sábado, maio 17, 2008

Adolescência: um mito?

Todas as épocas têm seus "clichês", idéias que são tidas como óbvias e auto-evidentes mas que, se observadas com um pouco de cuidado, podem se revelar ilusórias ou apenas verdades relativas. Seria o caso do status especial que damos aos adolescentes? Como sempre sou a favor da confrontação de opiniões, reproduzo aqui um "herege" no campo, cujo ataque a essa fase tão notória em nossos tempos dá o que pensar.

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Época - http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR77573-6014,00.html

COMPORTAMENTO

Abaixo a adolescência!

Psicólogo americano diz que os jovens não são problemáticos: os adultos é que têm medo de lhes dar responsabilidades desde cedo

Por Francine Lima

A tese dele é polêmica: a adolescência não deveria existir. Não, o psicólogo americano Robert Epstein não prega o extermínio dos jovens, e sim uma nova forma de encará-los. No livro The Case against Adolescence: rediscovering the Adult in Every Teen (algo como O Processo contra a Adolescência: redescobrindo o Adulto dentro de cada Adolescente), lançado nos Estados Unidos, Epstein atribui boa parte do comportamento problemático dos jovens à tendência dos adultos de não lhes dar confiança e responsabilidade. Indisciplina, agressividade, falta de autonomia, abuso de drogas e criminalidade poderiam ser problemas bem menos comuns, segundo ele, se parássemos de tratar os adolescentes como... adolescentes.

Robert Epstein
• QUEM É - Nasceu em 19 de junho de 1953 em Hartford, Connecticut, EUA. Tem quatro filhos: dois já foram adolescentes e dois ainda vão ser

• O QUE FAZ - Epstein é editor-colaborador da revista Scientific American Mind e foi editor-chefe da Psychology Today. É pesquisador visitante da Universidade da Califórnia em San Diego, e já publicou artigos em revistas como Science e Nature. Entre os temas que estuda, além da adolescência, estão sexualidade, criatividade, relações amorosas e motivação

ÉPOCA - Por que o senhor diz que a adolescência é uma ficção?
Robert Epstein -
A adolescência, tal como a conhecemos hoje, é uma invenção industrial. A primeira referência a ela surgiu em 1904, na obra de um psicólogo americano chamado Granville Stanley Hall, como uma transição supostamente necessária entre a infância e a idade adulta. Mas Hall nunca estudou outras culturas para avaliar sua teoria. Há mais de cem países onde não há qualquer vestígio desse tipo de mau comportamento juvenil - na maioria dos países muçulmanos e no Japão, por exemplo. Onde há vínculo com o mundo dos adultos não existe esse tipo de problema. Em sociedades pré-industriais, os adolescentes trabalhavam no campo, ajudavam em casa, preparavam a comida. Aprendiam a se tornar adultos convivendo com eles. Se tiverem oportunidade, os adolescentes vão querer e vão tentar.

ÉPOCA - Sua tese se baseia na própria experiência?
Epstein -
Tenho ótima relação com meus filhos. O mais velho se meteu em muita encrenca com professores, autoridades e amigos quando era adolescente. Chegou a mexer com drogas... Foi preso, mas não condenado. O segundo filho também se envolveu com drogas, e algumas vezes fiquei bem preocupado. Eu tinha me divorciado da mãe deles. Então, se um de nós não cedia aos pedidos do filho, o outro cedia. Isso ocorre muito entre pais separados. s

ÉPOCA - O divórcio, então, é prejudicial aos filhos?
Epstein -
Acredito que o verdadeiro motivo não seja o divórcio, mas o fato de os adolescentes viverem hoje em um mundinho próprio, isolado dos adultos. Eles passam 70 horas por semana com amigos da mesma idade. Não porque eles não queiram ficar com os adultos, mas porque os adultos não permitem que eles participem da vida adulta. Eles caem na armadilha da escola secundária e ficam isolados.

ÉPOCA - Qual é o problema com a escola secundária?
Epstein -
A forma como se concentra a educação é velha e errada. Os jovens são separados em classes por idade. Ensinamos a todos a mesma matéria, no mesmo ritmo. Tudo isso é ridículo. Cada criança tem um modo de aprender. Algumas das pessoas mais importantes do mundo abandonaram a escola. Bill Gates largou Harvard e nunca obteve um diploma. Thomas Edison, o maior inventor que conhecemos, foi educado em casa.

Nem sempre os adultos se saem melhor que os jovens. A taxa de divórcios é menor quando o homem se casa na adolescência

ÉPOCA - O que o senhor propõe?
Epstein -
A solução é simples: restabelecer o vínculo dos adolescentes com os adultos. Como? Dando a eles a opção de se tornar adultos tão logo queiram tentar. Não acho que as pessoas devam ser julgadas pela idade, pelo sexo ou pela etnia, e sim pelas habilidades. Nós poderíamos dar aos jovens diversas formas de participar do mundo adulto. Um grande teste dessa passagem da infância para a maturidade é o exame de motorista. Todos os jovens que fazem o teste passam. Não importa quão ruins sejam na escola, se cometeram algum delito ou se usam drogas. Se não passam na primeira tentativa, passam na segunda. Ou na terceira. Tentam até aprender e conseguir. Da mesma forma, se você permitir que eles façam testes para dar um passo adiante rumo à vida adulta, eles mostrarão que têm capacidade.

ÉPOCA - Dirigir é uma tarefa complexa?
Epstein -
É extremamente complexa. Especialmente quando comparada com as habilidades necessárias para assinar um contrato ou para se casar. Essas, sim, são atividades bem simples. Permanecer casado é complexo, mas se casar é muito simples. Nisso, muitos adultos não se dão melhor que os adolescentes. A taxa de divórcios entre homens que se casaram na adolescência aqui é mais baixa que a taxa de homens que se casaram na faixa dos 20 anos.

ÉPOCA - São raros os adolescentes que sustentam a si próprios.
Epstein -
São raros porque não permitimos. Não deixamos que os adolescentes adquiram propriedades ou abram empresas. Milhares de adolescentes abriram negócios na internet. Só não fazem mais porque não têm o próprio dinheiro. George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos, chefiava várias pessoas aos 16 anos, quando trabalhava como agrimensor. Jimmy Carter, outro ex-presidente, vendia amendoins aos 7 anos e dirigia aos 14. Os dois aderiram ao mundo adulto desde muito cedo. A cultura adolescente não existia naquele tempo. E, como resultado, eles se tornaram adultos maravilhosos.

ÉPOCA - Será que é isso que os adolescentes querem?
Epstein -
Os jovens são mais saudáveis e mais determinados. No entanto, o trabalho mais comum para eles aqui são atividades estúpidas como varrer o chão ou assumir o caixa de uma lanchonete. Estudos mostram que jovens envolvidos com drogas largam o hábito quando finalmente começam a trabalhar. Mais de 10 milhões de adolescentes americanos bebem regularmente. Mais de 1 milhão deles precisam de tratamento contra o alcoolismo e abuso de drogas. Se tivessem oportunidade de trabalhar - não no caixa do McDonald's, mas numa atividade de verdadeira responsabilidade - e fazer parte do mundo adulto, iriam parar com isso.

ÉPOCA - E no sexo? Os adolescentes também devem ser responsabilizados?
Epstein -
Eles vão fazer sexo cedo ou tarde, mas os pais podem se certificar de que os filhos estão prontos para essa nova etapa. O mesmo pode ser dito sobre a decisão de fazer um aborto. O que acontece agora é que os jovens fazem tudo o que querem, mas em conflito com os pais, por baixo do pano. Estamos tornando o amadurecimento deles uma fase escondida.

ÉPOCA - No Brasil, discute-se a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. O que o senhor pensa da prisão de jovens criminosos?
Epstein -
A lei deve proteger pessoas porque são incapazes, e não porque são jovens. Não é possível um jovem de 13 anos cometer um crime e ter total capacidade de entender o que fez? É claro que é.

ÉPOCA - Estudos mostram que o cérebro dos adolescentes é menos desenvolvido que o dos adultos. Não é natural, portanto, que eles sejam de alguma forma problemáticos?
Epstein -
Não existe um só estudo que demonstre a existência de um "cérebro adolescente" que seja responsável pelos problemas causados pelos jovens. O cérebro muda ao longo da vida; é claro que o cérebro dos adolescentes tem um aspecto um pouco diferente do cérebro de alguns adultos. Isso não explica o comportamento. Não podemos culpar a idade do cérebro pela irresponsabilidade dos jovens.

segunda-feira, maio 12, 2008

Ciências e letras

Achei que seria só mais um lamento sobre a esterilidade do pós-modernismo nos estudos literários e culturais, até chegar a este trecho:

Or consider this shibboleth of modern literary theory: the author is dead. Roughly speaking, this statement means that authors have no power over their readers. When we read stories we do not so much yield to the author's creation as create it anew ourselves - manufacturing our own highly idiosyncratic meanings as we go along. This idea has radical implications: If it is true, there can be no shared understanding of what literary works mean. But like so much else that passes for knowledge in contemporary literary studies, this assertion has its basis only in the swaggering authority of its asserter - in this case, Roland Barthes, one of the founding giants of poststructuralist literary theory.

Is this one of those squishy, unfalsifiable literary claims? No, it is also testable. Hijacking methods from psychology, Joseph Carroll, John Johnson, Dan Kruger, and I surveyed the emotional and analytic responses of 500 literary scholars and avid readers to characters from scores of 19th-century British novels. We wanted to determine how different their reading experiences truly were. Did reactions to characters vary profoundly from reader to reader? As we write in "Graphing Jane Austen," a book undergoing peer review, there were variations in what our readers thought and felt about literary characters, but it was expertly contained by the authors within narrow ranges. Our conclusion: rumors of the author's demise have been greatly exaggerated.

Ah, ainda existe esperança na academia...



domingo, maio 11, 2008

A paz possível: de novo a não-violência

Estou lendo, dentre outras obras, O Princípio da Não-Violência, do autor abaixo mencionado. Encontrei o livro na quinta passada, então ainda estou no primeiro capítulo, mas tem sido uma leitura excelente. Em poucas páginas, Jean-Marie Muller conseguiu me fascinar, não apenas pelo estilo elegante e incisivo, mas também pela honestidade. Ele repudia a violência, sim, mas reconhece os elementos que levam a ela; reafirma a brutalidade da força e a corrupção que seu emprego costuma trazer aos que dela se valem, mas não nega o valor da agressividade. Em suma, ele não apresenta uma utopia pacifista que devemos abraçar em nome de altos princípios morais, mas começa o livro já reconhecendo a natureza de nossos impulsos. Vivemos num mundo violento, cuja cultura nos instiga desde cedo um sentimento de naturalidade para com ela... mas isso acontece por determinadas razões que devem ser encaradas. E, por isso mesmo, embora defenda a não-violência inclusive como princípio de vida (e não como mero meio para um fim), ele não nega a ninguém o direito à defesa ou à indignação frente à injustiça. Para mim, essa é a chave para uma postura não-violenta que não implique um quietismo improdutivo, cúmplice do abuso e da tirania.

Ainda estou começando nesse campo, mas desde já identifiquei uma questão crucial e inevitável. A. J. Muste (1885-1967), um renomado militante pacifista americano, escreveu durante a Segunda Guerra Mundial que o pacifismo só podia ser plenamente entendido por alguém acostumado a uma visão religiosa do mundo, isto é, com parâmetros que transcendem o aqui e o agora. Dessa forma, o verdadeiro pacifista poderia não só abraçar sua causa como aceitar plenamente os custos e sacrifícios dela decorrentes -- inclusive o sacrifício da própria vida. Não nego isso, uma visão transcendente realmente relativiza noções que, numa perspectiva mundana, não dariam margem a dúvida. Por exemplo, pouca gente duvidaria que os movimentos para evitar a Guerra do Iraque foram um fracasso, já que não atingiram seu objetivo principal; contudo, espiritualmente falando, não se pode medir o quanto eles foram bem-sucedidos em pelo menos mudar as idéias sobre guerra e paz daqueles que com eles tomaram contato. Disse Gandhi, não sei se com essas palavras, que "o caminho é a meta" -- na não-violência, o mero esforço para alcançá-la, a vivência sincera dessa opção de vida, já consiste numa vitória, nem que seja para os próprios ativistas. E lendo os testemunhos de membros e ex-membros de vários movimentos sociais, não apenas os religiosos, vê-se que realmente eles podem promover significativas mudanças nas consciências dos que com eles se relacionam. São "olhos que se abrem", emoções que se educam, horizontes que se expandem. Isso já independe da conquista de uma causa concreta, e dificilmente será uma experiência a ser esquecida por aqueles que tomaram parte nela. Na pior das hipóteses, ao menos para eles o movimento terá sido um marco em sua vida.

É possível difundir uma perspectiva assim? É prática numa cultura laicizada? Mesmo aceitando o que "o caminho é a meta", não devemos nos preocupar ao máximo com a eficácia do movimento? E se esta não existir ou demorar, como lidar com a frustração daqueles que deram seu suor e seu sangue (até literalmente) pela causa?

Tenho pensado muito nessas coisas e ainda à procura de interlocutores.

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Para Filósofo Francês, Violência é Método Ultrapassado

Entrevista de Jean-Marie Muller publicada no jornal
Folha de S. Paulo em 01/12/2005

FLÁVIA MANTOVANI
da Folha de S. Paulo

A não-violência não é uma teoria idealista ou fora da realidade. A violência é que é.Quem inverte o senso comum é o filósofo francês Jean-Marie Muller, que pesquisa, hámais de 30 anos, a teoria da não-violência. Para ele, é preciso experimentar um novocaminho para resolver os conflitos humanos. "A violência dá exemplos em excesso de fracassos para que não tenhamos a inteligência de tentar a não-violência", afirma.

Autor de 27 livros na área, Muller coloca em prática o que prega. Em 1970, fez greve de fome para protestar contra a venda de aviões Mirage ao governo militar brasileiro. Em 1972, participou da ação do Batalhão da Paz, que conseguiu pôr fim aos testes nucleares a céu aberto realizados pela França. Muller é fundador e diretor do Instituto de Pesquisas sobre a Resolução Não-Violenta de Conflitos, que participa das reuniões da defesa nacional francesa. Em São Paulo a convite da Associação Palas Athena, ele concedeu a seguinte entrevista à Folha.


Folha- Como educar as crianças para a não-violência?

Jean-Marie Muller- Antes, gostaria de falar sobre a não-violência na educação. Ao
longo da história, a violência contra a criança foi considerada um meio de educar: pais e educadores batiam nelas. Hoje, a violência por parte dos professores é proibida em muitos países, mas é permitida nas famílias. A experiência e as pesquisas mostram que crianças que apanham tornam-se pais violentos. Ao mesmo tempo, a criança precisa da autoridade do adulto e não vamos permitir que ela faça tudo. É preciso colocar limites e fazê-la compreender que é do interesse dela respeitar as regras. É o que chamamos de regra de ouro, que é "não faça ao outro o que você não quer que o outro faça com você". No fim das contas, é a educação do respeito ao outro. Quando acontece o conflito entre duas crianças no pátio do recreio, por exemplo, é preciso que o adulto intervenha e faça o que chamamos de mediação. Nesse caso, trata-se de reunir as duas para uma conversa.

Folha - Isso vale também para conflitos entre adultos?

Muller- No essencial, sim. Se podemos fazer com que as crianças compreendam a regra de ouro, esperamos que os adultos também o façam. As pessoas devem entender que a violência é sempre um fracasso, um drama, um sofrimento que jamais solucionará os conflitos humanos. Conflitos são naturais, mas é preciso resolvê-los de forma que tenhamos dois ganhadores, seja no nível da vida pessoal, na vida política em uma sociedade ou mesmo no nível internacional.


Folha - A não-violência é diferente da passividade ou da covardia?

Muller- Gandhi dizia que, se a escolha fosse unicamente entre a violência e a covardia, ficaria com a primeira. Para ele, era preferível que os indianos resistissem violentamente a aceitar a dominação. Ele afirmava que havia muito mais coragem na não-violência do que na violência. Um episódio que ilustra bem isso foi o que ocorreu com Rosa Parks, a primeira mulher que lançou a resistência dos negros nos EUA. Na época, os ônibus tinham lugares reservados para os brancos. Um dia, ela se sentou em um desses lugares. Quando um branco pediu que ela se levantasse, ela permaneceu sentada. Quando o condutor do ônibus pediu o mesmo, ela continuou lá, e não se moveu nem quando os policiais chegaram. Permanecer sentada exigia muita resistência, energia e coragem. A covardia teria sido levantar-se.

Folha - O uso da violência não é necessário nem para se defender de um ataque?

Muller- O homem violento se defende sempre de um ataque. É sempre o outro que começou. No conflito entre israelenses e palestinos, cada lado usa a violência para se defender da violência do outro. Os dois justificam seus assassinatos pelos seus mortos. É verdade que é preciso se defender. A questão é encontrar as estratégias não violentas eficazes para isso. No nível pessoal, as artes marciais são métodos não violentos de autodefesa. O aikido, por exemplo, permite que um japonês pequenininho se defenda de um japonês enorme que tem uma espada. No caso de Israel e Palestina, é evidente que a violência não vai resolver o problema. Hoje, eles são praticamente incapazes de encontrar por si próprios uma solução. É necessária uma mediação
internacional. Seria preciso que centenas, milhares de voluntários internacionais formados na resistência não violenta de conflitos se dirijam para lá e usem os métodos de mediação no interior sociedade civil.

Folha - Os jovens filhos de imigrantes que queimaram carros na França poderiam ter
usado métodos não violentos de protesto?

Muller- Eu deveria dizer sim, mas isso seria fácil demais. Não devemos reescrever a história. O que é necessário é compreender por que houve essa violência. Esses jovens estão numa situação de ruptura social: fracasso na escola, falta de trabalho, famílias desestruturadas, racismo. São jovens a quem a palavra nunca foi dada. Para eles, a violência não é um meio de ação: é uma forma de expressão, um grito de revolta que expressa o sofrimento e a falta de esperança. E eu diria, contrariamente ao que diz o presidente da França, que a primeira coisa que precisamos fazer é compreender, e a segunda, proibir. Não são os policiais que devem resolver a situação. O que é grave é que nós esperamos que os carros fossem queimados para cuidarmos dos problemas. O governo tinha suprimido quase que a totalidade das subvenções para associações sociais, tinha suprimido a polícia comunitária. Parece que eles vão restabelecer isso tudo. Agora eu acredito que, depois dessa explosão de violência, seria essencial que esses jovens pudessem encontrar outros meios de expressão não violentos.

Folha - A construção de uma civilização não violenta é possível?

Muller- Não vou responder que é impossível e sei que não é suficiente responder que ela é possível. Vou dizer que ela é difícil. Isso porque ela não vai acontecer naturalmente. Quando me perguntam se sou otimista ou pessimista, cito o escritor francês George Bernanos, que dizia que o otimista é um imbecil feliz e o pessimista, um imbecil infeliz. Recuso-me a escolher entre duas formas de imbecilidade. O peso da herança da violência sobre a sociedade é tão grande que não posso ser otimista. Mas não sou pessimista, porque a violência não é uma fatalidade. Ela é construída pelas mãos dos homens. Nossas mãos podem desconstruir a fatalidade da violência. Acredito que há lugar para uma esperança. Nos oito dias que passei em São Paulo, encontrei muitas pessoas dispostas a experimentar a não-violência. Certamente, sairei do Brasil com mais esperança do que quando cheguei aqui.

terça-feira, maio 06, 2008

1968 sob outro prisma

Entre passado e futuro: os 40 anos de 1968*

por Daniel Aarão Reis

As comemorações dos quarenta anos de 1968, em termos históricos, ainda se referem a acontecimentos e a processos relativamente recentes. Para os que participaram de algum modo da aventura de 1968, no entanto, já decorreu um tempo considerável. Em qualquer caso, há uma certa distância, o que, em princípio, não garante coisa alguma, salvo poder meditar e discutir sobre versões diferenciadas e controversas que não deixaram de se acumular ao longo das décadas.

De alguns anos para cá, menos ou mais, segundo as sociedades, as datas redondas têm quase obrigado a um esforço de reflexão sobre certos marcos, considerados importantes, ou decisivos, na história. Alguns têm mesmo feito uma crítica contundente à febre das comemorações. Elas estariam se banalizando a tal ponto, e invadindo de tal forma os debates, que, a continuar assim, as margens para novas ações e acontecimentos se veriam reduzidas já que os atores sociais capazes de empreendê-las estariam sempre ocupados em... comemorar alguma coisa já acontecida!

Entretanto, a opção de evitar, ou fugir dos debates associados às comemorações pode não ser boa conselheira, eis que as batalhas de memória, não raro, são tão, ou mais, importantes que os objetos a que se referem, porque têm a capacidade de reconstruí-los ou remodelá-los, confirmando-se o velho aforismo de que a versão vale mais do que o fato, sobretudo quando não se tem consenso sobre o fato/os fatos em questão. Alguns inclusive pretendem, na vertigem dos relativismos cada vez mais dominantes, que a versão é o próprio fato, na medida em que a ele se sobrepõe, modificando os contornos e conferindo sentido às ações empreendidas no passado. Segundo esta orientação, os fatos dependeriam das versões e não travar os debates sobre elas seria abandonar os fatos à própria sorte ou ao controle dos que imaginam deles se apropriar como bem entendam.

Trata-se portanto de considerar e assumir os riscos inerentes ao exercício das comemorações, sobretudo quando se tem em vista a tendência a comemorar no sentido mais usual que, infelizmente, é pior sentido da palavra, ou seja, no sentido de celebrar acriticamente uma data, ou um processo, ou um conjunto de acontecimentos. Nas celebrações, como se sabe, tendem a desaparecer as contradições e as disputas, e a história é recuperada, ou narrada, segundo as conveniências das circunstâncias, e/ou dos celebrantes, ou dos valores dominantes, ou que passaram a dominar. Pode acontecer com os chamados veteranos que, com o passar do tempo, queiram ou não, vão se convertendo em ex-combatentes, obrigados a conviver com os avatares inevitáveis deste tipo de situação. Mas pode acontecer também, em chave negativa, aos que desejam se livrar deles, ou dos acontecimentos a eles associados. Estes dedicam-se a celebrar, exaltados, não a vigência de algo, mas o seu desaparecimento ou enterro. E isto se aplica a processos mais recentes ou mais remotos.

Sustento a possibilidade de comemorar (relembrar juntos) sem celebrar, o que, de modo algum, significa, como se verá, que pretenda entrar no debate sem premissas ou pontos de vista determinados.


O que impressiona no ano de 1968, e muitos já o têm sublinhado, é...

(Quer ler o artigo na íntegra? Clique aqui.)

segunda-feira, maio 05, 2008

O retorno

São coisas assim que reafirmam minha fé em Deus. Só falta agora anunciarem um roteirista que realmente preste, de preferência da HBO, e atingirei o Nirvana imediatamente.

A propósito, não faço a menor idéia de quem é esse tal de Justin Marks.

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Confira as novas imagens de Street Fighter
(05/05/2008 - 16h03)

Da Redação www.cineclick.com.br
Cena de Street Fighter

Foram divulgadas as novas imagens do filme adaptado do game Street Fighter: The Legend of Chun-Li. O longa é dirigido por Andrzej Bartkowiatk (Romeu Tem Que Morrer), com roteiro de Justin Marks. As seqüências de luta serão coreografadas por Dion Lam (Matrix).

Neal McDonough (88 Minutos) será o terrível Bison. O papel foi vivido anteriormente pelo falecido Raul Julia em Street Fighter - A Última Batalha (1994).

O filme será protagonizado por Kristen Kreuk (a Lana Lang de Smallville). Também estão confirmados no elenco Michael Clarke Duncan (À Espera de Um Milagre), como o boxeador Balrog, Chris Klein (American Pie), como o militar Nash, e Rick Yune (Velozes e Furiosos), como Gen. Também estão no elenco Neal McDonough (como M. Bison), Taboo (como Vega), Josie Ho (como Cantana), Moon Bloodgood (como Maya), Edmund Chen (como Huang) e Pei Pei Cheng (como Zhilan).

Street Fighter: The Legend of Chun-Li tem previsão de estréia em 2009.

sexta-feira, maio 02, 2008

Ativismo ético no mercado financeiro

Estudando a não-violência, tenho me deparado com questões difíceis. Mais até do que isso, tenho tido de lidar mais diretamente, sobretudo nas suas manifestações ligadas a movimentos religiosos americanos, com uma visão de mundo que só posso definir como radical. Se ela traduz o primitivo espírito das tradições a que se ligam (no caso, a cristã, principalmente), é algo aberto à discussão. Mas não se pode negar que a adoção de certos princípios no dia-a-dia implica um radicalismo de fazer corar os anarquistas mais empedernidos.

Tenho feita algumas descobertas, na verdade fontes de informação que ainda não sei se terei tempo e disciplina para explorar como merecem. Uma delas é a revista Sojourners, que procura examinar os mais diversos assuntos de um ponto de vista cristão -- sem, contudo, se reduzir a um instrumento de propaganda sectária. Considerando a importância que ela tem para vários ativistas e estudiosos da não-violência, fui visitá-la e me deparei com o artigo a seguir. Deu-me muito o que pensar.
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http://www.sojo.net/index.cfm?action=magazine.article&issue=soj0805&article=080520

Wall Street and Christian Conscience

Why I'm a shareholder activist.
by Susan Wennemyr

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My father-in-law, a Swedish Baptist missionary, did not invest in stocks on principle. As he was also the most joyous person I’ve known, I responded to his abstention like the woman in the deli scene of When Harry Met Sally: “I’ll have what he’s having!” Maybe I, too, should own no stocks as a point of Christian conscience. As a freshly minted Quaker theologian when this question first crossed my path, it sounded good to me.

Since then, I have added to my Ph.D. a “FINRA Series 7,” the registration that stockbrokers get. As a financial planner, I sometimes recommend stocks to clients. I’ve moved from a puritanical concern with avoiding temptation to an activist’s preoccupation with transforming what is rotting in my world. Thinking of the barbarous abuses in sweatshops, of the killing fields that border mineral deposits, and of the disease that emerges downstream from carcinogenic effluents, I am reminded of the poignant passage: “Jesus wept.”

In this mood, I still often want to have nothing to do with those corporations that create suffering to bolster revenues that, in turn, are distributed in absurdly imbalanced ratios between executives and other employees. To abstain from corporate ownership by avoiding stocks, though, is to take an Amish-style stance of not touching what is compromised in the world. This posture is rooted in the insight that subjecting oneself to temptation is playing with fire. It’s an admirable choice. Undeniably, maintaining a pure spirit was central to the teachings of Jesus, who would always shift attention from the letter to the spirit of the law—without ignoring the former.

Reading Walter Wink changed everything for me. His work Engaging the Powers made me see that taking a separate, superior stance was to abdicate the Christian duty to be “in the world, but not of the world.” Opting out of that vital tension by abstaining from stock ownership was choosing simply to be “not of the world.” Where was the engagement with the “powers and principalities” that Wink brought to life as vividly as Jesus had done?

In today’s world, I knew, power meant access to capital. How could I tap into that power in a way responsive to the call of Christ? I decided to learn the language of finance and advise those whose capital could make a difference. Today I’m the principal of Alabaster Financial Planning, helping progressive Christians use their capital to advance our shared vision of the reign of God.

Upon entering this profession, I had to decide if I would recommend stock ownership to my clients. Could it be done responsibly, or was it intrinsically corrupting? Publicly traded stocks are essentially really big co-ops; people share ownership of an enterprise whose profits they then divide. But they differ from co-ops, because trading in secondary markets (in stock exchanges) creates distance between the eventual owners and the actual operations of the enterprise. I drive by my CSA field every day. If I were to see school-age children in rags tilling the land, I could screech to a halt and protest. In contrast, with stock in an international corporation I don’t see the laborers, the work conditions, or the billowing smokestacks from which I enjoy the profits. I’d have to do a lot of research to learn what “my” companies were up to.

What are the benefits of doing that research? When companies behave badly, they justify it by appealing to their fiduciary obligation to stockholders—i.e. by law they owe their shareholders the highest possible profits, whatever it takes. But what if the stockholders themselves protested bad corporate behavior? I can think of few more effective ways to practice discipleship in the modern economy.

This relatively new practice of shareholder activism organizes minority shareholders to request changes in corporate conduct. The oldest technique in socially responsible investing is simply to screen against stocks that are polluting, for instance, or selling weapons. It offers a Puritan’s solution, keeping my conscience clean but leaving “the powers and principalities” unchecked. By contrast, telling a CEO that a lot of shareholders will dump the stock (reducing both the price and prestige of the stock) unless the corporation changes its conduct—now that’s transformative! Historically, the mere threat of a shareholder campaign often creates change, and it’s doing so at an increasing rate. Management typically requests a pre-emptive dialogue with activists, who may agree to call off a proxy battle if certain conditions are satisfied.

MY THOUGHTS return to my father-in-law, that man so free of all fear. His face in the frame on my desk shakes me from complacency with my own conclusions, reminding me of the danger along the path I’ve forged: greed. I know that avarice is no small threat, a temptation mentioned abundantly by Jesus as a grave danger to our love of God.

Activist shareholders have already curbed greed, to a degree. They know that paying a living wage, for instance, will cut into their returns. They’re telling a company’s managers, “We’re willing to take a hit of x percent on profit in order to keep drinking water clean near our factories.”

Still, owning stocks can foster greed by its very nature. One buys them alongside bonds—which are loans with a fixed rate of repayment—because one wants the opportunity to get more than bonds are paying, which is predictable and limited. As wealth is addictive, one is at risk for finding oneself a year from now wanting limitless gain, setting aside activism altogether in the zeal to boost earnings. Replacing “limitless” with “infinite,” it becomes clear that we have entered the theological territory of idolatry, forgetting Martin Luther’s crucial lesson: that God is God, and we are not. Surely this is a danger to be taken seriously, even in a post-puritanical paradigm.

With this in mind, I recommend Christian participation in the stock market with a second caveat: We must seek to transform the companies we own and be vigilant practitioners of the spiritual disciplines. Consider following the advice that Richard Levin, the president of Yale, gives to graduating seniors: Choose someone now that you will call in the future when you need an ethical friend. In Christian community, one can make a pact with a pastor, spouse, or friend, asking them to stop us when they see that greed has pulled us into its undertow.

Is the stock market compatible with a Christian conscience? I’ve come to believe that it is. But it is not to be entered into casually. It requires research and engagement on your part, or by your adviser or fund manager. More important, stock market participation calls for spiritual discernment in the context of the broader body of Christ. If a share of Google would keep you from living like the lilies of the field, it’s overpriced at any cost.

Susan Wennemyr (swennemyr@finsvcs. com) is a registered representative of—and offers securities, investment advisory, and fee-based financial planning services through—MML Investors Services, Inc., member SIPC, 1500 Main Street, 12th Floor, Springfield, MA 01115, (413) 781-6850. Insurance offered through Massa­chusetts Mutual Life Insurance Company (MassMutual) and other companies.

The views expressed here are those of Wennemyr and are not necessarily those of MML Investors Services Inc. or MassMutual and should not be construed as investment advice.





Série de TV britânica mostra lado feio da moda



Jovens britânicos trabalharam em fábricas na Índia
Jovens britânicos trabalharam em fábricas na Índia
As condições de trabalho duvidosas de algumas das fábricas que produzem artigos baratos em países do sudeste asiático preocupam muitos consumidores. Mas essa preocupação é suficiente para fazer com que eles deixem de comprar, por exemplo, camisetas “Made in China” vendidas por preços extremamente baixos?

A BBC resolveu tirar a dúvida enviando seis jovens britânicos que gostam de moda para passar uma temporada vivendo as duras condições de trabalho em fábricas de roupas na Índia, como parte de uma série de quatro episódios transmitida na televisão britânica.

Na série “Blood, Sweat and T-Shirts” (Sangue, Suor e Camisetas), os jovens, com idades entre 20 e 24 anos, costuraram roupas em fábricas indianas, trabalhando longas horas e dormindo no chão ao lado de suas máquinas de costura.

Entre os participantes estão Georgina, de 20 anos, que não vê problema em usar uma roupa apenas uma vez e jogar a peça fora; e Tara, de 21 anos, que quer ser estilista e precisou colocar suas habilidades à prova para tentar cumprir a meta de costurar duas peças por minuto imposta pela empresa indiana.

A idéia da série é avaliar como esses jovens mudam sua atitude para com a moda barata produzida em condições duvidosas em países como a Índia, Bangladesh e China e vendida em lojas britânicas.

Revista

Para acompanhar a série, a BBC está produzindo também a revista online Thread, direcionada aos internautas entre 16 e 30 anos e que será publicada durante seis meses.

Revista mostra moda ética

“Recentemente tem havido um grande burburinho a respeito da moda ética, mas muitas pessoas ainda estão confusas”, diz Steve Goggin, diretor de campanhas da BBC.

Segundo ele, certos estereótipos ainda rondam esse tipo de moda, principalmente de que se trata de peças feias e sem estilo, caras ou difíceis de achar.

“Por isso, estamos usando peças interessantes que podem ser encontradas online ou em redes de lojas conhecidas. Também temos a preocupação de mostrar que nem todas as roupas éticas são caras”, diz Goggin.

O conceito do que é uma roupa ética também gera confusão entre os consumidores, já que uma peça pode ter sido feita com algodão orgânico, por exemplo, mas em fábricas que não garantem boas condições de trabalho aos seus funcionários.

A questão é mesmo complicada e a revista decidiu mostrar roupas e acessórios que respeitem pelo menos um dos seguintes critérios: que sejam produzidos e transportados de forma ética, respeitando o meio-ambiente e os direitos dos trabalhadores ou que sejam feitos usando materiais orgânicos e sustentáveis.

Roupas usadas e instruções para que os leitores façam suas próprias peças também tem espaço na revista.

A primeira edição da Thread traz uma reportagem mostrando as condições de trabalho em que são produzidas algumas roupas e um guia explicando os jargões da moda ética (palavras como reciclado, sustentável e orgânico), além de um ensaio fotográfico usando peças produzidas de forma ética.

Entre os temas das próximas edições estarão os direitos dos animais, a produção de algodão orgânico e o futuro da moda ética.

quinta-feira, maio 01, 2008

Médiuns na Superinteressante

O tema me interessa, claro. Admito que achei a matéria um tanto pequena para uma reportagem de capa (aliás, com uma ilustração muito bonita), mas é otimo que veículos como a Super dêem atenção ao assunto. Por mais que contrarie as crenças de muita gente, falar de mediunidade tem muito menos a ver com "fé" do que, simplesmente, com conhecimento. É um fenômeno relativamente comum, existente e utilizado em muito mais que uma religião (ou a despeito dela), e, depois que se investiga os casos a ela relacionados, sejam aqueles da literatura sobre fenomenologia psíquica, sejam os inúmeros relatos de pessoas próximas (e acredito que cada brasileiro tenha acesso a pelo menos um), a conclusão a se tirar é que só o preconceito e a crassa ignorância justificam alegar que ele não existe. É bem verdade que a comunidade científica ainda fica um tanto perdida quando trata dele, mas há cem anos ela também ficava quando se tratava do vôo de objetos mais pesados que o ar ou transmissões de rádio.

Espero ainda viver para ver o tema tratado em larga escala não como curiosidade ou tópico sensacionalista, mas com o respeito que merece. Afinal, ele sugere um nível de potencial humano bem diferente daquele a que estamos acostumados, cujo reconhecimento pode ter também considerável repercussão social.
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Superinteressante
, maio de 2008

Médiuns: O que a ciência tem a dizer sobre a mediunidade?

Os cientistas acreditam que o cérebro explica a mediunidade, mas não saberm dizer como.

De repente, coisas estranhas ocorrem. A pessoa vê vultos inexplicáveis, ouve vozes de gente que não aparece ou faz previsões que, de tão acertadas, não parecem ser apenas coincidência.

Depois dos momentos de susto, chega a hora de deixar de negar o fenômeno e tentar conviver com ele.

Os brasileiros que acreditam ter dons mediúnicos geralmente procuram centros espíritas – há 14 mil deles no país – e acabam conhecendo gente com histórias parecidas. "Mas, quando a mediunidade é exuberante, você não pode evitá-la" , diz Marta Antunes, diretora da Federação Espírita Brasileira.

As imagens de espíritos ou a inspiração para escrever uma carta costumam aparecer do nada, como um déjà vu, na hora em que a pessoa menos espera. É como dizia o médium Chico Xavier: "O telefone toca sempre de lá para cá".

Na tentativa de ligar daqui para lá, muitas religiões do planeta criam rituais e provocam um momento de êxtase: o transe. Para os médiuns, o transe é o ponto alto de sua habilidade, quando conseguem incorporar um espírito.

Já para os psiquiatras, é um estado alterado de consciência, assim como a hipnose, que se atinge após um longo processo de concentração. Rituais com danças frenéticas, mantras, estímulos luminosos, jejum prolongado e até plantas alucinógenas fariam o participante sair de si.

Uma boa forma de desvendar a mediunidade é entender como rituais levam ao transe e como o transe resulta nos relatos de contato com os espíritos. Por isso, os cientistas tentam estudar o que acontece no cérebro durante esse momento único.

A busca tem duas frentes. Numa delas há espíritas que tentam explicar e comprovar cientificamente a mediunidade. É o caso do psiquiatra Sérgio Felipe Oliveira, professor de medicina e espiritualidade da USP e membro da Associação Médico-Espírita de São Paulo.

Segundo ele, a glândula pineal é a responsável pela interatividade com o mundo dos espíritos. Do tamanho de uma ervilha, a pineal fica no centro do cérebro e produz a melatonina, hormônio que regula o sono. "É um órgão sensorial capaz de converter ondas eletromagnéticas em estímulos neuroquímicos", diz. Oliveira acredita que as pessoas que dizem sofrer possessões têm na pineal uma quantidade maior de cristais de apatita, um mineral parecido com o esmalte dentário. Quanto mais cristais, maior seria a sensibilidade espiritual.

Na outra frente estão neuropsicólogos que usam exames de ressonância magnética e tomografias para tentar entender que mecanismos o cérebro aciona durante os rituais religiosos.

O neurocientista Mario Beauregard, da Universidade de Montreal, no Canadá, estudou o cérebro de 15 freiras carmelitas enquanto elas rezavam. Achou uma dezena de pontos ativados, especialmente nas áreas relacionadas à emoção, orientação corporal e consciência de si próprio.

Já o radiologista Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, mapeou a ativação cerebral de monges budistas. Analisando tomografias dos religiosos durante a meditação, Newberg notou que a área relacionada à orientação corporal é quase toda desativada, o que pode justificar a sensação relatada de desligamento do corpo.

Ele também estudou freiras franciscanas durante longas preces. Descobriu que o fluxo sanguíneo do lóbulo parietal esquerdo, parte responsável pela orientação, caía bruscamente. Para Newberg, as irmãs franciscanas experimentavam a sensação de união com Deus porque o cérebro delas deixava de fazer a separação do próprio corpo com o mundo.

Mas nenhuma das duas frentes de pesquisa tem explicações definitivas para os efeitos do transe. Por isso, as origens fisiológicas da mediunidade seguem sendo um mistério. "A grande pergunta é: há uma base única para todos os transes? O que a neuropsicologia tem indicado é que não", afirma Paulo Dalgalarrondo.


E leia mais na edição impressa:
É possível curar doenças graves em cirugias espeirituais que duram menor de um minuto?

Como os médiuns conseguem dar detalhes do morto nas mensagens que psicografam?

Como os detetives mediúnicos trabalham para ajudar – e às vezes atrapalhar – as investigações policiais?



sábado, abril 26, 2008

A origem de nossas cores

Não sei o quanto esse tipo de datação é realmente confiável. Leio as páginas de ciências dos jornais há tempo suficiente para saber que as idéias mudam com certa velocidade nesse campo. Mas, sem dúvida nenhuma, é um achado importante e que deve ser divulgado -- quando mais não seja pelo fato de que ainda há muita gente sendo agindo de forma ridícula.


Folha de S. Paulo
26/4/2008
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2604200831.htm



DRAUZIO VARELLA

Éramos todos negros

A você que se orgulha da cor da própria pele (seja ela qual for), tenho um conselho: não seja ridículo

ATÉ ONTEM , éramos todos negros. Você dirá: se gorilas e chimpanzés, nossos parentes mais chegados, também o são, e se os primeiros hominídeos nasceram justamente na África negra há 5 milhões de anos, qual a novidade?

A novidade é que não me refiro a antepassados remotos, do tempo das cavernas (em que medíamos um metro de altura), mas a populações européias e asiáticas com aparência física indistinguível da atual.

Trinta anos atrás, quando as técnicas de manipulação do DNA ainda não estavam disponíveis, Luca Cavalli-Sforza, um dos grandes geneticistas do século 20, conduziu um estudo clássico com centenas de grupos étnicos espalhados pelo mundo.

Com base nas evidências genéticas encontradas e nos arquivos paleontológicos, Cavalli-Sforza concluiu que nossos avós decidiram emigrar da África para a Europa há meros 100 mil anos.
Como os deslocamentos eram feitos com grande sacrifício, só conseguiram atingir as terras geladas localizadas no norte europeu cerca de 40 mil anos atrás.

A adaptação a um continente com invernos rigorosos teve seu preço. Como o faz desde os primórdios da vida na Terra sempre que as condições ambientais mudam, a foice impiedosa da seleção natural ceifou os mais frágeis. Quem eram eles?

Filhos e netos de negros africanos, nômades, caçadores, pescadores e pastores que se alimentavam predominantemente de carne animal. Dessas fontes naturais absorviam a vitamina D, elemento essencial para construir ossos fortes, sistema imunológico eficiente e prevenir enfermidades que vão do raquitismo à osteoporose; do câncer, às infecções, ao diabetes e às complicações cardiovasculares.

Há 6.000 anos, quando a agricultura se disseminou pela Europa e fixou as famílias à terra, a dieta se tornou sobretudo vegetariana.

De um lado, essa mudança radical tornou-as menos dependentes da imprevisibilidade da caça e da pesca; de outro, ficou mais problemático o acesso às fontes de vitamina D.

Para suprir as necessidades de cálcio do esqueleto e garantir a integridade das demais funções da vitamina D, a seleção natural conferiu vantagem evolutiva aos que desenvolveram um mecanismo alternativo para obter esse micronutriente: a síntese na pele mediada pela absorção das radiações ultravioletas da luz do sol.

A dificuldade da pele negra de absorver raios ultravioletas e a necessidade de cobrir o corpo para enfrentar o frio deram origem às forças seletivas que privilegiaram a sobrevivência das crianças com menor concentração de melanina na pele.

As previsões de Cavalli-Sforza foram confirmadas por estudos científicos recentes.

Na Universidade Stanford, Noah Rosemberg e Jonathan Pritchard realizaram exames de DNA em 52 grupos de habitantes da Ásia, África, Europa e Américas.

Conseguiram dividi-los em cinco grupos étnicos cujos ancestrais estiveram isolados por desertos extensos, oceanos ou montanhas intransponíveis: os africanos da região abaixo do Saara, os asiáticos do leste, os europeus e asiáticos que vivem a oeste do Himalaia, os habitantes de Nova Guiné e Melanésia e os indígenas das Américas.

Quando os autores tentaram atribuir identidade genética aos habitantes do sul da Índia, entretanto, verificaram que suas características eram comuns a europeus e a asiáticos, achado compatível com a influência desses povos na região.

Concluíram, então, que só é possível identificar indivíduos com grandes semelhanças genéticas quando descendem de populações isoladas por barreiras geográficas que impediram a miscigenação.

No ano passado, foi identificado um gene, SLC24A5, provavelmente responsável pelo aparecimento da pele branca européia.

Num estudo publicado na revista "Science", o grupo de Keith Cheng seqüenciou esse gene em europeus, asiáticos, africanos e indígenas do continente americano.

Tomando por base o número e a periodicidade das mutações ocorridas, os cálculos iniciais sugeriram que as variantes responsáveis pelo clareamento da pele estabeleceram-se nas populações européias há apenas 18 mil anos.

No entanto, como as margens de erro nessas estimativas são apreciáveis, os pesquisadores tomaram a iniciativa de seqüenciar outros genes, localizados em áreas vizinhas do genoma. Esse refinamento técnico permitiu concluir que a pele branca surgiu na Europa, num período que vai de 6.000 a 12 mil anos atrás. A você, leitor, que se orgulha da cor da própria pele (seja ela qual for), tenho apenas um conselho: não seja ridículo.


domingo, abril 13, 2008

Seu hoje — sua vida


Dê valor à sua vida, não a malbaratando por motivo algum.

Cada dia deve ser vivido com intensidade proveitosa, superior.

Não transfira de uma para outra oportunidade a mágoa ou a queixa. Supere-as no nascedouro, a fim de preservar sua saúde.

Seus atos — sua vida.


O seu não é o mais grave problema dentre os muitos que existem.

Há os menores, é certo, mas também existem outros muitíssimo mais graves e intricados que o seu.

O problema é efeito natural do processo de evolução, que todas as pessoas enfrentam.

Não se lamente, portanto, nem busque compaixão.

Seu comportamento emocional e moral — sua vida.


...Se, por enquanto, chovem calhaus sobre sua cabeça e se multiplicam cardos ferindo-lhe os pés, ou se traz no cerne do ser punhais de angústia, recomponha-se e produza causas novas, que anularão tais efeitos e gerarão futuras alegrias.

Sua sementeira — sua vida.


Arme-se de coragem, seja qual for a faixa em que você se encontre em trânsito de experiência evolutiva.

Seu esforço — sua vida.


Hoje, você é o que fez de si mesmo, porém, será amanhã o que hoje realiza da oportunidade com que se defronta.

Seu hoje — sua vida.

Marcos Prisco (in: Luz Viva,
psicografia de Divaldo Franco)

quinta-feira, abril 10, 2008

Cotidiano

Um grande atraso no trabalho...

Gente chorando por causa de nota...

Uma ausência inesperada...

Celular que não atende...

Um galo na cabeça...

Saudade que não se mata...

Notícias que não se tem...

De quantas pequenas coisas é feito um mau dia?

E, todavia, um único gesto no vidro e tudo desaparece como num encanto.

Quem disse que não existe mágica!?!?

sexta-feira, abril 04, 2008

Há 40 anos...

... um grande homem morreu de forma estúpida num hotel. Tombou um líder social, nasceu um símbolo -- espiritual, político, talvez até revolucionário. Depois de Gandhi, o jovem pastor batista Martin Luther King deve ter sido o mais conhecido divulgador da não-violência e da união entre espiritualidade e ativismo político neste lado do mundo. Quando morreu, o auge de sua influência já havia passado, sufocada pelo imediatismo dos "revolucionários" que pregavam a utopia pelo ódio e pelas armas. Por trágica ironia, isso se viu até nas reações à sua morte: nos dias seguintes ao crime, as grandes cidades americanas explodiram em revoltas raciais e mais violência, o oposto de tudo aquilo por que King lutara.

Aqui, King é pouco conhecido, exceto por referências em filmes e outras produções americanas. Pena. Sua vida -- que não foi isenta de erros, caso alguém sinta a tentação de santificá-lo -- foi um exemplo de que é possível combater a injustiça e a opressão sem recorrer aos mesmos instrumentos que elas, sem opor mais ódio àquele que já infecta uma sociedade desigual e violenta.

Tenho pensado muito sobre a eficiência e os limites do que Gandhi e King pregaram. Porém, independentemente da conclusão, sei que valeu a pena terem apostado no caminho que escolheram. Se ainda se pode discutir o quanto de "eficácia" política tiveram em vida, ninguém pode negar o legado moral que deixaram.

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04/04/2008
Memphis homenageia Martin Luther King 40 anos após sua morte

da Folha Online

No 40º aniversário do assassinato do líder negro Martin Luther King Jr., a cidade de Memphis (Tennessee), onde ele morreu, deve homenageá-lo nesta sexta-feira como um "símbolo" da paz.

Moradores, líderes de grupos de defesa dos direitos civis, sindicalistas e milhares de cidadãos de todos os Estados americanos devem participar das homenagens a King, que durante sua vida lutou pela igualdade racial e justiça econômica.
AP
O líder negro Martin Luther King Jr., assassinado em 4 de abril de 1968
O líder negro Martin Luther King Jr.,
assassinado em 4 de abril de 1968

Os pré-candidatos presidenciais Hillary Clinton e John McCain devem participar de eventos ligados ao aniversário de 40 anos da morte, entre eles uma passeata em Memphis. O senador por Illinois Barack Obama deve realizar atos de campanha em Indiana.

"O país inteiro se comoveu quando ele foi assassinado com o disparo de um rifle em 4 de abril de 1968", disse a escritora Cynthia Griggs Fleming, que está entre os historiadores e ativistas que participam de grupos de discussões e leituras a respeito do legado deixado por King.

Em debate nesta quinta-feira, Fleming lembrou que King pediu a seus partidários que continuassem a lutar pela igualdade de direitos, sem se importarem com as dificuldades. "Não fiquem tão consumidos pela dor que não possam ouvir a mensagem", disse ela, citando King.

O líder negro morreu no hotel Lorraine, quando ajudava na organização de uma greve de trabalhadores da área de saneamento de Memphis, que eram os mais pobres da cidade.

O Museu Nacional de Direitos Civis foi inaugurado em 1991 no local onde ficava o hotel.

King foi um símbolo das manifestações não-violentas pela mudanças social, e seus escritos e discursos inspiram seguidores até hoje. "O mundo ainda ouve Martin", disse C.T. Vivian, ativista que lutou ao lado de King. "Há pessoas que não o escutaram então, mas que o escutam agora. Eles querem conhecer esse homem. O que ele dizia? O que ele pensava?".

Washington

No Congresso, líderes da Câmara e do Senado que já trabalharam ao lado de King marcaram a data com um tributo realizado no Capitólio.

"Devido à liderança deste homem nós deixamos o medo de lado e nos mobilizamos", disse o congressista John Lewis, que foi companheiro de luta de King durante a década de 60.

Em Indianapolis, Ethel Kennedy, viúva do senador Robert Kennedy --irmão do ex-presidente John F. Kennedy-- fará um discurso em cerimônia realizada no parque Martin Luther King Jr.

Seu falecido marido deu um discurso emocionado no mesmo local na noite em que King foi assassinado.

Em Atlanta, o Centro Histórico Martin Luther King Jr. lembra a data com a abertura de uma exibição especial sobre os últimos dias de sua vida e sobre o funeral.

com Associated Press

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EUA lembram os 40 anos da morte de Martin Luther King

Cerimônias em Memphis marcam o aniversário do assassinato do ativista pelos direitos civis dos negros

Agências internacionais

Fonte: http://www.estadao.com.br/internacional/not_int151194,0.htm

King foi morto na sacada do Motel Lorraine, em Memphis

AP

King foi morto na sacada do Motel Lorraine, em Memphis

MEMPHIS - Candidatos presidenciais, ativistas e milhares de pessoas se reunirão em Memphis nesta sexta-feira, 4, para honrar a memória do líder pela luta dos direitos civis Martin Luther King, 40 anos após o seu assassinato na cidade americana.

Veja também:

link Negro e branco, Obama revitaliza Martin Luther King

link Especial: Líder negro morria há exatos 40 anos

Pastor e filho de pastor, King foi em vida a principal figura da luta pelos direitos cívicos dos negros nos anos 1950 e 1960 do século XX, e após sua morte, se tornou um mito a que recorrem com freqüência políticos, ativistas e inclusive artistas comprometidos. O suposto assassino, Earl Ray, começou confessando o crime, mas pouco depois se retratou e proclamou sua inocência até sua morte há 10 anos, chegando inclusive a convencer a família de King.

"King foi um homem que entendeu o conceito de não-violência com uma profundidade que nunca antes conheci", disse C.T. Vivian, um antigo colaborador do líder. "O país retrocedeu completamente" quando King foi assassinado pelo disparo de um fuzil em 4 de abril de 1968, afirmou a escritora Cynthia Griggs Fleming, uma das muitas pessoas que estão na cidade para participar da cerimônias e conferências sobre o legado de King.

Os candidatos presidenciais Hillary Clinton e John McCain participarão dos atos em memória, entre eles uma marcha na cidade e depositarão flores no hotel em que ele foi assassinado. O senador Barack Obama estará em campanha no Estado de Indiana. King foi assassinado na varanda do Motel Lorraine, em Memphis, de onde organizava uma greve de trabalhadores contra as condições de insalubridade entre os mais pobres.

Radical?

A maior parte dos americanos vê o reverendo King como o pregador do discurso 'Eu Tenho um Sonho' no memorial Lincoln Center, em Washington. Mas o homem que fez sua última viagem a Memphis em 1968 se tornou um radical, segundo estudiosos e ativistas. King apostou seu legado numa cruzada final revolucionária, que alarmou seus conselheiros mais próximos. Segundo a CNN, alguns estavam preocupados com sua instabilidade emocional.

O reverendo chamou essa cruzada da 'Campanha das Pessoas Pobres'. Ele planejava marchar em Washington com uma multidão de pobres para um manifesto que visava paralisar a capital americana. O objetivo de campanha era forçar o governo federal a parar o financiamento da guerra do Vietnã e destinar esse dinheiro para o combate à pobreza. Em seu último discurso à Conferência Cristã do Sul, King teria dito que o objetivo do movimento era de "reestruturar toda a sociedade americana". Ele teria ainda defendido a nacionalização de algumas indústrias e chamado a audiência a "questionar a economia capitalista".

De acordo com a CNN, a campanha era tão arriscada que King disse a Bernard LaFayette Jr., líder da Conferência Cristã do Sul, durante uma conversa por telefone, que indicaria uma nova gerência ao grupo de direitos civis no qual ele era co-fundador. "Ele estava antecipando que alguns assassinatos poderiam ocorrer, então quis alguém para assumir as responsabilidades para continuar com o plano", disse Lafayette. "Quando ele empreendeu a campanha, King sabia que não iria vencer", disse Taylor Branch, autor de Parting the Waters: America in the King Years. O autor disse que o reverendo sabia que poderia morrer, mas acreditava que o sacrifício poderia trazer benefícios econômicos ao pobres.

A radicalização do discurso do reverendo nos últimos anos de sua vida causou controvérsias com outros ativistas pelos direitos civis e fez com que King perdesse um de seus mais importantes interlocutores: o presidente Lyndon Johnson. No dia 4 de abril de 1967, exatamente um ano antes de sua morte, ele proferiu um discurso contra a guerra do Vietnã de muita repercussão. "Johnson ficou furioso", conta Roger Wilkins, um oficial destacado pelo Departamento de Justiça como ligação entre o ativista e o governo americano.

quinta-feira, abril 03, 2008

Riqueza e (in)felicidade

International Herald Tribune


03/04/2008
Não é fácil ser um bilionário

Michael Johnson*
Em Bordeaux, França


Um bilionário de Seattle para o qual já trabalhei enfrentou dificuldades financeiras há dois anos, quando seus negócios começaram a ruir.

Ele teve que vender sua ilha particular e se livrar de seu iate (um dos maiores do mundo) ao mergulhar em relativa pobreza.

Meu ex-empregador, um magnata da telefonia celular, agora saiu da mais recente lista de bilionários da revista "Forbes" enquanto luta para se manter. Só lhe restam algumas poucas centenas de milhões e ele não é um homem feliz.

Steve Fenn/ABC/Reuters
O bilionário Warren Buffett (esq.) participa de episódio da série "All My Children"

Apesar da riqueza extraordinária deste empreendedor e outros de sua liga, ela nunca parece lhes proporcionar serenidade. Eles sabem quão rapidamente pode ser perdida, o que os faz perguntar: "Por que o suficiente não é realmente suficiente?"

Até mesmo detentores de velhas fortunas são atormentados por esta pergunta. Um consultor amigo meu, que antes trabalhava para Nelson Rockefeller, lembra de tê-lo ouvido se queixar de seus ataques recorrentes de insegurança.

A riqueza líquida pessoal de Rockefeller era de cerca de US$ 3 bilhões. Ao ser perguntado quanto precisava para poder relaxar, Rocky fez uma breve pausa e disparou: "Quatro bilhões devem dar", ele disse.

A dinastia Rothschild tinha problemas semelhantes. Trabalhando para a "Business Week", eu certa vez me encontrei separadamente com os ramos francês, britânico e suíço da família. Me chamou a atenção a briga familiar em torno de como transformaram sua grande fortuna em pequenas fortunas.

Um membro do ramo suíço da família me confidenciou seu desprazer com seus parentes franceses, que conseguiram perder dinheiro em imóveis franceses. "É realmente preciso se esforçar para conseguir isso", ele disse.

Eu suspeito que não exista algo como ter dinheiro suficiente. Na verdade, muitos dos super-ricos concordam que quanto mais você tem, mais você se preocupa a respeito. Suas histórias estão em um grande livro, "Riquistão", de Robert Frank.

Frank cita um empreendedor americano, identificado apenas como George, como tendo dito que ele e outros bilionários (1.125 deles segundo a última contagem da "Forbes") sofrem com uma combinação de cobiça e medo. "Se as pessoas ficam preocupadas, é parte do que as motiva", George é citado como tendo dito. "Nós estamos sempre preocupados."

Certamente não basta mais ser milionário. A equipe da "Forbes" disse que já existem mais de 8 milhões de americanos nessa lista, de forma que o que importa agora é a lista dos bilionários, mesmo que apenas como esporte de espectador. Alguns dos concorrentes da Microsoft adoraram ver Bill Gates ser derrubado do topo da lista neste ano pelo investidor de Omaha, Warren Buffett (US$ 62 bilhões), e pelo magnata mexicano de telecomunicações, Carlos Slim Helu (US$ 60 bilhões). Gates caiu para terceiro, com US$ 58 bilhões.

Os bilionários não são apenas americanos. Indianos, russos e chineses estão despontando em números crescentes entre os super-ricos.

Mas com grandes riquezas pode vir grande desconforto, segundo pessoas que estudaram a psicologia da riqueza. O principal problema é a "affluenza" -a culpa em relação ao abismo entre os muito ricos e as demais pessoas.

Um segundo problema é a compulsão para continuar a acumular ainda mais. O dr. Paul Wachtel, professor de psicologia do City College e City Graduate Center de Nova York, examinou este problema em seu famoso trabalho, "Full Pockets, Empty Lives" (bolsos cheios, vidas vazias), no "American Journal of Psychoanalysis".

Wachtel reconheceu que o dinheiro pode ser um símbolo de sucesso, mas ele identifica a inveja e a ganância como os motivadores escondidos por trás do anseio por mais e mais dinheiro.

"A busca pelo dinheiro e bens materiais como meta central da vida cobra um preço bem alto", ele escreveu. Os estudos mostram que o dinheiro exerce "um papel notavelmente pequeno" na verdadeira felicidade ou bem-estar de uma pessoa. Na verdade, a intimidade e a vida familiar são freqüentemente sacrificadas em nome do prover para a família.

E a inveja alimenta o impulso da ganância, argumentou Wachtel: "Nós podemos querer não apenas o que os outros têm, mas muito mais do que os outros têm, ou mais apenas pelo mais".

Eu falei recentemente com Wachtel e perguntei a ele para onde a cultura da riqueza estava levando. As pessoas na faixa de renda dos seis dígitos têm problema em controlar a busca por mais, ele disse: "Elas se tornam escravas da manutenção do nível material que conseguiram. Se torna uma esteira mecânica sem prazer".

Ele tinha alguns conselhos para os ricos infelizes. "Se os 5% mais ricos trabalhassem dois terços do que trabalham, e ganhassem dois terços do que ganham, suas vidas seriam imensuravelmente mais ricas", ele disse. "O tempo, eles descobririam, é um bem muito mais valioso do que o dinheiro."

*Michael Johnson é um redator da "Business Week" que vive em Bordeaux.

Tradução: George El Khouri Andolfato

quarta-feira, março 26, 2008

Muçulmanas nos EUA e a educação pública

Sempre achei essa situação curiosa: pessoas que migram para um país, levam ou têm lá seus filhos, e apesar disso alegam que o sistema educacional local, ou mesmo os valores correntes na sociedade, não servem para seus filhos. É bem verdade que os EUA não são conhecidos por uma grande preocupação com a plena integração dos grupos imigrantes -- existe uma guetificação mais ou menos pronunciada, ao estilo das antigas "colônias" brasileiras. Ora, se é tão terrível o sistema de valores vigentes, por que levar os filhos para lá? E por que a distinção de tratamento entre homens e mulheres?

É verdade que a matéria diz que essa ênfase no home schooling é maior entre conversos que entre imigrantes propriamente ditos, mas os depoentes usados para ilustrar o assunto aparentemente são todos imigrantes ou filhos de imigrantes.

Em princípio, o home schooling me soa como um exercício legítimo de liberdade por parte dos pais. Contudo, é inegável que a socialização das crianças perde muito quando elas não têm a oportunidade de freqüentar uma escola. Defendo que a educação serve, entre outras coisas, para expandir os horizontes do educando, fazer com que ele amplie sua visão de mundo, preparando-se então até mesmo para avaliar criticamente suas próprias raízes, se for o caso (pensem em um morador de gueto que se desloca para uma universidade, ou um fundamentalista obrigado a lidar com a pluralidade de opiniões no campus). Como fazer isso em casa, sob supervisão permanente dos pais/tutores? Nesse caso, parece-me realmente uma desculpa para criar manter a mentalidade do gueto.

Pode-se objetar que os valores dos países de origem dessas pessoas são muito diversos dos americanos, e que tal reação conservadora é compreensível. Mas aí volto ao ponto inicial: se são tão diferentes a ponto de serem inaceitáveis, por que foram para lá? Apenas por razões econômicas? Mas então o bem-estar material vale o risco da "honra" e da "dignidade" dos próprios filhos, já que, por mais que se vigie, estes de uma forma ou de outra -- televisão, jornais, vizinhos -- entrarão em contato com um modo de vida diferente do de seus pais?

Não que o estilo de vida ocidental não seja criticável, ele é, e muito. Em muitos lugares, o senso de comunidade é demasiado tênue para ser notado de forma relevante na vida das pessoas. A banalidade sexual também se destaca aos olhos de quem vem de culturas mais tradicionais. Entretanto, há diálogos possíveis, trocas que podem ser saudavelmente realizadas. O simples isolamento impede isso.

Como? E se eu fosse criar uma filha no Paquistão? Bem, eu certamente não me oporia a que ela usasse aqueles véus, se quisesse. Apenas faria questão de mostrar que, se não quisesse, também poderia, sem que ela valesse menos como ser humano por isso. Afinal, se há uma virtude na cultura ocidental de hoje, especialmente no que concerne à condição feminina, é a possibilidade de escolhas. Não é muito realista supor que o mesmo valha em todo o Paquistão.

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NY Times, 26/3/2008.

Many Muslims Turn to Home Schooling

David Kadlubowski for The New York Times

Karima Tung, 12, one of three girls home-schooled by their mother, Fawzia Mai Tung. An important part of the school day: reading the Koran.

Published: March 26, 2008

LODI, Calif. — Like dozens of other Pakistani-American girls here, Hajra Bibi stopped attending the local public school when she reached puberty, and began studying at home.

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David Kadlubowski for The New York Times

Karima, right, with her sisters, Kiram, 8, and Kadhima, 14, playing with yo-yos in a study break at their Phoenix home.

Her family wanted her to clean and cook for her male relatives, and had also worried that other American children would mock both her Muslim religion and her traditional clothes.

“Some men don’t like it when you wear American clothes — they don’t think it is a good thing for girls,” said Miss Bibi, 17, now studying at the 12th-grade level in this agricultural center some 70 miles east of San Francisco. “You have to be respectable.”

Across the United States, Muslims who find that a public school education clashes with their religious or cultural traditions have turned to home schooling. That choice is intended partly as a way to build a solid Muslim identity away from the prejudices that their children, boys and girls alike, can face in schoolyards. But in some cases, as in Ms. Bibi’s, the intent is also to isolate their adolescent and teenage daughters from the corrupting influences that they see in much of American life.

About 40 percent of the Pakistani and other Southeast Asian girls of high school age who are enrolled in the district here are home-schooled, though broader statistics on the number of Muslim children being home-schooled, and how well they do academically, are elusive. Even estimates on the number of all American children being taught at home swing broadly, from one million to two million.

No matter what the faith, parents who make the choice are often inspired by a belief that public schools are havens for social ills like drugs and that they can do better with their children at home.

“I don’t want the behavior,” said Aya Ismael, a Muslim mother home-schooling four children near San Jose. “Little girls are walking around dressing like hoochies, cursing and swearing and showing disrespect toward their elders. In Islam we believe in respect and dignity and honor.”

Still, the subject of home schooling is a contentious one in various Muslim communities, with opponents arguing that Muslim children are better off staying in the system and, if need be, fighting for their rights.

Robina Asghar, a Muslim who does social work in Stockton, Calif., says the fact that her son was repeatedly branded a “terrorist” in school hallways sharpened his interest in civil rights and inspired a dream to become a lawyer. He now attends a Catholic high school.

“My son had a hard time in school, but every time something happened it was a learning moment for him,” Mrs. Asghar said. “He learned how to cope. A lot of people were discriminated against in this country, but the only thing that brings change is education.”

Many parents, however, would rather their children learn in a less difficult environment, and opt to keep them home.

Hina Khan-Mukhtar decided to tutor her three sons at home and to send them to a small Muslim school cooperative established by some 15 Bay Area families for subjects like Arabic, science and carpentry. She made up her mind after visiting her oldest son’s prospective public school kindergarten, where each pupil had assembled a scrapbook titled “Why I Like Pigs.” Mrs. Khan-Mukhtar read with dismay what the children had written about the delicious taste of pork, barred by Islam. “I remembered at that age how important it was to fit in,” she said.

Many Muslim parents contacted for this article were reluctant to talk, saying Muslim home-schoolers were often portrayed as religious extremists. That view is partly fueled by the fact that Adam Gadahn, an American-born spokesman for Al Qaeda, was home-schooled in rural California.

“There is a tendency to make home-schoolers look like antisocial fanatics who don’t want their kids in the system,” said Nabila Hanson, who argues that most home-schoolers, like herself, make an extra effort to find their children opportunities for sports, music or field trips with other people.

Lodi’s Muslims also attracted unwanted national attention when one local man, Hamid Hayat, was sentenced last year to 24 years in prison on a terrorism conviction that his relatives say was largely due to a fabricated confession. (Had he been more Americanized, they say, he would have known to ask for a lawyer as soon as the F.B.I. appeared.)

Parents who home-school tend to be converts, Mrs. Khan-Mukhtar said. Immigrant parents she has encountered generally oppose the idea, seeing educational opportunities in America as a main reason for coming.

If so, then Fawzia Mai Tung is an exception, a Chinese Muslim immigrant who home-schools three daughters in Phoenix. She spent many sleepless nights worried that her children would not excel on standardized tests, until she discovered how low the scores at the local schools were. Her oldest son, also home-schooled, is now applying to medical school.

In some cases, home-schooling is used primarily as a way to isolate girls like Miss Bibi, the Pakistani-American here in Lodi.

Some 80 percent of the city’s 2,500 Muslims are Pakistani, and many are interrelated villagers who try to recreate the conservative social atmosphere back home. A decade ago many girls were simply shipped back to their villages once they reached adolescence.

“Their families want them to retain their culture and not become Americanized,” said Roberta Wall, the principal of the district-run Independent School, which supervises home schooling in Lodi and where home-schooled students attend weekly hourlong tutorials.

Of more than 90 Pakistani or other Southeast Asian girls of high school age who are enrolled in the Lodi district, 38 are being home-schooled. By contrast, just 7 of the 107 boys are being home-schooled, and usually the reason is that they were falling behind academically.

As soon as they finish their schooling, the girls are married off, often to cousins brought in from their families’ old villages.

The parents “want their girls safe at home and away from evil things like boys, drinking and drugs,” said Kristine Leach, a veteran teacher with the Independent School.

The girls follow the regular high school curriculum, squeezing in study time among housework, cooking, praying and reading the Koran. The teachers at the weekly tutorials occasionally crack jokes of the “what, are your brothers’ arms broken?” variety, but in general they tread lightly, sensing that their students obey family and tradition because they have no alternative.

“I do miss my friends,” Miss Bibi said of fellow students with whom she once attended public school. “We would hang out and do fun things, help each other with our homework.”

But being schooled apart does have its benefit, she added. “We don’t want anyone to point a finger at us,” she said, “to say that we are bad.”

Mrs. Asghar, the Stockton woman who argues against home schooling, takes exception to the idea of removing girls from school to preserve family honor, calling it a barrier to assimilation.

“People who think like this are stuck in a time capsule,” she said. “When kids know more than their parents, the parents lose control. I think that is a fear in all of us.”

Aishah Bashir, now an 18-year-old Independent School student, was sent back to Pakistan when she was 12 and stayed till she was 16. She had no education there.

Asked about home schooling, she said it was the best choice. But she admitted that the choice was not hers and, asked if she would home-school her own daughter, stared mutely at the floor. Finally she said quietly: “When I have a daughter, I want her to learn more than me. I want her to be more educated.”

Um site de perder a cabeça

Site traz lista de guilhotinados na Revolução Francesa

Maria Antonieta e seus filhos
A rainha Maria Antonieta morreu na guilhotina em 1793, em Paris
Um site que apresenta uma das mais completas listas de pessoas guilhotinadas durante a Revolução Francesa está fazendo sucesso na França e já atraiu mais de 250 mil visitantes.

“Você tem um ancestral decapitado durante a Revolução?”, é a pergunta feita na página de abertura do site Les Guillotinés (“Os Guilhotinados”), que reúne nomes de cerca de 18 mil vítimas desse período da História da França, que durou dez anos.

Para cada pessoa, é possível identificar o motivo preciso da condenação, como por exemplo, “conspirador”, “insubmisso”, “declarou esperar a volta do Antigo Regime”, “traidor da pátria” e “líder de agrupamentos”.

O site, criado por Raymond Combes, um técnico em informática, também permite constatar que não foram apenas os nobres que morreram na guilhotina, contrariamente à idéia normalmente mais difundida sobre o período.

Uma das pessoas mais famosas que morreram guilhotinadas é a rainha Maria Antonieta, morta em 1793 na Praça da Concórdia, em Paris.

Mas camponeses e operários, acusados de serem contra-revolucionários, também foram decapitados, e seus nomes podem ser localizados no site Les Guillotinés, o que vem despertando a curiosidade de muitos franceses em relação aos seus antepassados.

De acordo com o historiador Jean-Louis Beaucarnot, especialista em genealogia, cerca de 5 milhões de franceses teriam um ascendente que morreu guilhotinado durante a Revolução Francesa.

A guilhotina foi inventada pelo médico francês Joseph Ignace Guillotin para executar a pena capital. Ele esperava que o aparelho permitisse execuções menos dolorosas e “mais humanas”.

As informações reunidas no site “Os Guilhotinados” são baseadas em inúmeros livros, além de documentos realizados por ocasião do bicentenário da Revolução Francesa, em 1989, e ainda informações obtidas em diferentes regiões francesas.

O criador do site afirma que muitos nomes de pessoas guilhotinadas nunca haviam sido registrados em documentos oficiais.

Combes diz que somente acrescenta nomes na lista de decapitados se existem documentos para comprovar a autenticidade dos fatos.

O site também fornece informações históricas detalhadas sobre os dez anos da Revolução Francesa, de 1789 a 1799, quando Napoleão Bonaparte assumiu o poder após um golpe de Estado.