sábado, agosto 16, 2008

A legendária memória fotográfica

The Truth About Photographic Memory
It's impossible to recover images with perfect accuracy. The myth of photographic memory.

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59-year-old Akira Haraguchi recited from memory the first 83,431 decimal places of pi, earning a spot in the Guinness World Records.

He must have a photographic memory, right? Not so. According to mounting evidence, it's impossible to recall images with near perfect accuracy.

Certainly, some people do have phenomenal memories. Chess masters can best multiple opponents while blindfolded. Super card sharks can memorize the order of a shuffled deck of cards in less than a minute. But people with Herculean memories tend to be adept at one specific task—i.e., a person who memorizes cards may be inept at recognizing faces.

Alan Searleman, a professor of psychology at St. Lawrence University in New York, says eidetic imagery comes closest to being photographic. When shown an unfamiliar image for 30 seconds, so-called "eidetikers" can vividly describe the image—for example, how many petals are on a flower in a garden scene. They report "seeing" the image, and their eyes appear to scan across the image as they describe it. Still, their reports sometimes contain errors, and their accuracy fades after just a few minutes. Says Searleman, "If they were truly 'photographic' in nature, you wouldn't expect any errors at all."

While people can improve their recall through tricks and practice, eidetikers are born, not made, says Searleman. The ability isn't linked to other traits, such as high intelligence. Children are more likely to possess eidetic memory than adults, though they begin losing the ability after age six as they learn to process information more abstractly.

Although psychologists don't know why children lose the ability, the loss of this skill may be functional: Were humans to remember every single image, it would be difficult to make it through the day.


Psychology Today Magazine, Mar/Apr 2006
Last Reviewed 7 Aug 2008
Article ID: 4040

domingo, agosto 03, 2008

Zen

Pesquisando sobre a China para meus alunos, descobri o mundo de informação que a Wikipédia oferece sobre o assunto, inclusive em português. Ainda não tive oportunidade ou tempo para conhecer melhor a cultura chinesa, pelo não mais do que a média dos espectadores de Jackie Chan e produtos similares. Mas este trecho do artigo sobre o Zen Budismo me chamou a atenção. Lembrei-me do que tantos estudiosos de hoje dizem acerca da linguagem moldar nossa percepção da realidade, e fiquei aqui intrigado sobre como a "desconstrução" de nossos condicionamentos pode ser útil.

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Zazen

Para o Zen, experimentar a realidade diretamente é experimentar o nirvana. Para experimentar a realidade diretamente, é preciso desapegar-se de palavras, conceitos e discursos. E, para desapegar-se disso, é preciso meditar. Por isso, o zazen ("meditação sentada") é a prática fundamental do Zen.

Ao meditar, o praticante senta-se sobre uma pequena almofada redonda (o zafu) e assume a postura de lótus, a postura de meio lótus, a postura burmanesa ou a postura de seiza. Unindo as mãos um pouco abaixo do umbigo (fazendo o mudra cósmico), ele semicerra suas pálpebras, pousando a vista cerca de um metro à sua frente. Na escola Rinzai, os praticantes sentam-se virados para o centro da sala. Na escola Soto, sentam-se virados para a parede.

Então o praticante "segue sua respiração", contando cada ciclo de inspiração e expiração, até chegar a dez. Então o ciclo recomeça. Enquanto isso, sua única tarefa é manter uma mente relaxada, aberta, concentrada mas sem tensão, e estar presente no "agora" do momento, sem se deixar levar por pensamentos ou ruminações. Quando isso acontece, ele volta a se concentrar na contagem. Os praticantes mais experientes, cujo poder de concentração (samadhi) é maior, podem abster-se de contar ou seguir sua respiração. Fazendo assim, eles estarão praticando o tipo de zazen chamado shikantaza, "apenas sentar-se".

A duração de um período de meditação varia de acordo com a escola. Embora o período tradicional de meditação seja o tempo que uma vareta de incenso leva para queimar (de 35 a 40 minutos), escolas como a Sanbo Kyodan recomendam a seus alunos que não meditem por mais de 25 minutos por vez, pois a meditação pode tornar-se inerte. Na maioria das escolas, porém, os monges rotineiramente meditam entre quatro e seis períodos de 30-40 minutos todos os dias. Quanto a leigos, o mestre Dogen dizia que cinco minutos diários já eram benéficos -- o que importa é a constância.

Durante os retiros (sesshins) mensais, porém, as atividades são intensificadas. Com duração de um, três, cinco ou sete dias, a rotina dos retiros prevê de nove a 12 períodos de 30-40 minutos por dia, ou até mais. Entre cada período de zazen, os praticantes "descansam" fazendo kinhin (meditação andando).

quinta-feira, julho 24, 2008

Nosso livro

Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito...
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós os dois!..."

Florbela Espanca

Hayek: verdades e falácias

Na faculdade de História, aprendi na prática que a consulta direta às vezes, conquanto possa ser enganosa se feita sem preparo, é quase sempre iluminadora. Comentaristas, glosadores, notas de rodapé por terceiros, tudo isso pode ser útil, mas não substitui a ida ao original. E por mais que eu sofra ao pensar no quanto já li sobre e não dos grandes filósofos e escritores, tenho de admitir que a tese se sustenta com muita freqüência. E foi o que pensei ao ler o artigo abaixo numa tradicional e muito prestigiada revista de esquerda, Dissent. Tanta gente hoje cita Hayek e Mises como a verdade absoluta sem nunca os terem lido, como outros tantos se referem à Bíblia que não leram, tomando liberdades involuntárias com seu conteúdo!

Falando nisso, o artigo toca em um ponto que sempre me impressionou no discurso dessa direita do pós-guerra, que tem chegado às mentes brasileiras via Internet: o apelo à ladeira escorregadia, uma versão interessante de pregação apocalíptica:

"16. A Ladeira Escorregadia

Definição:
Argumento sugerindo que se nós permitimos que algo aconteça ou comece, consequentemente uma outra coisa acontecerá, com certeza ou boa probabilidade, seguida ainda de outra coisa, e assim por diante, descendo uma "ladeira escorregadia", até chegar a uma situação claramente indesejável.

Exemplo:
(Do mundo político)
'Agora querem registrar armas de uso pessoal. Depois serão todas as armas; e mais tarde vão querer confiscar todas as nossas armas. Será um estado totalmente controlado pela polícia'.

Análise:
Pensando na possibilidade de um 'estado policial', esquecemos que o enunciador não demonstrou a inevitabilidade da seqüência de eventos sugeridos. Se existir qualquer dúvida sobre a conexão entre um evento e outro, não é possível acreditar na enunciação.
"

(Tirado daqui.)

Seguindo essa lógica dos conservadores, fico aqui me perguntando, por exemplo, como é possível os EUA ainda serem uma democracia depois de anos de predominância dos liberals (que lá designam os progressistas, ou uma esquerda democrática, de viés keynesiano, não marxista). Considerando a força com que estes identificam o intervencionismo estatal com o "totalitarismo", fico curioso a respeito de como explicam a si mesmos a resistência democrática americana, ou mesmo a européia -- terra do tão temido e abominado Welfare State. A julgar pelos seus epígonos brasileiros, tenho a forte impressão de que a figura da ameaça (o estrangeiro, o comunista, o liberal) é muito cara a essa vertente de direitista. Aliás, não sou só eu que penso assim...

Aproveitando, embora eu tenha quase certeza de que não mais do que um ou dois de meus incontáveis seis leitores se interessam por idéias políticas em geral, gostaria de recomendar a leitura da Dissent. Há várias como ela na Internet, trazendo artigos interessantíssimos e gratuitos a quem quiser, em todas as cores do espectro político. O site é este: http://dissentmagazine.org.

Enfim, o artigo.
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Winter 2008

Who’s Afraid of Friedrich Hayek? The Obvious Truths and Mystical Fallacies of a Hero of the Right

By Jesse Larner
Right wingers love Friedrich Hayek. The Austrian-British economist is revered by true believers at the American Enterprise Institute, the Cato Institute, the National Review, and the Weekly Standard. Ronald Reagan and Margaret Thatcher cited his ideas as central to the social revolutions they hoped to spark. Antigovernment ideologues admire him as one of those few who kept Adam Smith’s fires burning during the dark reign of John Maynard Keynes in the West; his most famous book, The Road to Serfdom, has sold more than 350,000 copies in the United States alone. And the modern right has enlisted Hayek as a political weapon: Why can’t those loony lefties acknowledge the simple and obvious truths that he understood?



Friedrich Hayek

I try to keep abreast of right-wing thought, so I’d been aware of Hayek for a long time, and aware of his status in certain circles. Recently I decided I should study his work, much as, in my twenties, I decided I really ought to read the Bible. Influential, whether I like it or not.

Hayek was a surprise, in several ways. He’s nowhere near as extreme as his ideological descendants. He admits that there are a few rare economic circumstances in which market forces cannot deliver the optimum result, and that when these occur, the state may legitimately intervene. He recognizes such a thing as the social interest and will even endorse some limited redistributionalism—he goes so far as to suggest that the state ensure a minimum standard of living, an idea that surely embarrasses the good folks at Cato. Politically, Hayek is not the cynic I had braced for. Plainly, transparently—and in stark contrast to many modern conservative intellectuals—he is a man concerned with human freedom. One of the unexpected things in Road is that he writes with passion against class privilege.

Hayek is by no means as rational and irrefutable as the right would have it. Indeed, he is often eccentric. He is a romantic, a serious deficit in a social theorist. Many of his arguments rest on a reductionist idea of socialism, and his conception of the sources of law can only be called mystical. But Hayek is not merely an eccentric mystic. In Road, first published in 1944, he makes a powerful and far-ranging critique of state control of economic life. At least as far as he takes the argument in this book, there isn’t much that thoughtful modern liberals or even democratic socialists who understand the power of markets would necessarily object to—although they might feel that there is more to the story than Hayek acknowledges.

If this seems odd, recall that Keynes wrote of Road, that “it is a grand book. . . . Morally and philosophically I find myself in agreement with virtually the whole of it; and not only in agreement with it, but in deeply moved agreement.” George Orwell wrote, “In the negative part of Professor Hayek’s thesis there is a great deal of truth . . . collectivism is not inherently democratic, but, on the contrary, gives to a tyrannical minority such powers as the Spanish Inquisitors never dreamt of.”

These endorsements may be less solid than they appear. Keynes followed up his seven famous lines of praise with eighty-four little-known lines in favor of expanded economic planning, and Orwell was, after all, a libertarian democratic socialist. But credit Hayek with this: In Road, he thoroughly, eloquently, and convincingly demolishes an idea that virtually no one holds nowadays.

The core of Road is an exploration of why a planned, state-managed economy must tend toward totalitarianism. If this is one’s concept of socialism, it could hardly survive a fair-minded encounter with Hayek. He lays out the complex ramifications of a relatively simple set of ideas, always with their impact on individual agency at the center of his analysis.

His argument takes a familiar classical liberal stance. Economic planning assumes a social goal at which the plan aims. But whose goal? In a society of competing interests—a condition that would describe every human society—any goal, any plan, inevitably favors some interests against others. Who is to say whether the favored interests are “better” for society as a whole? There may be consensus in government, or on a delegated planning board, but this only reflects the consensus of immediately interested parties.

A complex economy is something no person or institution can understand. But it can generate a sustainable order, with a rational allocation of resources, as individuals respond to their own circumstances and make choices as consumers and entrepreneurs, signaling the subjective value that they place on goods and capital stock through the price mechanism: One of Hayek’s most original contributions to economic theory is the insight that economic systems are based primarily on information rather than resources. To plan an outcome and to direct economic inputs and outputs toward this outcome is to stifle the emergence of a spontaneous, democratic response to the needs of the individuals who make up the community—a response that will necessarily have winners and losers, but that will not privilege the vision or depend on the limited information of a governing elite, and that will encourage further experimentation. The responsibility of a government that fosters individual freedom is to set up transparent and impartial rules so that the legal reaction to personal choices can be predicted for all, regardless of social station; to tolerate no privileged access to the law; to provide security; and to protect contracts and private property, so long as doing so does not conflict with the very small set of social assumptions on which there truly is broad consensus (arguably, Hayek’s suggestion that government should be responsible for a minimum standard of living would have fit into this consensus when Road was published.)

When Hayek wrote Road—and this is a measure of how much the world has changed in a short time—he felt he had to defend the idea of a relationship between political liberty and the economic system in which it exists (or doesn’t exist). He points out that any economic master plan would necessarily have to delegate so many important issues of policy to non-elected technocrats as to be inherently antidemocratic, and that a society in which the value of goods and labor were defined according to their utility to the plan would necessarily allow no room for individual choice and subjective valuation. By way of partial illustration of what happens when special interests are imposed on spontaneous order, he observes that the socialists and the traditional conservatives of his day had to a great extent collaborated with one another in carving out spheres of influence, mutually reinforcing monopolies in labor and in markets, and that both of these new models of class privilege had damaging social results. Hayek disapproved of prebendal institutions that increase the wealth and power of an elite—whether that elite be composed of union members, holders of exclusive concessions, or hereditary lords—at the expense of other members of the class in whose interests the elite is supposedly working, and of society at large. He recognized that institutions that interfere with the price mechanism encourage relations of patronage.

TODAY, THESE observations are merely obvious. Yet it is worth pointing out that Hayek understood at least one very big thing: that the vision of a perfectible society leads inevitably to the gulag. Experience should have taught us by now that human societies are jerry-built structures, rickety towers of ad hoc solutions to unforeseen problems. Their development is evolutionary, and as in biological evolution, they do not have natural end-states. They are what they are continuously becoming. Comprehensive models of how society should work reject the wisdom of solutions that work and deny the legitimacy (indeed, from Lenin to Mussolini to Mao to Ho to Castro to Qutb, deny the very right to exist) of individuals who demonstrate anti-orthodox wisdom. Defenders of these models are required by their own rigidity to invent the category of the counterrevolutionary.

To Hayek, this is what socialism, communism, and collectivism—he makes little distinction between them—mean: the dangerous illusion of perfectibility. The only kind of socialism he considers in Road is state-managed, perfect-society utopianism, in which the direction of the economy and all of its inputs and outputs are planned, with the accompanying political and moral degradation that Hayek demonstrates quite convincingly. In many ways, the warnings in Road prefigure those in 1984 and have the same intimate feel for the totalitarian state. This focus on state-led socialism should not be particularly surprising in 1944, and perhaps Hayek (like Arthur Koestler, in a different but not unrelated way) deserves some credit for warning European idealists about the true meaning of the major romantic movement of the postwar period. But other visions of socialism, and other socialistic traditions, were certainly available to Hayek when he wrote. The absence of any consideration of more libertarian, less top-down approaches (the socialisms of Luxembourg, Kropotkin, Proudhon, many others; or of the possibility of nontotalitarian models of social democracy, like those that emerged in Europe after the war) should alert the reader to Hayek’s limitations. Admittedly, Kropotkin’s ideas had little impact on the world of 1944, Stalin’s a great deal.

The omission of these other viewpoints is important nowadays, because Hayek’s ideological descendants often assume, either sincerely or disingenuously, that in a world very different from that of 1944, socialism by definition still means state control of the economy in the interest of perfecting social relations. To Hayek, as to such diverse right-wingers as Ayn Rand, Margaret Thatcher, William F. Buckley, Thomas Sowell, or Phil Gramm, collectivism is defined as something imposed and policed by the state. It is the Borg Hive, the submersion of individual will and agency to the greater good.

For thoughtful democratic socialists, this line of attack is surely an amusing or infuriating distraction. Yes, when they feel like it, right-wingers can dig up someone like “Maoist economist” Raymond Lotta of the Revolutionary Communist Party, who will argue that a completely planned economy is more efficient and more just than the market. Former leftist turned left-basher David Horowitz, for example, loves to do this kind of thing, in the same way that Dinesh D’Souza, with equal intellectual seriousness, recently blamed the attacks of September 11, 2001, on cultural liberalism. But how relevant is the RCP to the ongoing American political debate? Does it represent any school of democratic socialism? The RCP quite explicitly despises liberal democracy.

BECAUSE THEY understand so little about the thoughtful left (and former association doesn’t translate into knowledge; Horowitz and his cohort, like the earlier generation of converts led by Irving Kristol, still think of the modern left as a crypto-Castroite conspiracy), it is hard for many on the right to acknowledge that as a critique of socialism, Hayek’s ideas are limited rather than devastating.

Hayek doesn’t seem to grasp that human beings can exist both as individuals and as members of a society, without necessarily subordinating them to the needs of an imposed social plan (although he acknowledges that the state can legitimately serve social needs, he contradictorily views collective benefits as incompatible with individual freedom). He rejects the very concept of social justice, for much the same reasons that he rejects the arbitrary valuation of labor: in Hayek’s view there is no way to put an objective value on a grievance or to weigh it against other claims. And because he locates all responsibility and agency only at the level of the individual, he sees no way in which any claim can be generalized to society. Hayek’s political philosophy recognizes only negative rights. Positive fulfillment beyond the most basic needs is a matter of individual striving.

Perhaps it is because of this outlook that Hayek does not, in Road, address collectivism as a spontaneous, nongovernmental, egalitarian phenomenon. This kind of socialism does exist, and can certainly fit comfortably within the structures of market capitalism. It has a broad and complicated pedigree. To what extent can Bakunin’s unbalanced idealism or Emma Goldman’s exasperating individualist anti-authoritarianism still speak to us today? (In philosophy, if not in economics, she and Hayek had more in common than either might wish to acknowledge: “The individual is the true reality in life. . . . he does not exist for the State, nor for that abstraction called ‘society,’ or the ‘nation.’ . . . Man, the individual, has always been and, necessarily is the sole source and motive power of evolution and progress,” wrote Goldman in a 1934 pamphlet, “The Individual, Society and the State.”) In a more cautious age, perhaps some of the ideas of the zealots of libertarian collectivism can be salvaged through modern synthesists like David Ellerman, who understands the theory of surplus value as well as the power of markets. What happens when free people, living under a limited government that respects their right to make choices, band together to form an egalitarian corporation in which all are entitled to the full value of their labor—including the right to make decisions about how to reinvest or otherwise dispose of the fruits of that labor—and who then stand or fall together, on their ability to provide products or services whose value is assessed by the market?

Even a brief survey will show that there are all kinds of imaginative ways in which libertarian collectivism can coexist with capitalism and markets. There’s the example of fishing co-operatives, in which investors and crew are paid in shares of the catch—a form of economic organization that is found wherever fishing is pursued as a way of life, and which has ancient origins. Consider those “fair trade” coffee collectives, from Guatemala to Ghana, that negotiate a common interest within a market environment. Or the Argentine workers who are buying out—or taking over—their factories. What about the original ethos of the kibbutz, explicitly socialist, collectivist, voluntarist, democratic (in both the political and the personal sense), and engaged with a free market? The right-wingers have never quite known what to do with the kibbutzim. Even, to come down a notch, think of corporate stock ownership plans or the limited employee ownership of companies like Avis or United Airlines.

To present this model is not to express any opinion on the practicality of libertarian collectivism. It is a comment on the narrowness of Hayek’s terms. This is a socialism that is not incompatible with democracy, markets, or liberty. It is not subject to the perfectionist fallacy. And, to a great extent, it avoids the subtle, ambient humiliations of other models of the market.

IT IS A BIT chilling to read the words of the British socialists quoted by Hayek—E.H. Carr, C.H. Waddington, Sir Richard Acland, H.J. Laski—who, when Hayek wrote, were calling complacently for what can only be read as an enlightened totalitarianism, even in the shadow of Hitler. And Hayek is very convincing, and most interesting, when discussing the romantic roots of German antiliberalism and of the illiberal statism of the left and right. But this does not mean that public disbursements in the social interest necessarily start us down a slippery slope to the totalitarian state, and Hayek, in suggestively conflating government spending with government planning, pulls a bit of a sleight of hand in Road. With more than sixty years between us and the first edition, we are able to put his ideas to some empirical tests. In fact, various episodes of Labour government in Britain—and the British Labour party of the 1920s and 1940s was no watered-down “third way” Blairite party—did not destroy British democracy. Nor did the New Deal in the United States. In a rebuttal of the government spending part of Hayek’s thesis, economic historian Rick Tilman points out that civil liberties in the United States expanded dramatically from the New Deal through the Great Society. Democracy turned out to be a lot stronger than Hayek expected. Perhaps he never quite escaped his Austrian roots. Although he frequently acknowledges that culture and institutions matter at least as much as economic policies, he never seems to notice that the countries he studied in which totalitarianism flourished were all countries in which there had never been a culture of liberal democracy.

Tilman notes that Hayek does not say what particular level of government spending must lead to totalitarianism, and because Hayek does not reject government involvement in the economy in principle, it’s hard to pin him down here. Suffice it to say that he’s much more convincing on planning than on spending. One can come away from Road still convinced, for example, that there is no reason for democratic, market-respecting socialists to reject the benefits of a national health care system, which could be handled as social insurance without involving government in services. Of course, a classical liberal would argue that single-payer health care funding would amount to controlling inputs and outputs by other means. But it is possible to imagine market forces at work under a social insurance plan, and the market distortions could not be greater than those produced by the health maintenance organizations we have now. In any case, no one argues that a government monopoly in a specific sector vital to the national interest—the military, say—must lead to totalitarianism. Because the benefits of socialized medicine have been so apparent in Western Europe and in Canada, without any erosion of political freedoms, to deny them would be to put a free-market ideology above empirical evidence. Indeed, now that polls show that a plurality of Americans support such a plan above any other proposal, it may well be in the domain of public consensus that Hayek acknowledges to be a legitimate focus of policy. The only question is whether the parochial interest associations in the world of for-profit medicine will be able to defeat it.

WHEN HAYEK strays from discussing the evils of the planned economy he becomes markedly less convincing, and the political strength of for-profit medicine rather ironically suggests something that Hayek misses about spontaneous collectivist tendencies. This is the unfortunate but inevitable tension between institutional rent-seeking and civil society. Yes, it is true that unions and chambers of commerce and gun enthusiasts and environmentalists and industrial sectors and doctors and lawyers and Indian casinos will band together and attempt to capture the machinery of government to further their own particular interests, often—usually—at the expense of rivals who are locked out of participation (and of the social and economic choices of individual citizens). Hayek’s solution is to deny the legitimacy of any movement to impose restraint on competition. The paradox is that forming spontaneous associations for the collective good of insiders seems to be a universal human activity. When individuals are free to make choices, this is invariably what they choose to do. Hayek’s principle might be sound, if applied universally, which it could never be. The practice would devastate civil society, and with it democracy. And in the real world, most of Hayek’s admirers have been content to thunder against unions while indulging industrial lobbies. Perhaps the best that we can hope for is some reasonable restraints on outright collective gangsterism of the left or the right, monitored, assessed, and readjusted as necessary. Democracy is a ramshackle structure.

It is curious that Hayek, although he argues for spontaneity and innovation in economic relations and against the arbitrary direction of social or economic life, seems very uncomfortable with this democratic ramshackle-ness, with the truth of that old adage about legislation and sausages. In Law, Legislation, and Liberty, he sees a great evil in allowing legislative bodies to address specific measures rather than abstract, general rules—and sees in majority rule the creation of a government of unlimited powers, which can override any general rule for a specific purpose. What, then, are constitutions for?

In The Constitution of Liberty, Hayek directs a great many words against laws designed with a specific purpose or remedy in mind—what modern conservatives call “outcome-based” legislation. He proposes the strict separation of the power to make rules from the power to dispose of resources, since otherwise conditions are created for bargaining between competing factions in the interest only of maintaining a power share, thus diluting some reified “will of the people.” Isn’t it a bit odd to assume that such a thing can exist in measurable form—or that it would take concrete expression in some way other than the vulgar partisan horse trading that Hayek decries? The concept of a legislature that can express an abstraction such as the “will of the people” in its everyday actions is the perfectionist fallacy writ large.

Hayek’s concept of the sources of legal legitimacy is even more problematic. He wisely rejects “natural law,” which amounts in practice to the idea that the universe inherently supports one’s own view of justice. Yet he finds the foundation of law in emergent common rules of conduct that predate human society and make it possible (Hayek calls this nomos, after the Greek, as opposed to thesis, the body of positive law). The articulation of the nomos by judges is merely “[the correction] of disturbances of an order that has not been made by anyone and does not rest on the individuals having been told what they must do . . . the judge is in this sense an institution of a spontaneous order.”

So to Hayek, the common law is a spontaneous phenomenon, without obvious human direction. In a sense law is related to custom in this manner, but there is no guarantee that honoring this concept of the nomos leads to an enlightened condition of liberty. Isn’t the barbaric (I use the word with no relativistic embarrassment) practice of female genital mutilation derived from this sort of nomos? Hayek is susceptible to this mistake precisely because he is distrustful of all human attempts to define authority and so prefers a mystical, holistic origin for it. I did begin this essay by remarking that Hayek is a romantic.

In titling his individualist manifesto The Road To Serfdom, Hayek clearly was equating collectivism with a tendency to slavery. It is surprising that he apparently did no research on the historical roots of serfdom. For serfdom in Russia came about through the loss of collective solidarity, as free peasant communes, starting in the mid-fifteenth century, first lost their community right to negotiate terms with estate holders throughout the year, except on St. George’s Day; then saw this exception suspended, and finally terminated by decree. With no bargaining power, and with the state on the side of its aristocratic vassals in underpopulated rural Russia, the peasants became the property of the estate and later of the manorial lord.

The ineptitude of Hayek’s title suggests the shallowness with which he has considered patterns of collective life in human societies. No doubt this statement would shock his many disciples, for Hayek produced mountains of paper on a great many aspects of social life, writing not only on economics and law but in the fields of cognition, philosophy, social psychology, and biography. In most of this work he shows a tendency to an abstract idealism that it is hard to imagine as compatible with actual human social life, and with the exception of his powerful critique of the planned economy, his ideas have not been resoundingly vindicated by historical experience. This is not what those who honor Hayek as the valiant individualist who destroyed the intellectual foundations of the left would like to believe. To them, Hayek is the author of universal truths, and he has taken on the status of a prophet. The rest of us, I hope, have learned to be wary of prophets.

Jesse Larner is the author of Mount Rushmore: An Icon Reconsidered (Nation Books, 2002) and Forgive Us Our Spins: Michael Moore and the Future of the Left (Wiley and Sons, 2006).



segunda-feira, julho 21, 2008

Humor (muito) antigo




O barbeiro tagarela pergunta ao cliente:
"Como devo cortar sua barba?" E o cliente responde: "Em silêncio"

Piada grega compilada no século IV ou V. Mais algumas aqui.

Novos tempos...


Se até isso mudou, o que mais nos espera?

domingo, julho 20, 2008

Relíquias mesopotâmicas e uma notícia ambígua

Admito o risco de ser taxado de desumano, mas o que mais me doeu na invasão do Iraque em 2003 não foi o número de mortos, até por ser, à época, altamente especulativo. Também não foi o sofrimento imediato dos iraquianos, esperados em qualquer guerra, mesmo aquelas muito rápidas -- e nada levava a crer que a resistência baathistas se tornaria o que se tornou. O que realmente me apertou o coração e me deu idéia do quanto uma guerra pode ser horrível foi um outro tipo de vítima: tesouros arqueológicos.

Lembro-me bem de uma campanha virtual e algumas notícias de jornal acerca do que havia acontecido com o Museu de Bagdá naqueles dias conturbados. Coleções milenares haviam desaparecido, artefatos preciosos que haviam sobrevivido a impérios e destruições sem conta haviam desaparecido, profanados por bárbaros aproveitadores debaixo do nariz omisso das forças estrangeiras. Parte da história humana havia finalmente morrido ali, e me pus em luto por ela.

Agora, encontro casualmente no Wall Street Journal uma notícia ambígua. Estou feliz por as perdas terem sido muito menores, embora tenham de fato ocorrido; por outro lado, fico pensando no como algo assim foi divulgado com tanta certeza aqui no Ocidente. É como descobrir que se chorou pela morte de alguém que, ao fim de algum tempo, aparece vivo e disposto ,ainda que abatido. Apesar da felicidade do reencontro, é impossível não pensar em como puderam ter me dado a informação errada.
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So Much for the 'Looted Sites'

By MELIK KAYLAN
July 15, 2008; Page D9

A recent mission to Iraq headed by top archaeologists from the U.S. and U.K. who specialize in Mesopotamia found that, contrary to received wisdom, southern Iraq's most important historic sites -- eight of them -- had neither been seriously damaged nor looted after the American invasion. This, according to a report by staff writer Martin Bailey in the July issue of the Art Newspaper. The article has caused confusion, not to say consternation, among archaeologists and has been largely ignored by the mainstream press. Not surprising perhaps, since reports by experts blaming the U.S. for the postinvasion destruction of Iraq's heritage have been regular fixtures of the news.

Up to now, it had seemed a clear-cut case. It stood to reason that a chaotic land rich with artifacts would be easy to loot and plunder. Ergo, the accusations against the U.S., the de facto governing authority, had been taken on faith. No one had bothered to challenge the reports, the evidence or the logic, not least because many ancient sites were in hostile terrain and couldn't be double-checked. By implication, the U.S. had been blamed for that too: After all, the presiding authority is effectively responsible for allowing no-go areas to exist where such things can occur.

Yet, paradoxically, there always was thought to be enough evidence to adduce blame. "We believe that every major site in Southern Iraq is in serious danger," Donny George, the former head of the Baghdad Museum, was quoted as saying in the New York Times in 2003. A recent book by Lawrence Rothfield of the University of Chicago's Cultural Policy Institute carried the estimate that, every year, roughly 10% of Iraq's heritage was being destroyed.

One of the foremost specialists who went on the trip, Elizabeth Stone from Stony Brook University, actually quantified the damage with the help of satellite images -- just before going. Alarmingly, and prematurely it seems, she concluded that nearly 10 miles of land had been looted and hundreds of thousands of objects had been taken. Confident statistics of this kind have been regularly tossed around, yet one wonders how such calculations can be made, not least by viewing the remains of illicit digs from satellite pictures. When looters attacked the Baghdad Museum in 2003, the news media put the number of destroyed and looted objects at 170,000 -- a figure equal to the entire collection. It emerged later that most of the important pieces had been successfully hidden away. Others were soon found. The number of missing objects that is cited has since fluctuated between 3,000 and 15,000, with the figure never taking into account the systematic semiofficial looting and frequent substituting with fakes that occurred in Saddam's time.

Considering the political impact of such data, one would expect the experts to approach the subject with scientific circumspection, using numbers sparingly and conservatively. Too often they seem to have done the reverse. So now, as a matter of course, their method, their probity in sifting the evidence -- do they have a political agenda? -- has come into question.

It's a question that equally hangs over the deliberations of a meeting that took place recently in Dublin of the World Archeological Congress. The members reportedly considered a lengthy statement urging colleagues to refuse any military requests for a list of Iran's sites that should be exempt from possible air strikes. Finally they settled for a shorter July 11 press release. Among other things, the final press release says that WAC "expresses strong opposition to aggressive military action . . . by the U.S. government, or by any other government." The release quotes WAC's president as saying that WAC "strongly opposed the war in Iraq and . . . we strongly oppose any war in Iran" and that "any differences with Iran should be resolved through peaceful and diplomatic means."

If as scholars, archeologists take a priori public positions on political matters, what are we to make of the field-data they produce? How impartial can it be? And with their own credibility marred, who is there left as an impartial body of experts for the public to turn to?

The archaeologists' mission to southern Iraq took place in early June. Besides Prof. Stone, the experts included John Curtis, head of the British Museum's Middle East Department; Paul Collins, a Mesopotamia specialist at that museum; a top German expert; and Iraqi experts. It was conducted through the British military, which is in charge of the area, using a helicopter and armed escorts to visit the locations. They included such celebrated "cradle of civilization" sites as Ur, Eridu (the earliest Sumerian city), Warka (Sumerian Uruk), Larsa (a Babylonian city), Tell el-Ouelli (ancient Ubaid) and Tell el-Lahm (an Assyrian site).

According to the Art Newspaper article, "The international team . . . had been expecting to find considerable evidence of looting after 2003 but to their astonishment and relief there was none. Not a single recent dig hole was found at the eight sites, and the only evidence of illegal digging came from holes which were partially covered with silt and vegetation, which means they [were] several years old." Furthermore, the most recent damage "probably dated back to 2003," to just before and after the invasion when the Iraqi army maneuvered for the allied attack. (According to other experts, looting probably took place when the Iraqi army first moved out of areas near sites to counter the invasion.)

Neither the British Museum pair nor Prof. Stone responded to my calls seeking comment. The British Museum press official for the Middle Eastern department cautioned that the official report had not yet been compiled, but it seemed that the article was generally accurate. Certainly none of the experts have denied any of it. In the article, Dr. Curtis "admits that he was 'very surprised' at the lack of recent looting, but stresses that . . . 'it may not be typical of the country as a whole, and the situation could be worse further north.'"

No doubt. But how could previous assessments have been so wrong, and why would one expect anything to be worse elsewhere? In phone conversations with me, both Donny George and Lawrence Rothfield argued that the eight sites were all known to be well-protected. Dr. George was able to itemize each one: "Ur was an Iraqi airbase and then a U.S. airbase. Uruk Warka was protected by guards from nearby tribes -- we always knew that. Ouelli is largely prehistoric and of no use to looters. . . ." And so on. But Dr. George, perhaps the world's leading authority on the subject, also conceded that the greatest damage done by looters had generally occurred in the 1990s, in Saddam's time. Prof. Rothfield said that the no-fly zones back then had allowed illicit digging to occur.

The mission also refuted the welter of news items we've all become familiar with accusing allied forces of damaging ancient sites with emplacements, tank tracks and the like. According to the Art Newspaper report, "little damage was . . . caused by coalition forces." Much of it was done by Saddam's forces.

One is left with these questions: If the visited sites were known to be well-protected, why did the team choose only those sites, and why were team members surprised at the lack of damage? It has been hard to get convincing answers. Some have speculated that, to get further cooperation, the visitors made a tacit deal with the British authorities not to raise a scandal. Dr. George felt that perhaps the eight were the only sites with adequate security, while he couldn't explain the surprise expressed by the experts. He warned against putting too much faith in newspaper reporting. Quite right.

But it is all a far cry from the hitherto prevailing impression abroad in the world that the invasion has directly led to the mass destruction of Iraq's archaeological heritage.

Mr. Kaylan writes about the arts and culture for the Journal.



quinta-feira, julho 17, 2008

Moralidade e governo

Fico sempre com reservas quando vejo certas decisões de grande alcance julgadas num tom eminentemente moral. Não porque elas não possam ou devam sê-lo, mas porque mais de uma vez artigos de opinão muito convicentes nesse aspecto apresentam uma versão muito parcial dos fatos. Habituado a colunistas conservadores, muito afeitos a maniqueísmos fáceis, é uma posição que considero prudente. Porém, neste caso, só posso concordar com Friedman: algumas potências são piores que outras.

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Do portal do UOL.
The New York Times

17/07/2008
Friedman: tão popular e sem estrutura moral

Thomas L. Friedman


Muita tinta tem sido gasta ultimamente para anunciar o declínio da popularidade norte-americana em todo o mundo sob o governo Bush. As pesquisas nos mostram que atualmente a China é mais popular na Ásia do que os Estados Unidos, e revelam como são poucos os europeus que afirmam identificar-se com os Estados Unidos. Tenho certeza de que há uma verdade nessas pesquisas. Deveríamos ter feito um trabalho melhor no Iraque. Um Estados Unidos responsável pela prisão de Abu Ghraib, pela tortura e pela base de Guantánamo merece um polegar apontado para baixo.

Mas os Estados Unidos não são e nunca foram apenas estas coisas, e é por isso que eu também acho que os resultados de algumas dessas pesquisas são uma espécie de atos reflexos auto-indulgentes e um pouco tolos. A votação na última sexta-feira na Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a questão do Zimbábue fez com que eu me lembrasse da razão disso.

Talvez os asiáticos, os europeus, os latino-americanos e os africanos não apreciem um mundo com excesso de poder norte-americano - para eles o "Mister Big" ficou um pouco grande demais. Mas o que eles achariam de um mundo com pouquíssimo poder norte-americano? Como as forças armadas e os bancos norte-americanos encontram-se excessivamente espalhados e diluídos pelo planeta, é esse o mundo para o qual esses países podem estar rumando.

Bem-vindos a um mundo com um excesso de poder russo e chinês.

Eu não sou um crítico nem da Rússia e nem da China. Mas há realmente algo de asqueroso quanto aos vetos aplicados pela Rússia e a China à tentativa, liderada pelos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU, de impor sanções específicas sobre o governo de Robert Mugabe no Zimbábue.

Os Estados Unidos apresentaram uma resolução simples ao Conselho de Segurança, pedindo um embargo de armamentos ao Zimbábue, a nomeação de um mediador da ONU e a aplicação de restrições de viagem e financeiras ao ditador Mugabe e às 13 principais autoridades militares e governamentais zimbabuanas por terem roubado a eleição no Zimbábue e basicamente reprimido violentamente um país inteiro em plena luz do dia.

Na primeira rodada das eleições do Zimbábue, em 29 de março, o líder da oposição, Morgan Tsvangirai, obteve quase 48% dos votos, contra 42% de Mugabe. Isso fez com que Mugabe e os seus asseclas iniciassem uma campanha de assassinato e intimidação contra os apoiadores de Tsvangirai, que acabou obrigando a oposição a se retirar do segundo turno das eleições simplesmente para que os seus integrantes continuassem vivos.

Antes mesmo do segundo turno, Mugabe anunciou que não reconheceria os resultados caso o seu partido, o ZANU-PF, perdesse. Ou, conforme ele afirmou: "Não vamos abrir mão do nosso país por causa de um simples X marcado em uma cédula eleitoral".

E então, é claro, Mugabe "venceu" em uma das eleições mais descaradamente roubadas da história - em um país imerso em desmandos, desemprego, fome e inflação. Cerca de 25% do povo do Zimbábue encontra-se atualmente refugiado em países vizinhos (eu tenho amigos próximos do Zimbábue, e uma das minhas filhas trabalhou lá em janeiro em um centro comunitário de ajuda aos pacientes de Aids). Em maio a Associated Press anunciou do Zimbábue: "A inflação anual sumiu neste mês, chegando a 1.063.572%, com base nos preços da cesta básica". Segundo a Associated Press, a moeda do Zimbábue tornou-se tão desvalorizada que "atualmente um pão custa o mesmo que 12 carros novos custavam uma década atrás".

Mas isso não importa. Vitaly Churkin, o embaixador da Rússia na ONU, argumentou que as sanções que os Estados Unidos e outros desejavam impor a Mugabe e seus assessores extrapolava o mandato do Conselho de Segurança. "Nós acreditamos que tais práticas são ilegítimas e perigosas", disse ele, descrevendo a resolução como "uma das tentativas mais óbvias de fazer com que o conselho ultrapasse as suas prerrogativas". Vetada!

Para Churkin, a campanha de intimidação e assassinatos movida por Mugabe não pareceu "ilegítima e perigosa". Só a resolução da ONU para acabar com a atitude de Mugabe foi considerada "ilegítima e perigosa". Vergonhoso. Ao mesmo tempo, a China está sediando as Olimpíadas, uma celebração do espírito humano, enquanto defende o direito de Mugabe de esmagar o espírito do seu próprio povo.

Mas, quando se trata de pura e repugnante corrupção moral, ninguém é capaz de superar o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, e os seu representante na ONU, Dumisani Kumalo. Eles fizeram tudo o que puderam para impedir qualquer pressão significativa por parte da ONU sobre a ditadura de Mugabe.

Conforme noticiou o "New York Times", o embaixador dos Estados Unidos na ONU, Zalmay Khalilzad, "acusou a África do Sul de proteger o 'horrível regime do Zimbábue'", afirmando que o fato foi especialmente perturbador ao se levar em conta que foram exatamente as sanções econômicas internacionais que derrubaram o governo de apartheid da África do Sul, que há muito oprimia os negros do país.

Portanto, cunhemos agora a Regra Mbeki: quando brancos perseguem negros, quanto mais sanções da ONU melhor. E quando negros perseguem negros, qualquer sanção da ONU é demais.

O que me faz retornar aos Estados Unidos. Não somos perfeitos, mas os Estados Unidos ainda têm alguma estrutura moral. Há farsas que nós não toleraremos. A votação da ONU sobre o Zimbábue demonstra que isto não ocorre quando se trata desses países "populares" - chamados Rússia, China ou África do Sul - que não vêem problema em ficarem do lado de um homem que está pulverizando o seu próprio povo.

Então, é verdade que não somos mais tão populares na Europa e na Ásia. Acredito que europeus e asiáticos prefeririam um mundo no qual os Estados Unidos fossem mais fracos, onde líderes com os valores de Vladimir Putin e Thabo Mbeki tivessem maior influência, e no qual as vozes desesperadas por mudanças no Zimbábue fossem, bem, simplesmente caladas.

Resmungo de uma tarde ociosa



Diz uma frase talmúdica que o mundo, infelizmente, está nas mãos de imbecis. A julgar pelas frases que tenho visto nos perfis de supostos universitários e graduados em vários sites de relacionamento, ele também está entregue aos analfabetos.

sexta-feira, junho 27, 2008

De autores e reconhecimento

Será verdade que, algumas vezes, o que realmente faz um clássico é tão-somente o sobrenome de seu suposto autor?


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Famoso quadro atribuído a Goya não é dele, dizem especialistas

Quadro 'O Colosso'
O imponente quadro 'O Colosso' foi pintado entre 1808 e 1812
Restauradores do Museu do Prado, em Madri, afirmaram nesta quinta-feira que o famoso quadro O Colosso, que era atribuído ao artista espanhol Francisco Goya, não é dele.

Em uma entrevista coletiva em Madri, os chefes de conservação do Museu confirmaram o engano com relação à autoria da obra.

Segundo eles, a identidade do pintor do quadro ainda é desconhecida, mas provavelmente seria do espanhol Asensio Juliá, único discípulo do mestre barroco.

"Em minha opinião é um quadro assinado e feito por um artista diferente de Goya. Notamos que há outra mão ali e é distinta", afirmou a Diretora de Conservação de Pintura do século XVIII do Museu do Prado e especialista em Goya, Manuela Mena.

Durante quase 80 anos, o quadro esteve exposto em lugar de destaque no museu e era considerado uma das jóias da arte espanhola.

O Colosso representa um gigante enfurecido que ameaça uma cidade e foi considerado uma das obras mais representativas da produção de Goya sobre a guerra da independência de Madri de 1808, quando a cidade se rebelou contra a invasão napoleônica.

A celebração do bicentenário desta independência acabou levando às suspeitas sobre a autoria do quadro.

Um evento no Museu do Prado, em janeiro, que reuniu vários especialistas e restauradores para analisar a obra de Goya, levantou dúvidas sobre a autoria de O Colosso.

Os especialistas, que realizaram um inventário e uma mesa de debate, antecedendo a exposição Goya em tempos de guerra, inaugurada em abril e que permanece aberta ao público, concluíram que o quadro apresenta traços estilísticos e inscrições pouco comuns às obras do pintor - que deixou vários quadros sem assinatura.

A diretora de conservação Manuela Mena, comentou que "as dúvidas eram históricas e o mais prudente seria eliminar o quadro da mostra sobre a guerra e investigar a autoria".

O Chefe de Conservação do museu, José Luis Díez, disse que a principal pista de que O Colosso não seria de Goya foi um inscrição quase apagada encontrada no canto inferior esquerdo da obra, pintada entre 1808 e 1812, com as iniciais AJ.

"Mas o que nos chamou mais atenção foi a diferença de traços estilísticos", comentou Mena.

O diretor geral do Museu do Prado, Miguel Zugaza disse que O Colosso permanecerá na sala original onde está desde 1931 dentro do pavilhão dedicado a Goya, até que a autoria correta seja esclarecida.

Asensio Juliá, nascido em 1760, foi um dos poucos colaboradores de Goya, que viveu que viveu de 1746 a 1828. Os principais registros da atuação dele com o mestre do classicismo estão nos afrescos da igreja de Santo Antonio da Florida, em Madri.

As primeiras referências bibliográficas sobre O Colosso apareceram no inventário do artista feito pelo filho dele, Javier Goya, e que depois passaram ao colecionador espanhol Pedro Durán.

domingo, junho 15, 2008

Pequenos momentos

Ouvindo Miles Davis, "It never entered my mind" -- calma, suave, com um toque de boemia. Linda. Bem de acordo com o estado de espírito desta noite quase quente de outono: a grata satisfação de um fim de semana bem vivido entre amigos.

Estou fora do Orkut. Fi-lo por razões pessoais, e entre elas está também a curiosidade de voltar um pouco os ponteiros do relógio. Vivo agora antes de fevereiro ou março de 2004, época em que encontrei o convite de um velho colega de faculdade. Não verifico mais scraps, porém de vez em quando tenho a satisfação de receber não apenas emails, mas telefonemas (!) de pessoas que de outra forma prefeririam scraps ou um encontro eventual no MSN. Mero hábito, admito, mas nem por isso o melhor deles. Tem sido bom.

Hoje uma experiência me deu o que pensar. Estive com uma menininha de 3 ou 4 anos, mas com problemas de nascença que retardaram seu desenvolvimento. Ao brincar com ela no berço, ela se apoiou nas minhas mãos e se levantou e começou uma espécie de dança, ora apoiando o corpo numa perna ora noutra. Eu tinha ouvido dizer que a fisioterapeuta a estava ensinando a andar, mas não sabia que ela se levantava e muito menos "dançava" (é cega). E ao vê-la, surpreso, divertindo-se comigo mesmo sem me ver, de pé, senti um tipo de euforia singular que deve ser parecida com a de um pai que testemunha os primeiros passos de um filho. Fantástico!

Ah, para não dizer que não falei de coisas mais relevantes para o resto da humanidade: assistam ao novo "Hulk". Vale a pena.

domingo, junho 08, 2008

Compre sua história -- literalmente

Loja alemã escreve livros sob encomenda

Exemplar de uma das edições
Os livros podem ser editados em padrão luxuoso
Em uma pequena loja de Berlim, na Alemanha, é possível encomendar livros nos quais o cliente é o personagem principal.

"O que você gostaria mais? Uma história de amor, de detetives, de ficção científica ou de aventura? E que tipo de personagem você gostaria de ser? Um cavalheiro, uma rainha ou um astronauta? Quem sabe uma bruxa ou um vilão?", pergunta Michael Wäser a seus clientes.

Wäser e sua equipe de escritores escrevem histórias feitas sob medida de acordo com os desejos dos clientes: o cenário, a época, o estilo, o tema, o número e a personalidade dos personagens, tudo pode ser sugerido ou determinado pela pessoa que faz a encomenda.

Para ajudar os clientes a escolher, Wäser mostra um catálogo. Nele, estão narrações já prontas em todos os gêneros imagináveis, nas quais apenas o nome do cliente como protagonista é mudado.

Esses livros custam US$ 25. Já os escritos completamente sob medida custam US$ 260.

Presente

A maioria dos clientes da Loja de Histórias encomenda os livros para dar de presente.

Wäser emprega outros escritores na loja em Berlim

Mulheres e homens pedem romances nos quais aparecem com seus companheiros em expedições remotas, resolvem juntos complicados enigmas policiais ou lutam pelo amor um do outro em cenários medievais.

"Também já fizemos histórias para grupos de velhos amigos que queriam dar a um deles uma aventura conjunta", diz Wäser.

Os clientes também podem escolher a capa, o tipo de papel e o tipo de letra usados. No futuro, poderão também encomendar ilustrações originais.

A Loja de Histórias também escreve livros para empresas, como uma clínica médica ou um hotel.

"Para hotéis, escrevemos histórias que acontecem no local, onde todo o pessoal desfila como protagonista em salas de conferência, bares, quartos e restaurantes do lugar", conta Wäser.

A loja também oferece relatos falados. São histórias narradas por locutores profissionais com efeitos sonoros e que são entregues ao comprador em um CD como se fosse uma radionovela por cerca de US$ 570.

A idéia de Michael Wäser virou um sucesso. A loja emprega dez escritores e se transformou em uma pequena fábrica de fantasias.

sexta-feira, maio 30, 2008

Vítimas e algozes

Uma questão espinhosa, mas que aparentemente começa a ser examinada sem o calor das paixões nacionalistas, que, por desgraça, conseguiram macular da pior forma o que poderia ser visto como uma reivindicação territorial e moral justa. Fico pensando que narrativa nacional prevalecerá em Israel quando mais gente conhecer os arquivos citados nesses trabalhos e, coisa já anunciada, os árabes e palestinos se tornarem uma maioria demográfica.

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Le Monde Diplomatique
maio de 2008











ORIENTE MÉDIO

Os intelectuais pacifistas de Israel

Por meio de uma ampla pesquisa nos arquivos do Estado, eles desmontam os mitos da política oficial e procuram abrir caminho para uma nova relação com os árabes. Graças aos estudos, sabe-se, por exemplo, que a ocupação da Palestina sempre esteve nos planos da direita sionista

Eric Rouleau

A intelligentsia israelense conheceu, nos anos 1980, o começo de uma mutação notável, que marca a ascensão de uma nova geração de homens e de mulheres que não conheceram a shoah [1] nem a criação do Estado de Israel. Essa evolução é também testemunho do amadurecimento progressivo das elites, capazes, a partir de então, de julgar sem complexo o passado e de se livrar dos mitos e tabus propalados pelos dirigentes israelenses.

O anticonformismo desses intelectuais — historiadores, sociólogos, filósofos, jornalistas, escritores, cineastas, artistas — manifestou-se depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967: a ocupação, a resistência palestina, a ascensão ao poder da direita nacionalista e religiosa em 1977, a influência crescente dos colonos e dos rabinos expansionistas, a exacerbação das tensões entre religiosos e leigos não deixou de alimentar a contestação. “Quando eles falam de Tel-Aviv, os religiosos usam com freqüência a expressão ‘Sodoma e Gomorra’, ao passo que, para os laicos, Jerusalém é como a Teerã do tempo dos aiatolás”, comenta Michel Warschawski, um dos dirigentes da ala radical do movimento pacifista.

A paz com o Egito, em 1979, suscitou a esperança de uma solução global, que a invasão do Líbano, em 1982, transformou em desilusão. Vista pela opinião pública como a primeira guerra ofensiva de Israel, esta última foi provocada por razões que se revelaram falsas. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que a dupla Menahem Begin - Ariel Sharon buscava aniquilar, não promoveu nenhuma provocação, ao contrário do que o governo israelense afirmava. Ela deu, até mesmo, sinais da vontade de se engajar na via do compromisso. Não colocava em perigo a existência do Estado judeu. À época, muitos israelenses ficaram escandalizados com a extrema brutalidade de suas forças armadas, e com o número exorbitante de vítimas entre os civis palestinos e libaneses, que culminou no terrível massacre de Sabra e Chatila.

Acontecimentos sem precedentes se sucederam então: cerca de quatrocentos mil manifestantes protestaram no centro de Tel Aviv; quinhentos oficiais e soldados desertaram; o movimento dos refuseniks [2] tomou forma com aqueles que se recusavam a servir o exército, inicialmente no Líbano, em seguida nos territórios ocupados. A “pureza das armas”, de que o Estado judeu se gabava desde o seu nascimento, ficou seriamente prejudicada.

São os primeiros pesquisadores, desde a criação do Estado de Israel, a fundamentar seus trabalhos em documentos irrefutáveis, ao invés de referências de segunda mão

Jovens historiadores contribuíram ainda mais, voluntariamente ou não, para o descrédito desse slogan. Ao tomar conhecimento dos arquivos oficiais, em grande parte tornados públicos em 1978 (trinta anos depois dos acontecimentos relacionados, como autoriza a lei israelense), descobriram que o comportamento das forças judaicas, antes e durante a Guerra de 1948, esteve longe de corresponder à imagem idílica projetada pela propaganda. Apoiado por documentos oficiais, Simha Flapan, fervoroso sionista até sua morte e um dos dirigentes do partido de esquerda Mapam, foi o primeiro a publicar uma obra expondo os “sete principais mitos” utilizados para enganar a opinião pública durante décadas [3].

Dominique Vidal [4], em colaboração com Sébastien Boussois, expõe e analisa as conclusões daqueles que, atualmente, designamos como “novos historiadores”: trata-se dos primeiros pesquisadores, desde a criação do Estado de Israel, a fundamentar seus trabalhos não sobre referências de segunda mão, como fizeram seus predecessores, mas sobre documentos irrefutáveis, consultados nos arquivos do Conselho de Ministros, do Exército, do Palmach (tropas de choque), das organizações sionistas, do diário do primeiro-ministro David Ben Gurion, entre outros.

Seu livro descreve as circunstâncias que conduziram à guerra contra os exércitos árabes, estigmatiza o papel de Ben Gurion, no melhor dos casos ambíguo, e consagra um capítulo a Benny Morris, o líder dos “novos historiadores”, que Vidal classifica de “esquizofrênico”, em razão do fosso entre seu engajamento de historiador na busca da verdade e suas posições políticas próximas da extrema-direita israelense. Vidal analisa, por fim, a obra mais recente de Ilan Pappé, The ethnic cleansing of Palestine ["A limpeza étnica da Palestina", ainda sem edição em português], que provocou tal escândalo (depois de tantos outros) que ele teve que se demitir da Universidade de Haifa para se exilar em uma universidade britânica.

Pappé não é o primeiro intelectual dissidente, e sem dúvida não será o último, a se expatriar para escapar do ambiente opressivo reservado aos “pestilentos”, como ele se define. No entanto, é muito difícil contestar suas narrativas, bem mais detalhadas do que as de seus predecessores. O historiador de Haifa teve acesso a documentos guardados nos arquivos israelenses há sessenta anos (e não apenas há quarenta, como foi o caso de seus predecessores). Mas ele também se baseou nos escritos de historiadores palestinos, muitas vezes testemunhas oculares dos acontecimentos. E recolheu testemunhos de sobreviventes da limpeza étnica, até agora, curiosamente, negligenciados por seus colegas, seja pela rejeição a priori dos testemunhos, seja por má fé, seja pela ignorância da língua árabe. São testemunhos ainda mais preciosos pelo fato de os Estados árabes se recusarem até hoje a abrir seus arquivos aos pesquisadores.

"Nós estamos em condições de ocupar toda a Palestina, disso não tenho qualquer dúvida", escreve Ben Gurion, o fundador de Israel, três meses antes da guerra de 1948

As divergências entre Ilan Pappé e Benny Morris não são, em última análise, fundamentais. Um e outro confirmam, em primeiro lugar, que a Guerra de 1948 não foi, como se costuma dizer, um combate de “David contra Golias”, pois as forças judaicas eram claramente superiores em efetivos e armamentos às de seus adversários. No auge da guerra civil judaico-palestina, havia apenas alguns milhares de combatentes palestinos mal equipados, apoiados por voluntários árabes do Exército de Libertação de Fawzi Al-Qawuqji. E, mesmo quando os Estados árabes intervieram, no dia 15 de maio de 1948, seus contingentes eram muito inferiores aos da Haganá [5], que não parava de se reforçar.

Além disso, os dois historiadores concordam que os exércitos árabes invadiram a Palestina in extremis, e certamente a contragosto, não para “destruir o jovem Estado judeu”, algo do qual sabiam que eram incapazes, mas para impedir que Israel e a Cisjordânia — em “conluio”, segundo o historiador Avi Shlaïm — partilhassem o território devolvido aos palestinos pelo plano de divisão da ONU de 29 de novembro de 1947.

“Nós estamos em condições de ocupar toda a Palestina, disto não tenho qualquer dúvida”, escreveu Ben Gurion a Moshe Sharett em 1948, três meses antes da guerra israelo-árabe e algumas semanas antes das entregas maciças de armamentos encaminhados, via Praga, pela União Soviética. Algo que não o impediu de proclamar repetidas vezes que Israel estava ameaçado de um “segundo holocausto”.

Deixando-se arrebatar pela euforia das vitórias conquistadas, relata Ilan Pappé, o “pai” do Estado judaico escreveu no dia 24 de maio, na primeira semana da guerra, em seu diário pessoal: “Nós estabeleceremos um Estado cristão no Líbano (…) nós faremos a Cisjordânia em pedaços, bombardearemos a sua capital, destruiremos o seu exército (…) deixaremos a Síria de joelhos (…) nossa aviação atacará Port Said, Alexandria e o Cairo, e isto para vingar nossos ancestrais oprimidos pelos egípcios e pelos assírios nos tempos bíblicos (…)”.

Está demonstrado: as autoridades israelenses que forçaram os palestinos ao êxodo recorrendo, para enxotá-los de suas terras, à chantagem, à ameaça, ao terror e à brutalidade das armas

Do mesmo modo, Benny Morris e Ilan Pappé reduzem a nada a fábula, alimentada pelos dirigentes israelenses, segundo a qual os palestinos teriam deixado os seus lares voluntariamente, depois de apelos lançados pelas autoridades e pelas rádios árabes (emissões que a propaganda israelense forjou, como testemunham as gravações integrais realizadas pela BBC). Ao contrário, os dois historiadores confirmam aquilo que já sabíamos desde o fim dos anos 1950: foram as autoridades israelenses que forçaram os palestinos ao êxodo recorrendo à chantagem, à ameaça, ao terror e à brutalidade das armas para enxotá-los de suas terras.

Eles divergem, no entanto, sobre o sentido dessas expulsões. Para Benny Morris, são apenas “danos colaterais”: “guerra é guerra”, afirma, acrescentando mais recentemente [6], não sem cinismo, que Ben Gurion deveria ter prosseguido até expulsar o último palestino. Onde Benny Morris descreve um êxodo “nascido da guerra e não de uma intenção, judia ou árabe”, Ilan Pappé mostra que a purificação étnica foi planejada, organizada e posta em prática a fim de ampliar o território do Estado de Israel e de “judaizá-lo”.

O fato é que, apesar de terem aprovado publicamente o plano de divisão das Nações Unidas, os dirigentes sionistas o julgavam inadmissível: sua aprovação era de ordem tática, como indicam os numerosos documentos arquivados, assim como o diário de Ben Gurion.

Mais da metade da Palestina lhes havia sido atribuída, o restante regressando aos árabes autóctones que eram duas vezes mais numerosos do que os judeus. Todavia, aos seus olhos, o território previsto para o Estado de Israel era muito estreito para acolher os milhões de imigrantes que seus dirigentes esperavam receber. Além disso, 405 mil árabes palestinos conviveriam ali com 558 mil judeus, estes últimos constituindo assim apenas 58% da população do futuro Estado hebreu. Com tal composição, o sionismo arriscava-se a perder até mesmo a sua razão de ser. Daí a fórmula “tornar a Palestina tão judia quanto a América é americana e a Inglaterra é inglesa”, lançada por Haim Weizmann, futuro primeiro presidente de Israel.

A “transferência” (eufemismo para designar a expulsão) dos árabes autóctones para fora das fronteiras atormentou os espíritos dos dirigentes sionistas. Por isso, eles não paravam de debatê-la, o mais das vezes a portas fechadas. No final do século 19, Theodor Herzl sugeriu ao sultão otomano que deportasse os palestinos para desocupar o território e dar lugar à colonização judaica. Em 1930, Haim Weizmann tentou persuadir o governo britânico, potência mandatária da Palestina, a fazer o mesmo.

Em alguns meses, foram registrados dezenas de massacres e execuções sumárias: 531 aldeias, em um total de mil, foram destruídas ou reconvertidas para acolher imigrantes judeus

Em 1938, depois da proposição de um mini-Estado judeu, e também de uma transferência de árabes, pensada pela comissão britânica dirigida por Lord Peel, Ben Gurion declarou diante do comitê executivo da Agência Judaica: “Eu sou favorável à transferência obrigatória — uma medida que não tem nada de imoral”. A Guerra de 1948 ofereceu-lhe a ocasião sonhada. Seis meses antes da intervenção dos exércitos árabes, ele lançou contra a população autóctone a ofensiva destinada a deportá-la. Para realizar esse projeto — revela Pappé —, Ben Gurion possuía um arquivo com dados de todas as aldeias árabes, contendo informações demográficas, econômicas, políticas e militares, arquivo criado pela Agência Judaica em 1939 e atualizado constantemente ao longo da década de 1940.

Os meios aos quais as forças judaicas recorreram — e que Ilan Pappé analisa em detalhes — são de dar frio na espinha, mesmo que tenham por precedentes as atrocidades cometidas no curso das purificações étnicas conduzidas por outros povos desde a alta antigüidade. O balanço feito pelo historiador é eloqüente: em alguns meses, foram registrados dezenas de massacres e execuções sumárias; 531 aldeias, em um total de mil, foram destruídas ou reconvertidas para acolher imigrantes judeus; onze centros urbanos etnicamente mistos viram-se esvaziados de seus habitantes árabes.

Sob a ponta das baionetas, o conjunto de palestinos de Ramallah e de Lod, cerca de 70 mil pessoas, inclusive crianças e idosos, foi banido em poucas horas, em meados de julho de 1948. A operação foi instruída por Ben Gurion, como o testemunham as memórias, posteriormente censuradas, do futuro primeiro-ministro Itzhak Rabin — à época, o oficial superior encarregado, juntamente com Igal Allon, da atividade. Repelidos em direção à fronteira da Cisjordânia, vários palestinos morreram no caminho, de cansaço. A mesma coisa ocorrera, em abril, na cidade de Jaffa, quando 50 mil de seus habitantes árabes tiveram de fugir, aterrorizados pelo ataque intensivo da artilharia do Irgun [7], e pelo medo de novos massacres. Foi o que o próprio Benny Morris chama de “fator atrocidade”.

Esses horrores são ainda mais injustificáveis quando se sabe que muitas aldeias árabes — Ben Gurion mesmo o confessa — haviam declarado sua vontade de não resistir à divisão da Palestina e até mesmo decidido estabelecer, para esse fim, acordos de paz com seus vizinhos judeus. Foi o caso da aldeia de Deir Yassin, onde, apesar de tudo, as forças irregulares do Irgun e do Lehi [8] exterminaram uma parte considerável da população — com o acordo tácito da Haganá, o exército “regular” da Agência Judaica, segundo Simha Flapan.

Entre 1947 e 49, entre 750 e 800 mil palestinos tiveram de se exilar. Seus imóveis e móveis foram confiscados.O Fundo Nacional Judeu tomou 300 mil hectares de terras árabes

No total, entre 1947 e 1949, de 750 mil a 800 mil palestinos tiveram de tomar o caminho do exílio, enquanto seus bens imobiliários e mobiliários eram confiscados. Segundo a estimativa de um oficial israelense citado por Dominique Vidal, o Fundo Nacional Judeu se apoderou de 300 mil hectares de terras árabes, das quais a maior parte foi dada aos moradores dos kibutz. A operação não poderia ter sido melhor concebida: no dia seguinte ao voto da Assembléia Geral das Nações Unidas, de 11 de dezembro de 1948, que aprovou a famosa resolução sobre o “direito ao retorno”, o governo israelense adotou a “lei de urgência relativa às propriedades dos ausentes”, que complementou aquela sobre o “cultivo das terras abandonadas”, de 30 de junho de 1948, e legalizou retroativamente a espoliação, proibindo que os espoliados se instalassem novamente em suas casas ou reivindicassem qualquer compensação.

Apesar dos protestos de alguns membros do governo israelense, escandalizados pela brutalidade da purificação étnica, Ben Gurion — que não havia patrocinado explicitamente e por escrito essas ações — não fez nada para interrompê-las. Contentou-se em denunciar os saques e os estupros a que os soldados do Tsahal se entregavam — crimes que se beneficiaram, contudo, de uma impunidade total. O mais espantoso, sem dúvida, foi o pesado silêncio da “comunidade internacional” — silêncio que se prolongou por várias décadas, durante as quais os observadores estrangeiros, incluídos os da ONU, não ignoraram as atrocidades cometidas. Compreendemos melhor, dessa maneira, porque os palestinos falam em nakba (catástrofe) quando se referem à “guerra de independência de Israel”.

Avi Shlaim, professor de longa data no St. Anthony’s College, em Oxford, acaba de publicar Le Mur de fer, Israël et le monde arabe ["O muro de ferro: Israel e o mundo árabe". ainda ainda sem edição em português]. No livro, Shlaim destrói mais um mito: o de um Estado de Israel enamorado pela paz, em oposição ao belicismo dos Estados árabes dedicados a aniquilá-lo. O título de sua obra refere-se à doutrina de Zeev Jabotinsky. Já em 1923, esse pai da direita ultranacionalista judaica, afirmava que era imprescindível desistir de negociar um acordo de paz antes de ter colonizado a Palestina, protegido dos perigos por um “muro de ferro”, já que os árabes só compreendiam a lógica da força.

Tendo adotado essa doutrina na prática, políticos e militares israelenses, tanto de “direita” quanto de “esquerda”, teriam, no mais das vezes, sabotado os sucessivos planos de paz. Calculando que o tempo joga a favor de Israel, e sustentando que este “não tem um parceiro pela paz”, conforme as palavras de Ehud Barak, os dirigentes de Jerusalém esperam sempre que a parte contrária se resigne a aceitar a expansão territorial do Estado judeu e a fragmentação de um hipotético Estado palestino, condenado a se tornar um mosaico de “bantustões”. A obra de Shlaim, cuja edição inglesa no ano 2000 tornou-se um best-seller, com mais de cinqüenta mil exemplares vendidos, foi traduzida em várias línguas antes de aparecer em hebraico, cinco anos depois: a quase totalidade dos editores israelenses a havia considerado até então “sem interesse”.

Historiadores, sociólogos, escritores, jornalistas e cineastas da nova onda da intelligentsia são sionistas de tipo novo. Estão convencidos de servir à causa da paz, ao restabelecer a verdade histórica

Avi Shlaim admite “reconhecer a legitimidade do movimento sionista e a do Estado de Israel em suas fronteiras de 1967”. Ele acrescenta, porém: “Por outro lado, rejeito totalmente o projeto colonial sionista além dessa fronteira”. Com algumas exceções, os historiadores, sociólogos, escritores, jornalistas e cineastas pertencentes à nova onda da intelligentsia são, como ele, sionistas de um tipo novo, aos quais apelidamos de “pós-sionistas”. Todos estão convencidos de servir à causa da paz ao restabelecer a verdade histórica e ao reconhecer os prejuízos causados aos palestinos.

Para apreender o sentido e o alcance dessa mutação, iniciada nos anos 1980, podemos ler com proveito a pesquisa realizada em Israel por Sébastien Boussois junto aos novos historiadores e seus adversários [9]. Alguns chegaram à conclusão de que a instituição de um Estado de Israel “normalizado”, em paz com seus vizinhos, depende em grande medida do impacto que esses intelectuais contestadores terão sobre a sociedade e principalmente sobre o mundo político israelense.

É o que escreve, à sua maneira, Yehuda Lancry, antigo embaixador de Israel na França e nos Estados Unidos: “Os ‘novos historiadores’, mesmo por meio do radicalismo de Ilan Pappé, são tanto os batedores dessa região pouco clara da consciência coletiva israelense quanto os preparadores de uma adesão mais firme ao reconhecimento mútuo e à paz com os palestinos. Seu trabalho, longe de representar uma fonte de transtornos para Israel, é uma honra para o seu país — e, mais do que isso, um dever, uma obrigação moral, uma prodigiosa tomada de responsabilidade sobre um empreendimento liberador capaz de inscrever no vivido israelense as linhas de articulação, os interstícios saudáveis, necessários para a inserção do discurso do outro [10].”



[1] Termo iídiche, que significa calamidade ou grande catástrofe, com o qual os judeus se referem ao holocausto nazista.

[2] Originalmente, o termo nomeava judeus, armênios e outras minorias às quais era negada autorização para emigrar na antiga União Soviética. Atualmente, a palavra designa aqueles que alegam objeção de consciência para não servir o exército israelense.

[3] The Birth of Israel, myths and realities (Nova York, Pantheon Books, 1987).

[4] Dominique Vidal é jornalista, integrante do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (França). Seu livro Comment Israel expulsa les Palestiniens (Como Israel expulsou os palestinos) é uma edição revista e ampliada da obra Le péché originel d’Israel (O pecado original de Israel), publicada pelo mesmo autor, em colaboração com Joseph Algazy, pelas Éditions de l’Atelier, em 1988.

[5] Força paramilitar judaica. Criada durante o Mandato Britânico na Palestina, entre 1920 e 1948, tornou-se a coluna vertebral do exército israelense.

[6] Em uma entrevista ao diário Haaretz (Tel Aviv, 8 de janeiro de 2004).

[7] Organização sionista terrorista atuante na Palestina. Fundado em 1931, o Irgun foi dirigido, a partir de 1943, por Menahem Begin, futuro primeiro-ministro israelense. Em 1948, com a criação do Estado de Israel, a grande maioria de seus membros foi incorporada ao recém-criado exército nacional.

[8] Organização sionista terrorista atuante na Palestina. O Lehi nasceu, em 1940, de uma dissidência do Irgun, liderada por Avraham Stern.

[9] Ver Dominique Vidal, op. cit. Sébastien Boussois é, por outro lado, o autor de Israel, confronté à son passé (Israel confrontado com o seu passado). Paris, L’Harmattan, 2008.

[10] Prefácio ao livro de Dominique Vidal, op. cit.


quinta-feira, maio 29, 2008

Uma surpresa

Victor Frankl

Quando eu achava que nada mais veria de útil vindo de Olavo de Carvalho, eis que me surpreendo:

http://www.olavodecarvalho.org/textos/1a_leitura_2005_nov.htm

Pelo menos, o dito filósofo continua sendo um divulgador de algumas referências úteis. Depois de uma lida em dois artigos correspondentes da Wikipédia, estou curioso para conhecer o Sr. Frankl. E desde já consigo me lembrar de pelo menos um homem que conseguiu sair de um campo de concentração nazista e descobrir um sentido nobre para sua vida: David Rousset, um dos primeiros denunciadores dos gulags em língua francesa e também um dos mais ativos militantes contra esse tipo de campo de prisioneiros -- nos quais, diga-se, estavam muitos de seus antigos algozes.

Digam o que quiserem os pessimistas de todos os tempos, ainda há muita nobreza na humanidade. Podem não ser exatamente os mais famosos dos exemplos, mas ninguém precisa recorrer apenas aos grandes santos de todos os tempos para buscar um modelo e uma inspiração. Há alguns muito mais próximos de nós, de nossas dificuldades e ninharias cotidianas, mas que sabem, em situações nas quais tantos desanimariam ou cruzariam os braços, achar inspiração para feitos realmente grandiosos.