terça-feira, março 06, 2007

Provação

Já não tens pai, patrão, nem rei, herói, guru ou deus.
Ninguém de fora ou dentro que te dê certeza
e te ordene ou diga o que fazer.
Perdeste o útero materno, o lar, a taba, a igreja
e a nação, urbi et orbe, no universo,
não há lugar em que te possas abrigar - ou esconder.

Nem uma corda ou prancha, cabide ou salva-vidas
resta: nenhuma fé, rumo, ou cruzada
a que te possas agarrar para sobreviver.
Solto no espaço, rolando pelo tempo
é esta agora a humana condição:
és livre e só, sem opção.

Então, não tens escolha:
tens de encontrar teu próprio jeito de viver ou encontrar
a corda e o poste a que te possas suspender.


Chimpanzés, ferramentas e fêmeas engenhosas

http://science.howstuffworks.com/chimp.htm

Are chimpanzees evolving in the wild?

March 6, 2007
If you were to put a sample of chimpanzee DNA next to a sample of human DNA -- and if you had any idea what you were looking at -- you would see that the samples are nearly identical. Chimps and humans share 96 percent of their DNA, and some new research suggests that chimps and humans may have split off from a common ancestor just 4 million years ago, which is a more recent estimate than the generally accepted timeframe of 5 to 7 million years. This would mean that it took about 4 million years for humans and chimpanzees to become completely separate species. The two are so close on the evolutionary ladder that observing chimps offers real glimpses into the way humans may have evolved. And a new, pretty major observation of chimp behavior may provide scientific evidence of a long-suspected theory about human evolution.

Chimpanzees are known to use tools. Many scientific studies, including Jane Goodall's famous work with chimpanzees in Gombe, Tanzania, have documented chimps using tools to complete or simplify tasks like cracking nuts open and getting termites out of logs. They've been observed using a stick to make an opening in a tree trunk big enough to where they get get an arm in to pull out some bugs or honey or other delicacy. But not many researchers have been able to effectively observe chimps outside of Gombe -- it's hard to get them accustomed enough to human presence to catch them acting naturally for long periods of time. And until now, no one has documented a definite case of chimpanzees using tools to hunt in the traditional sense.

Jill Pruetz of Iowa State University and Paco Bertolani from the University of Cambridge successfully observed chimpanzees in Fongoli, Senegal, from March 2005 to July 2006. Their work, published online in the journal Current Biology on February 22, 2007, reveals documentation of chimpanzees using tools to kill animals for food.

What they saw was a fairly methodical, step-by-step process of fashioning what most of us would recognize as a spear. The chimps would first break off a live tree branch, usually about 2 feet (0.6 meters) long; then pull off any leaves and twigs; then, in many cases, scrape off some of the bark at one end of the stick; and then, in many cases, create a point at that end of the stick by gnawing away at the tip with their incisors.

The sharp-point part is a big deal, because no one has seen a chimp sharpen a stick in order to use it to enlarge a hole in a log. This element supports the case that the chimps are creating a spear.

The chimps would then jab the stick into a hollow tree branch or a hole in a tree trunk, which are places where a lemur-related animal called a bushbaby (Galago senegalensis) sleeps during the day. The jabbing was in the motion humans typically think of as "spearing." Of 22 observed cases of this type of action, Pruetz and Bertolani saw only one in which the spear actually pulled a bushbaby out of a tree. But in some cases, the chimps would jab wildly with the stick and then pry open the hole from a bit of a distance in order to get to the bushbaby. Pruetz explains that this seems to indicate the chimps are in fact trying to kill or immobilize the animal with their jabbing, because bushbabies are quick -- if the animal were unharmed when the chimp pried open the hole, it would easily scurry away and evade capture. Also, the chimps would usually sniff or lick the spear after pulling it out of the hole, and the researchers found discarded spears with bushbaby fur stuck to them.

The study makes a case for this type of hunting as a localized adaptation -- in other words, an evolutionary survival trait. Typically, chimpanzees hunt red colobus monkeys for protein. In the overall chimpanzee population, that's the most common prey. But there are no red colobus monkeys in Fongoli. The Fongoli chimpanzee community had to adapt to a different protein source, and spear-based hunting seems to be one way in which the population has adapted. An interesting part of the revelation is Pruetz and Bertolani observed females and adolescent chimps doing most of the hunting with spears, not the adult males who are typically thought of as the hunters in chimpanzee populations. They surmise that the females and young ones may have come up with spear hunting as a way to compete with adult males for protein sources -- to catch a type of animal the males haven't been able to hunt successfully with their arms, legs and teeth. It is this latter observation that may provide insight not only into the behavior of chimpanzees, but also into the process of human evolution.

There is a common belief in the scientific community that females played a key role the evolution of human tool use. As observed in the chimpanzee community, the adult males are typically the last to pick up a new method of accomplishing a task. The adolescent males and females seem to be far more open to adaptation. And since adolescents spend most of their time with the females of the community, biologists have theorized that females are the primary innovators in tool use. The females use tools to adapt to changing conditions and pass along the adaptations to the young of the group, who easily pick up the new tool use. The adolescents eventually become the alpha males and the offspring-rearing females, solidifying the new tool in the daily life of the group. With 96 percent of human DNA matching chimpanzee DNA, the latest observations of female-dominant tool innovation in a chimpanzee community could provide fuel for the theory of female-driven tool innovation in human evolution.

sábado, fevereiro 17, 2007

Planos momescos

Acabou. Dissertação entregue a quem de direito. E agora, com o que preencher as longas horas que ela consumia? Sensação deveras estranha essa, de "pós-estresse".

Bem, é Carnaval, época de porres homéricos, barulho, multidões suadas e fornicações dionisíacas. Muitos planos para o deste ano:

1 - Cartas de Iwo Jima
2 - A Rainha
3 - O Último Rei da Escócia
4 - Babel.

E isso porque Rocky Balboa eu vi ontem, quando não era oficialmente Carnaval.
E para não dizerem que me escondi no cinema, Poltergeist - A Study in Destructive Haunting, de Colin Wilson, para matar saudades das leituras normais.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Um braço de mulher

Rubem Braga


Subi ao avião com indiferença, e como o dia não estava bonito, lancei apenas um olhar distraído a essa cidade do Rio de Janeiro e mergulhei na leitura de um jornal. Depois fiquei a olhar pela janela e não via mais que nuvens, e feias. Na verdade, não estava no céu; pensava coisas da terra, minhas pobres, pequenas coisas. Uma aborrecida sonolência foi me dominando, até que uma senhora nervosa ao meu lado disse que "nós não podemos descer!". O avião já havia chegado a São Paulo, mas estava fazendo sua ronda dentro de um nevoeiro fechado, à espera de ordem para pousar. Procurei acalmar a senhora.

Ela estava tão aflita que embora fizesse frio se abanava com uma revista. Tentei convencê-la de que não devia se abanar, mas acabei achando que era melhor que o fizesse. Ela precisava fazer alguma coisa, e a única providência que aparentemente podia tomar naquele momento de medo era se abanar. Ofereci-lhe meu jornal dobrado, no lugar da revista, e ficou muito grata, como se acreditasse que, produzindo mais vento, adquirisse maior eficiência na sua luta contra a morte.

Gastei cerca de meia hora com a aflição daquela senhora. Notando que uma sua amiga estava em outra poltrona, ofereci-me para trocar de lugar, e ela aceitou. Mas esperei inutilmente que recolhesse as pernas para que eu pudesse sair de meu lugar junto à janela; acabou confessando que assim mesmo estava bem, e preferia ter um homem — "o senhor" — ao lado. Isto lisonjeou meu orgulho de cavalheiro: senti-me útil e responsável. Era por estar ali eu, um homem, que aquele avião não ousava cair. Havia certamente piloto e co-piloto e vários homens no avião. Mas eu era o homem ao lado, o homem visível, próximo, que ela podia tocar. E era nisso que ela confiava: nesse ser de casimira grossa, de gravata, de bigode, a cujo braço acabou se agarrando. Não era o meu braço que apertava, mas um braço de homem, ser de misteriosos atributos de força e proteção.

Chamei a aeromoça, que tentou acalmar a senhora com biscoitos, chicles, cafezinho, palavras de conforto, mão no ombro, algodão nos ouvidos, e uma voz suave e firme que às vezes continha uma leve repreensão e às vezes se entremeava de um sorriso que sem dúvida faz parte do regulamento da aeronáutica civil, o chamado sorriso para ocasiões de teto baixo.

Mas de que vale uma aeromoça? Ela não é muito convincente; é uma funcionária. A senhora evidentemente a considerava uma espécie de cúmplice do avião e da empresa e no fundo (pelo ressentimento com que reagia às suas palavras) responsável por aquele nevoeiro perigoso. A moça em uniforme estava sem dúvida lhe escondendo a verdade e dizendo palavras hipócritas para que ela se deixasse matar sem reagir.

A única pessoa de confiança era evidentemente eu: e aquela senhora, que no aeroporto tinha certo ar desdenhoso e solene, disse suas malcriações para a aeromoça e se agarrou definitivamente a mim. Animei-me então a pôr a minha mão direita sobre a sua mão, que me apertava o braço. Esse gesto de carinho protetor teve um efeito completo: ela deu um profundo suspiro de alívio, cerrou os olhos, pendeu a cabeça ligeiramente para o meu lado e ficou imóvel, quieta. Era claro que a minha mão a protegia contra tudo e contra todos, estava como adormecida.

O avião continuava a rodar monotonamente dentro de uma nuvem escura; quando ele dava um salto mais brusco, eu fornecia à pobre senhora uma garantia suplementar apertando ligeiramente a minha mão sobre a sua: isto sem dúvida lhe fazia bem.

Voltei a olhar tristemente pela vidraça; via a asa direita, um pouco levantada, no meio do nevoeiro. Como a senhora não me desse mais trabalho, e o tempo fosse passando, recomecei a pensar em mim mesmo, triste e fraco assunto.

E de repente me veio a idéia de que na verdade não podíamos ficar eternamente com aquele motor roncando no meio do nevoeiro - e de que eu podia morrer.

Estávamos há muito tempo sobre São Paulo. Talvez chovesse lá embaixo; de qualquer modo a grande cidade, invisível e tão próxima, vivia sua vida indiferente àquele ridículo grupo de homens e mulheres presos dentro de um avião, ali no alto. Pensei em São Paulo e no rapaz de vinte anos que chegou com trinta mil-réis no bolso uma noite e saiu andando pelo antigo viaduto do Chá, sem conhecer uma só pessoa na cidade estranha. Nem aquele velho viaduto existe mais, e o aventuroso rapaz de vinte anos, calado e lírico, é um triste senhor que olha o nevoeiro e pensa na morte.

Outras lembranças me vieram, e me ocorreu que na hora da morte, segundo dizem, a gente se lembra de uma porção de coisas antigas, doces ou tristes. Mas a visão monótona daquela asa no meio da nuvem me dava um torpor, e não pensei mais nada. Era como se o mundo atrás daquele nevoeiro não existisse mais, e por isto pouco me importava morrer. Talvez fosse até bom sentir um choque brutal e tudo se acabar. A morte devia ser aquilo mesmo, um nevoeiro imenso, sem cor, sem forma, para sempre.

Senti prazer em pensar que agora não haveria mais nada, que não seria mais preciso sentir, nem reagir, nem providenciar, nem me torturar; que todas as coisas e criaturas que tinham poder sobre mim e mandavam na minha alegria ou na minha aflição haviam-se apagado e dissolvido naquele mundo de nevoeiro.

A senhora sobressaltou-se de repente e muito aflita começou a me fazer perguntas. O avião estava descendo mais e mais e entretanto não se conseguia enxergar coisa alguma. O motor parecia estar com um som diferente: podia ser aquele o último e desesperado tredo ronco do minuto antes de morrer arrebentado e retorcido. A senhora estendeu o braço direito, segurando 0 encosto da poltrona da frente, e então me dei conta de que aquela mulher de cara um pouco magra e dura tinha um belo braço, harmonioso e musculado.

Fiquei a olhá-lo devagar, desde o ombro forte e suave até as mãos de dedos longos. E me veio uma saudade extraordinária da terra, da beleza humana, da empolgante e longa tonteira do amor. Eu não queria mais morrer, e a idéia da morte me pareceu tão errada, tão feia, tão absurda, que me sobressaltei. A morte era uma coisa cinzenta, escura, sem a graça, sem a delicadeza e o calor, a força macia de um braço ou de uma coxa, a suave irradiação da pele de um corpo de mulher moça.

Mãos, cabelos, corpo, músculos, seios, extraordinário milagre de coisas suaves e sensíveis, tépidas, feitas para serem infinitamente amadas. Toda a fascinação da vida me golpeou, uma tão profunda delícia e gosto de viver uma tão ardente e comovida saudade, que retesei os músculos do corpo, estiquei as pernas, senti um leve ardor nos olhos. Não devia morrer! Aquele meu torpor de segundos atrás pareceu-me de súbito uma coisa doentia, viciosa, e ergui a cabeça, olhei em volta, para os outros passageiros, como se me dispusesse afinal a tomar alguma providência.

Meu gesto pareceu inquietar a senhora. Mas olhando novamente para a vidraça adivinhei casas, um quadrado verde, um pedaço de terra avermelhada, através de um véu de neblina mais rala. Foi uma visão rápida, logo perdida no nevoeiro denso, mas me deu uma certeza profunda de que estávamos salvos porque a terra existia, não era um sonho distante, o mundo não era apenas nevoeiro e havia realmente tudo o que há, casas, árvores, pessoas, chão, o bom chão sólido, imóvel, onde se pode deitar, onde se pode dormir seguro e em todo o sossego, onde um homem pode premer o corpo de uma mulher para amá-la com força, com toda sua fúria de prazer e todos os seus sentidos, com apoio no mundo.

No aeroporto, quando esperava a bagagem, vi de perto a minha vizinha de poltrona. Estava com um senhor de óculos, que, com um talão de despacho na mão, pedia que lhe entregassem a maleta. Ela disse alguma coisa a esse homem, e ele se aproximou de mim com um olhar inquiridor que tentava ser cordial. Estivera muito tempo esperando; a princípio disseram que o avião ia descer logo, era questão de ficar livre a pista; depois alguém anunciara que todos os aviões tinham recebido ordem de pousar em Campinas ou em outro campo; e imaginava quanto incômodo me dera sua senhora, sempre muito nervosa. "Ora, não senhor." Ele se despediu sem me estender a mão, como se, com aqueles agradecimentos, que fora constrangido pelas circunstâncias a fazer, acabasse de cumprir uma formalidade desagradável com relação a um estranho - que devia permanecer um estranho.

Um estranho — e de certo ponto de vista um intruso, foi assim que me senti perante aquele homem de cara desagradável. Tive a impressão de que de certo modo o traíra, e de que ele o sentia.

Quando se retiravam, a senhora me deu um pequeno sorriso. Tenho uma tendência romântica a imaginar coisas, e imaginei que ela teve o cuidado de me sorrir quando o homem não podia notá-lo, um sorriso sem o visto marital, vagamente cúmplice. Certamente nunca mais a verei, nem o espero. Mas o seu belo braço foi um instante para mim a própria imagem da vida, e não o esquecerei depressa.


O texto acima foi publicado no livro “Os melhores contos – Rubem Braga”, seleção de Davi Arrigucci Jr., Global Editora – São Paulo, e selecionado por Ítalo Moriconi para compor o livro “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, pág. 169.


Extraído do site Releituras: http://www.releituras.com/rubembraga_menu.asp

sábado, fevereiro 03, 2007

Sina

Sim, eu sou um homem fatal (...). Inspirar paixões sem esperança é meu destino.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Depois

Dois anos... Não, não dois, mas três. Três anos. E agora que a tenho diante de mim, a sensação é de anticlímax. Talvez como o amante que, finda a euforia do primeiro momento, se vê ao lado de uma estranha que nada mais lhe diz. Uma indiferença esquisita, que ainda tem vestígios da forte emoção que a precedeu — como um cansaço. Sim, é essa a palavra: cansaço. Corpo e mente parecem dizer, “Chega!”, mesmo sabendo que isso ainda não é possível. Sinto-os esfriando, esvaziando-se de uma obsessão de semanas, até meses, querendo se convencer de que tudo acabou, que chegamos ao fim. Mas uma razão inabalável insiste que ainda não é a hora, não estamos no fim. Verdade que chegamos perto, que cruzamos um ponto sem retorno... Mas ainda há mais pela frente.

Olho-a, entre exausto e enternecido, quase surpreso por ela e por mim. Não é propriamente que ela tenha perdido o encanto, mas neste momento tudo que a sua lembrança me desperta é o vazio. Vejo-me querendo fugir para longe, para outras memórias, outros momentos. Não que isso realmente fosse me deixar mais feliz... Certas coisas, longe ou perto, continuam conosco, presas não se sabe por que grilhão. Parecem se entranhar em nossa alma por mais que tentemos nos afastar delas. Mas, mesmo que pudesse, eu não seria capaz de fugir. Simplesmente não encontro forças.

Por três anos ela obcecou meu pensamento. Em meus parcos planos de futuro, lá estava ela como uma sombra, primeiro como ambição e depois como uma sentença. E eis que agora ela me contempla, impassível, serena, como se nem tomasse conhecimento das incontáveis horas de frenesi que despertou. Como um ídolo acostumado à adoração, eis que parece esperar, ciumenta, que eu a busque e retome sem delongas, com a dedicação absoluta dos maníacos e a energia dos quase desesperados.

Dei-lhe o melhor de mim. E mesmo quando já não tinha o melhor, sacrifiquei-lhe de bom grado o que mais havia. Verdade que toda nossa longa convivência foi mais feita de arroubos, explosões, que da dedicação constante e diária mostrada por tantos outros. Não fui o mais fiel dos seguidores, nem o mais presente dos companheiros; mas, em minha inconstância, entreguei-me da forma que podia. Não é o que deveria importar? A perfeita entrega de um amor imperfeito, como deveriam ser todos os amores.

Mas estamos quase no fim de nossa longa dança... Eu exausto, é fato, mas ainda ciente de que a música não acabou. É preciso ir adiante, mesmo que cada próximo passo pareça carregado de angústia. Em frente, sempre em frente.

Olho para ela, e vejo parte de mim. Labores, aflições, questionamentos e inspiração distribuídos ao longo de duzentas e sessenta e cinco páginas. Minhas, todas elas. Cruas e carentes de refinamentos, eu sei, por mais que soe tentador dá-las por terminadas. E elas me fazem lembrar o quanto eu gostaria de saber que tudo já passou, que posso olhar para trás com a sóbria satisfação do dever cumprido.

Contudo, não posso. Não ainda.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Descobrindo os próprios instintos

My Turn: Learning My Instincts

How caring for my grandmother taught me about myself.

By Courtney E. Martin


Special to Newsweek


Jan. 26, 2007 - "Doll, help me get into my floral nightgown hanging there," my grandmother said, pointing toward the hospice closet.

I pulled out the nightgown. It was made of an itchy, polyester blend, long, with three plastic pink buttons at the top and huge pink and blue flowers. It was something that I couldn't imagine putting on in a million years, but my grandmother adored bright colors. She thought the blacks and browns that I preferred were an unfortunate side effect of my romantic life in New York City.

She slowly swung her legs over the side of the bed and prepared to sit up, laboring over every movement. Her lungs were slowly turning to stone. At least that's how I understood it. The doctors called it pulmonary fibrosis. They guessed that the disease had first taken root in her tiny body as she tended the chickens on the family farm back in Kearney, Neb., seven decades past. Now every exertion was accompanied by a quiet, but painful-sounding, inhale.

Wordlessly, she pulled off her nightgown. Here she was, my grandmother, naked and wrinkled, so tiny and sunken in that I could hardly recognize her. There were familiar signs: her mastectomy scar, and her characteristically slight shoulders. Her belly even pouched just a little. But otherwise, the woman who stepped into skirted-bathing suits to go to the pool, whose generous lap had sheltered my tears at “E.T.”, whose arthritic knuckles had ached a bit after shooting hoops with me in the alley, was gone. And in her place was a dying creature who needed my help.

It made me feel like a little girl again, far younger than my 21 years. I had an expensive education from an elite institution. I was familiar with the United Nations Declaration of Human Rights. I could describe the theories of a handful of sociologists and political scientists. I knew how to pronounce Dostoevsky.

But I didn't know how to help my dying grandmother. None of that fancy education had prepared me for this moment, a moment that left me feeling stupid and worthless.

My women's-studies courses had emphasized the danger of naturalizing learned behaviors. Socialization became my new favorite word. It was freeing to believe that I wasn't more inclined to communicate or cry just because I was female. Suddenly my choices felt less like destiny and more like self-determination. I scoffed haughtily at my mom's goddess talk and insistence that women were inherently more peaceful.

Now, as I sat in that hospice room, I longed to feel some strong womanly instincts. Wasn't this something I was supposed to know how to do? My own mom, 5 feet 10 inches of maternal hurricane, would know exactly where to place her hands for support, how to untangle the oxygen tube, and she would know how to do it all without embarrassing my grandmother. She would know how to help expertly, invisibly, in that way that women—seemingly by birth—know how to handle death.

Facing the prospect of deep and irreplaceable loss for the first time, I realized that socialization couldn't explain the duty that was swelling inside of me. It was as if the sight of my grandmother's vulnerability tapped unknown resources deep within me.

And as much as my mind hated to admit it, my heart knew that they felt like fundamentally female instincts. My uncle was the strong and silent type, a man's man who preferred to leave the messy stuff up to his wife and sisters. My father and brother—though both sensitive and feminist—weren't in that room, witnessing my grandmother's disintegration.

I gently pulled the tubing from the oxygen tank away from her arms and neck, so that it wouldn't get snagged and threaten her fragile breath. I set aside the discarded nightgown and put the new, brighter one over her head, being careful that it didn't catch around her ears. I pulled it down around her waist. I helped her swing her legs back on to the bed, gently putting my hands under each bony ankle and guiding them upward. I, again, held the oxygen tube while she scooted herself back onto the nightgown, back into her home, the little cave of bed where she rested.

"There," she said, smiling up at me, "thanks for helping an old girl out."

"There," I echoed. And for the first time in a long time, I didn't have a theory to explain my pain.

Martin lives in Brooklyn, N.Y.
© 2006 Newsweek, Inc.

URL: http://www.msnbc.msn.com/id/16827053/site/newsweek/page/3/

domingo, janeiro 21, 2007

Olhar

Uma hora da última tarde de verão. Almoço.


- O Carnaval é a melhor coisa que já inventaram! Uma maravilha! Em Salvador, então, foi melhor ainda...- e começou a contar, animada, suas aventuras momescas Brasil afora.

Do outro lado da mesa, ouvia-a, atento. Observava-a, na verdade. A história era boa, cheia de lances engraçados. Ouvia-a, mas sobretudo via-a. Melhor dizendo, gravava-lhe a imagem. Vagava prazerosamente, por trás da máscara de atenção, por aqueles traços que ficara tanto tempo sem ver. A narrativa seguia, em gestos e expressões que valeriam um Oscar. Mas era apenas uma trilha de fundo. Salvador estava tão longe, e ela estava tão perto, logo ali. Seus olhos, pequenos e vivazes, dançavam nas órbitas a cada lembrança. Testemunhas silenciosas de cada momento contado, iam para a esquerda, para a diagonal direita, pulavam para cima e para baixo, e como que ausentavam-se quando ela buscava uma palavra ou frase mais fugidia. Poucas vezes fixavam-se nos dele, cravados nela.

E a história, sempre adiante. Trios elétricos. Cachaça deliciosa. Comida típica cara e rara. Medo de intoxicação alimentar. Festa. Dança. Catarse. Cansaço.

E os olhos dele sempre a vagar: ora se perdendo nos dela, como se a querer ver o que lhes havia por trás; ora demorando-se, gulosos, nas tenras maçãs do rosto pequenino; enfim lampejando sobre os lábios vermelhos e absorventes... E então voltava aos olhos fugidios, para melhor convencer num comentário qualquer, ou numa risada estratégica.

Os olhos... tão pequenos e vivazes! Lembrou-se de como os via antes, quando se conheceram. Não os contemplava tanto, por falta de audácia e oportunidade. Colegas de trabalho em sala repleta, como demorar-se neles? E, não obstante, ainda via ali o mesmo brilho, a mesma energia, a mesma overdose de vida. Como estrelas negras, eram olhos cheios de luz e calor, que por estranho capricho da gravidade prendiam os dele em sua órbita.

Timbalada. Daniela Mercury. Frevo. Suor exalando de milhares de corpos. Fulana bêbada. Beltrano abusado. Vatapá. Noite virada na rua.

A pele branca, não demais, saborosa ao olhar, uma promessa de acolhimento. Sedosa, com certeza, não imaculada, um cravo aqui e outro ali denunciando as imperfeições encantadoras de sua humanidade.

Carlinhos Brown. Axé. Blocos. É o Tchan. Modelo famosa se agarrando com um anônimo. Praia. Mar.

Encimando o rosto de boneca, um arco de trevas, brilhosas e bem cuidadas, curtas mas dispostas em gracioso conjunto de...

- ... você não acha?

Pego de surpresa, praticamente em flagrante. O rosto traiu de imediato o susto da volta à realidade. Ainda ensaiou um balbucio qualquer, a título de explicação, mas a mente se tornou apenas um grande vazio branco...

Ela sorriu. E no fundo de seus olhos, tão pequenos e vivazes, brilhava a misericordiosa fagulha da compreensão.


(21/3/2004)

sábado, janeiro 20, 2007

Dos Usos da Educação

"Sozinhas como possam estar boa parte de seu tempo, [as pessoas educadas] não merecem tanta pena quanto aquelas criaturas sociáveis que precisam ter 'gente em volta' ou um filme a que assistir. Pois a pessoa educada se apropriou tanto da mente de outros homens que ela pode viver do seu armazém como o camelo de seu reservatório. Tudo pode se tornar grão para o seu moinho, inclusive a sua própria miséria -- se ela é miserável -, já que, por associação com o que ela sabe, tudo que ela desfruta ou suporta tem ecos e sugestões ao infinito. Este é, de fato, o teste e a utilidade da educação de um ser humano, que ele descubra prazer no exercício de sua mente."

Jacques Barzun, Begin Here - The Forgotten Conditions of Teaching and Learning.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

A Marcha do Imperador

De novo, por meio do OMEDI. Eu amo o YouTube...


terça-feira, janeiro 16, 2007

A versão menos conhecida de Street Fighter 2

Para os jogadores nostálgicos...

segunda-feira, janeiro 15, 2007

O Coração Denunciador

Uma obra-prima de Edgar Allan Poe em animação. Vale uma boa olhada.



sexta-feira, janeiro 12, 2007

Blogs do Oriente Médio (não, não estão em árabe)

(Nota mental: dar uma boa olhada em todos, depois de concluir a dissertação de mestrado.)

Líbano - beirutspring.blogspot.com
Arábia Saudita - saudijeans.blogspot.com
Emirados Árabes Unidos - secretdubai.blogspot.com
Jordânia - www.jordanplanet.net
Turquia - aegeandisclosure.blogspot.com
Bahrein - www.mahmood.tv
Kuwait - caffeinatedkuwaiti.blogspot.com
Egito - www.bigpharaoh.com
Iraque - iraqblogcount.blogspot.com
Líbia - http://lonehighlander.blogspot.com

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Mundo, estranho mundo

Ainda bem que eu detesto café...

GASTRONOMIA

Vai um cafezes?

Descubra qual o segredo do café mais exótico e saboroso do mundo

fcolavitti@edglobo.com.br

Você tomaria uma bebida feita com fezes de animal? Antes de responder, saiba que é esse o ingrediente especial do café mais raro, saboroso e caro do mundo, o Kopi Luwak, originário da Indonésia. Essa, digamos, excentricidade do café sempre foi considerada uma lenda urbana, até que um estudo realizado pelo pesquisador italiano Massimo Marcone, em 2004, confirmou o que deve ter feito o estômago de muitos apreciadores da iguaria revirar.

Os preciosos grãos são mesmo processados pelo sistema gastrointestinal e depois retirados dos excrementos da civeta, um mamífero parecido com um gato, que não existe no Brasil (na Indonésia, as palavras Kopi e Luwak significam, respectivamente, café e civeta). O animal come somente os frutos mais doces, maduros e avermelhados do café, que são digeridos pelo seu organismo, com exceção dos grãos, que são excretados junto com suas fezes. E é justamente essa produção limitada dos grãos (menos de 230 quilos por ano) o motivo de sua raridade, preço alto (cerca de mil dólares o quilo) e sabor inigualável, garantem os apreciadores. “Uma mistura de chocolate e suco de uva. Menos ácido e amargo do que os cafés comuns”, descreve Marcone.

Pesquisa valiosa
Massimo Marcone com os grãos de Kopi Luwak

Enzimas, bactérias e fezes
O pesquisador explica que à medida que o grão passa pelo sistema digestório do animal, ele sofre um processo de modificação parecido com o utilizado pela indústria cafeeira para remover a polpa do grão de café, mas que envolve bactérias diferentes das usadas pela indústria, além das enzimas digestivas do animal. É isso que dá ao Kopi Luwak seu sabor característico inigualável. Mas esse processo um tanto quanto esquisito de produzir café não representa riscos à saúde? “Os resultados dos testes que fiz em meus trabalhos mostraram que a bebida é perfeitamente segura”, garante Marcone.

Não existem registros precisos sobre a história do Kopi Luwak, mas acredita-se que sua origem data de cerca de 200 anos atrás, quando os colonizadores holandeses iniciaram plantações de café nas ilhas de Java, Sumatra e Sulawesi, onde hoje é a Indonésia.

É nessas ilhas que vivem as civetas, que começaram a se alimentar da planta. Para evitar o desperdício, os plantadores de café começaram a coletar os grãos que saíam intactos das fezes dos animais. Em algum momento alguém resolveu experimentar essa variedade aparentemente pouco apetitosa e descobriu o que hoje é considerado o café mais saboroso do mundo. E você, ficou com vontade de encarar?

Receitas para perder a fome
O Kopi Luwak não é o único alimento excretado por animais que consumimos. Veja outros exemplos
Vômito de abelha: O mel nada mais é do que isso. O néctar é transportado para o sistema digestório das abelhas, onde é misturado a enzimas que convertem seu açúcar em glicose e frutose. Ele se transforma em mel e é regurgitado pelas abelhas. É esse o produto final que consumimos.

Saliva de pássaro: É o ingrediente de uma sopa considerada uma iguaria na China (também conhecida como “caviar do oriente”). O pequeno pássaro constrói ninhos com sua própria saliva. Esse ninho (que literalmente vale ouro) é usado para o preparo da sopa. O prato é consumido em várias partes do mundo, inclusive nos EUA, que são o maior importador.

Fezes de cabra: É essa a origem de um tipo de óleo usado no Marrocos. O animal se alimenta de um tipo de fruta similar à oliva, que origina o óleo, depois seu caroço é coletado de suas fezes e se transforma em um óleo usado para cozinhar, como cosmético e na medicina local.

Cerveja de cuspe: A chicha é um tipo de cerveja produzido no Equador. Os grãos de milho são mastigados e cuspidos em um recipiente, onde as enzimas da saliva quebram o amido que depois será fermentado e misturado ao álcool.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Intelecto

    Eu tenho idéias e razões,
    Conheço a cor dos argumentos
    E nunca chego aos corações.

    Fernando Pessoa, 1932