domingo, outubro 19, 2008

FAITH

Better trust all and be deceived,
And weep that trust and that deceiving,
Than doubt one heart that, if believed,
Had blessed one's life with true believing.

O, in this mocking world too fast
The doubting fiend o'ertakes our youth;
Better be cheated to the last
Than lose the blessed hope of truth.

Frances Anne Kemble-Butler

Pergunta do terceiro milênio

Que é a verdade?

quinta-feira, outubro 09, 2008

Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:

"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela

Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"

Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,

Que, da grega coluna à gótica janela,

Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela."

Mas a lua, fitando o sol com azedume:

"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela

Claridade imortal, que toda a luz resume!"

Mas o sol, inclinando a rútila capela:

"Pesa-me esta brilhante auréola de nume…

Enfara-me esta luz e desmedida umbela…

Por que não nasci eu um simples vagalume?"…

Machado de Assis

Sexo e inteligência

Nerds rejoice: Braininess boosts likelihood of sex



Lonely men ought to flaunt their copies of New Scientist. Women looking for both one-night stands and long-term relationships go for geniuses over dumb jocks, according to a new study of hundreds of university students.

"Women want the best of both worlds. Not only a physically attractive man, but somebody in the long term who can provide for them," says Mark Prokosch, an evolutionary psychologist at Elon University in North Carolina, who led the study.

To many women, a smart man will appeal because he is likely to be clever enough to keep his family afloat. But he may also pass on "good" genes to his children, say Prokosch and his colleagues at the University of California, Davis.

Rather than ask women to rate qualities they seek in men, as other studies had done, Prokosch's team asked 15 college men to perform a series of tasks on camera.

The volunteers read news reports, explained why they would be a good date, and what would be the ramifications of the discovery of life on Mars. They also threw and caught a Frisbee to parade their physical appeal. Each potential suitor also took a quantitative test of verbal intelligence.

Smart is sexy

More than 200 women watched a series of these videos before rating each man's intelligence, attractiveness, creativity and appeal for a short-term or long-term relationship.

While the difference between short- and long-term mates may amount to a boozy decision students face each weekend, it has some evolutionary significance, Prokosch says. In potential husbands, women look for signs that a man might be a good provider and father. In one-night stands, women are on the prowl for little more than good genes, not to mention a good time.

Women proved to be decent judges of intelligence, with their scores generally matching each man's intelligence test results.

As for picking a bed-mate, the men's actual smartness proved a reliable indicator of their appeal for both brief hook-ups and serious relationships – which came as something of a surprise. Other studies have suggested that, for women anticipating short-term relationships, a man's braininess isn't foremost in their minds.

The disparate results may be due to women's lack of awareness that intelligence also affects the attractiveness of candidates for quick flings – how intelligent women perceived a man to be influenced his desirability as a long-term mate much more than his appeal for a one-night stand.

Bright and beautiful

Martie Haselton, an evolutionary psychologist at the University of California in Los Angeles, also notes that although women were good judges of intelligence, they weren't perfect. In many cases, women rated good hook-ups as dunces, when their intelligence scores indicated otherwise.

"There could be aspects of intelligence that we pick up on when we interact with a person and that affect our assessment of them, even if we wouldn't label it as intelligence," she says.

But some things never change. Looks were still a much more powerful predictor of sex appeal than brains. "Women are still going for the hunk," Prokosch says. "If you had an option to pick from five different people, you would pick the most attractive one."

So in a perfect world, women want a Nobel prize winner with movie-star looks. Creativity also proved to be a sought-after trait, and Prokosch's team is currently working on an objective measure of creativity, similar to the intelligence test they used.

However, in a world of limited resources, not every woman gets what she wants, and some are bound to fall for ugly, unintelligent and uncreative men. "There's always other people out there that find everything attractive," Prokosch says.

Journal reference: Evolution and Human Behavior

quarta-feira, outubro 08, 2008

E agora, José?

De http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0810200808.htm

Alencar, o escravista

Cartas do autor a d. Pedro 2º, nas quais defendia o cativeiro no país, são pela 1ª vez publicadas em livro, 140 anos depois

Reprodução

Quadro "Loja de Rapé", aquarela inacabada em que o pintor Jean-Baptiste Debret retrata escravos urbanos no Brasil do século 19

RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

"A escravidão caduca, mas ainda não morreu; ainda se prendem a ela graves interesses de um povo. É quanto basta para merecer o respeito."
Quem vinha a público, em 1867, desejoso de ser ouvido na defesa do cativeiro no país era o romancista José de Alencar (1829-1877). A memória histórica no Brasil, no entanto, silenciaria seus argumentos no século seguinte.
A frase aparece numa das sete cartas públicas em que, naquele ano, o autor de "Iracema" criticou o imperador d. Pedro 2º por propor que o país começasse a pôr fim gradual à escravidão. Só agora, 140 anos depois, elas ganham uma edição em livro, "Cartas a Favor da Escravidão" (ed. Hedra), que chega nesta semana às livrarias.
Embora diversos pesquisadores tivessem conhecimento de sua existência -que era citada em alguns trabalhos- e das posições políticas de Alencar, o conteúdo das cartas não chegou a ser reimpresso. O conjunto não aparece, por exemplo, nas obras completas do autor romântico, organizadas em 1959 pela editora José Aguilar (hoje Nova Aguilar).
No final dos anos 90, a historiadora Silvia Cristina Martins de Souza encontrou as cartas na Biblioteca Nacional, no Rio.
Republicou parte delas numa revista especializada da Unicamp. "Elas não haviam sido reproduzidas no século 20", diz a pesquisadora, que atribui o "esquecimento" do material ao "desconhecimento e desinteresse" sobre a obra de Alencar.
O organizador do livro que vem agora a público, Tâmis Parron, tem opinião diferente.
Ele escreve na introdução aos textos de Alencar que se trata de uma "provável tentativa de expurgar sua memória artística de uma posição moralmente insustentável para os padrões culturais hegemônicos desde o final do século 19".
"É um expurgo? Pode ser. É provável, mas não tenho acesso a documentos que provem essa hipótese", disse o historiador, em entrevista à Folha.
Procurada, a Nova Aguilar não respondeu aos questionamentos sobre a lacuna e sobre a possibilidade de inclusão das cartas em edições futuras (a última, esgotada, saiu em 1965).
As "Novas Cartas Políticas de Erasmo", como foram denominadas, numa referência ao pensador holandês, apareceram num momento de crise internacional da escravidão. Com o fim da Guerra Civil Americana (1861-1865) e da servidão nos EUA, aumentaram as pressões internacionais para que o Brasil, como último país independente da América a mantê-la, pusesse fim à instituição.
No princípio de 1867, o imperador pede que seu gabinete encaminhe ao Legislativo uma proposta de discussão que resulte num prazo para o fim da escravidão.

Instituição necessária
É em reação a essa movimentação de d. Pedro que Alencar argumenta, em suas cartas, contra a extinção por lei de uma instituição que, para ele, deveria acabar como resultado de um processo "natural" de maturação -processo que na Europa, ele diz, levou séculos.
O escritor e político -falava como integrante do Partido Conservador- reconhece que a escravidão já se apresentava "sob um aspecto repugnante", mas completava que "ainda mesmo extintas e derrogadas, as instituições dos povos são coisa santa, digna de toda veneração". "Nenhum utopista, seja ele um gênio, tem o direito de profaná-las. A razão social condena uma tal impiedade." As "razões sociais" do cativeiro no Brasil eram muitas, segundo o autor. Em primeiro lugar, de ordem econômica, já que era pelo trabalho escravo que se mantinha a produtividade das unidades agro-exportadoras do século 19. Depois, política, já que era daí que o Estado tirava recursos para existir.
Mas também "social", já que, segundo Alencar, a instituição no Brasil trazia a promessa de inserção, como cidadão (ainda que parcial), do escravo alforriado e de seus filhos.
Finalmente, num raciocínio pouco usual na época, Alencar, de certa forma prefigurando Gilberto Freyre, autor de "Casa Grande & Senzala", afirmava que a escravidão permitia a existência de uma cultura original no Brasil, fruto da "miscigenação" de costumes entre "brasileiros" e negros africanos.


CARTAS A FAVOR DA ESCRAVIDÃO
Autor: José de Alencar
Organizador: Tâmis Parron
Editora: Hedra
Quanto: preço a definir (160 págs.)

segunda-feira, outubro 06, 2008

O fetiche da teoria

Às vezes alguém ousa dizer o que somente se pensava até então. Considerando o quanto já sofri com essa questão em particular, e me preocupa uma certa tendência das Ciências Sociais e Humanas rumo à ininteligibilidade, penso que esse texto é um sopro de bom senso que merece divulgação. Embora, claro, a teoria tenha seu valor, não pode jamais se converter em um fetiche.

Vale a pena ler o artigo na íntegra. Abaixo reproduzo apenas o início.
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Tirado de http://www.espacoacademico.com.br/089/89pra.htm.

Falácias acadêmicas, 3: o mito do marco teórico

Paulo Roberto de Almeida

1. Tente entender...

Veja, caro leitor, se você consegue entender este filósofo francês, muito lido e muito citado em certos círculos acadêmicos:

“Assim, por um lado, a repetição é isso, sem o que não haveria verdade: a verdade do ente sob a forma inteligível da idealidade descobre no eîdos o que pode se repetir, sendo o mesmo, o claro, o estável, o identificável em sua igualdade a si. E apenas o eîdos pode dar lugar à repetição como anamnésia ou maêutica, dialética ou diática. Aqui a repetição se dá como repetição de vida. A tautologia é a vida, só saindo de si para voltar a entrar em si. Mantendo-se junto a si na mnéme, no lógos e na phoné. Mas, por outro lado, a repetição é o próprio movimento da não-verdade: a presença do ente perde-se nele, dispersa-se, multiplica-se por mimemas, ícones, fantasmas, simulacros etc.” (J. Derrida, A Farmácia de Platão. SP: Iluminuras, 2005, p. 122).

Entendeu, leitor? Provavelmente não, mas não se preocupe, eu também não entendi nada, mas não me preocupo mais com isto: há muito tempo desisti de tentar entender esses filósofos franceses, que converteram em hábito – praticamente uma profissão – os atos de escrever difícil e de falar complicado, apenas para épater la galerie e impressionar o distinto público, no que eles foram, aparentemente, bem sucedidos (alguns ficaram ricos e famosos com toda essa empulhação). Aliás, acredito que esse autor não estava querendo explicar absolutamente nada a ninguém: estava apenas gozando da cara de eventuais alunos e de leitores desprevenidos. No que me concerne, não me deixo impressionar por falcatruas intelectuais.

Agora, considere este outro filósofo francês, ainda mais lido e mais citado nos mesmos meios (provavelmente não pelas boas ou corretas razões), e que se converteu em verdadeiro paradigma das ditas ciências sociais, quando ele, na verdade, é apenas um comentarista filosófico da história (o que não o impediu de monopolizar várias áreas das ciências humanas, impregnando todo o discurso acadêmico durante mais de uma geração):

“Deveríamos fazer uma tentativa de estudar o poder não a partir dos termos primitivos da relação de poder, mas a partir da relação de poder em si, na medida que ela mesma determina os elementos sobre os quais se estabelece: em lugar de pensar em indivíduos ideais aos quais se pede que cedam algo de si mesmos ou de seus poderes para serem submetidos, deveríamos indagar como as relações de dominação podem por si mesmas construir os indivíduos. Da mesma forma, em vez de investigar a única forma, o ponto central ao qual todas as formas de poder derivam como conseqüência ou como desenvolvimento, deveríamos abordar sua multiplicidade, suas diferenças, suas especificidades, sua reversibilidade: estudá-las, portanto, como relações de força que se entrecruzam, se excluem mutuamente, convergem ou, ao contrário, se opõem e tendem a se anular. Em resumo, em lugar de considerar a lei uma manifestação do poder, nos seria talvez mais útil tentar descobrir as diferentes técnicas de coerção que coloca a lei em funcionamento.” (Michel Foucault, trecho do Résumé des Cours; Paris: Collège de France, 1989)

Bem mais compreensível, não é mesmo, caro leitor? Você acha que poderia “trabalhar” com ele, por exemplo, para sustentar a argumentação teórica de algum ensaio acadêmico, talvez “encomendado” ou sugerido pelo seu professor orientador?


sábado, setembro 27, 2008

Aromas

Não gosto de perfumes. Melhor dizendo, não gosto de usá-los, embora não me importe de senti-los em algumas ocasiões especiais -- as fragrâncias femininas quase sempre são bem mais agradáveis. No entanto, normalmente sigo a máxima de Montaigne que diz, "O melhor cheiro é não ter cheiro nenhum". Verdade que ele escreveu isso em fins do século XVI, quando as condições sanitárias e de higiene pessoal na Europa não eram muito exemplares. Porém, mesmo hoje, quando nos habituamos a sair limpinhos e cheirosos de nossos banhos diários (e como esquecemos o privilégio que é ter pelo menos um banho por dia!), a variedade de aromas artificiais usados para causar boa impressão é não raro impressionantemente limitada. Confesso, de minha parte, que nunca senti muita diferença entre os perfumes masculinos no mercado -- com sua notória carga de álcool, como se masculinidade e cheiro de nebulizador tivessem alguma relação. Penso até que uma parte deles, geralmente a mais popular e financeiramente acessível, deveria ser proibida em prol da saúde pública, pois os tipos que empesteiam ambientes fechados e inevitáveis, como ônibus e elevadores, são verdadeiro indutores de náusea. Quem não se contenta com o próprio aroma, que também não busque, para melhorá-lo, essas torturas engarrafadas que se passam por perfumes.

Dito isso, os meus poucos leitores podem imaginar o prazer que me adveio da descoberta de um perfumista que, se não é um montaigniano, o que arruinaria seu negócio, também entendeu um pouco o drama de pessoas nada encantadas com os perfumes comuns. Afinal, quem mais poderia conceber um perfume de "interior de biblioteca" ou de "pavimento molhado"? Será o início de uma revolução estética? Seja como for, três vivas para Christopher Brosius!



domingo, setembro 21, 2008

Precocidade infantil

21/09/2008 - 10h48

Menino de três anos chama ambulância e salva mãe

da BBC Brasil

Um menino de três anos de idade salvou a vida de sua mãe ao ligar para o número de emergência no Reino Unido --999-- depois que ela sofreu um ataque epiléptico, no sábado.

Jack Thompson usou o telefone celular de sua mãe para ligar para os serviços de emergência e disse que ela estava deitada e doente no corredor da casa, e que seu pai estava no trabalho.

A ligação caiu no meio, mas o menino encontrou outro celular na casa e fez nova chamada.

Ele não conseguiu dizer onde morava, mas a segunda ligação permitiu que a telefonista rastreasse sua locação, em Lochgelly, Fife, na Escócia.

O menino de três anos, Jack Thompson, estava em casa com suas irmãs Holly, de dois anos e a bebê Kirsty quando sua mãe sofreu o ataque.

Depois do telefonema, a polícia e paramédicos forçaram a entrada dentro da casa e encontraram a mãe de Jack, Leanne, deitada no corredor de entrada.

Os paramédicos a atenderam e ela está se recuperando em casa.

A polícia elogiou o menino por sua resposta rápida ao incidente. Segundo o inspetor Duncan Ormiston, "sem dúvidas, o pequeno Jack salvou a vida da mãe dele".

"Um menino tão novo ter a presença de espírito não apenas de discar 999, mas de ligar de outro telefone quando acabou a bateria do primeiro, é fenomenal."

"As consequências, caso sua mãe não tivesse recebido ajuda médica imediata, poderiam ser desastrosas, e ela poderia ter permanecido deitada até que seu marido voltasse para casa."

O policial ordenou que fosse enviado um chapéu de polícia com alguns presentes para o menino, que foi nomeado policial honorário do Centro de Contatos.

sexta-feira, setembro 19, 2008

O sonho de Ponce


É lenda conhecida: no século XVI, no auge do entusiasmo pela descoberta do Novo Mundo, um explorador espanhol embrenhou-se na selva em busca de uma fantástica fonte capaz de rejuvenescer quem quer que bebesse de suas águas. Morto alguns anos depois por uma flecha envenenada, Ponce de Léon acabaria entrando para a história menos pelo que realmente fez do que pelo que se passou a acreditar que teria buscado em meio ao ambiente hostil da Flórida. Ele se tornou uma figura mítica, mais uma, dentre tantos aventureiros que ousaram desbravar os mistérios da América. Contudo, 500 anos depois, seu sonho continua tão vivo quanto antes -- como se o ideal da juventude eterna fosse a única coisa que realmente tivesse bebido das águas da Fonte da Juventude.
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El País (do UOL)

19/09/2008
Cremes não evitam envelhecimento

Carmen Girona

A pele é a parte mais maltratada do corpo. Maltratada por excesso de cosméticos, por agressões químicas e pelos excessos de radiação solar a que nos expomos, paradoxalmente, perseguindo a beleza e a juventude. O resultado é um envelhecimento precoce que logo se tenta combater com cremes. Às vezes são anunciadas fórmulas milagrosas que prometem manter a pele jovem e firme. São realmente eficazes ou apenas produtos prazerosos?

A utilidade dos cremes cosméticos é um tema muito controvertido no qual confluem importantes interesses econômicos, campanhas publicitárias agressivas e o prazer do consumidor ao adquirir produtos que supostamente rejuvenescem. Mas neste caso ciência e cosmética não andam de mãos dadas, e embora os cremes básicos dêem luminosidade e mantenham a pele saudável em bom estado nem estes nem os que contêm outras substâncias rejuvenescedoras evitam o envelhecimento da pele. A proteção solar é o único fator da cosmética que influi diretamente no processo de envelhecimento.

"A pele tem uma capacidade de equilíbrio espontânea extraordinária. A partir da puberdade, fabrica uma película hidrolipídica que a protege das agressões externas. E se não for eliminado esse manto benfeitor pelo uso de sabonetes, cremes para maquiar, demaquiar, não há necessidade de cremes", afirma Ramón Grimalt, professor da Universidade de Barcelona e dermatologista do Hospital Clínic de Barcelona. "Há muitos exemplos disso. Todos conhecemos pessoas que por sua natureza têm uma pele fantástica e avós octogenárias com aspecto invejável, que nunca usaram um creme." Peles muito bem conservadas como a de Dolores Martínez, que vive em Granollers, tem 93 anos e nunca usou cremes cosméticos. "Também vemos isso nos homens, que envelhecem na mesma velocidade que as mulheres e na maioria dos casos nunca utilizaram qualquer cosmético", acrescenta Grimalt.

Círculo vicioso

Os cremes hidratantes atuam como uma barreira de proteção contra as agressões externas quando se perde a capa natural. Mas se forem utilizados quando não são necessários essa pele normal pode se transformar em gordurosa, que seria preciso tratar com outro cosmético. O desconhecimento dos usuários, de um lado, e os novos hábitos de higiene da sociedade moderna, alguns deles introduzidos pela indústria cosmética com fins meramente comerciais, por outro, conduzem a uma má utilização desses produtos.

"É um jogo em que primeiro se vende o gel que deixa a pele seca e depois o creme para hidratá-la. Essa tática também foi introduzida na higiene infantil. A pele da criança não produz gordura e só deveria ser ensaboada ao redor do ânus e as mãos, quando estão sujas. Os adultos também não deveriam ensaboar as pernas e os braços, porque o suor nessas áreas não é gorduroso e se elimina com água", afirma Grimalt, que também é presidente honorário da Sociedade Européia de Dermatologia Pediátrica.

A má utilização leva ao desastre, mas também há especialistas que defendem os cosméticos, desde que utilizados adequadamente. Aurora Guerra, chefe da seção de dermatologia do Hospital Universitário 12 de Outubro de Madri e presidente da Seção Centro da Academia Espanhola de Dermatologia e Venereologia (AEDV), concorda que os cosméticos não podem tratar o envelhecimento da pele, mas defende sua utilidade, como declarou no Congresso Nacional da AEDV, realizado em meados de junho em Barcelona.

"Os cosméticos", afirma, "conseguem mais luminosidade, mais firmeza, diminuem a intensidade das rugas e alguns deles fazem desaparecer defeitos como as manchas produzidas pelo sol ou pela idade. Os cremes não podem tratar o envelhecimento, mas ajudam. É verdade que não se pode ter 20 anos aos 50, mas sim os melhores 50", afirma Guerra.

Em relação às moléculas rejuvenescedoras que são acrescentadas aos cremes básicos, embora tenham demonstrado certa melhora na pele, comprovada com testes objetivos (por exemplo, medidas do relevo cutâneo com molde de silicone ou medidas do tempo de reposição epidérmica através de corante ou grau de hidratação), não superaram os severos critérios de avaliação da medicina baseada na evidência.

"Até agora não existe nenhum estudo científico independente que tenha constatado a eficácia de qualquer das substâncias modernas rejuvenescedoras. Se aplicar em uma face qualquer das substâncias que pretendem ter alguma função e na outra se colocar exclusivamente uma mistura de azeite com água, que o que é um creme, na realidade, ao fim de seis meses não há nenhum aparelho em nenhuma universidade do mundo que permita diferenciar qual das duas faces foi tratada com substâncias rejuvenescedoras."

Existem diversos estudos que confirmam isso. Um dos mais recentes foi apresentado no congresso da Academia Americana de Dermatologia realizado em San Francisco em 2007, salienta Grimalt.

Consulta dermatológica

Diante dos dados, dos costumes adquiridos e da ampla gama de cosméticos, o dermatologista é quem pode avaliar melhor se a pele está saudável, se há algum defeito a corrigir e que tipo de produto pode ser benéfico, sempre em função da idade, do estado da pele, dos antecedentes familiares e da dieta praticada. "Às vezes é preferível gastar dinheiro em uma consulta com o dermatologista do que continuar testando produtos que podem ser desnecessários ou mesmo prejudiciais. Não se trata de engordurar a pele, mas de aconselhar e utilizar o que for necessário em cada caso", adverte Guerra.

A percepção de utilidade ou não dos cremes cosméticos depende em boa parte do que se espera deles. Muitas vezes o que se encontra é satisfação, assim como ao comprar uma roupa de marca ou um carro de primeira linha. Mas não as pessoas não devem se enganar. Se quiserem envelhecer devagar, segundo os especialistas, o melhor cosmético é não maltratar a pele e protegê-la da exposição ao sol. E ter consciência, como salienta Ricardo Ruiz, diretor da Clínica Dermatológica Internacional e chefe da unidade da Clínica Ruber de Madri, de que "um creme jamais proporcionará o mesmo efeito que uma cirurgia ou uma técnica de rejuvenescimento".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

domingo, setembro 07, 2008

Inquietante retorno


07/09/2008
Rússia volta a flertar com o stalinismo

Arkady Ostrovsky

"Queridos amigos! O livro que vocês têm em mãos é dedicado à história de nossa terra natal... desde o final da Grande Guerra Patriótica até os nossos dias. Traçaremos a jornada da União Soviética desde o seu maior triunfo histórico até a sua trágica desintegração."

Essa saudação é endereçada a centenas de milhares de crianças das escolas russas que, em setembro, receberão um novo livro de história impresso pela editora Enlightenment e aprovado pelo Ministério da Educação. "A União Soviética", explica o novo livro, "não era uma democracia, mas era um exemplo de uma sociedade melhor e mais justa para milhões de pessoas em todo o mundo". Além disso, durante os últimos 70 anos, a URSS, "uma superpotência gigante que administrou uma revolução social e venceu a mais cruel das guerras", pressionou efetivamente os países ocidentais a prestarem mais atenção aos direitos humanos. Desde o início do século 21, continua o texto, o Ocidente têm sido hostil com a Rússia, adotando uma política de duas medidas.

Se não fosse pelo envolvimento de Vladimir Putin, esse livro provavelmente nunca teria visto a luz do dia. Em 2007, Putin, então presidente russo, reuniu um grupo de professores de história para falar sobre sua visão do passado. "Não podemos permitir que ninguém nos imponha um senso de culpa", foi sua mensagem.

Os anos 90 foram, em grande parte, livres de ideologia na Rússia. O país estava cansado dos grandes planos e muito preocupado com sua sobrevivência econômica. Quando Putin chegou ao poder em 2000, ele disse que a idéia nacional da Rússia era "ser competitiva". Mas então, conforme o preço do petróleo subiu e a Rússia passou a se sentir novamente importante, a necessidade de uma ideologia tornou-se mais urgente. Incapaz de fornecer uma visão ou estratégia para o futuro, o Kremlin voltou-se, inevitavelmente, para o passado.

Numa escolha sugestiva, o livro cobre o período de 1945 a 2006: desde a vitória de Stalin na "grande guerra patriótica" ao "triunfo" do putinismo. Ele celebra todos os que contribuíram para a grandeza da Rússia, e denuncia os responsáveis pela perda do império, independentemente de sua política. O colapso da União Soviética em 1991 é visto não como um divisor de águas a partir do qual uma nova história começa, mas como um desvio desafortunado e trágico que obstruiu o progresso da Rússia.

É fácil demais condenar a manipulação russa da história por motivos ideológicos, ou a restauração do hino soviético por Putin, em 2000.
Mas a verdade é que a maioria dos russos - 77% de acordo com uma pesquisa - acolheu de bom grado a restauração do hino, e pelo menos metade do país vê o papel de Stalin na história como positivo.

Isso leva a outra verdade desconfortável: a versão da história retratada no novo livro é muito mais uma derrota para o liberalismo russo e para os intelectuais liberais - os jornalistas, historiadores e artistas que deveriam se opor à ideologia soviética -, do que uma vitória para Putin. A destruição da União Soviética não gerou uma nova ideologia liberal pós-soviética. A derrota do golpe liderado pela KGB em agosto de 1991, por centenas de milhares de russos que arriscaram suas vidas ao defender o parlamento em Moscou, não se tornou um divisor de águas. Não foi celebrada como o nascimento de uma nova nação, mas meramente como o colapso do velho modelo.

O que aconteceu culturalmente na Rússia nos anos 90 foi um tipo de reação adolescente contra um pai dominador. Ironia e xingamentos inundaram o domínio público. Mas a rejeição elegante da cultura soviética acrescentou pouco à sua compreensão. E ao mesmo tempo em que rejeitaram a cultura soviética, a mídia e a arte popular se engajaram num exercício extraordinário de auto-depreciação. O slogan desses anos parecia ser: "Nós somos os piores."

É fácil perceber como um oficial da KGB ou um aposentado pode sentir que perdeu muito no início dos anos 90. Mas por que os intelectuais e artistas que haviam defendido perestroika e que deveriam ser os mais beneficiados com o colapso da União Soviética também se comportam como perdedores? Um dos motivos é que eles perderam o status especial que tinham durante o regime comunista, e não tinham talento, integridade ou independência suficiente para usufruir de sua nova liberdade. A ironia penetrou em todas as áreas da cultura russa. Os símbolos e slogans soviéticos tornaram-se um campo rico para o pós-modernismo. A história soviética foi estilizada e comercializada antes de ser abordada e estudada apropriadamente. Isso começou no meio dos anos 80 e abrangeu as artes visuais, o teatro e a literatura. Algumas das imagens mais memoráveis vêm de uma série de pinturas de Leonid Sokov, em que Stalin e Marilyn Monroe aparecem em poses amorosas.

Foi divertido, mas nada além disso. Na metade dos anos 90, a cultura russa já estava flertando com a cultura soviética dos anos 30. Um dos destaques da temporada teatral de 1994 foi uma produção estudantil extraordinária de uma comédia de 1934, "A Maravilhosa Fusão", de Vladimir Kirshon. Cheio de sinceridade e energia, a peça era fiel ao período e expressava a ingenuidade e a excitação da juventude soviética antes da Segunda Guerra. Ela não propagava a ideologia soviética, mas estava saturada de nostalgia pelo senso de propósito associado ao idealismo soviético. Ela foi precursora do que se tornou uma onda de nostalgia numa escala muito maior e mais prejudicial.

No mesmo ano do retorno do hino soviético em 2000, o Canal Um reativou um jingle da era soviética para o principal programa de notícias das 9 da noite, o Vremya. Melodias, assim como aromas, podem ser muito evocativos. A melodia assinalou o retorno de uma cobertura noticiosa da era soviética. De fato, era como se o Estado estivesse enviando sinais para o país como um todo - sinais de restauração e revanche. E isso não era mais nenhum jogo ou piada. Os piadistas foram rapidamente removidos. O Kremlim e a KGB - agora chamada FSB e resgatando muito de seu poder perdido - estavam mais sérios do que nunca.

Os ícones da ideologia soviética são revividos não por causa de sua conexão com os ideais bolcheviques, comunistas ou revolucionários - longe disso - mas como símbolos da grandeza imperial russa. A revolução está firmemente fora de moda na Rússia, e o comunismo foi descartado. O mausoléu de Lênin deixou de ser um símbolo nacional há tempos. Durante uma parada militar recente na Praça Vermelha, a pirâmide construtivista projetada por Alexei Shchusev em 1924 para guardar os restos mortais de Lênin foi coberta modestamente com imagens de vitória. Não havia espaço para o bolchevique morto na celebração do renascimento russo. Mas o resgate do hino soviético quebrou um tabu que, para melhor ou pior, existia desde o discurso de Kruschev em 1956 - restabelecendo Stalin como um grande líder nacional. O apelo do ditador não estava no seu passado comunista, mas em seu legado imperial. "O império de Stalin - a esfera de influência da URSS - era maior do que todas as potências da Eurásia no passado, até mesmo do que o império de Genghis Khan", maravilha-se o livro de história.

Stálin ocupa um lugar de honra na história russa moderna, junto com Ivã, o Terrível; Pedro, o Grande; e agora Putin. A Rússia ainda está longe de erigir monumentos para Stalin, mas a aceitação dele como uma figura histórica positiva, ou pelo menos complexa, é um fato estabelecido. Não importa que todas as famílias russas tenham parentes ou amigos próximos que sofreram com o terror de Stálin. O mito é mais forte do que o conhecimento de primeira-mão. A Rússia hoje não é um Estado totalitário, tampouco um Estado socialista. Mas na ausência de uma ideologia liberal própria, o nacionalismo fora de moda, numa roupagem neo-stalinista, tornou-se a força mais poderosa da sociedade russa. Foi essa força que levou os tanques russos para a Geórgia e que amedronta a maioria dos vizinhos do país. No processo de "restauração", a Rússia não voltou ao passado soviético - mas chegou a um novo cruzamento que ameaça seus vizinhos e cidadãos.

Arkady Ostrovsky é chefe de redação da revista The Economist em Moscou.


Tradução: Eloise De Vylder

sábado, setembro 06, 2008

Ainda sobre a questão levantada por Sarah Palin e suas políticas para a educação sexual:

http://firstread.msnbc.msn.com/archive/2008/09/01/1320417.aspx
Aqui, a posição de Palin, que é a mesma do governo Bush: os programas devem focar a abstinência, apenas.


http://www.avert.org/abstinence.htm
Aqui, a explicação dos dois tipos principais de programas atuando nos EUA, e a comparação entre eles.

http://www.newsweek.com/id/157541?from=rss
O histórico de Palin como governadora do Alasca na questão do aborto e de apoio a mães carentes.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Ironia...

Vice de McCain anuncia que filha adolescente está grávida

Sarah Palin e sua filha Bristol
Sarah Palin (E, com a filha Bristol) condena sexo fora do casamento
A Convenção Nacional Republicana, que está sendo aberta de forma discreta nesta segunda-feira, por conta do furacão Gustav, foi sacudida pela notícia da gravidez da filha adolescente de Sarah Palin, a indicada a vice-presidente na chapa comandada por John McCain.

A candidata a vice anuncou que sua filha Bristol, de 17 anos, irá se casar com o pai da criança e se disse muito feliz com a notícia.

Palin, uma cristã devota e mãe de cinco filhos, condena o sexo fora do casamento e é uma ferrenha opositora do aborto.

O anúncio de seu nome como vice de McCain, na última sexta-feira, foi elogiado por líderes religiosos de direita.


Leia na íntegra aqui:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/09/080901_palinfilha_bg_ac.shtml

domingo, agosto 31, 2008

O Manifesto do Macho Beta

"Although his very existence proves that the Beta Male is successful in mating, the natural habitat of the young Beta Male is heartbreak. He doesn’t know that he will eventually prevail, and that in the end, most females will settle, and it is the Beta upon whom she inevitably settles. Almost no Beta will reach his twenties without having had the object of his affection snatched from his grasp by an Alpha male, then when she is cast off, finding himself used as a cushion for her landing and the unwitting springboard for her next launch at the Alpha bachorlorama. The Beta is the trampoline the female world refers to as just friends. Thus, over the eons, the Beta Male has developed a highly developed sense of irony. (Not rhetorical irony, the gentler cousin of sarcasm, but twist of fate, bite you in the ass irony.) Like the bat who can sense the presence of the mosquito by the micro-turbulence caused by the insect’s wings, so can the Beta Male sense a heartbreak coming from the moment he first spots a woman."

Coisa de gênio... Texto completo, em várias partes, aqui: http://bbs.chrismoore.com/viewtopic.php?t=7415.

Uma visão dramatizada do assunto pode ser encontrada aqui: http://weneedgirlfriends.tv/.

quarta-feira, agosto 27, 2008

O outro lado da guerra no Cáucaso

Nem sempre inferioridade militar equivale a ter razão...

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Der Spiegel, pelo portal do UOL

27/08/2008
Tanques da Geórgia contra adolescentes da Ossétia:
a história da resistência de Tskhinvali


Uwe Klussmann
Em Tskhinvali, Geórgia


Quando as forças georgianas avançaram para a capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, no dia 7 de agosto, elas subestimaram a determinação da resistência dos ossetianos. Jovens abriram fogo com Kalashnikovs e adolescentes jogaram bombas de petróleo contra os tanques. O regime local patrocinado pelos russos saiu triunfante.

Qualquer um que queira saber o valor da palavra do presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, basta olhar para a capital da Ossétia do Sul. O aposentado Wachtang Babeyev ainda fala um pouco do georgiano que aprendeu em tempos soviéticos, quando os ossetianos e georgianos viviam juntos em paz, apesar das tensões. Na tarde do dia 7 de agosto, o carpinteiro aposentado estava sentado em seu apartamento na rua Karl Marx assistindo um discurso de Saakashvilli na televisão. As palavras do presidente fizeram-no se sentir esperançoso.

Saakashvilli estava na capital da Geórgia, Tbilisi, e disse que tinha "dado a ordem muito dolorosa de não reagir com fogo" se os ossetianos do sul atirassem contra as forças de segurança da Geórgia. Ele terminou seu discurso com um apelo: "Vamos deter a espiral de medo. Dar uma chance à paz e ao diálogo". Poucas horas depois, Babeyev estava prestes a cozinhar seu jantar quando bombas começar a cair em torno de seu prédio. Ele fugiu para o porão de um bloco ao lado com nove vizinhos. Foi uma noite em branco, assustadora. Horas de bombardeio de artilharia reduziram os prédios a ruínas, destruíram carros e transformaram os jardins em buracos.

Na manhã seguinte, aviões de guerra da Geórgia lançaram bombas para terminar a destruição. Então, os tanques chegaram para "restaurar a ordem constitucional", como disse Saakashvilli - uma ordem que nunca existiu na Ossétia do Sul. Quando a URSS foi dissolvida, três Estados de fato emergiram no território da antiga república soviética da Geórgia: Ossétia do Sul, Abkházia e a nova Geórgia, que conseguiu entrar para a Organização das Nações Unidas com as fronteiras antigas traçadas por Stálin.

Desejo de autonomia
Os ossetianos do sul não conseguem entender as pessoas que os chamam de "separatistas". Eles dizem que nunca romperam com a Geórgia porque nunca se uniram ao novo país quando foi formado após o colapso da URSS. É impossível encontrar qualquer um nesta parte do mundo que imagine seriamente o território como parte da Geórgia no futuro. O que o mundo está rotulando como "separatismo" de fato é o desejo de autonomia de um povo pequeno que foi dividido contra seus desejos.

Nos tempos soviéticos, a Ossétia do Norte - hoje parte da federação russa - e a Ossétia do Sul eram divididas apenas por uma linha administrativa invisível. Desde 1992, contudo, uma fronteira nacional passou a separar irmãos, irmãs, pais e filhos. Tentativas violentas de nacionalistas georgianos de suprimir os ossetianos do sul levaram o povo da montanha a se refugiar dentro de uma república não reconhecida, como se fosse uma trincheira.

Um cessar-fogo foi firmado com a Geórgia em 1992 e trouxe as forças de paz russas para o país, por um pedido tanto dos ossetianos quanto do georgianos. O cessar-fogo durou 12 anos, até que Saakashvilli chegou ao poder em 2004. Assim que foi eleito com uma votação suspeita de 96% e com as bênçãos de Washington, ele começou a fazer discursos calorosos sobre "separatistas criminosos". Um primeiro ataque militar das tropas georgianas fracassou em agosto de 2004 devido à forte resistência da Ossétia do Sul e porque os EUA, diferentemente de hoje, detiveram a aventura de Saakashvilli.

Os invasores que avançaram para a cidade destruída de Tskinvhali na manhã do dia 8 de agosto em jipes americanos vestiam uniformes e capacetes feitos nos EUA. Muitos deles foram treinados por oficiais americanos ou serviram no Iraque ao lado dos americanos.

Eles rapidamente compreenderam que não estavam enfrentando apenas "meia dúzia de separatistas", como tinha alegado Saakashvili. A atitude dos jovens da Ossétia do Sul pode ser resumida pelo que disse a estudante Julia Beteyeva, da Universidade de Tskhinvali, ao Spiegel, em junho de 2004: "Só poderão tirar nossa república nos matando."

Defensores adolescentes
No dia 8 de agosto, grupos de jovens ossetianos, alguns deles com apenas 16 anos de idade, atacaram os tanques georgianos com bombas de petróleo. Os rapazes pegaram rifles Kalashnikovs em arsenais escondidos e combateram os georgianos em grupos ou sozinhos. Ao meio-dia, Alan Ulmbegov, 34, filho de um oficial soviético nascido na cidade de Meiningen no Leste alemão, viu as tropas georgianas chegando. Ele pegou seu rifle em um armário. Sua mãe implorou para que ele não fosse. "Eu quero proteger nosso povo", respondeu e partiu para a batalha. Lemas como "Jovens da Ossétia pela liberdade" e "Vergonha da Geórgia e de seus defensores como o traidor Sanakoyev" tinham sido pintados nos muros da cidade destruída.

Dmitry Sanakoyev, ex-primeiro-ministro da Ossétia do Sul, foi instalado por Saaskashvili como diretor de um governo para a região, que tinha o título inadvertidamente preciso de "Governo Provisório da Ossétia do Sul", e consistia de meia dúzia de aldeias georgianas no território da Ossétia do Sul. Desde então, estas foram destruídas pelo exército russo e pilhadas pelos ossetianos do sul. Grande parte da minoria georgiana fugiu. Sanakoyev era um "empresário" duvidoso, com dívidas nos jogos, uma presa fácil dos estrategistas de Tbilisi. Em julho mesmo, a secretária de Estado americana Condoleezza Rice apertou as mãos de Sanakoyev como se Washington ainda tivesse grandes planos para ele.

Desde a batalha de Tskhinvali, o poder na Ossétia do Sul está nas mãos do presidente Eduard Kokoity. Ele tem um sorriso malandro que talvez tenha adquirido durante os selvagens anos 90, quando o lutador fez fortuna em contratos questionáveis. Seu orçamento não é especialmente transparente e provavelmente consiste mais de transferências russas do que de pobres receitas fiscais locais. Suas forças militares são constituídas de uma milícia que acaba de derrotar os aliados dos EUA.

Os combatentes de Kokoity participaram de um comício na Praça do Teatro, no centro de Tskhinvali. Alguns usavam preto; um segurava uma granada de mão como se fosse uma bola de tênis. Muitos tinham barba e amplos ombros. Um deles usava chinelo e abraçava sua namorada. Eles são a geração de ossetianos do sul que nem falam georgiano, muito menos se sentem georgianos.

"Genocídio contra o pequeno povo ossetiano"
Kokoity, que não é grande orador, descreve a cidade provinciana de 30 mil habitantes como "Stalingrado do Cáucaso". Suas palavras ecoam em torno dos prédios destruídos por bombas do centro de Tskhinvali enquanto grita contra "O regime sangrento da Geórgia" que cometeu um "genocídio contra o pequeno povo ossetiano". Para amainar o sentimento de ódio, ele acrescenta: "Não estamos combatendo o povo georgiano".

Kokoity quer se unir ao palco diplomático internacional. Ele pede à Rússia que reconheça a Ossétia do Sul. Com a maior parte dos ossetianos do sul, Kokoity é cidadão russo. Quando ele fala de independência, ele quer dizer a unificação com a Ossétia do Norte e toda a Rússia. Antes da guerra, ele tinha distribuído cartazes pela região declarando: "A Ossétia é indivisível".

Hoje, Georgi Bagayev, 70, não está muito preocupado com a situação do governo. Quando ele abre a porta que até o dia 7 de agosto conectava sua cozinha com a sala de estar, ele vê uma pilha de destroços.

Uma bomba destruiu a parede externa, e a sala está cheia de destroços e roupas, além de uma foto de sua neta de cinco meses, Alana. A menina sobreviveu ao ataque em sua cidade natal. Ela foi evacuada para segurança da Ossétia do Norte pouco antes do início da guerra.

Tradução: Deborah Weinberg

domingo, agosto 24, 2008

Meditação sobre a vingança

O que você seria capaz de sacrificar para se vingar de quem você odeia? Ou ainda, você seria capaz de aceitar um sofrimento extremo no futuro pelo alívio de uma dor extrema agora?

Essas são algumas das questões fundamentais daquele que provavelmente é o anime mais inteligente e elaborado a que já assisti, Hellgirl (Jigoku Shoujo). Diferentemente de um anime tradicional, não se trata aqui de um herói em sua jornada épica de crescimento em poder e habilidade até um desafio supremo, em temporadas intermináveis de episódios encadeados. Em Hellgirl, os protagonistas mudam a cada episódio e quase não guardam relação -- e não são heróis, mas sim pessoas comuns que se vêem às voltas com situações terríveis, diante das quais aparece a solução tentadora de uma vingança absoluta e imediata: mandar seu algoz/inimigo para o inferno. O problema é o preço dessa vingança. "Quando uma pessoa é amaldiçoada, dois túmulos são cavados", diz a espectral Donzela do Inferno, a Hellgirl do título, que oferece àqueles que recorrem ao seu website movidos pelo ódio um trato tão infernal quanto honesto: o envio imediato do desafeto ao inferno, após tormentos horríveis, com a condição de que o cliente também irá, mas só após sua morte. O que torna o anime tão interessante é que não se trata aqui de um mundo baseado na idéia cristã de justiça: a pessoa visada ou o contratante irão mesmo para o inferno, independentemente de serem pessoas virtuosas ou não. Em Hellgirl, a vingança é um absoluto espiritual que só pode ser combatido pelo perdão entre os adversários -- um bálsamo que raramente se manifesta.

Não é um desenho para crianças, logo se vê. É antes uma meditação sobre a perversidade e o ódio num nível que raramente se vê mesmo na literatura, que dirá num desenho animado. Em sua maioria, os "vilões" são pessoas também comuns, que podem ser bastante cruéis em situações específicas... ou simplesmente incompreendidas por sua suposta vítima. O que dá o mote da série não é a justiça, mas o rancor que tantas vezes se disfarça de indignação virtuosa e exige um tipo de retribuição que pode ser simplesmente desproporcional. Quem quer que tenha um mínimo de sensibilidade filosófica, vai ter muito o que pensar após cada episódio. Como bônus, existem também outros elementos que tornam o desenho uma experiência instigante: a trilha sonora ora melancólica e delicada, ora assustadora, bem adequada aos grandes temas da história; a beleza dos traços utilizados, mais realista dentre os estilos de anime; e, finalmente, as várias referências ao impressionante folclore japonês, rico de criaturas e conceitos tão diferentes daqueles a que estamos acostumados.





Enfim, se você guarda rancor contra alguém, ver Hellgirl pode ser uma forma de repensar sua situação. Mais que sermões e preces, às vezes a melhor forma de se livrar do ódio é ver o que ele capaz de provocar. E nesse ponto, ninguém é mais versado que essa menina espectral de olhos vermelhos e tristes...