinho da vida em sisteminhas próprios disfarçados de verdade? Quantas vezes nossas certezas não são desmascaradas pelos acontecimentos, e percebemos, em retrospecto, a leviandade com que nos deixamos acreditar nisso ou naquilo? Quem nunca se percebeu optando por uma tese, um credo, uma impressão menos por ela mesma do que por uma preferência irracional e quase irresistível, tanto mais forte quanto menos refletida? E, no entanto, em tantos momentos, é ela que ditará nossas ações, nossa visão de mundo, nossos valores.
Há poucos séculos, embriagados por uma nova visão luminosa, algumas das grandes mentes ocidentais creram que a Razão seria o guia messiânico da humanidade. Como um novo Moisés, essa Força Titânica nos libertaria do Egito das paixões desenfreadas, das tradições incontestes, dos abortos do caráter. A fé racional elevaria este horda de desorientados perdidos entre tristezas e violências até a sociedade perfeita, de cujos chafarizes poligonais manariam o leite e o mel para os intelectos famintos e os caracteres mal cultivados. “O mal nasce da ignorância”, decretavam os sábios, prontos para ganhar o mundo para as futuras gerações.
Fracassaram inapelavelmente. O mundo avançou, e a humanidade continuou exercendo sua maldade, agora por meios novos. Os próceres da Razão, em seu entusiasmo, não perceberam que a ignorância a que juraram combater, o vazio interno do qual brotavam a selvageria e o egoísmo, não era de números e teoremas, poemas e gramáticas. Suas raízes eram mais profundas. Não podiam ser arrancadas apenas com raciocínios...
Maya, essa ausência presente, não se funda na racionalidade, e não se curva a ela. A razão é mero instrumento, geralmente brandido às cegas no nevoeiro da ilusão. Sozinha, pode bem pouco, solitário machado a lutar com troncos espessos em uma floresta. Pois Maya se entranha no próprio ser do indivíduo, nas suas sensações, nos seus impulsos, nas suas necessidades imediatas, no que prende a atenção no exterior, no superficial, no que satisfaz, para que não se vá adiante. Áreas, portanto, estranhas à linearidade da razão cotidiana.
Que fazer então? Como vencer essa teia, romper a neblina de impermanências que recobrem o mundo? Talvez ousando na escuridão, no abismo onde a ilusão se aloja e reina. Plantar em seu campo até então largado à intempérie da inconsciência, alimentar seus canais com outras águas, rasgar suas brumas com a luz da consciência possível. Aí, sim, jogando suas próprias forças a nosso favor, é que poderemos derrotar Maya, não destruindo-a, mas aquietando-a o bastante para que possamos abrir os olhos e ver... não o que vemos, não o que percebemos, mas o que é.
domingo, dezembro 26, 2004
Desejo
Viver o desejo sem consumir-se pela sua satisfação, mas também sem desprezá-lo. Permitir-se fincar o pé no presente sem antecipar demasiado o futuro, e deixar-se surpreender pelo próximo minuto, tal como ele é, sem um imaginário “como deveria ser” com o qual ele possa se chocar. Apagar por um pouco toda expectativa, e volver para elas olhos mais livres e penetrantes, não mais embaraçados pelas lentes parciais do desejo. Sentir o apelo delas, mas de fora, ao longe, sem que suas garras toquem o coração. Desprender-se de si mesmo para contemplar o espetáculo caótico de sentimentos, esperanças, esforços e princípios, sem tolher-se pelos “dever” ou pelo querer. Provar com certa alegria o sabor amargo da frustração, quando ela vem, e as dores de crescimento que ela impõe. Gozar com gratidão o prazer disponível, sabendo-o fugaz. Discernir a melancolia das horas alegres, e o consolo oculto nas tristes. E abandonar-se por um pouco à corrente dos acontecimentos, ora gentis, ora cruéis, mas sempre conosco. E jamais esquecer que a vida é um moinho a girar de acordo com nossas ações, e só a negligência enfermiça poderia reduzi-la a uma “ventura” entediada ou uma “tristeza” que não se vai.
Enquanto houver desejo, haverá vontade. Esta é a própria vida.